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Umha soluçom para a Ria do Burgo

Terça-feira, 26 Outubro 2010

Ramiro Vidal Alvarinho

A Ria do Burgo está ferida de morte desde há muito tempo. O crescimento da área urbana que a envolve, operou-se a partir de ópticas desenvolvimentistas e industrialistas, o cimento e o asfalto fôrom apropriando-se do espaço sem ter em conta em nengumha medida a necessidade de conviver racionalmente com aquela língua de mar que durante tantas geraçons fora fonte de riqueza e dera de comer a tantas famílias. Indústrias e núcleos de populaçom crescêrom tendo a ria unicamente como esgoto.

Em tempos nom demasiado pretéritos, o marisco da nossa ria tinha prestígio pola sua qualidade. Na entrada mesmo dessa ria sediava-se a gigantesca praia de Santa Cristina, a maior da comarca e a mais populosa. Hoje esta praia nom é nem sombra do que foi, pois as urbanizaçons e os hotéis lhe comêrom a maior parte do terreno. Além disso, os lodos tóxicos, que cobrem o fundo marinho da ria, ameaçam com atravessar a Ponte da Passagem e alcançar a praia. Pode-se dizer que a galinha dos ovos de ouro está a ser matada pola cobiça de quem mais se beneficiava dela. Construçom e hotelaria pretendiam tirar o máximo benefício às condiçons magníficas que tinha aquela zona até há pouco, esquecendo umha regra fundamental; a do mínimo respeito ao meio, para que este poda quando menos suportar as agressons que o “progresso” humano lhe impom.

Há já dous anos e meio que estou envolvido na Plataforma para a Defesa da Ria do Burgo. Esta Plataforma reivindica o saneamento e regeneraçom da ria, e reivindica-o aliás exigindo a implicaçom de todas as administraçons. A Plataforma pom o acento no saneamento, porque sem umha rede de águas residuais em condiçons e sem umha estaçom depuradora, é inútil qualquer esforço por regenerar a ria. Tenhem que eliminar-se todos os verquidos, e para isso tem que haver um condicionamento da rede e também a vontade política para pôr em marcha as medidas preventivas e punitivas mesmo contra aquelas indústrias ou particulares que deitarem qualquer tipo de resíduo às águas.

No tocante à vontade política, haveria que dizer que lamentavelmente nom há toda a que deveria por parte dos governos municipais dos quatro concelhos que banha a Ria do Burgo (Oleiros, Corunha, Cambre e Culheredo) e nom há absolutamente nengumha por parte do Estado e da Junta. Dous gestos indicativos da importáncia que estado e Junta lhe dam à Ria do Burgo: por umha parte a Junta reabriu ao marisqueio zonas muito afectadas polos verquidos, onde o marisco que alí se pode apanhar é perceptivelmente nom apto para o consumo humano. Pola outra, de novo nos orçamentos gerais do estado nom há nengumha verba assignada ao saneamento da ria, o que é umha labaçada à luita de umha entidade popular que leva dous anos e meio a trabalhar intensamente para que o problema ambiental e de saúde pública que estamos a padecer se conheça em toda a sua dimensom. A justificaçom que se dá a esta omissom dos orçamentos é que estamos em crise e que nom há dinheiro.

Eu pergunto-me, virando a tortilha do já demasiado repetitivo discurso da crise e a necessária austeridade, se precisamente um momento de crise nom será o ideal para valorizar o próprio, concretamente os nossos espaços naturais. Os efectos multiplicadores que poderia ter na nossa economia o fazer nossa a tarefa de recuperar a ria, a sua biodiversidade, a salubridade das suas águas…apenas as obras de saneamento e os trabalhos de tratamento dos lodos já criariam postos de trabalho, e isso seria apenas o começo. Porque se a Ria do Burgo se recupera na sua totalidade para a pesca e o marisqueio, se volta ser apta para o banho e todo tipo de actividades recreativas, entom a populaçom terá ganhado um espaço de ócio e a contorna da Ria se convertiria num polo de atracçom para visitantes de comarcas próximas. Isto significaria muita gente todas as semanas a consumir serviços na zona, além de que muita mais gente da que hoje se ocupa em actividades de exploraçom dos recursos marinhos poderia ter umha saida laboral aí.

Eu nom sou um especialista em economia, nem em políticas ambientais, e ainda assim sei-no ver. E parece tam singelo, que até me parece ruborizante que haja que gritar a nossa razom nas ruas. Inclusive surpreende a miópia e a estupidez de quem risca a luita da plataforma como luita de ingénuos ou mesmo di que a ria nom se pode recuperar nem se deve intentar recuperá-la, e que o que há que fazer é conseguir que mais indústrias invistam alí, ainda à custa de que se polua mais. Nom entendo como ainda nom somos capazes de dar-nos conta de que passárom os anos em que estas terras eram interessantes para a indústria e podiamos sonhar com nos convertermos em proletariado industrial, com postos de trabalho estáveis e salários altos. Isso é passado na comarca da Corunha. As empresas deslocalizam e partem para o terceiro mundo ou a Europa do Leste. A eterna história do capitalismo. Vivemos décadas a pensar que certas situaçons eram eternas, e agora nom sabemos assumir que estávamos errados.

A recuperaçom dos nossos espaços naturais é um investimento seguro, se depois somos quem de gerir de maneira inteligente esse activo; acontece que aos que lhes corresponde politicamente agir nesse sentido nom lhes dá a sua mentalidade tecnocrática-liberalóide-provinciana para pensar em tam altos olhares. Entre empachos de empada, croquetes e vinho espanhol, as milésimas de segundo que ficam para a actividade cerebral destinam-se a cálculos de curto prazo (em chave eleitoral) nos que som pouco rendíveis os actos com visom de futuro. Os presidentes de cámara negam ou minimizam o problema e as administraçons autonómica e estatal assinalam-se mutuamente como responsáveis da parálise da situaçom. Nom é nem para uns nem para outros um objectivo interessante a recuperaçom da Ria do Burgo. Se nom for interessante para eles, a única esperança é que nós com a nossa luita o fagamos necessário.