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A memória como praxe

Quarta-feira, 1 Setembro 2010Um Comentário

Iñaki Gil de San Vicente

 

Umha das razons que explicam a derrota estratégica da oposiçom no Estado espanhol e as extremas dificuldades que encontram as suas esquerdas para se assentarem e crescer, radica na traiçom à memória de luita, na amnésia e esquecimento colectivo para quem o deu todo. Nom apenas foi o PC de Espanha e o PSOE que já a meados de 70 começárom a calcinar a lembrança das mulheres e homens que luitárom pola democracia e o socialismo até o final, senom que depois e até os dias de hoje, toda umha massa egoísta e vendida aos salários do poder trabalha sistematicamente para impor a história permitida polos vencedores de 1939, quando nom a história escrita directamente por estes. Pior ainda, esta traiçom tem a sua máxima mostra de inumanidade na ocultaçom da «infáncia roubada», dos milhares de crianças roubad@s às suas famílias polo franquismo, com o imprescindível apoio da Igreja, e nunca devoltos. A arrepiante realidade da «infáncia roubada» pesa como umha condenaçom eterna sobre a cobarde e pusilánime «democracia espanhola».

 

Outro tanto no básico sucedeu desde o verao de 1944 no Estado francês, quando as «forças democráticas» decidírom esquecer a impressionante e muito rendível, no económico, colaboraçom burguesa com os ocupantes nazis, pesquisando muito superficialmente só alguns casos atraentemente escandalosos e condenando uns poucos deles. Em Itália a «democracia» abençoada polo Vaticano e protegida pola máfia e os EUA também perdoou a maioria imensa dos fascistas. Mas em ambos os estados as classes trabalhadoras aplicárom a justiça popular na medida dos seus recursos, desobedecendo abertamente as directrizes de conciliaçom dos seus respectivos partidos comunistas. Nom há dúvida de que a política de esquecimento da heroica guerrilha antinazi-fascista também facilitou a extinçom do PCI e a ruína quase irrecuperável do PCF. Podemos citar mais experiências históricas que mostram como a deliberada destruiçom da memória revolucionária por parte dos antigos luitadores, à espera da «reconciliaçom», facilita a volta total ou parcial da opressom antes vencida. E também nom há dúvida, a estas alturas, de que umha vez recuperado o poder, se é que algumha vez o perdeu de todo, a classe burguesa nom perdoa, contraataca a fundo, endurecendo ainda mais as suas leis repressivas.

 

A memória da luita pola liberdade, dos seus sacrifícios e os seus logros, nom é umha entelequia abstracta e imaterial, passiva ou romántica no máximo, é umha força material activa, ciente e com visom histórica. A memória democrática, a do povo oprimido, pode permanecer muda durante um tempo devido à repressom e ao medo, mas tarde ou cedo ergue-se orgulhosa e valente. Em Hego Euskal Herria, o franquismo conseguiu paralisá-la só durante um breve período, reactivando-se claramente a começos de 40. Foi o reformismo espanhol  que, desde a tese da «reconciliaçom nacional», insuflou novas forças à destruiçom da memória de luita do nosso povo. Eurocomunistas e social-democratas, apoiados polo colaboracionismo de EE e PNV, criárom quatro «argumentos» contra a nossa memória, actualizados agora depois da imposiçom do ilegal e fraudulento Governo basco do PSOE-PP. Tais «argumentos» nom mudam qualitativamente a identidade ditatorial do nacionalismo espanhol e da sua veia inquisitorial e vingativa formada nos séculos XV e XVI; somente adaptam e reforçam a sua efectividade de convencimento nas actuais condiçons. Por isto é tam importante a crítica dialéctica do conteúdo e do continente do nacionalismo espanhol e da sua memória.

 

O primeiro «argumento» sustenta que agora existe umha «democracia» que garante que qualquer projecto, incluído o independentista, poda ser defendido na vida quotidiana, cousa que nom existia no franquismo. Os factos negam esta tese já que nunca pode existir umha democracia supeditada a umha monarquia, à propriedade privada e ao sistema patriarcal. O articulado enteiro da Constituiçom está pensado para que a «democracia» seja essencialmente burguesa, espanhola e patriarcal e a Lei de Partidos é a escora mais recente, por agora, que reforça a essência antidemocrática do regime espanhol. O segundo sustenta que a «Espanha das autonomias» permite melhorar as lacunas da Constituiçom, na sua aplicabilidade a cada «regiom ou autonomia espanhola», de maneira que, por fim, podamos sentir-nos «cómodos em Espanha». Os factos negam esta tese, porque nem sequer se cumprírom as promessas oficiais realizadas no seu tempo e, na realidade, o «Estado das Autonomias» está a ser reduzido implacavelmente desde 1981.

 

O terceiro sustenta que à «Europa democrática» e à sua «cidadania» contribuem liberdades e direitos inimagináveis no franquismo, ampliando os já existentes. Os factos negam esta tese, já que a UE é umha construçom vertical imposta polo capital financeiro-industrial, sob a tutela ianque, com um conteúdo autoritário inegável já desde o início da crise geral em 2007. E o quarto sustenta que, tendo em conta o anterior, hoje se pode ser ao mesmo tempo europeu, espanhol e basco, «cidadao do mundo», «cosmopolita» e «transversal» num «mundo globalizado», ainda que sempre baixo a centralidade vertebradora de cultura espanhola. Resultaria tarefa fácil descobrir as linhas de conexom de alguns destes «argumentos» com alguns dos tópicos antibasquistas do nacionalismo socialista espanhol de finais do século XIX e começos do XX. Os discursos de López, o usurpador, utilizam algum destes «argumentos» ou todos, segundo os casos,  misturando-os e fazendo questom de tal ou qual matiz, enquanto os partes de guerra de Ares e as expressons artificiosas de Sanz fam questom da repressom espanhola.

 

Cometeríamos um grave erro se só criticássemos a essência do nacionalismo espanhol, descuidando as suas várias formas externas. Nunca devemos descuidar o conteúdo ditatorial do espanholismo, mas também nom menospreciemos as formas externas que o ocultam ou suavizam com diferentes roupagens exteriores diluindo o seu reaccionarismo substancial. Na medida em que a recuperaçom e actualizaçom da memória basca demonstre a base reaccionária inamovível que sustenta a tramoia democraticista, cosmopolita e até progre de algumhas das aparências do nacionalismo espanhol e da sua memória ensanguentada, nesta medida debilitará-se a opressom nacional que padecemos e ao invés, na medida em que a violenta memória espanhola poda aparentar um pacifismo democraticista que nunca tivo nem terá, nessa medida reforçará-se a sua dominaçom. O mesmo há que dizer, com as óbvias diferenças, com respeito ao nacionalismo francês.

 

É em todo o relacionado com as prisioneiras e prisioneiros, com as pessoas que luitárom e sofrêrom repressom no passado, com essa enorme parte da cultura e da história vivas de nosso povo que nom podem desenvolver-se criativamente polas repressons múltiplas que sofre, é esta realidade a que mais precisa entender a memória como praxe, como acçom pensada e como pensamento activo. A memória como praxe é, por um lado, a história feita presente, libertada do silêncio e da censura, reivindicada e viva, e por outro lado, dialecticamente, é o presente e o futuro enraizados nas permanentes aspiraçons de liberdade do nosso povo. Os nacionalismos espanhol e francês som muito cientes deste conteúdo emancipador da memória basca e por isso obstinam-se em destruir com múltiplos métodos, destacando entre eles a política de extermínio das prisioneiras e prisioneiros bascos. Trata-se, portanto, de umha praxe polo nosso futuro.