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Em defesa das FARC

Quarta-feira, 18 Agosto 2010

Miguel Urbano Rodrigues

 

Subitamente, em Washington, Londres, Berlim e Paris, umha chuva de elogios caiu sobre a Colômbia. Um Estado policial, neofascista, mascarado de democracia, surgiu nas manchetes dos jornais de referência e no discurso dos estadistas do Ocidente como modelo para a América Latina.

 

Álvaro Uribe, o presidente que terminou o seu segundo mandato, foi nomeado co-presidente da comissom internacional criada pola ONU para levar adiante o inquérito sobre o ataque israelense à Flotilha da Liberdade. Simultaneamente, a prestigiada universidade de Georgetown, em Washington, convidou-no para dirigir, como catedrático, um curso de formaçom de dirigentes políticos.

Na posse de Juan Manuel Santos, o seu sucessor, comparecerom 16 chefes de Estado, na maioria da América Latina. Nom faltou o príncipe herdeiro da Espanha. Durante dias o novo presidente foi saudado polos grandes media ocidentais como um talentoso político democrático com um projecto inovador, decidido a imprimir à Colômbia umha orientaçom diferente da uribista, introduzindo no país reformas profundas.

 

Todos estavam conscientes de que mentiam.

 

O discurso de Santos é diferente, mas a politica de terrorismo de estado vai prosseguir sob os aplausos dos EUA e da oligarquia mais reaccionária da América Latina.

 

Para a Casa Branca a Colômbia actual é umha democracia quase exemplar. O presidente foi também saudado com particular entusiasmo por Israel, íntimo aliado.

 

Umha hipocrisia inocultável foi o denominador comum na apologia do herdeiro de Uribe polos príncipes do capital.

 

De repente simularom esquecer o currículo de Juan Manuel Santos [1].

 

O sucessor de Uribe é um aventureiro da política e um criminoso cujas palavras mansas escondem um passado tenebroso.

 

JMS foi o principal responsável, como ministro da Defesa, do ataque pirata da força aérea e do exército colombianos ao acampamento de Sucumbio no Equador, realizados com a cumplicidade do Pentágono, da CIA e da Mossad isrealense em Fevereiro de 2008. Nesse bombardeamento morrerom o comandante Raul Reyes, responsável polas Relaçons Exteriores das Forças Armadas Revolucionarias da Colômbia – Exército Popular, duas dezenas de combatentes da organizaçom, e três jovens mexicanos que ali se encontravam.

 

O presidente do Equador, Rafael Correa, respondeu ao acto de barbárie rompendo as relaçons com o governo de Bogotá e a Justiça equatoriana exigiu a extradiçom de Juan Manuel Santos para ser julgado como primeiro responsável polo crime. O processo nom foi avante porque Uribe alegou incompetência do tribunal do Equador para julgar ao seu ministro.

 

Transcorrido um ano, tivem a oportunidade de falar em Caracas com um jovem que assistiu ao bombardeamento e à posterior descida no acampamento de tropas aerotransportadas. Nom esquecim o relato que ele fijo da matança dos guerrilheiros, feridos, que tinham sobrevivido ao bombardeamento. Contrariamente ao que os media noticiarom, morrerom combatendo.

 

O processo foi agora arquivado porque, sendo chefe de Estado, JMS goza de impunidade, mas julgo útil recordar que ele se orgulha de ter sido o autor intelectual da chacina de Sucumbio.

O alvo: as FARC-EP

Dos presidentes do México, do Peru, do Chile eram esperadas as homenagens a Santos.

 

Mas, estranhamente, presidentes como Lula, Cristina Kirchner, Mauricio Funes e Fernando Lugo nom somente aderirom ao coro de elogios como manifestaram o seu apoio à chamada política de «segurança democrática» iniciada por Uribe e cuja continuidade foi defendida pelo novo presidente.

 

Mais, aproveitarom a oportunidade para criticar as organizaçons insurgentes e sugerir que as FARC-EP e o ELN abandonem a luita e se integrem no sistema, aceitando dialogar com Santos nas bases por este definidas.

 

Particularmente inesperada foi a posiçom assumida por Hugo Chávez. O presidente da Venezuela deslocou-se a Santa Marta, no Caribe colombiano, e, na casa onde Bolívar faleceu, trocou abraços com Santos, assinou acordos e assumiu compromissos que, pola forma e polo conteúdo som chocantes.

 

Compreende-se que Chávez pretenda normalizar as relaçons com a Colômbia após a ruptura resultante da ultima provocaçom de Uribe (2). Mas usou umha linguagem muito infeliz ao referir-se às organizaçons revolucionárias que combatem o estado neofascista colombiano, sugerindo na prática que se submetam às exigências de JMS. Colocou as FARC-EP e o ELN no mesmo plano dos bandos criminosos do paramilitarismo e dos cartéis do narcotráfico.

 

AS FARC tenhem afirmado repetidamente a sua disponibilidade para dialogar com o governo sobre a necessidade de paz no país.

 

Mas qual é o conceito de dialogo de Santos, exaustivamente exposto durante a campanha eleitoral e no seu discurso de posse?

 

Três som as suas condiçons para o diálogo com as FARC:

Deposiçom prévia das armas; libertaçom imediata de todos os presos no seu poder; e «renúncia ao narcotráfico».


Que significam essas exigências?

Que Santos nom quer dialogar; exige, sem o dizer expressamente, a capitulaçom incondicional das FARC-EP.

 

Se a guerrilha depusesse as armas previamente, ficaria à mercê do Poder oligárquico.

 

Cabe lembrar o genocídio político dos anos 80.

 

Em Março de 1984 as FARC aceitarom a proposta do presidente Belisario Bettencourt para luitarem no quadro das instituiçons ditas democráticas, renunciando à luita armada. E que aconteceu?

Fundou-se um partido progressista, a Uniom Patriótica, que participou em eleiçons. A UP elegeu muitos senadores, deputados, autarcas. A resposta do Poder foi umha repressom política bárbara. Em três anos forom assassinados mais de 3.000 parlamentares, juízes, autarcas, dirigentes sindicais, supostamente ligados às FARC, num genocídio político sem precedentes.

 

Para sobreviverem, as FARC retomarom a luita armada.

 

Até a questom dos prisioneiros é colocada capciosamente por Santos. Reclama todo sem oferecer nada em troca.

 

Pessoalmente, desaprovo os sequestros. Mas nom poido ignorar que o governo mantém nos seus presídios, em condiçons sub humhanas, milhares de guerrilheiros. E recusa-se ao intercâmbio humanitário, isto é, a libertaçom de umha parte desses presos, trocando-os por «reféns» –a maioria dos quais militares capturados em combate– em poder das FARC-EP.

 

Nas fossas de La Macarena, na Amazónia, recentemente descobertas, forom encontradas as ossadas de milhares de cidadaos assassinados polo Exército da oligarquia durante as perseguiçons contra pessoas suspeitas de ligaçons com a Uniom Patriótica e as FARC-EP.

 

Como confiar na palavra de Juan Manuel Santos, o responsável pola chacina de Sucumbio?

 

Estou certo de que Chávez nom tardará a arrepender-se de ter acreditado na promessa de umha relaçom «transparente, democrática e respeitosa» feita por um politico corrupto e criminoso que, inevitavelmente, vai dar continuidade à estratégia agressiva e de ultra direita imposta por umha oligarquia de cujos interesses é o representante na Casa de Narinho.

 

Surpreende também que, sendo hoje Hugo Chavez na América Latina o pioneiro, quase o motor, da contestaçom ao imperialismo –polo que merece o apoio e admiraçom das forças progressistas do Continente– nom tenha levantado em Santa Marta o tema da instalaçom de 7 novas bases militares dos EUA na Colômbia. Esquecendo que na UNASUL afirmou que essas bases configuram umha ameaça inadmissível à independência dos povos da América Latina, afirmou que cada país tem o direito soberano de decidir sobre problemas como esse.

 

Heróis da América Latina

Inspira-me repugnância a terminologia utilizada polo governo e o Exército da Colômbia para designar as FARC-EP, terminologia alias perfilhada pola ONU, pola Uniom Europeia e os media dos EUA e da Europa.

 

Alem de terroristas é lhes colado o anátema de narcotraficantes.

 

O slogan «guerrilha do narcotráfico» –expressom forjada por um ex embaixador dos EUA, Louis Stamb, ligado ao Pentágono e à CIA– para desacreditar as FARC, difundido urbi et orbi atingiu o seu objectivo tam amplamente que inclusive intelectuais comunistas assimilarom a calúnia. A campanha é de tal intensidade que canais de televisom e jornais se referem rotineiramente a «fábricas de cocaína» instaladas polas FARC na selva amazónica.

 

Tivessem as FARC acumulado milhons com o narcotráfico e disporiam de mísseis terra-ar como as organizaçons de resistentes no Afeganistám e no Iraque. Ora o próprio governo de Bogotá reconhece que elas nom disponhem de armamento desse tipo. Mas somente aqueles que conhecem as condiçons de pobreza em que vivem na clandestinidade os representantes das FARC no exterior –é o meu caso– sabem que o folhetim da «guerrilha do narcotráfico» é umha perversa invençom do imperialismo.

 

A vida abriu-me a oportunidade de passar semanas num acampamento das FARC, no Departamento amazónico do Meta. Nesses dias conheci combatentes maravilhosos como Simon Trinidad, entregue por Uribe aos EUA e actualmente preso ali após três julgamentos de farsa (dous forom anulados). Condenarom-no finalmente por narcotraficante, a ele, ex banqueiro, membro de umha rica família aristocrática.

 

Foi também entom que construí umha relaçom de respeito e admiraçom que evoluiu para a amizade com o comandante Raul Reyes. Mantivemos contacto até que o assassinarom em Sucumbio, a sul do Putumhayo, no bombardeamento pirata concebido por Juan Manuel Santos.

 

Com Manuel Marulanda, o fundador das FARC, falei umha única vez por breves minutos. Mas guardo desse revolucionário, comunista exemplar e estratego militar talvez sem par na História da América, umha lembrança inesquecível.

 

Quando leio acusaçons infames contra os combatentes das FARC recordo sobretodo Rodrigo Granda, aliás Ricardo González, amigo fraternal e um dos revolucionários mais puros e autênticos que a vida me permitiu conhecer.

 

Recordando combatentes das FARC-EP, mortos, presos ou luitando nas montanhas e selvas do seu país, é natural, repito, que me inspirem repugnância os elogios hipócritas a um criminoso como Juan Manuel Santos.

 

É a esse ser abjecto que a burguesia internacional rende nestes dias homenagens enquanto despeja calúnias sobre os comandantes das FARC que se batem por umha Colômbia livre e democrática.

 

Umha certeza: os nomes de Uribe e Santos e da escória humana que os apoia serám esquecidos polas futuras geraçons.

 

Nom os de Manuel Marulanda, Jacobo Arenas, e Raul Reyes. Com o passar dos anos, a calúnia deixará de os atingir. Eles contribuírom para a construçom da História profunda, na fidelidade a valores permanentes da condiçom humhana. Assumirom os ideais polos quais viverom e se baterom heróis tutelares da Latina como Bolívar, Artigas, Marti.

 

1. Juan Manuel Santos pertence a umha das famílias mais influentes da oligarquia colombiana. Seu tio avô, Eduardo Santos, foi Presidente da República e director e proprietário de El Tiempo, um dos principais diários da América Latina. Foi ministro da Indústria, da Fazenda e da Defesa em vários governos, tendo desempenhado um papel importante na destruiçom da Segurança Social ao impor o modelo pinochetiano. Opujo-se inicialmente à reeleiçom de Uribe, mas depois fundou o partido, La U, que o apoiou e reelegeu.

Manteve muitos contactos com Carlos Castaño, o falecido chefe dos paramilitares e com Pablo Escobar, o rei da cocaína, também falecido.

 

2. A Colômbia foi nos últimos anos o principal parceiro económico da Venezuela após os EUA (7.000 mil milhons de dólares de intercambio comercial em 2008). Nos departamentos fronteiriços vivem centenas de milhares de colombianos, sobretodo camponeses, e essa comunidade cumpre um papel fundamental na agricultura venezuelana.

 

 

V N de Gaia, 12 de Agosto de 2010

 

Fonte: Resistir