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Assistimos ao declinar dos Bons Negócios Galegos?

Quarta-feira, 8 Abril 20092 Comentários

 

Carlos Morais

Os adversos resultados eleitorais do 1 de Março acelerárom a crise interna do autonomismo que, posteriormente aos primeiros sintomas do declínio iniciado em 2001, quando se vai madurecendo a susbtituiçom/cessamento de Beiras cristalizada em Dezembro de 2003, tinha já adoptado a forma de doença crónica.

A lotaria de Junho de 2005 permitira ocultar a perda de mais de 35 mil votos polo quintanismo e a UPG, verdadeiros amos e senhores, da estrutura frentista transformada numha maquinaria eleitoral dirigida polos quadros com responsabilidades institucionais sob a tutelagem sempre permanente dos aparatchik da espiral.

Mas o novo revés eleitoral, agora com 40 mil sufrágios menos, acompanhado polo deslocamento de Sam Caetano, foi um furacám devastador. Este brutal movimento sísmico, imprevisto como sempre, alterou completamente os planos da direcçom regionalista de avançar com firmeza e mais velocidade no aggiornamento.

A volta à realidade que impossibilitava que as árvores deixassem ver o bosque facilitou compreender a verdadeira dimensom de umha desfeita reiteradamente negada com mensagens e discursos triunfalistas. Em oito anos, a hemorragia vira desaparecer 25% dos apoios atingidos em relaçom ao teito de 1997, quando lograra o sorpasso do PSOE.

Assediada polas críticas a porta aberta lançadas polo beirismo e polo pánico gerado entre as centenas de cargos de livre designaçom que da noite para a manhá perdiam milionários salários e carros oficiais, a direcçom opta, depois de recuperar a mínima serenidade exigível nestes casos, por realizar umha voadura controlada que permita reconduzir umha situaçom onde os riscos de ruptura, embora afastados, semelhavam factíveis.

Semanas depois do domingo em que Quintana nom quijo demitir-se até ter assegurado um Audi e honorários quantiosos por mais quatro anos na Mesa do parlamentinho, o BNG tem convocada umha Assembleia Nacional que está a provocar rios de tinta.

A correlaçom interna de forças entre os diferentes lobbies de pressom e, portanto, de interesses grupais, alguns com evidentes ligaçons em determinados poderes económicos que sem pudor se fôrom manifestando ao longo da anterior legislatura, nom pode encobrir que o actual BNG carece da mais mínima possibilidade de poder ser regenerado nem refundado com base nos princípios políticos e ideológicos de Riazor.

Algo mais de um quartel de século depois dumha fundaçom que devemos desmitificar, aquele projecto da unidade interclassista do nacionalismo de esquerda que nom aceitava, mais por retórica que por convicçom, a arquitectura institucional do lifting franquista, simplesmente já nom existe. Fai parte do passado. É arqueologia. Serve como nova temática de tese de doutoramento, ou como singular experiência a meio caminho entre o manual político da década de setenta com certos tintes de originalidade criativa própria.

Nestes anos, consumou-se o divórcio entre parte da base social organizada que vinha sustentando eleitoralmente o projecto e a orientaçom regionalista e filo-neoliberal pactuada sem grandes turbulências internas polo conjunto, sem excepçons, das famílias com peso no seu interior. Pois, na hora de procurar responsabilidades, ninguém pode ficar eximido.

Certas fracçons mais avançadas da classe operária, da juventude rebelde e inconformista, de núcleos intermédios urbanos e, também como novidade, a direcçom do sindicalismo nacionalista agrário, optárom progressivamente por se afastar.

A recente saída de um colectivo de militantes enquadrados no soberanismo de esquerda confirma as teses que levamos anos defendendo sobre a inviabilidade de mudar a linha interna do BNG.

A procurada homologaçom com os partidos sistémicos provocou inexoravelmente o abandono da auto-organizaçom e da mobilizaçom social, para se converter numha enorme maquinaria eleitoral que tenciona ocupar o maior número de espaços de poder, gerir as instituiçons autonómicas mediante um pacto com Espanha, e mesmo oferecer-se a participar indirectamente no governo de Madrid.

Mas isto levava aparelhado mudar progressivamente, sempre evitando sobressaltos, os sujeitos de representaçom. Assim, o conceito ‘povo’, no sentido de maioria social sem poder real, vai paulatinamente deixando de fazer parte das prioridades. A aparentemente asséptica ‘cidadania’, a que hoje se apela no discurso, substituiu as ‘camadas populares’ galegas que Beiras popularizou nos oitenta. E nom se trata de umha simples mudança no vocabulário. Agora dirige-se a todos os sectores da populaçom com um morno discurso interclassista que no caso específico que nos ocupa tem também que matizar, e mesmo maquilhar, o cerne da componente nacional, evitando incidir na defesa do monolingüismo social, para assim introduzir-se entre os sectores centristas e abastados da estrutura de classes galega. Porém o experimento, teoricamente bem sustentado, na prática nom funcionou. A perda pola esquerda tem sido substancialmente superior à limitada penetraçom entre esses novos sectores, bem representados polo PP-PSOE e refractários a esse imaginário colectivo que ainda permanece inalterado entre os sectores populares menos conscientes e entre a reacçom.

O BNG experimentou umha profunda metamorfose que impossibilita qualquer marcha atrás. Embora a militáncia quigesse reconduzir a situaçom, as inércias, os interesses criados no seu interior, os pactos atingidos a nível institucional, dificultariam, quando nom impossibilitariam, essa tarefa.

Mas, na actualidade, o BNG mudou porque a sua composiçom interna está profundamente alterada em relaçom à de há mais de umha década. A tradicional hegemonia da pequena burguesia funcionarial nos órgaos chave de direcçom logrou deslocar definitivamente os sectores populares numha elaborada e inconclusa aliança com sectores intermédios da burguesia nacional sobre a qual girou parte da política autonomista no período 2005-2009. A famosa e eficaz fotografia do iate de Jacinto Rei filtrada polo PP, que tanto dano provocou eleitoralmente ao dissuadir de seguir emprestando o voto útil entre sectores da esquerda volátil, exprime com enorme eloqüência plástica a estratégia do tandem Quintana-Paco Rodríguez de seduzir fracçons do empresariado autóctone para os incorporar ao projecto ofertando suculentos favores políticos e económicos.

Na prática, esta linha já se vinha manifestando timidamente desde meados da década de noventa, quando o BNG estava obsessionado com ganhar o pequeno comércio e manifestava sintomas de incomodidade de participar em luitas como a da insubmissom, a feminista, a solidariedade internacionalista, ou nom apoiava com suficiente firmeza alguns dos episódios mais combativos da luita operária e popular.

Hoje, o filiado médio do autonomismo é, pola sua composiçom de classe e características militantes, bem diferente do activista entregado e luitador vinculado com a rede popular organizada que o caracterizava quando o poder burguês e espanhol o estigmatizava como “os do nom”.

Embora a influência na CIG continue aparentemente inalterável a escala de direcçom e aparelho, as mudanças analisadas também se deixarám sentir entre o movimento operário organizado.

Nos próximos meses, assistiremos à encenaçom de um oportunista giro à esquerda, cujo primeiro episódio foi a ruptura da aliança elitoral com CiU e PNB nas europeias de Junho, optando por ir com ERC. Esta táctica, se bem tem enormes dificuldades de implementar-se polas razons aludidas: composiçom interna do autonomismo, pontes dinamitadas com alguns movimentos populares, descrédito acumulado, sim poderám gerar confusionismo entre ingénuos e atrasar processos sociais. Porém, nom devemos descartar que nos vindouros meses assistamos à filtraçom polos novos inquilinos da Junta de escándalos, corruptelas e trapaças económicas ligadas à acçom do governo do bipartido que podam contribuir para desgastar ainda mais a desprestigiada imagem do autonomismo.

Se nom é viável recompor um BNG claramente de esquerda e soberanista, se está esgotado o projecto plasmado em Riazor, se estamos a assistir ao declínio do modelo gestado no tardofranquismo e implementado com êxito na década de oitenta até atingir a sua expressom eleitoral em 97, porque a esquerda independentista continua ancorada na marginalidade, incapaz de recolher/incorporar esse descontentamento com a orientaçom do autonomismo entre os sectores populares organizados e a juventude?

A absurda fragmentaçom e divisom do espaço sociopolítico da esquerda revolucionária galega é, sem lugar a dúvidas, a mais importante causa que impossibilita ligar com o exterior e quebrar estas perversas dinámicas impostas.

Hoje dam-se as melhores condiçons objectivas da nossa história para vertebrarmos umha força/movimento político-social de novo cunho, com um programa anticapitalista e independentista, incorporando ao seu seio todas as rebeldias. Porém, o peso da subjectividade dos sujeitos que devem promovê-la impossibilita a sua eclosom.

E, por se nom chegasse esta conjuntura favorável, a actual crise do autonomismo enquadra-se em duas crises superiores: a crise do projecto nacional galego, fruto da eficaz estratégia espanholizadora das duas últimas décadas combinada dialecticamente com a fraqueza do movimento de libertaçom nacional e o recuar do autonomismo neste ámbito; e, em terceiro lugar, com a crise estrutural do sistema capitalista e as suas conseqüências tangíveis no nosso país.

Os tempos de luita nom vam ficar à espera de ninguém. Nom podemos cair no conformismo paralisante. É, pois, urgente avançar.

Galiza, 8 de Abril de 2009