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Ganhou a abstenção

Terça-feira, 25 Janeiro 2011

Política Operária

Como se esperava, Cavaco ganhou sem brilho e conseguiu a reeleição à primeira volta. Mais por demérito dos seus adversários que por mérito próprio. Perdeu tanto em termos absolutos – mais de meio milhão de votos relativamente à anterior eleição – com percentuais, nem sequer se aproximando dos delirantes 70% anunciados por alguns.

Numas eleições marcadas pela mediocridade onde, na falta de ideias e propostas políticas, os candidatos se refugiaram na demagogia, nas tricas, nos “casos” em torno das negociatas de Cavaco com os seus amigos da SLN e do BPN e nos julgamentos morais, nenhum dos candidatos tem razões para festejar. Pela primeira vez desde o 25 de Abril mais de metade dos eleitores ignoraram o acto eleitoral – foram mais de 53 % aqueles que se abstiveram. E se a isto juntarmos os cerca de 200 mil votos em branco, que quadruplicaram, e os nulos, que dobram, temos um presidente eleito por um quarto dos eleitores. Ou seja, quase 5 milhões e meio de portugueses que não se reconhecendo em nenhum dos candidatos nem se sentindo mobilizados pela disputa eleitoral, não encontraram qualquer razão para neles votar ou se deslocar a uma mesa de voto para votar branco ou anular o seu boletim. Este é o principal facto político destas eleições – o descrédito da chamada “classe política” e o vazio político e ideológico.

Igualmente previsível a pesada derrota sofrida por Manuel Alegre, que viu esfumar-se o milhão de votos por si conquistados na eleição anterior, perdendo mais de 300 mil eleitores. Uma derrota fácil de entender por quem não tenha o discernimento toldado pelo oportunismo – que crédito tem um candidato que (facto insólito) é simultaneamente apoiado pelo PS, o partido que está no governo e tem conduzido uma política de ataque sistemático aos trabalhadores, e pelo BE, que se lhe opõem; um candidato que por um lado está contra as medidas antipopulares de Sócrates e por outro a favor do Orçamento de Estado que as contempla?

Mas mais importante que a morte política de Alegre é a derrota política do Bloco de Esquerda que ela acarreta. O BE apostou forte em Alegre, ao ponto de fazer dele o instrumento principal da sua política de alargamento eleitoral e de afirmação como partido político capaz de assumir alianças parlamentares e, no futuro, quando o PS se livrar de Sócrates, responsabilidades governativas. Com a derrota de Alegre o BE vê falida a política com que sonhou atrair o sector menos direitista e social-democrata do PS, isolar o socratismo e derrotar a deriva neoliberal do governo. Uma inflexão direitista que lhe vai custar caro, dado que nada conquistou com ela. Não só não conquistou a simpatia e o reconhecimento que esperava dos sectores menos direitista do PS, como está a ser por eles (e pela generalidade dos comentadores) responsabilizado pelo desaire eleitoral de Alegre. Ou seja, o BE ainda tem de inflectir mais à direita para se tornar “credível”.

Por último uma palavra para aquela esquerda extra parlamentar que a poucos dias das eleições apareceu a defender que se devia votar contra Cavaco, porque não podemos ser indiferentes a uma vitória da direita.

Este é um raciocino viciado, assente num pressuposto falso – de que na sociedade portuguesa há uma clivagem política entre partidos de esquerda e direita ao nível das propostas e saídas políticas, e que ela esteve presente nestas eleições. Tal não é verdade – nenhum candidato apresentou um programa popular de combate à crise, defendendo que ela deve ser paga pelos ricos, opondo-se a que ela seja paga pelos trabalhadores ou a meias.

Os factos mostram que desde a adesão à União Europeia todos os governos sem excepção aplicaram políticas de direitas, que houve uma continuidade nessas políticas fosse qual fosse a cor política do governo, que as decisões fundamentais da política nacional são decididas em Bruxelas e não pelos governos portugueses e que estes não passam de meras comissões executivas. E que por isso falar em governos de esquerda ou de direita no nosso país é desde então mero eufemismo. Não é por acaso que há muito não se consegue saber o que distingue o PS do PSD e se fala de um bloco central de interesses, entidade não formal transversal a estes partidos que gere os interesses e os negócios “nacionais” de acordo com as imposições comunitárias.

Por isso, votar contra Cavaco não era votar num dos outros candidatos. Era não votar, engrossar a abstenção, amesquinhar e apoucar o vencedor.

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