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Porto Alegre: Sonhos do outro mundo

Quinta-feira, 2 Setembro 2004Um Comentário

(Publicado no número 80 da revista Política Operária, Maio e Junho de 2001, e no livro O Comunismo que aí vem, Compostela, Abrente Editora, 2004)

 

 

Francisco Martins Rodrigues

 

Enquanto os magnates do imperialismo se reuniam em Davos para deliberar sobre novas medidas para rentabilizar o Capital à custa da mercadoria seres humanos, reuniu-se em Porto Alegre o Fórum Social Mundial, sob o patrocínio do PT e por iniciativa de um grande número de ONGs internacionais como a ATTAC, de sectores da Igreja Católica, de sindicatos, etc. A amplitude desta nova acção de repúdio da política neoliberal, na continuidade do chamado “espírito de Seattle” e sob o lema “um outro mundo é possível” deu-lhe grande repercussão internacional.

 

Porque não nos juntamos então ao aplauso e à congratulação gerais das forças de esquerda? Não é positivo o alargamento da luta contra o neoliberalismo? Diremos brevemente que, a despeito do empenhamento sincero de milhares de participantes, os tiros do Fórum de Porto Alegre são de pólvora seca, as soluções que propõe ilusórias, as esperanças que suscita enganadoras.

 

Para melhor se entender o “espírito de Porto Alegre”, nada como dar a palavra a um dos seus participantes e defensor entusiasta, o deputado Luís Fazenda, do Bloco de Esquerda. Ele exaltou na Assembleia, em 8 de Fevereiro, as repercussões do Fórum, fazendo notar que as suas resoluções “nada têm de esquerdista nem de extravagante”, já que este fez uma “aproximação moderada às contradições do mundo de hoje”.

 

Queixando-se da imprensa que “divertiu o público com as diatribes contra os MacDonalds” mas não revelou “a lista verdadeiramente impressionante de académicos renomados que abraçaram a esperança num outro mundo possível”, Fazenda passou a enumerar as causas defendidas no conclave: contra a “globalização do capitalismo selvagem”, pela “globa1ização das solidariedades e da sustentação”; abolição da dívida externa dos países do Terceiro Mundo; constituição de um fundo alimentar e sanitário mundial, financiado pela taxa Tobin; encerramento dos paraísos fiscais; combate ao efeito de estufa, protecção da biodiversidade, respeito pelas conferências internacionais em matéria ambiental. E a fechar este catálogo de nobres intenções, nada mais, nada menos, do que a “democratização das Nações Unidas, democratização e reorientação do Fundo Monetário Internacional e da Organização Mundial do Comércio, numa agenda pela Paz e o Desenvolvimento que tem de ter no centro a redistribuição do rendimento”.

 

As exigências são boas, sem dúvida. A questão está em saber como podem ser tornadas realidade. E sobretudo contra quem podem ser obtidas. Como certeiramente observa um comentador espanhol*, foi manifesto nos documentos do Fórum Social Mundial o desejo de sensibilizar mais pessoas, “mas que pessoas? os prejudicados, a fim de se revoltarem? ou os que disto beneficiam, esperando que reflictam sobre os prejuízos que estão a causar?” As denúncias contidas nos documentos são justas mas, “na sua maioria, não têm um destinatário concreto, como se a exposição de razões éticas para rejeitar isto ou aquilo fosse, por si mesma, uma alavanca para levar todos a reflectir, ricos e pobres”. Esta ausência de um inimigo claramente definido, conclui com plena razão, é o principal ponto fraco de Porto Alegre.

 

“Em nenhum momento – observa por seu lado o jornal de um grupo revolucionário brasileiro** – o manifesto do Fórum e os seus signatários apontam que a raiz dos males produzidos pelas políticas neoliberais é o próprio modo de produção capitalista. Essa ausência não ocorre por acaso: os promotores do Fórum defendem que é possível, em oposição ao neoliberalismo, construir um outro modelo de desenvolvimento capitalista, “inserido soberanamente na globalização ou seja, um modelo nacional-desenvolvimentista que se limite a produzir pequenos ajustes dentro do sistema capitalista”.

 

Nesta linha, a solução de governo que o Fórum conseguiu apontar como exemplar foi a “democracia participativa” praticada pelo governo do PT em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, a qual, se tem a utilidade de pôr em xeque a corrupção geral dos governos locais (no Brasil como em todo o lado), serve sobretudo, ainda segundo o mesmo jornal, para “co-responsabilizar a população explorada com os cortes de verbas impostos pelos governos petistas nos serviços públicos, cooptar o conjunto do movimento de massas, atrelando-o ao Estado e liquidando a sua independência política”.

 

Para além do mais, e por muito que isso desgoste os militantes de causas utópicas, este Fórum é um subproduto da pressão de um sector dos governos da “terceira via” europeia, directamente influenciada pela social-democracia francesa, e que procuram impor um programa político a nível mundial para anular a resistência das massas exploradas contra o imperialismo, ao mesmo tempo que pretende fazer-se acreditar como alternativa à pilhagem do imperialismo norte-americano na América Latina. A boa fé dos activistas está a ser utilizada pelos manejos da alta política.

 

Se ainda houvesse dúvidas de que nos encaminhamos para combates de classe de grande envergadura, bastaria esta proliferação de absurdos projectos moralizantes para o demonstrar. Quanto mais nítidos surgem os contornos do conflito que se aproxima, mais os reformistas se desmultiplicam em esforços desesperados para o evitar, através das suas fórmulas mágicas.

 

“Globalizar as solidariedades”, “democratizar o FMI”, “redistribuir o rendimento” – não é enternecedor? O verdadeiramente curioso é que estes senhores, que consideram “irrealista” lutar pela abolição do capitalismo, achem realistas reivindicações destas.

 

* El Forum Social Mundial suma y sigue, António Doctor, Saragoça.

*Luta Operária, jornal da Liga Bolchevique Internacionalista, Fortaleza, Janeiro.