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A tendência à barbárie e as perspectivas do socialismo

Quinta-feira, 5 Agosto 2010

 

As sociedades ocidentais e os Estados estám-se deslocando inexoravelmente para condiçons semelhantes à barbárie; mudanças estruturais estám revertendo décadas de bem-estar social e sujeitando o trabalho, os recursos naturais e as riquezas das naçons à exploraçom bruta, à pilhagem e ao saque, rebaixando os padrons de vida e causando descontentamento num nível sem precedentes.

 

Inicialmente, descreveremos os processos económicos, políticos e militares que venhem abrindo este caminho à decadência e à decomposiçom social, e a seguir mostraremos a reacçom das massas populares à deterioraçom das suas condiçons de vida. As profundas mudanças estruturais que acompanham a ascensom da barbárie constituirám a base para considerar as perspectivas para o socialismo no século XXI.

 

A crescente onda de barbárie

Nas sociedades antigas, a “barbárie” e os seus portadores -os “bárbaros” invasores- fôrom vistos como umha ameaça vinda das regions periféricas de Roma ou Atenas. Nas sociedades ocidentais contemporâneas, os bárbaros venhem de dentro, da elite, com a intençom de impor umha nova ordem que corrói o tecido social e a base produtiva da sociedade, convertendo meios de subsistência estáveis em condiçons deterioradas e inseguras da vida quotidiana.

 

A chave para a barbárie contemporânea encontra-se nas estruturas internas do Estado imperial e da economia. Estas incluem:

1. A ascensom de umha elite financeira e especulativa, que tem saqueado trilhons de dólares dos poupadores, investidores, mutuários, consumidores e do Estado, subtraindo enormes recursos da economia produtiva e colocando-os nas maos da camada parasitária aninhada no Estado e nos mercados financeiros.

 

 2. A elite política militarista, que vem supervisionando um estado de guerra permanente desde meados do século passado. Terror de Estado, guerras intermináveis, assassinatos em zonas fronteiriças e a suspensom das garantias constitucionais tradicionais levarom à concentraçom de poderes ditatoriais, prisons arbitrárias, torturas e à negaçom do habeas corpus.

 

3. Em meio a umha profunda recessom económica e estagnaçom, os altos gastos do Estado na construçom de um império econômico e militar, a expensas da economia nacional e dos padrons de vida, reflectem a subordinaçom da economia local às actividades do Estado imperial.

 

4. A corrupçom desde o topo, visível em todos os aspectos da actividade do Estado -desde as aquisiçons de bens e serviços até a privatizaçom e os subsídios para os super-ricos- incentiva o crescimento do crime internacional de cima para baixo, a lumpenizaçom da classe capitalista e um Estado onde a lei e a ordem se encontram em descrédito.

 

5. Resultantes dos elevados custos de construçom do império e da pilhagem da oligarquia financeira, os encargos sócio-econômicos recaem directamente sobre os ombros dos trabalhadores assalariados, aposentados e trabalhadores por conta própria, determinando umha grande mobilidade descendente na escala social ao longo do tempo. Com a perda de empregos e o desaparecimento das posiçons mais bem remuneradas, as retomadas de casas polos bancos crescem exponencialmente e as classes médias, antes estáveis, encolhem, e os trabalhadores som forçados a alargar as suas jornadas de trabalho diárias e a trabalhar durante um maior número de anos.

 

6. As guerras imperiais, que se espalham polo mundo e som direccionadas a populaçons inteiras, que sofrem com os bombardeios e as operaçons clandestinas de terror, geram, em oposiçom, redes terroristas, que também atingem alvos civis nos mercados, transportes e espaços públicos. O mundo vai-se parecendo ao pesadelo hobbesiano de “todos contra todos”.

 

7. Um crescente extremismo etnorreligioso ligado ao militarismo é encontrado entre os cristiaos, judeus, muçulmanos e hindus, que substitui a solidariedade de classe internacional por doutrinas de supremacia racial e penetra as estruturas profundas dos Estados e das sociedades.

 

8. O desaparecimento dos Estados europeus e asiáticos de bem-estar social colectivo –nomeadamente, a ex-URSS e a China- levantou as pressons competitivas sobre o capitalismo ocidental e o encorajou à revogaçom de todas as concessons de bem-estar social obtidas pola classe trabalhadora no período pós-II Guerra Mundial.

 

9. O fim do “comunismo” e a integraçom da social-democracia ao sistema capitalista levarom a um enfraquecimento severo da esquerda, que os protestos esporádicos dos movimentos sociais nom conseguirom substituir.

 

10. Diante do actual assalto às condiçons de vida dos trabalhadores e da classe média, só se venhem protestos esporádicos, no melhor dos casos, e impotência política, no pior.

 

11. A exploraçom maciça do trabalho nas sociedades capitalistas pós-revolucionárias, como a China e o Vietnám, compreende a exclusom de centenas de milhons de trabalhadores migrantes dos serviços públicos elementares de educaçom e saúde. A pilhagem sem precedentes e a captura, por oligarquias nacionais e multinacionais estrangeiras, de milhares de lucrativas empresas públicas estratégicas da Rússia, das repúblicas da ex-Uniom Soviética, dos países da Europa Oriental, dos Bálcáns e dos países bálticos, foi a maior transferência de riqueza pública para maos privadas, em curto espaço de tempo, em toda a História.

 

Em resumo, a barbárie surgiu como umha realidade definida, produto da ascensom de umha classe dominante financeira parasitária e militarista. Os bárbaros encontram-se aqui e agora, presentes dentro das fronteiras das sociedades ocidentais e os seus Estados. Eles governam e perseguem agressivamente umha agenda que está continuamente a reduzir os padrons de vida, a transferir a riqueza pública para os seus cofres privados, a pilhar recursos públicos, a violar direitos constitucionais no exercício das suas guerras imperiais, a segregar e perseguir milhons de trabalhadores imigrantes e a promover a desintegraçom e o desaparecimento do trabalho estável e de classe média. Mais do que em qualquer outro momento na história recente, 1% mais rico da populaçom controla umha parcela crescente das riquezas e das rendas nacionais

 

 

Mitos e realidades do capitalismo histórico

A retirada, em grande escala e de forma sustentada, dos direitos sociais e previdenciários, da segurança no emprego, e as reduçons de salários e aposentadorias, demonstram a falsidade da ideia do progresso linear do capitalismo. Essa reversom, produto do poder ampliado da classe capitalista, demonstra a validade da proposiçom marxista de que a luita de classes é o motor da História –na medida em que, polo menos, a própria condiçom humana é considerada como a sua peça central.

 

A segunda premissa falsa –a de que os estados organizados em “economias de mercado” tenhem como pré-requisito a paz, tendo como corolário a ascendência dos “mercados” sobre o militarismo– é refutada polo facto de que a principal economia de mercado –os Estados Unidos– tem permanecido em constante estado de guerra desde o início da década de 1940, estando activamente engajada em guerras em quatro continentes, até os dias de hoje, e com perspectiva de novas, maiores e mais sangrentas guerras no horizonte. A causa e conseqüência da guerra permanente é o crescimento de um monstruoso “Estado de segurança nacional” que nom reconhece fronteiras nacionais e absorve a maior parte do orçamento do país.

 

O terceiro mito do “capitalismo avançado maduro” é o de que este sempre revoluciona a produçom através da inovaçom e da tecnologia. Com a ascensom da elite financeira especulativa e militarista, as forças produtivas fôrom saqueadas e a “inovaçom” é em grande parte direccionada à elaboraçom de instrumentos financeiros que exploram os investidores, reduzem os activos e acabam com o trabalho produtivo.

 

Enquanto o império cresce, a economia local se contrai, o poder está centralizado no Executivo, o poder legislativo é reduzido e aos cidadaos é negada umha representaçom efectiva, ou mesmo o poder de veto através de processos eleitorais.

 

 

A resposta das massas ao aumento da barbárie

A ascensom da barbárie em nosso meio tem provocado revolta pública contra os seus principais executores. As pesquisas de opiniom tenhem reiteradamente encontrado:

 

1. Profunda aversom e revolta contra todos os partidos políticos.

 

2. Grande desconfiança, nutrida pola maioria da populaçom, contra a elite empresarial e política.

 

3. Rejeiçom, também pola maioria, da concentraçom de poder corporativo e do seu abuso, principalmente por parte dos banqueiros e financistas.

 

4. Questionamento amplo das credenciais democráticas dos líderes políticos que agem a mando da elite empresarial e promovem as políticas repressivas do Estado de segurança nacional.

 

5. Rejeiçom, pola grande maioria da populaçom, da pilhagem do Tesouro nacional para salvaçom dos bancos e da elite financeira, com a imposiçom de programas de austeridade regressivos sobre a classe média trabalhadora.

 

 

Perspectivas para o socialismo

A ofensiva capitalista tivo certamente um grande impacto sobre as condiçons objectivas e subjectivas da classe média trabalhadora, empobrecendo-a e provocando umha onda crescente de descontentamento pessoal, que ainda nom se traduziu em umha movimentaçom anticapitalista maciça, ou mesmo numha resistência dinâmica e organizada.

 

As grandes mudanças estruturais requerem um melhor entendimento das actuais circunstâncias adversas e a identificaçom de novas instâncias e meios onde se desenvolvem a luita de classes e de transformaçom social.

 

Um problema-chave é a necessidade de se recriar umha economia produtiva e reconstruir umha classe trabalhadora industrial após anos de pilhagem financeira e desindustrializaçom, nom necessariamente para as poluidoras indústrias do passado, mas certamente para novas indústrias que criem e utilizem fontes de energia limpa.

 

Em segundo lugar, as sociedades capitalistas altamente endividadas necessitam, fundamentalmente, sair do modelo de construçom imperial militarista de alto custo em direçom a um modelo de austeridade financeira baseado na classe e que imponha os sacrifícios e as reformas estruturais aos setores bancário, financeiro e comercial de grande varejo, que substitui a produçom local pola importaçom de artigos de consumo de baixo custo.

 

Em terceiro lugar, o enxugamento do sector financeiro e do comércio retalhista exige a melhoria das qualificaçons dos trabalhadores que serám deslocados ou desempregados, bem como mudanças no setor de TI, de forma a acomodar as próprias mudanças econômicas. Exige, também, a mudança de um paradigma -da renda monetária para o rendimento social- em que a educaçom pública e gratuita de alto nível, o acesso universal à saúde e as aposentadorias abrangentes substituirom o consumismo global financiado por dívidas. Isso pode-se tornar a base para o fortalecimento da consciência de classe contra o consumismo individual.

 

Esta é a questom: como passar de umha posiçom em que a classe trabalhadora se encontra fragmentada e enfraquecida e os movimentos sociais em recuo ou na defensiva, a umha posiçom em que seja possível lançar umha ofensiva anticapitalista?

 

Vários factores subjectivos e objectivos já permitem o trabalho nesse sentido. Primeiro, há umha negatividade crescente contra a grande maioria dos actuais operadores políticos e, em particular, contra as elites econômicas e financeiras que estám claramente identificadas como responsáveis polo declínio nos padrons de vida. Em segundo lugar, há o ponto de vista popular, compartilhado por milhons de pessoas, que os actuais programas de austeridade som claramente injustos -com os trabalhadores a pagar pola crise que a classe capitalista produziu. Até o momento, no entanto, estas maiorias som mais “anti”-status quo do que “pró”-transformaçom. A transiçom do descontentamento privado para a acçom coletiva é umha questom em aberto quanto a quem a desencadeará e como o fará, mas a oportunidade está presente.

 

Existem vários factores objectivos que podem deflagrar umha mudança qualitativa do descontentamento, deslocando-o da raiva passiva rumo a um maciço movimento anticapitalista. Um “duplo mergulho” na recessom, o fim da actual recuperaçom anémica e o início de umha recessom mais profunda e prolongada ou de umha depressom, poderia desacreditar ainda mais os governantes actuais e seus aliados econômicos.

 

Em segundo lugar, o aprofundamento interminável da austeridade poderá desacreditar a noçom actual, difundida pola classe dominante, de que os sacrifícios actuais som necessários para se obter ganhos futuros, abrindo as mentes e encorajando os corpos a se moverem à procura de soluçons políticas, de forma a alcançar ganhos no presente e infligir dor às elites económicas.

 

As inesgotáveis e “invencíveis” guerras imperiais que sangram a economia e a classe trabalhadora podem, em última análise, criar umha consciência de que a classe dominante oferece “sacrifícios” à naçom sem nengumha finalidade “útil”.

 

Provavelmente, o efeito combinado de umha nova etapa da recessom, a austeridade perpétua e as estúpidas guerras imperiais acabarom por transformar o mal-estar actual e a difusa hostilidade das massas contra a elite económica e política em favor dos movimentos socialistas, partidos e sindicatos.