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Washington enfrenta-se às revoltas árabes: sacrificar ditadores para salvar ao Estado

Sexta-feira, 11 Fevereiro 2011

James Petras

Introduçom

Para entender a política do regime de Obama para Egito, para a ditadura de Mubarak e para o levantamento popular é essencial situá-lo num contexto histórico. O ponto essencial é que Washington, depois de várias décadas de estar profundamente arraigado nas estruturas estatais das ditaduras árabes, desde Tunes a Marrocos, Egito, Iemem, Líbano, Arábia Saudita e a Autoridade Palestiniana, está a tratar de reorientar a sua política para incorporar e/ou inserir políticos liberais eleitos nas configuraçons de poder existentes.

Ainda que a maioria de comentaristas e jornalistas vertem toneladas de tinta sobre os “dilemas” do poder de Estados Unidos, sobre o inovador dos acontecimentos de Egito e os diários pronunciamentos políticos de Washington, existem abundantes precedentes históricos que resultam essenciais para entender a direcçom estratégica da política de Obama.

Antecedentes históricos

A política exterior de Estados Unidos conta com um extenso historial de instalar, financiar, armar e apoiar regimes ditatoriais que respaldam as suas políticas e interesses imperiais, sempre que mantenham o controlo sobre os seus povos.

No passado, presidentes republicanos e democratas trabalharom estreitamente durante mais de 30 anos com a ditadura de Trujillo na República Dominicana; instalarom o regime autocrático de Diem no Vietnám pré-revolucionário na década de 1950; colaborarom com duas geraçons dos regimes de terror da família Somoza em Nicarágua; financiarom e promoverom o golpe de Estado militar em Cuba em 1952, em Brasil em 1964, em Chile em 1973, e em Argentina em 1976 , bem como os seus posteriores regimes repressivos. Quando os levantamentos populares desafiarom essas ditaduras respaldadas por Estados Unidos e parecia provável que triunfasse umha revoluçom social e política, Washington respondeu com umha política de três vias: criticar publicamente as violaçons dos direitos humanos e pular por reformas democráticas; indicar de maneira privada a manutençom do apoio ao governante; e em terceiro lugar, procurar umha elite alternativa que pudesse substituir a quem estava no cargo conservando o aparelho do Estado, o sistema econômico e o apoio aos interesses estratégicos imperiais estadounidenses.

Para Estados Unidos nom há relaçons estratégicas só interesses imperiais permanentes: preservar o Estado cliente. As ditaduras assumem que as suas relaçons com Washington som estratégicas, daí a sua surpresa e a sua consternaçom quando se sacrificam para salvar o aparelho do Estado. Ante o temor da revoluçom, Washington houvo clientes déspotas reticentes a marchar-se assassinados (Trujillo e Diem). A alguns se lhes proporciona refúgios no estrangeiro (Somoza, Batista), a outros pressiona-se-lhes para que compartilhem o poder (Pinochet) ou se lhes nomeia professores visitantes em Harvard, Georgetown ou em algum outro posto académico “de prestígio”.

O cálculo de Washington sobre quando remodelar o regime baseia-se numha estimación da capacidade do ditador para se enfrentar à rebeliom política, da força e a lealdade das forças armadas e da existência de um sustituto maleável. O risco de esperar demasiado tempo, de combinar-se com o ditador, é que o levantamento se radicalice: a mudança subseguinte varre tanto ao regime como ao aparelho estatal, convertendo umha revolta política numha revoluçom social. Justo um “erro de cálculo” desse tipo produziu-se em 1959 no período prévio à revoluçom cubana, quando Washington se mantivo ao lado de Batista e nom foi capaz de apresentar umha coaligaçom alternativa pró-estadounidense viável e vinculada ao velho aparelho estatal. Um erro de cálculo similar ocorreu em Nicarágua quando o presidente Carter, ao mesmo tempo em que criticava a Somoza, agüentou e se mantivo passivo enquanto se derrocava ao regime e as forças revolucionárias destruíam ao exército, à polícia secreta e ao aparelho de inteligência, treinados por Estados Unidos e Israel, e passou a nacionalizar as propriedades estadounidenses e a desenvolver umha política exterior independente.

Washington moveu-se com maior iniciativa em Latinoamérica na década de 1980. Promoveu transiçons eleitorais negociadas que substituírom aos ditadores por manejáveis políticos neoliberales eleitos, quem se comprometerom a preservar o aparelho estatal existente, a defender às elites estrangeiras e locais, e a respaldar a política regional e internacional de Estados Unidos.

As liçons do passado e a política actual

Obama foi extremamente reticente a derrocar a Mubarak por várias razons, ainda que o movimento cresce em número e se aprofunda o sentimento anti-Washington. A Casa Branca tem muitos clientes em todo mundo -entre eles Honduras, México, Indonésia, Jordânia e Argélia- que crêem ter umha relaçom estratégica com Washington e quem perderiam confiança no seu futuro se Mubarak fosse abandonado.

Em segundo lugar, as influentes organizaçons pró-israelenses de Estados Unidos (AIPAC, os presidentes das principais organizaçons judias estadounidenses) e o seu exército de escrevas mobilizarom aos líderes do Congresso para que pressionem à Casa Branca com que siga apostando por Mubarak já que é Israel o principal beneficiário de um ditador atragantado para os egícios (e os palestinianos) mas aos pés do Estado judeu.

Como resultado, o regime de Obama moveu-se lentamente; com medo e baixo a pressom do crescente movimento popular egício, procura umha fórmula política alternativa que elimine a Mubarak, mantenha e fortaleça o poder político do aparelho estatal, e incorpore umha alternativa eleitoral civil como médio de desmovilizar e desradicalizar o vasto movimento popular.

O principal obstáculo para derrocar a Mubarak é que um sector importante do aparelho do Estado, especialmente os 325.000 membros da Forças de Segurança Central e os 60.000 da Guarda Nacional, se encontram directamente baixo o comando do Ministério do Interior e de Mubarak. Em segundo lugar, os generais do Exército (468.500 membros) reforçarom a Mubarak durante 30 anos e se enriquecerom graças ao seu controlo sobre as muito lucrativas empresas de umha ampla gama de sectores. Nom apoiarám nengumha “coaligaçom” civil que ponha em questom os seus privilégios económicos e o seu poder para estabelecer os parámetros políticos de qualquer sistema eleitoral. O comandante supremo das forças armadas de Egito é cliente de Estados Unidos desde há muito tempo e um servicial colaborador de Israel.

Obama está decididamente a favor de colaborar com e garantir a preservaçom destas instâncias coercitivas. Mas precisa assim mesmo convencé-los da substituiçom de Mubarak e de que permitam um novo regime que poida desativar o movimento de massas a cada vez mais oposto à hegemonia estadounidense e à sumissom a Israel. Obama fará todo o necessário para manter a coesom do Estado e evitar divisons que poidam conduzir a um movimento de massas -a aliança dos soldados que poderia converter a revolta numha revoluçom.

Washington abriu conversas com os sectores liberais e islamistas mais conservadores do movimento anti-Mubarak. Ao princípio tratou de convencê-los de que negociassem com Mubarak -um beco sem saída que foi recusado por todos os sectores da oposiçom de acima a abaixo. A seguir, Obama tratou de vender umha falsa “promessa” de Mubarak: que nom participaria nas eleiçons dentro de nove meses.

O movimento e os seus dirigentes recusarom essa proposta também. Assim que Obama lançou a retórica de “mudanças imediatas” mas sem nengumha medida de fundo que a respaldasse. Para convencer a Obama do mantimento do seu poder entre as bases, Mubarak enviou ao lumpem-matom da sua polícia secreta a que se apoderasse violentamente das ruas do movimento. Umha prova de força: o Exército nom fijo nada; o assalto fijo subir a aposta de umha guerra civil de conseqüências radicais. Washington e a UE pressionarom ao regime de Mubarak para que botasse marcha atrás -por agora. Mas a imagem de um exército favorável à democracia viu-se empanhada polos mortos e por milhares de feridos.

À medida que a pressom do movimento intensifica-se, Obama está pressionado polo lobby israelense favorável a Mubarak e a sua comitiva do Congresso, por umha parte, e por outra, por assessores com conhecimentos que lhe pedem que siga as práticas do passado e avance de forma decidida sacrificando ao regime para salvar ao Estado agora que a opçom eleitoral de liberais-islamistas segue estando ainda sobre a mesa.

Mas Obama dúvida, e qual precavido crustáceo, move-se para os lados e para atrás, achando que sua própria retórica grandiloqüente é um sustituto da acçom… com a esperança de que tarde ou cedo, o levantamento acabará em mubarakismo sem Mubarak: um regime capaz de desmovilizar aos movimentos populares e disposto a promover eleiçons que dêem lugar a representantes eleitos que sigam a linha geral dos seus predecessores.

No entanto, há muitas incertezas numha remodelaçom política: umha cidadania democrática, o 83% desfavorável a Washington, possuirá a experiência da luita e a liberdade para exigir um reajuste político, especialmente, deixar de ser o polícia que fai cumprir o bloqueio israelense sobre Gaza, e prestar apoio aos fantoches de Estados Unidos no Norte de África, em Líbano, Iemem, Jordânia e Arábia Saudita. Em segundo lugar, as eleiçons livres abrirám o debate e aumentarám a pressom para um maior gasto social, para a expropiaçom do império de setenta mil milhons de dólares do clam Mubarak e dos seus cúmplices capitalistas que saqueiam a economia. As massas exigirám a redistribuiçom do gasto público do exagerado aparelho repressivo ao emprego produtivo que gere postos de trabalho.

Umha abertura política limitada pode conduzir a um segundo assalto no que novos conflitos sociais e políticos dividam às forças anti-Mubarak, um conflito entre os defensores da democracia social e os partidários do eleitoralismo elitista neoliberal. O momento da luita contra a ditadura é só a primeira fase de umha luita prolongada para a emancipaçom definitiva nom só em Egito senom em todo mundo árabe. O resultado depende do grau em que as massas desenvolvam a sua própria organizaçom independente e aos seus líderes.