Abrente

Ediçons digitais da publicaçom trimestral do nosso partido

Documentaçom

Textos e outros documentos políticos e informativos de interesse

Ligaçons

Sites recomendados de ámbito nacional e internacional

Opiniom

Artigos assinados sobre temas de actualidade galega e internacional

Video

Documentos audiovisuais disponíveis no nosso portal

Home » Em destaque

Do «Bolívar» de Carlos Marx ao marxismo bolivariano do século XXI

Sexta-feira, 15 Outubro 2010

Retorna a cena o discurso antiimperialista, o velho sonho de irmandade latino-americana, os ideais libertários e projectos emancipadores ainda incumpridos de Simón Bolívar, José Carlos Mariátegui e Ernesto Che Guevara.

Néstor Kohan

Aonde é que o Bolívar irá? Ao braço dos homens

para que se defendam da nova cobiça,

e do teimoso espírito velho, a terra

onde será mais feliz e bela a humanidade!

José Martí

Discurso do 28 de Outubro de 1893

 

Repetiu-lhes por milésima vez a soneira de que o golpe mortal

contra a integraçom foi convidar os Estados Unidos

ao Congresso de Panamá, como Santander o fijo pola sua conta e risco,

quando se tratava de nada menos que de proclamar a unidade da América.

Gabriel Garcia Márquez

O general no seu laberinto

Um bicentenário para repensar sem medo

Quando em 1989 se cumpriu o bicentenario da Revoluçom francesa a cultura política europeia rememorou antigos debates adiados. As urgências políticas do momento nom deixárom margem à serenidade. Havia que liquidar com pressa e caia quem caia toda a impressom de pensamento crítico! A bochornosa queda do muro de Berlim prometia arrasar com qualquer projecto de emancipaçom radical que pretendera ir para além do limite histórico atingido pola Revoluçom francesa de 1789 (revoluçom que, dito seja de passagem, nom era concebida de maneira integral como tinham sugerido as investigaçons de Albert Soboul e outros clássicos da historiografia marxista senom que inclusive era reduzida à caricatura do denominado terror jacobino” [1]).

Duas décadas após aquela celebraçom europeia que pretendia enterrar definitivamente Carlos Marx baixo o pó e o entulho dessa parede caída em Berlim, as piruetas do calendário remetem agora a outra data histórica, centrada nesta oportunidade na América Latina. Neste novo bicentenário do ano 2010 encontramos-nos cara a cara com o início em 1810 da independência continental frente ao colonialismo europeu [2]. Novamente afloram numerosos debates políticos e interrogantes teóricas adiadas onde a discussom sobre o passado nos sugere repensar o horizonte presente e futuro.

Mas o nosso tempo é notavelmente diferente ao clima asfixiante de 1989… Duas décadas após a queda do muro de Berlim, o sistema capitalista atravessa umha nova crise aguda, só comparável com a de 1929. Encontramos-nos bem longe da euforia etílica que embebedou a futurologia neoliberal de Francis Fukuyama bem como também da orgia triunfalista de Bush pai e o seu cúmplice germano Helmut Kohl. Em toda a órbita crescem hoje as resistências e a indisciplina, generalizam-se as tensons sociais e as contradiçons antagónicas do capital emergem exacerbadas a flor de pele.

Nesse novo quadro mundial, os Estados Unidos (e o seu sistema vigilante de polícia mundial disfarçado de “multiculturalismo”) enfrentam-se a novos dissidentes radicais. Retorna a cena o discurso antiimperialista, o velho sonho de irmandade latino-americana, os ideais libertários e projectos emancipadores ainda incumpridos de Simón Bolívar, José Carlos Mariátegui e Ernesto Che Guevara. Umha tradiçom de pensamento crítico que este novo bicentenário nos convida a repensar, recuperar e actualizar.

Bolívar e o problema (inconcluso)  da naçom latinoa-mericana

Durante os últimos anos desde os centros académicos que marcam e condicionam a agenda do debate teórico decretou-se o falecimento repentino e lavrou-se a acta de morte “definitiva” do estado-naçom. Com a emergência da globalizaçom, dixo-se-nos, deixou de fazer sentido a luita pola libertaçom nacional nos países dependentes, periféricos, coloniais ou semicoloniais já que supostamente teria desaparecido o imperialismo e nengum estado-naçom ocuparia esse papel tam característico da dominaçom do capital que marcou a lume todo o século XX [3]. 

Abandonando a refutaçom desse lugar comum tam difundido polos monopólios de (in)comunicaçom, de pobre fundamentaçom teórica, débil sustentamento empírico e suspeita posiçom política [4], achamos que hoje se torna necessário e imperioso abordar e retomar esta problemática desde um ángulo bem diferente.

A diferença da tradicional “questom nacional” tal como foi abordada polos clássicos do marxismo europeu -naçons oprimidas e isoladas que luitavam por romper essa dominaçom e despregar a sua soberania ao interior do seu próprio estado-naçom-, a questom nacional latino-americana possuia e possui outra dimensom, riqueza, extensom e complexidade. No caso europeu, muitas vezes as naçons já estavam constituídas desde inícios da modernidade e o que ficava ainda pendente era tirar-se de acima a indignante bota imperial das naçons opressoras. A Polónia foi, quiçá, um dos casos emblemáticos junto com a Irlanda no século XIX. A mesma Irlanda e fundamentalmente Euskal Herria (o País Basco) constituem ainda na actualidade um fenómeno análogo de opressom nacional.

No entanto, quando abordamos esta mesma discussom na América latina o problema condensa-se e se complexiza ainda mais. Porque no nosso continente, a pugna por constituir umha grande naçom integradora frente à dominaçom (externa e interna) estivo presente de maneira inacabada e inconclusa desde os seus mesmos inícios.

Já em 1810, e desde entom em adiante, o projecto político independentista aspirava nos seus promotores mais radicais a constituir umha grande naçom latino-americana (as suas classes dominantes e as elites locais, débeis, mesquinhas e míopes sócias menores da dominaçom externa, fôrom também responsáveis do falhanço desse ambicioso projecto de soberania integral). Neste sentido a naçom nom estava na Nossa América constituída esperando a que a libertem. Tinha que constitui-la ao mesmo tempo que emancipá-la.

A naçom latino-americana, «um sozinho país, a Pátria Grande», como o libertador Simón Bolívar a denominava [1783-1830], é ainda hoje, dous séculos depois, um projecto inconcluso, pendente e a futuro.

Retomar esse projecto permitiria-nos descentrar os falsos dilemas que dicotomizam o debate com os falsos termos de globalizaçom desterritorializada contra o nacionalismo estreito e provinciano. Cosmopolitismo falsamente universal (que em realidade generaliza como “universal” valores e culturas típicas e exclusivas do american way of life) contra fundamentalismos paroquiais (quanto mais débeis, mais intolerantes).

O projecto político que impulsionou Simón Bolívar nas luitas de independência era muito mais complexo, rico e radical que essa ideia fofa, amorfa, vagamente humanitarista e absolutamente genérica, muito a gosto do pensamento “politicamente correcto” dos nossos dias, ao estilo das ONG´s europeias ou norte-americanas ou inclusivamente da UNESCO. Bolívar pensava os seus projectos incluindo como eixo a educaçom popular (que ele resumia como “Moral e luzes” seguindo ao seu mestre Simón Rodríguez [1769-1853]) mas sempre a partir da confrontaçom. A única liberdade autêntica conquista-se luitando. A batalha das ideias sozinha e isolada é boa, mas sem confrontaçom jamais poderá vencer. A hegemonia constitui a combinaçom da persuasom do consenso mas ao mesmo tempo da confrontaçom através do exercício da força material. A zorra e o leom.

O libertador tinha projectado e imaginado a sua utopia radical de «Pátria Grande» do seguinte modo: “É umha ideia prodigiosa pretender formar de todo o mundo novo umha só naçom com um sozinho vínculo que una as suas partes entre si e com o todo. Já que tem umha origem, umha língua, uns costumes e umha religiom, deveria portanto ter um só governo que confederasse os diferentes estados que tenham de se formar […]” [5]. No mesmo sentido sustinha: “Eu desejo mais do que nengum outro ver formar na América a maior naçom do mundo, menos pola sua extensom e riquezas que pola sua liberdade e a sua glória” [6].

Ainda que se negava a construir utópicos castelos no ar devido às guerras de libertaçom (que desenvolvia junto com José de San Martín [1778-1850] no Sul e outros revolucionários continentais que compartírom e brigárom por esse mesmo projecto durante aquela época) e às disputas internas que desangravam o continente, Bolívar aspirava a um sistema republicano “o mais avançado naquele tempo” para essa Pátria Grande. Educado polo mestre Simón Rodríguez, punha à igualdade no mais alto do seu pensamento: “Conservei intacta a lei das leis -a igualdade- sem ela perecem todas as garantias, todos os direitos. A ela devemos fazer os sacrifícios. Aos seus pés pugem, coberta de humillaçom, à infame escravatura” [7].

Daí que afirme: “Por estas razons penso que os americanos, ansiosos de paz, ciências, artes, comércio e agricultura, prefeririam as repúblicas aos reinos, e parece-me que esses desejos se conformárom com os horizontes da Europa” [8].

Essa república era concebida por Bolívar como umha instáncia intermédia de equilíbrio entre “a liberdade indefinida, ilimitada e a democracia absoluta” -para ele o ideal, mas que nom concebe como possível pois seria necessário contar com “anjos, nom homens”-  “e o despotismo tiránico”. Resumindo esse sentido republicano, onde nom se cansa de elogiar as eleiçons periódicas (para que o povo nom se acostume a obedecer e o governo nom se acostume só a mandar, segundo as suas próprias palavras), Bolívar resume o seu projecto afirmando que nom combate “polo poder, nem pola fortuna, nem ainda pola glória, senom tam só pola liberdade” [9].

A saída estratégica era, a contramao de tanto “nacionalismo” estreito, provinciano e paroquial, a unidade continental contra a dominaçom: “Seguramente a uniom é a que nos falta para completar a obra da nossa regeneraçom […] o que pode pôr-nos em aptitude de expulsar os espanhóis e de fundar um governo livre. É a uniom, certamente, mas esta uniom nom nos virá por prodígios divinos, senom de efeitos sensíveis e esforços bem dirigidos” [10]. Ideia que reafirma umha e outra vez sustentando: “Unidade, unidade, unidade, deve ser o nosso distintivo” [11].

Classe e naçom

Na nossa América, libertar-nos entom da dominaçom colonial, neocolonial e imperialista presupom ao mesmo tempo construir a Pátria Grande. Nom haverá libertaçom nacional sem emancipaçom social e jamais conseguiremos reorganizar a nova sociedade sobre bases nom capitalistas nem mercantis se ao mesmo tempo nom conseguimos constituir esse projecto inacabado de Pátria Grande, rompendo com toda submissom e dependência. Nom há nem pode haver duas “etapas” separadas (como gostava de repetir ao senhor Staline) nem duas revoluçons diferentes: o processo da revoluçom latino-americana é e deverá ser ao mesmo tempo socialista de libertaçom nacional, isto é, de libertaçom continental. A dominaçom de classe e a questom nacional nom conformam processos escindidos em tempo e espaço senom fios de um mesmo tecido social que se conformou dessa forma “subordinada ao sistema capitalista mundial através dos seus sócios locais, as burguesias lumpens e dependentes”desde os nossos inícios históricos.

Por isso Mariátegui -o primeiro marxista da Nossa América- pode escrever num século após Bolívar que “A mesma palavra Revoluçom, nesta América das pequenas revoluçons, presta-se bastante ao equívoco. Temos que a reivindicar rigorosa e intransigentemente. Temos que lhe restituir o seu sentido estrito e cabal. A revoluçom latino-americana, será nada mais e nada menos que umha etapa, umha fase da revoluçom mundial. Será simples e puramente, a revoluçom socialista. A esta palavra, agregai, segundo os casos, todos os adjectivos que quigerdes: «antiimperialista», «agrarista», «nacionalista-revolucionária». O socialismo supom-nos, antecede-os, abrange-os a todos” [12].

Esse é precisamente o programa bolivariano e mariateguista que retoma e actualiza Ernesto Che Guevara na última das suas mensagens ao mundo, oportunidade na que partindo da sua experiência concreta à frente da Revoluçom cubana sintetiza a sua interpretaçom sociológica e historiográfica da história da Nossa América, de onde deduz um projecto estratégico e político a futuro: “Por outra parte as burguesias autóctones perdêrom toda a  sua capacidade de oposiçom ao imperialismo -se algumha vez a tiveram – e só formam a sua última carruagem. Nom há mais mudanças que fazer; ou revoluçom socialista ou caricatura de revoluçom [13].

Hoje, no século XXI, já está completamente fora de discussom que esse projecto mariateguiano e guevarista de revoluçom socialista continental ou, em outras palavras, esse projecto de Pátria Grande antiimperialista e socialista ao mesmo tempo, está inspirado directamente no ideário independentista bolivariano.

O «Bolívar» de Marx

No entanto nom podemos nem devemos desconhecer as agudas tensons que marcárom a relaçom entre o universo cultural inspirado nos sonhos libertários de Simón Bolívar e a leitura política que se deriva da concepçom materialista da história e a filosofia da praxe cujo pai fundador foi Carlos Marx.

Vários problemas passárom à herança do movimento revolucionário latino-americano e mundial devidos ao tam pouco feliz artigo escrito por Marx a fins de 1857 e começos de 1858, enquanto redigia a primeira versom do Capital, hoje conhecida como os Grundrisse (cuja redacçom só interrompe momentaneamente por necessidades económicas). Naquele trabalho jornalístico-biográfico Marx esforça-se por injuriar  Bolívar até o limite que lhe permite a sua prosa,  envolvendo-o numha sorte de bonapartismo reaccionário [14].

Na gestaçom do artigo incidírom diversas variáveis. Para sobreviver exilado em Londres, Marx começa a trabalhar como jornalista, colaborando a distáncia no New York Daily Tribune -na altura um dos jornais mais lidos dos EUA- por convite de Charles Anderson Dana [1819-1897]. Na sua correspondência Marx reconhece que esse trabalho é realizado por necessidade: “Aborreço a contínua estrumeira jornalística. Ocupa-me muito tempo, dispersa os meus esforços e, em última análise, nom é nada […] As obras puramente científicas som algo completamente diferente”. Porém, esses artigos permitem-lhe ampliar a vista e desprender-se de muitos tiques eurocéntricos que tinham tingido a sua prosa em anos anteriores [15]. Alguns escritos e artigos do período incorpora-os, inclusive, ao Capital. Engels ajuda-o (redigindo textos que Marx assina para os cobrar). Em total, o Tribune publica 487 artigos de Marx: 350 escritos por ele, 125 por Engels e 12 em colaboraçom. Marx mantém esse vínculo jornalístico desde 1851 até 1862.

Em abril de 1857 Charles Dana convida  Marx a colaborar também sobre temas militares na Nova Enciclopedia Americana (compreende 16 volumes e mais de 300 colaboradores). Em total, a Enciclopedia publica 67 artigos de Marx e Engels, 51 deles escritos por Engels (com investigaçom de Marx no Museu Británico). A colaboraçom de ambos nom passa da letra “C”. Entre outros, Marx escreve o capítulo “Bolivar e Ponte” sobre o libertador americano (aproximadamente entre Setembro de 1857 e Janeiro de 1858 [16]).

Como já assinalamos, Marx realiza umha avaliaçom sumamente negativa de Bolívar. Nom compreende o seu papel de primeira ordem na emancipaçom continental do colonialismo espanhol nem o seu projecto de construir umha grande naçom latino-americana («a Pátria Grande» na linguagem de Bolívar).

Resulta mais do que provável que as fontes historiográficas -ferreamente opositoras ao líder independentista- que Marx encontra no Museu Británico e por conseqüência utiliza tinhan a sua análise parcial. Para pesquisar, Marx recorria sempre às bibliotecas públicas e nelas apenas encontrou essa bibliografia disponível.

O seu pequeno ensaio biográfico baseia-se principalmente nos trabalhos do general francês H.L.V. Ducoudray Holstein (que levam por título Memórias de Simón Bolívar, presidente Libertador da República de Colômbia, e dos seus principais generais; história secreta da revoluçom e dos factos que a precedêrom, de 1807 ao tempo presente. Boston, 1829); nas Memórias do general Miller ao serviço da República do Peru dos irmaos británicos William e John Miller (Londres, 1828 e 1829, dous volumes) e nos trabalhos do coronel británico Gustavo Hippisley (tituladas Umha narraçom da expediçom às riberas do Orinoco e Apure, na américa do Sul; a qual saiu da Inglaterra em Novembro de 1817, e integrou-se às forças patrióticas na Venezuela e Caracas. Londres, 1829). Todos eles som soldados europeus que, por diversos motivos, mantivêrom conflitos pessoais com Bolívar [17].

Analisando criticamente essas mesmas fontes pertencentes a “três autores conhecidos e considerados como os maiores desertores da Legiom Británica” e tratando além de sistematizar esse injustificado ataque do Marx em toda a linha, Vicente Pérez Silva enumera as acusaçons contra o libertador que bosqueja a pena de escrever de Marx: a) oportunismo, b) cobardia, c) traiçom, d) realismo, e) fanfarronada, f) deserçom, g) imprevisom, h) irresponsabilidade, i), vingança, j) tendência ou gosto pola ditadura, k) incapacidade, l) indolência e finalmente m) ambiçom [18]. De todas elas nom se deriva senom umha opiniom prejuizosa, que realmente assombra pois esse estilo de escritura e de investigaçom encontra-se ausente no 99% da obra de Marx, paradigma universal se os há do que deve ser um pesquisador científico e crítico.

Para justificar a superficialidade ou o erróneo dessas opinions históricas de Marx sublinhou-se que o seu autor escreveu essas línhas sobre Bolívar com extrema rapidez e unicamente com o fim de ganhar o pam, roubando tempo ao que mais lhe interessava nesse momento que era começar a redigir nada menos que O Capital, o qual nom deixa de ser certo. No entanto, o objectivo alimenticio-salarial nom resulta suficiente para legitimar essa incompreensom prejuizosa pois o mesmo Marx confessa ao Engels que o editor Dana lhe tem reprovado o “estilo guerrilheiro” empregado no mencionado artigo [19]. Isto é que Marx nom escreve assim respondendo a umha demanda do seu empregador “como costuma suceder no jornalismo comercial” mas por decisom própria, inclusive contrariando a opiniom do seu editor, quem se queixa e reprova o ataque [20].

Esforçando-se por indagar umha razom mais profunda deste desencontro de Marx com Bolívar, Ana Maria Ribadeu di: “A história da América Latina caracteriza-se, com efeito, nesse momento, pola ausência de umha vontade nacional e popular das elites crioulas que tinham encabeçado a independência. Esta debilidade das elites, aunada à ausência de massas populares com um projecto autónomo,configuram umha situaçom histórica que nom favorece a abertura, no pensamento de Marx, de um horizonte de procura teórica análogo ao que já tinha considerado para outros processos, ou aos que consideraria no futuro -a Irlanda, a Rússia” [21].

De todos os jeitos, é justo sublinhar e destacar que no seu discutível escrito sobre Simón Bolívar, ainda cheio de duvidosas e ilegítimas impugnaçons contra o libertador americano, Carlos Marx nom deixa de reconhecer que “A intençom real do Bolívar era unificar  toda América do Sul numha república federal” [22].

Polemizar com o populismo abandonando Bolívar”

O paradoxal do assunto reside em que nom só Marx “polas limitaçons assinaladas” equivocou o caminho quando devia encontrar-se com Bolívar. Várias décadas depois um dos principais fundadores do marxismo latino-americano, Aníbal Norberto Ponce, cai de novo em idêntico erro.

Erudito, original e criador -ele foi provavelmente a principal fonte em que incursionou o Che Guevara à hora de reflectir e escrever sobre “o homem novo” como núcleo do socialismo e a sociedade do futuro-, Ponce apela ao discutível artigo de Marx para polemizar com o populismo latino-americano. Com esse objectivo publica no primeiro número da sua revista Dialéctica aquele trabalho sobre Simón Bolívar [23], reproduzido com a intençom de contrarrestar os artigos “Pola emancipaçom da América latina” do peruano Víctor Raúl Haya de la Torre e “Bolivarismo e Monroísmo” do mexicano José Vasconcelos. Ponce nom só o publica senom que além disso o celebra, ao descrevé-lo “tam sucoso apesar do seu aspecto seco e áspero”. Em lugar de disputar ao populismo fundado polo APRA de Haya de la Torre a tradiçom antiimperialista -como figérom Mariátegui em Peru e também Mella, primeiro em Cuba e depois no México-, Ponce crê converter-se num autêntico “marxista” despojando-se de toda ligaçom com a herança bolivariana. Notável erro que se em tempos de Marx era, após todo, comprensível pola falta de informaçom e o carácter parcial da escassa bibliografia acessível no Museu Británico somada às outras circunstáncias mencionadas onde escreveu o seu ensaio, em Ponce nom deixa de constituir um tropeço teórico que nada lhe deve nem contribui ao pensamento socialista, comunista e revolucionário da Nossa América [24]. Sobre esse tipo de erros é que se apoiárom diversos adversários e polemistas do marxismo, provenientes tanto da Academia oficial como do nacionalismo burguês [25].

Ainda sendo um discípulo directo do livro Humanismo burguês e humanismo proletário de Aníbal Ponce -de quem adopta a sua reiterada insistência no humanismo marxista e na construçom do “homem novo”-, Ernesto Che Guevara marca distância arredor da crítica injusta de Marx para Bolívar que tinha celebrado o seu mestre argentino. Por isso, ao tentar reflexionar sobre a ideologia que inspirou a Revoluçom Cubana o Che escreve: “A Marx, como pensador, como investigador das doutrinas sociais e do sistema capitalista que lhe tocou viver, podem-se-lhe, mesmo, objetar certas incorrecçons. Nós, os latino-americanos, podemos, por exemplo, nom estar de acordo com a sua interpretaçom de Bolívar ou com a análise que o Engels e ele figérom dos mexicanos, dando por sentadas inclusive certas teorias das raças ou as nacionalidades inadmissíveis hoje. Mas os grandes homens descobridores de verdades luminosas, vivem apesar das suas pequenas faltas e estas servem somente para nos demonstrar que som humanos, isto é, seres que podem incorrer em erros, ainda com a clara consciência da altura atingida por estes gigantes de pensamento. É por isso que reconhecemos as verdades essenciais do marxismo como incorporadas ao acervo cultural e científico dos povos e os tomamos com a naturalidade que nos dá algo que já nom precisa discussom” [26].

Guevara resgatava entom a necessidade de criar o “homem novo” que o Ponce tinha ensinado, mas como pensava que era mais necessário e vigente do que nunca o projecto de criar a Pátria Grande latino-americana, nom se alegrava nem compartilhava o artigo de Marx sobre Bolívar que aquele tinha publicado para discutir com o populismo.

Quiçá por manter este ponto de vista, ao final da sua vida, nas selvas da Bolívia, o Che levava na sua mochila guerrilheira -junto com o seu caderno de notas militares (já publicado em 1967 como Diário da Bolívia, hoje famoso) e o seu caderno de notas e extractos filosóficos (ainda inédito no ano 2010)- um caderno de poesias. Nesse cuaderno verde, onde Guevara reproduzia as poesias que mais amava e que tanto o tinham marcado na sua experiência vital, elaborando algo bem como a sua antologia pessoal, encontramos escrita do seu punho e letra… “Um canto para Bolívar” de Pablo Neruda [27]. Se nos acampamentos guerrilheiros da Bolívia dava para ler e estudar aos seus combatentes as histórias da guerra de libertaçom de José de San Martín, Juana Azurduy e outros revolucionários de 1810 [28], também levava na sua mochila a lembrança incandescente de Simón Bolívar. Guevara além de sanmartiniano e martiano, nom cabe dúvida, era um bolivariano convencido. Sabia bem que na Nossa América a melhor maneira de ser um marxista revolucionário conseqüente, inclusivamente apesar da apreciaçom errónea do mestro Marx, é ser bolivariano.

 

O marxismo bolivariano do século XXI

Várias décadas após o assassinato do Che Guevara a maos da CIA e o exército boliviano (porque o Che, convém recordá-lo frente a tanto hipócrita que hoje o homenageia como se fosse Gandhi ou a Nai Teresa de Calcuta, nom morreu na sua cama de morte natural nem de um resfriado…) a mensagem insubmissa retorna. 

 

O pós-modernismo já tivo os seus dous minutos de fama e os seus trinta segundos de glória. Que em paz descanse, rodeado de túmulos académicos, bolsas milionárias e as pompas fúnebres de grandes monopólios de (in)comunicaçom. Os seus ventrílocuos locais continuam movendo as maos e a boca, continuam a procurar ouvidos jovens para inculcar resignaçom e “realismo”, mas agora quase ninguém os escuita.

 

Na Nossa América voltam a soar os tambores da rebeliom. Cada vez se escuitam mais cerca. Dia após dia som menos os que acham que o futuro está baixo a bandeira prepotente dos Estados Unidos de América do Norte.

 

Bolívar volta inspirar novas rebeldias, as antigas e outras novas que resignificam as suas antigas proclamas de libertaçom continental incorporando novas demandas, direitos e exigências populares.

 

A sua inspiraçom contemporánea, à altura do século XXI, assume as formas mais variadas e os estilos mais diversos, atravessando desde os movimentos sociais até os sacerdotes terceiro-mundistas, desde os governos bolivarianos até a luita insurgente e guerrilheira, desde o presidente Hugo Chávez [29] até o Movimento Continental Bolivariano (MCB) [30] e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia-Exército do Povo (FARC-EP) [31]. Nom é por acaso. Todos se inspiram em Simón Bolívar…

Este ressurgir do discurso bolivariano constitui umha expressom de “folclore latino” e umha exótica cortina de fumo tropical ou expressa a crise profunda de umha maneira pós-moderna de entender a história onde unicamente se destacavam as discontinuidades, os cortes absolutos e “o caprichoso, contingente e aleatório suceder de capas geológicas” (como gostava de dizer a Michel Foucault). O facto político e teórico de novas luitas sociais actuais que marcam umha continuidade explícita e directa com as luitas históricas do passado nom mereceria umha reflexom de longo alento e umha novo programa de investigaçom deixando atrás os equívocos pós-estruturalistas das décadas de 80 e 90.

No horizonte do século XXI volta  aparecer o antigo mas novo projecto integrador de todas as formas de luita convergendo no sonho rebelde da Pátria Grande, umha sozinha grande naçom latino-americana, umha revoluçom socialista a escala continental e mundial. Um projecto radical cuja nova racionalidade histórica aspira a sementar a diversidade multicolor de vozes, luitas e rebeldias dentro de um chao comum de hegemonia socialista, antiimperialista e anticapitalista. Nom é certo que “desapareceu o sujeito”. Nom! O sujeito volta e retorna multiplicado com muita mais força (e menos ingenuidade) que antes.

Deixando atrás o cinismo do duplo discurso, o macartismo, a razom de estado, a demonizaçom e o fino limite dos protestos “permitidos” (sempre restringidos a tímidas reformas de guetto, fagocitáveis dentro das instituiçons do sistema); o exemplo insubmisso de Bolívar convida-nos a recuperar a vocaçom de poder tragicamente «esquecida» ou injuriada polos novos reformismos”, a ética inflexível e a rebeldia indomesticável dos velhos comuneiros, os bolcheviques, os combatentes libertários e comunistas, os milicianos, os maquis, os guerrilheiros insurgentes e todos os luitadores e luitadoras do terceiro mundo.

Se neste bicentenário Carlos Marx andasse polos nossos bairros, nom caminharia acarom de nós repetindo com José Martí “Pátria é humanidade” e levando no ombro, também ele, a sua bandeira de Bolívar?

Notas

[1] Os mitos anticomunistas do pensamento de direita “nunca assumidos como tais” daquele momento que desenhavam essa caricatura no bicentenário da Revoluçom francesa nutriam-se de diversas fontes, desde os panfletos mais “eruditos” da historiografia revisionista do professor francês François Furet até recursos mais populares como o filme comercial Danton, do director polaco Andrezj Wajda (baseado por sua vez na obra de teatro “O caso Danton”, de Stanislawa Przybyszewska, bastante mais proclive para Robespierre que o filme, segundo reconheceu posteriormente o mesmo Wajda).

[2] Na verdade as resistências contra a dominaçom colonial, a exploraçom selvagem e outros mecanismos fundamentais da acumulaçom originária do sistema capitalista a escala mundial começárom desde a mesma chegada dos “civilizados” da espada, a cruz, a fogueira, a violaçom e a tortura dos povos submetidos. Duas das principais metas dessa extensa seqüência de luitas fôrom a insurreiçom continental liderada por Tupac Amaru e Tupac Katari e a independência do Haiti, esta última concretada seis anos antes que o processo desatado em 1810.

 

[3] Nesse sentido dous afamados ensaístas explicam-nos e instruem: “Muitos localizam à autoridade última que governa o processo de globalizaçom e da nova ordem mundial nos Estados Unidos. Os que dim isto vem os Estados Unidos como o líder mundial e única superpotência, e os seus detractores o denunciam como um opressor imperialista. Ambos os pontos de vista baseiam-se na suposiçom de que os Estados Unidos se tenham vestido com o manto de poder mundial que as naçons europeias deixárom cair. Se no século dezanove foi um século británico, entom no século vinte foi um século americano; ou, realmente, se a modernidade foi europeia, entom a pós-modernidade é americana. A crítica mais condenatória que podem efectuar é que os Estados Unidos estám a repetir as práticas dos velhos imperialismos europeus, enquanto os proponentes vem os Estados Unidos como um líder mundial mais eficiente e benevolente, fazendo bem o que os europeus figérom mal. A nossa hipótese básica, no entanto, que umha nova forma imperial de soberania está a emergir, contradi ambos os pontos de vista. Os Estados Unidos nom constituem -e, inclusivamente, nengum estado-naçom pode hoje constituir- o centro de um projecto imperialista”Veja-se Antonio Negri e Michael Hardt (2000): Império. Buenos Aires, Paidos, 2002. p. 15.

[4] Tentamos refutar em detalhe semelhante ponto de vista nos nossos livros Toni Negri e os desafios de «Império». Madrid, Campo de Ideas, 2002 (reeditado em Itália com o título Toni Negri e gli equivoci dei «Império». Bolsena, Massari Editore, 2005) e também no livro O nosso Marx (em www.rebelion.org e www.lahaine.org). Resulta curioso que a estes ensaístas e a muitos outros apressados enterradores do estado-naçom “somente quando se trata dos estado-naçons de países dependentes” nom lhes dê navista que em todo filme norte-americano apareça até o aborrecimento a bandeirinha das barras e as estrelas.

[5] Veja-se Simón Bolívar: “Carta de Jamaica” [Kingston, 6 de Setembro de 1815]. Em Três documentos da Nossa América. Havana, Casa das Américas, 1979. p. 28. 

[6] Veja-se Simón Bolívar: “Carta de Jamaica”. Obra citada. p. 23.

[7]  Veja-se Simón Bolívar: “Discurso na apresentaçom da Constituiçom de Bolívia”. Compilado em Toby Valderrama e Alejandro Mena: Rumo ao socialismo. Caracas, Fundaçom Fundo Editorial Fabricio Ojeda, 2006. pp. 14-15.

8 Veja-se Simón Bolívar: “Carta de Jamaica”. Obra citada. p.25.

9 Veja-se Simón Bolívar: “Discurso ao inaugurar o Congresso da Angostura” [1819]. Recopilado e comentado na obra de Felipe Larrazábal: Simón Bolívar. Vida e escritos do Libertador [Biblioteca Ayacucho, 1918]. Três tomos. Caracas, Ediçons da Presidência da República, 2008. Particularmente Tomo II, pp. 133-142.

10 Veja-se Simón Bolívar: “Carta de Jamaica”. Obra citada. p.29-30.

11 Veja-se Simón Bolívar: “Discurso ao inaugurar o Congresso da Angostura”. Obra Citada. tomo II, p.139.

12 Veja-se José Carlos Mariátegui “Aniversário e balanço” [Editorial da revista Amauta, N°17, ano II, Lima, Setembro de 1928]. No apéndice ao nosso livro Introduçom ao pensamento marxista. Buenos Aires, A Rosa Blindada, 2003. p. 181.

13 Veja-se Ernesto Che Guevara: “Mensagem aos povos do mundo através da Tricontinental” [16/4/1967]. No apéndice ao nosso livro Introduçom ao pensamento marxista. Obra citada. p.241 e em Obras. Casa das Américas, 1970. Em termos gerais, a ideia de Leom Trotsky para o futuro de Nossa América nom era muito diferente desta leitura bolivariana do Che Guevara, onde a chave da libertaçom repousaria na unidade continental e na revoluçom socialista, ainda que Trotsky o propugera num estilo literário e com termos nom sempre habituais na cultura política de América latina. “Polos Estados Unidos Soviéticos de Sul e Centro América”. Veja-se León Trotsky. Escritos latinoamericanos. Buenos Aires, CEIP, 1999. “O futuro de América Latina” [1940]. pp. 156-157.

14 Veja-se Carlos Marx: “Bolívar e Ponte”. Originalmente publicado no Tomo II de The New American Cyclopedia e reproduzido em Carlos Marx e Friedrich Engels: Materiais para a história de América Latina [preparaçom e notas do tradutor Pedro Scaron]. México, Século XXI, 1975.

15 Sobre o eurocentrismo na escritura juvenil de Marx e a sua posterior superaçom e mudança de paradigma na maturidade veja-se o nosso Marx no seu (Terceiro) Mundo. Buenos Aires, Biblos, 1998 (reediçom cubana posterior Havana, Juan Marinello, 2003). Particularmente o derradeiro capítulo.

16 A margem de imprecisom de quatro meses para localizar a redacçom do ensaio deriva das discordáncias entre os biógrafos que tivérom acesso aos originais.

17 Veja-se a extensíssima nota Nº 25 de Pedro Scarón onde analisa em detalhe  cada umha das fontes utilizadas por Marx, em Carlos Marx e Frederico Engels: Materiais para a história da América Latina [preparaçom e notas do tradutor Pedro Scaron]. Obra citada. Nota 25, pp.105-108, particularmente 106.

18 Veja-se Vicente Pérez Silva “Bolívar visto por Carlos Marx”. Em Simón, Quijote de América. Antologia de ensaios sobre Simón Bolívar. Apresentaçom e compilaçom a cargo de Juvenal Herrera Torres. Caracas, Instituto Municipal de publicaçons da Prefeitura Município Libertador, 2005. pp. 246-247.

19 Veja-se Carta de Marx a Engels do 14 de Fevereiro de 1858, em Carlos Marx e Frederico Engels: Materiais para a história de América Latina [preparaçom e notas do tradutor Pedro Scaron]. Obra citada. p.94.

20 Tratando de explicar esse preconceito de Marx para o Libertador americano José Aricó tenta derivar da problemática de origem hegeliano de Marx a sua crítica a Bolívar. Ao questionar ao seu mestre na dialéctica, Marx teria seguido girando arredor da parelha categorial “Estado-sociedade civil”, invertendo-a e outorgando primacia a esta última por sobre aquele outro. Daí que lhe custara tanto trabalho compreender o modo em que nas revoluçons de independência americana é o Estado  que funda a sociedade civil e nom ao invês. Veja-se José Aricó: Marx e a América Latina. Buenos Aires, Catálogos, 1988. Para chegar a essa conclusom Aricó sistematiza e compendia as investigaçons prévias de Georges Haupt, Claudie Weil, Renato Levrero, Hal Draper e Roman Rosdolsky. Porém, “esquece-se” de mencionar como fonte a Ernest Mandel (de quem adoptou como emprestada a ideia segundo a qual Marx começou a ocupar-se da periferia do mercado mundial estudando o comércio exterior da Gram Bretanha. Veja-se Ernest Mandel: A formaçom do pensamento económico de Carlos Marx de 1843 até a redacçom de «O Capital». Madrid, Século XXI, 1974. p. 135). Aricó também se “esquece” de mencionar a outra de suas fontes e um de seus principais antecessores, Jorge Abelardo Ramos. Mais de umha década antes que Aricó, Ramos já tinha aventurado a origem hegeliana do preconceito de Marx para Bolívar e a América Latina…, justamente a tese central do livro de Aricó. Afirmava Ramos: “Estes infortunados julgamentos de Marx sobre Bolívar  estavam sem dúvida influídos pola tradiçom anti-espanhola prevalecente em Inglaterra, onde vivia Marx, e polo comum desprezo europeu para o Novo Mundo, cujas origens se remontavam aos filósofos da Ilustraçom e às observaçons olímpicas de Hegel na sua Filosofia da história universal”. Agregava também: “Como nos tempos de Hegel, os pensadores de Europa, Marx entre eles, consideravam à América Latina como um facto geográfico que nom se tinha transmutado ainda em actividade histórica”. Veja-se J. A. Ramos: “Bolivarismo e marxismo” [1968]. No seu livro Marxismo de Índias. Barcelona, Planeta, 1973. pp. 207 e 216.

21 Veja-se Ana Maria Ribadeu: O marxismo e a questom nacional [tese de doutorado na Universidade Nacional Autónoma de México dirigida por Adolfo Sánchez Vázquez]. México, UNAM, 1994. p. 72. A proposta de Ribadeu nom deixa de ser útil, sugerente, rigorosa e exaustiva na reconstruçom das fontes de Marx, no entanto por momentos o seu trabalho académico -desenvolvido em plena euforia do que academicamente se deu a denominaçom “a crise do marxismo- permanece demasiado colado ao relato de Aricó, Portantiero e outros ensaístas do mesmo grupo intelectual (já na altura ex-marxistas ou conversos à socialdemocracia) que por sua vez eram devedores do historiador Halperín Donghi e outros professores de nom poucas simpatias liberais. Daí que por momentos a autora termine subestimando essa suposta “falta de vontade nacional” nas massas populares latino-americanas… como explicar entom a persistência das luitas de emancipaçom a nível continental durante dous séculos apesar de tantas repressons, genocídios, golpes de estado, intervençons norte-americanas e ditaduras militares”

22 Veja-se Carlos Marx: “Bolívar e Ponte”. Obra citada. pp.90-91.

23 Veja-se Carlos Marx: “Simón Bolívar”. Publicado na revista dirigida por Ponce Dialéctica N°1, Buenos Aires, Março de 1936. pp.1-14. [traduçom do original inglês de Emilio Molina Montes]). Compilado também nas Obras completas de Ponce. Buenos Aires, Cartago, 1974. 4 volumes.

24 Muito pouco tempo depois -menos de dous anos- de tê-lo publicado, durante o seu exílio mexicano, Ponce revisa as posiçons pressupostas na sua primeira comemoraçom do trabalho de Marx sobre Bolívar. Em terras mexicanas publica cinco artigos sobre a questom nacional latino-americana e o problema indígena. Nesses últimos trabalhos incompletos -Ponce falece quase imediatamente- denomina a nosso continente “a América indígena” a contramao da sua juvenil adesom à herança liberal de Domingo Faustino Sarmiento de inegáveis conotaçons positivistas, darwinianas e racistas. Tomando em conta essa notável mudança de modo de ver sobre a questom nacional e o latino-americanismo entusiasmado que se produz no seu exílio mexicano é mais que provável que Ponce tivera voltado a repensar e, agora sim, a recuperar como própria a herança de Bolívar. Veja-se o nosso De Engenheiros ao Che. Ensaios sobre o marxismo argentino e latino-americano. Buenos Aires, Biblos, 2000 (reeditado em versom ampliada em Cuba. Havana, Centro Juan Marinello, 2008). Particularmente o capítulo dedicado a Ponce “Humanismo e revoluçom”.

25 Estamos a pensar, para o primeiro caso, no professor mexicano, director do Instituto de Estética da Universidade de Guadalajara, Arturo Chavolla e o seu triste livro (em realidade tese de doctorado defendida em Paris): A imagem da América no marxismo. Buenos Aires, Prometeo, 2005. O livro de Chavolla resulta um típico produto académico da nossa época, onde a rejeiçom visceral do marxismo se encobre com umha terminologia aparentemente neutra.  A Marx  e ao marxismo Chavolla reprocha o seu “eurocentrismo” -do que supostamente nunca se teriam afastado. Curiosamente, no seu livro toda a bibliografia se cita em francês, ainda quando o idioma de Marx é o alemám e o do autor o espanhol. Mesmo, para “ficar bem” com o júri francês, citam-se nesse idioma títulos de livros que só fôrom editados na Argentina ou no México, como os de Passado e Presente. Umha mostra mais de eurocentrismo”

Para o segundo caso, temos em mente o ensaísta argentino José Pablo Feinmann, de grande presença mediática nos nossos dias através da TV, quem no seu livro Filosofia e Naçom  (escrito em plena euforia do populismo nacionalista entre 1970 e 1975, publicado em 1982 e reeditado sem modificar umha sozinha palavra em 1996 com um prólogo pós-moderno) afirma com notável livianidade que Marx é… “um pensador do império británico”, um ingénuo apologista da dominaçom colonial sobre os povos submetidos.

Tentamos umha crítica de ambos os autores no nosso livro Com sangue nas veias (Apontamentos polémicos sobre a revoluçom, os sonhos, as paixons e o marxismo desde a América Latina). Bogotá, Ocean Sur, 2007. pp.9-15.

26 Veja-se Ernesto Che Guevara : “Notas para o estudo da ideologia da Revoluçom cubana”. Publicado originariamente a 8 de Outubro de 1960 em Havana, na revista Verde Olivo . O artigo foi reproduzido posteriormente em infinidade de editoriais e locais. Por exemplo em Ernesto Che Guevara: Obras . Havana, Casa das Américas, 1970. Dous volumes. No entanto, em algumhas ediçons posteriores este parágrafo onde o Che Guevara pom distáncia crítica frente ao injustificado ataque de Marx sobre Bolívar foi inexplicável e surpreendentemente -por um erro- suprimido…

27 Veja-se Ernesto Che Guevara : O caderno verde do Che [poesias de Pablo Neruda, León Felipe, Nicolás Guillén e Cessar Vallejo]. Prólogo de Paco Ignacio Taibo II. México, Seix Barral-Planeta, 2007. A poesia a Simón Bolívar encontra-se reproduzida em pp.82-84.

28 Segundo nos testemunha Harry Villegas Tamayo, alias Pombo. Veja-se a nossa entrevista ao hoje general cubano, companheiro do Che em Sierra Maestra, o Congo e a Bolívia, no nosso Che Guevara: O sujeito e o poder. Buenos Aires, A Nossa América-A Rosa Blindada, 2005.

29 Veja-se Antonio Aponte [seudónimo colectivo]: 100 graos de milho (vários volumes com os títulos Fuzis, livros e rosas e A hora dos fornos). Caracas, Fundaçom Fundo editorial Fabricio Ojeda, 2006, 2007 e 2008; Amílcar Figueroa Salazar: A revoluçom bolivariana. Novos desafios de umha criaçom heroica. Caracas, O Tapial, 2007; Amílcar Figueroa Salazar: Reforma ou revoluçom na América Latina. O processo venezuelano. México, Ocean Sur, 2009; Menry Fernández Pereyra [director da Escola de Guerra do Exército Venezuelano]: Bases históricas, políticas e filosóficas da Guerra Popular de Resistência. Caracas, Parlamento Latinoamericano, 2009; J.T.Núñez Tenorio: Bolívar e a guerra revolucionária (Reencarnar o espírito de Bolívar). Caracas, Ediçons da presidência da República, 2007;  Movimento revolucionário Março-28: Bolívar e Marx: Dous pensamentos… um mesmo sonho. Caracas, Escola Nacional de formaçom, 2008.

30 Veja-se Manifesto Bolivariano pola Nossa América. Em Correio Bolivariano. Caracas, Coordenadora Continental Bolivariana, 2006. pp. 21-24.

31 Veja-se FARC-EP: “Plataforma Bolivariana pola Nova Colômbia”. Em AA.VV.: Manuel Marulanda Velez. O herói insurgente da Colômbia de Bolívar. S/dados. 2008; Jesús Santrich: “Bolivarismo e marxismo: Um compromisso com o impossível” em www.lahaine.org; Jesús Santrich: “Bolívar, a Comuna, Marx e outros exemplos”. Em Correio Bolivariano. Caracas, Coordenadora Continental Bolivariana, 2006. pp. 87-88; Iván Márquez e Jesús Santrich [ambos comandantes das FARC-EP]: O assassinato do Libertador e a leitura bolivariana da história. Um enfoque desde a guerrilha bolivariana das FARC. Caracas, s/ dados, 2006. Dado o carácter clandestino e insurgente destes autores, os seus textos, de difícil acesso, nom som estudados na universidade. No entanto, valeria a pena fazê-lo… Ou haverá que esperar outras quatro décadas, como sucedeu com o pensamento e os escritos de Ernesto Che Guevara, para poder começar a ler e estudar o seu pensamento em cátedras, oficinas e seminários”