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Por que Lenine?

Quinta-feira, 11 Novembro 2010

Iñaki Gil de San Vicente

O próximo domingo 14 de novembro vai decorrer em Otxarkoaga outra ediçom do Lenine Eguna. Nom é um anacronismo de adoraçom quase religiosa de um cadáver embalsamado. Ao invés: é umha jornada de debate sobre a actualidade mundial e basca de umha das pessoas mais odiadas pola cosmovisom burguesa, se nom a que mais. A civilizaçom é a síntese social de um modo de produçom, e por isso mesmo a civilizaçom capitalista é irreconciliável com Lenine e com todo o que significa. Esta é a primeira cousa sobre a que temos que reflectir: por que o capital odeia Lenine? Porque a revoluçom bolchevique destruiu o nó górdio do sistema, a unidade entre propriedade privada e Estado, e esta conquista humana transcendental é imperdoável para a burguesia de todos os tempos.

Sobre Marx cai a diário um dilúvio de tergiversaçom e mentira, e a Engels o afastárom há tempo, mas a Lenine negárom-lhe inclusive o direito à história: deve desaparecer qualquer referência as suas ideias porque o sistema nom pode correr o mínimo risco de que alguém o leia. Abrir um livro de Lenine é atacar materialmente a dominaçom do capital, e isso nom se pode permitir. Mas a razom última devemos procurá-la nom tanto em Lenine enquanto indivíduo como no seu entroncamento na corrente comunista do socialismo. Um erro profundo das esquerdas é ter aceitado a armadilha do individualismo metodológico burguês: comparamos Marx com Ricardo como “pensadores”, “economistas”, “sociólogos”, etc., para evitar o verdadeiro debate que nom é outro que o veredito histórico sobre a luita a morte entre o socialismo e o capitalismo, veredito que dá a razom ao socialismo apesar de todos os seus erros e a todas as suas derrotas.

A irredutibilidade de Lenine radica em que fijo parte elementar de umha prática colectiva antagónica com a essência do sistema burguês. E fijo-o desenvolvendo a dialéctica de contrários em todas as facetas da vida: desde muito cedo compreendeu a importância crescente das luitas de libertaçom nacional dentro da luita internacionalista, e jamais deixou de aprofundar nela, sendo umha das suas decisivas contribuiçons. Nada da história desde 1900, quando ficou impressionado pola desesperada resistência do povo chinês à invasom czarista, é compreensível sem a interacçom crescente entre a emancipaçom dos povos e a solidariedade internacionalista. Esta capacidade é umha das razons que explicam por que pôde sintetizar melhor do que ninguém as riquíssimas novidades teóricas e políticas sobre o imperialismo realizadas por outros marxistas e socialistas a começos do século XX, que ridicularizam até o rubor à supina idiotice da economia política burguesa. Desde logo que nom decorrerom em balde os quase cem anos desde que se publicou a sua obra sobre o imperialismo, mas este século confirma a validez do método teórico formado pola fusom do antiimperialismo, o internacionalismo e o independentismo socialista. O século XXI melhorará esta teoria, já o está fazendo, porque a mundializaçom imperialista necessariamente exige o esmagamento dos povos e das suas classes trabalhadoras, reactivando assim umha e mil vezes a tendência objectiva para a agudizaçom das luitas de todo o tipo.

Como marxista, Lenine soubo sempre que as tendências objectivas só desenvolvem o seu potencial liberador se vam guiadas internamente polas tendências subjectivas, polas organizaçons revolucionárias que, com a sua militância, mantenhem o relativo equilíbrio sempre instável e propenso à ruptura entre a realidade e a vontade, organizaçons que devem ser parte interna do povo trabalhador, nunca seitas messiânicas e burocráticas. A análise concreta da realidade concreta é o método por excelência de Lenine para guiar a interacçom entre a prática e a teoria. Hoje precisamos este método, como o precisamos em situaçons idênticas às actuais, para evitar tanto o optimismo exagerado da vontade como o pessimismo derrotado que surge de umha limitada visom da realidade.

Mas a análise do concreto exige de dous pontos de apoio imprescindíveis: a autocrítica e a formaçom teórica. Lenine, quanto bolchevique, aplicou este método inclusive assumindo ficar em minoria, porque a maioria nom sempre tem a razom. Agora bem, a paciência política assentada num método sólido de análise permitia a ele e sobretodo ao seu grupo dentro do partido, demonstrar a correcçom das suas ideias, tanto quando estas eram denunciadas como reformistas e ou bem de ultraesquerdistas. Lenine nunca actuou em solitário porque sempre estivo integrado num coletivo que o alimentava teoricamente, e sem o qual ele nunca tivesse sido o que foi.

A autocrítica e o enriquecimento teórico assentam a sua agilidade táctica dentro da fidelidade aos objectivos. A flexibilidade na táctica e nos meios, que muitos ignorantes reduzirom a simples oportunismo, sempre forom nele unidos a umha lúcida adequaçom estratégica aos fins irrenunciáveis. Os bolcheviques, e Lenine, eram umha organizaçom polivalente, capaz de se adaptar às novas exigências conjunturais depois de umha rigorosa investigaçom das mudanças no contexto; e muito especialmente, capaz de criar novas situaçons a partir de pequenas tendências difusas mas visíveis para umha organizaçom teórica e politicamente formada. Foi umha tarefa de anos criar esta organizaçom, destroçada várias vezes pola repressom czarista mas sempre recuperada nas piores condiçons. Os relatórios policiais do início da guerra mundial advertem que os bolcheviques eram os mais perigosos para o império ainda que eram os mais reduzidos, muito poucos. A correcçom estratégica e a flexibilidade tática, e o profundo conhecimento da agudizaçom das contradiçons, permitirom a este grupinho chegar ao que chegou, e deixar a humanidade trabalhadora esse monumento à sabedoria que som os quatro primeiros congressos da Internacional Comunista.

Para a nossa Euskal Herria, Lenine contribui dous usos muito actuais, no mínimo. Um é a importáncia da organizaçom como força material insere no complexo sempre dinámico formado polas contradiçons objectivas, a tendência à espontaneidade e à auto-organizaçom, e as contradiçons subjectivas. A organizaçom deve ser umha força activa neste tenso complexo efervescente, contribuindo o sentido da continuidade histórica na luita polos objectivos irrenunciáveis. E ao mesmo tempo, deve oferecer umha explicaçom sobre por que e como ligar o denominado “programa máximo” com o “programa mínimo” em cada luita quotidiana, em cada bairro, escola, fábrica, movimento popular e social, etc.

O outro é a exigência do rigor teórico. Nos últimos anos proliferarom toda série de modas intelectuais sobre o definitivo desaparecimento da luita de classes e do povo trabalhador, sobre a morte das vanguardas políticas, sobre a irrupçom da “multidom”, etc.; junto a isto, reaparecem velhas expressons eurocomunistas e social-democratas sobre a “sociedade civil”, a “transversalidade”, a “pluralidade”, etc. Modas ideológicas pulverizadas pola nua realidade da crise estrutural, que nem sequer imaginárom que tal desastre poderia suceder porque elucubravam no esvaziamento etéreo da “globalizaçom”. Nom é a primeira vez na história do socialismo, nem será a última, que ocorre isto. Lenine viveu duas experiências idênticas no fundo e a organizaçom à que pertencia superou-nas pondo os pés no chao. A criaçom de umha República Socialista Basca deve sustentar-se na actualizaçom crítica das experiências revolucionárias da humanidade trabalhadora, ou fracassará.

Euskal Herria 9-XI-2010