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Marx hoje (e amanhá)

Terça-feira, 20 Julho 2010

Néstor Kohan

 

Umha espécie está em perigo de extinçom: a espécie humana! Fagocitando o planeta no seu conjunto, incluindo as diversas formas de vida social que o habitam, o capitalismo leva cinco séculos infatigáveis de perversa lida. Este monstro impiedoso, já velho e decrépito, tenciona arrastar ao seu túmulo toda a humanidade. Nom se trata de um indivíduo particular, mas de todo um sistema, um conjunto de relaçons sociais frias, anónimas e burocráticas no seio das quais as pessoas som só meios de lucro, ganho e acumulaçom. O mercado capitalista, que desde o seu nascimento aspirou a ser mundial, termina por engolir todo o planeta entre fins do século XX e começos do XXI. O mundo unifica-se. O american way of life transforma-se no único modo aceitável de (sobre)viver. Aqueles que nom o aceitarmos seremos considerad@s terroristas, subversivos, bandoleiros, fundamentalistas. Vam vigiar-nos. Vam incluir-nos nos index das novas inquisiçons e nas suas listas negras. Vam escuitar as nossas conversas. Vam ler a nossa correspondência. É lógico.

 

Nesse contexto totalitário de barbárie, vigiláncia e controlo generalizados, ressurgem as rebeldias, reaparece a indisciplina social, voltam os choques e confrontos com a polícia. E contra todos os vaticínios, retorna Marx.

 

Ainda hoje, os poderosos da Terra sentem um arrepio polas costas ao escutarem ou lerem o nome de Marx. Empresários e banqueiros, magnatas e financeiros, polícias e militares, compartilham o mesmo ódio contra o marxismo. Na televisom, nos diários, nas rádios e em qualquer meio de comunicaçom, os que tenhem poder e muitíssimo dinheiro nom cansam de insultar o marxismo. Porque será?

 

Há umha década, na mudança de milénio, escassos dez anos após a queda do Muro de Berlim e em plena crise do neoliberalismo, a BBC News On Line de Londres realiza umha votaçom polo site a pesquisar quais seriam “os dez pensadores maiores do milénio”. Participam e intervenhem jovens de todos os cantos do mundo e todos os idiomas. O resultado é inequívoco. A votaçom atribui o primeiro lugar a Karl Marx; seguido a boa distáncia de Albert Einstein, Isaac Newton, Charles Darwin, Santo Tomás de Aquino e Friedrich Nietzsche.

 

Dez anos após aquela votaçom e a vinte anos da queda do Muro, na Europa ocidental, na América Latina e no mundo todo, assistimos a um outro momento histórico. Já nom estamos como nos anos ’80 –em tempos neoconservadores de Thatcher, Gorvachov ou Reagan– nem a começos dos ’90 –naquela euforia neoliberal que fijo Framcis Fukuyama delirar com um reinado de mil anos para o capitalismo, pesadelo sombrio que também tinha sido sonhado por Hitler na sua melhor época.

 

Hoje em dia, generalizárom-se numerosas rebelions e resistências contra a chamada “nova ordem mundial”. Enquanto nos ’80 e primeiros ’90 o só acto de mencionar o termo “imperialismo” parecia anacrónico e caduco, hoje o debate voltou ao centro da agenda teórica e política. Até no meio de algumhas capitais europeias as pedras e os cocktails molotov ocupam o centro da cena política. De maneira análoga, a palavra “socialismo” retornou à esfera política pública (em torno dela hoje discute-se se na América Latina seria pertinente o socialismo clássico, o do século XXI ou qual. Venezuela é um desses palcos privilegiados, mas nom o único).

 

A antiutopia de um mundo capitalista eterno mete água. O barco das grandes corporaçons multinacionais ranje. O leme do FMI, do Banco Mundial e doutras instituiçons “filantrópicas” gira sem ponto fixo nem farol à vista no meio do oceano de crises generalizadas por todo o lado. Mesmo o euro, moeda tam sólida noutro momento, começa a abalar. E Marx continua aí. Com um sorriso zombador entre os lábios. O seu livro O Capital voltou a ser um best seller.

 

Nom se trata hoje do “regresso” do Marx caricato da vulgata stalinista, facilmente refutável (por isso mesmo sempre presente nas impugnaçons académicas). Tampouco retorna o Marx economicista que só sabe balbuciar a língua do funcionamento do mercado e a acumulaçom, mas nom pode pronunciar umha só palavra inteligível sobre o poder, a política, a dominaçom, a hegemonia, a cultura e as subjectividades.

 

O Marx que retorna a cena, e que nós tomamos como inspirador, conselheiro e guia, é o que alimentou os incêndios mais difíceis de apagar. O que alentou historicamente as aspiraçons mais radicais dos condenados e vilipendiados da terra. Nom interessa se satisfai ou nom o gosto disciplinado que conseguiu instalar como horizonte fechado o pensamento único dos nossos dias (que nom desapareceu ainda que agora esteja na moda cuspir sobre o neoliberalismo). A volta de Marx –das suas problemáticas, de suas hipóteses, das suas categorias, dos seus debates e até da sua linguagem– nom depende das normas que ordenam a agenda das ONGs nem do reconhecimento que atribuem as fundaçons académicas, subsidiadas polas grandes empresas, mas de umha ebuliçom social generalizada e já inocultável em escala global. Incluindo as grandes capitais europeias. Também ali há e haverá incêndios… Acabou a época em que a juventude europeia, progressista e bem intencionada, procurava solidarizar-se com algumha boa e longínqua causa do terceiro mundo para nom se sentir vazia e encontrar um sentido à sua vida. Nom estará na hora de alimentar a rebeldia e o confronto directo também no primeiro mundo?

 

O variado e colorido leque de luitas radicais, valiosas por si próprias, mas ainda dispersas e fragmentadas, ainda nom conseguiu conformar umha coordenaçom ou umha frente comum que as agrupe organicamente em escala internacional contra o capitalismo e o imperialismo. Os Foruns Sociais Mundiais fôrom umha primeira tentativa de diálogo, mas ainda demasiado fraca e cada vez mais light. Sobrevive a dispersom, a fragmentaçom e a falta de umha autêntica coordenaçom que permita elaborar estratégias comuns no longo prazo. Em termos políticos, essa segmentaçom resta força às reivindicaçons. Reconhecê-lo como umha insuficiência e umha debilidade –julgamos nós que transitória– constitui um passo obrigatório e necessário se o que se pretende é avançar colectivamente com novos fôlegos para maiores níveis de confronto contra o sistema capitalista do imperialismo contemporáneo em escala mundial.

 

A crise que vivemos actualmente nom só é económica, também é política, cultural, ecológica, energética, em suma, civilizatória. Mas da crise, como bem ensinárom Lenine e Gramsci, nom deriva automaticamente “o derrube” do capitalismo e muito menos o socialismo. Nunca tivo nem terá “derrube” sem revoluçom e sem intervençom subjectiva. Tem razom o Che Guevara nos seus Apontamentos críticos à economia política (grosso volume, publicado em 2006, onde discute de economia política com os soviéticos): o famoso e sempre citado “choque entre forças produtivas e relaçons de produçom” só se desencadeará através da intervençom política dos povos e em particular dos trabalhadores. Nom fai sentido sentarmos à espera desse choque, nem ficarmos sentados para ver passar o caixom do inimigo em frente da porta da nossa casa.

 

Para dar conta desse horizonte com que se abriu no novo milénio em escala mundial, nom há melhor companhia que Karl Marx. Esteja ou nom de moda nas grandes academias. Digam o que dixerem os grandes empórios de desinformaçom.

 

A necessidade de reinstalar a discussom e o debate sobre Marx na agenda contemporánea dos movimentos sociais, as organizaçons políticas e as ciências sociais torna-se umha urgência inadiável. Nom esqueçamos que durante o último quartel do século XX predominou no terreno do pensamento social um leque de relatos principalmente o pós-modernismo, o pós-estruturalismo e o pós-marxismo– que conduzírom ao abandono de todo horizonte crítico radical e à deslegitimaçom de todo questionamento da sociedade capitalista.

 

O marxismo, em tanto filosofia da praxe, concepçom materialista da história, teoria crítica e estratégia política de hegemonia, nom pertence ao mundo do Jurasic Park. Recordemos que Jacques Derrida, pai do “deconstrucionismo”, dedica Espectros de Marx ao autor do Capital em 1993, convidando a retomar esse programa injustamente esquecido. E Derrida dedica o seu livro nada menos que a Cris Hani, quadro militar do comunismo da África do Sul assassinado polos neonazis (no mesmo país em que hoje se joga o Mundial de futebol). Hoje em dia, Gianni Vattimo, outro dos progenitores do “pensamento débil” pós-moderno, farto do capitalismo e do mercado, no seu recente Ecce comu. Como se chega a ser o que se era (2009) convida-nos a recuperar o comunismo como horizonte de vida. Isto é que até os principais e mais famosos popes das metafísicas “pós”, depois de batalharem durante anos contra O Capital, vinhérom a reconhecer que Marx e o marxismo continuam a ser o horizonte insuperável da nossa época.

 

Nom som delírios. Nom som loucuras. O marxismo constitui umha ferramenta imprescindível para dar umha perspectiva no longo prazo aos mal-estares, as luitas, os protestos e as rebeldias contemporáneas. Em tanto teoria de hegemonia o marxismo permite unir o diferente sem o esmagar, articulando um arco multicor contra um mesmo inimigo: o capital, um modo de exploraçom e dominaçom, ou seja, umha forma de vida que termina sendo na realidade inimiga de toda forma de vida no planeta.

 

O desafio, entom, tanto teórico como prático, consiste em tratar de consolidar a oposiçom radical ao capitalismo construindo a partir dos ensinamentos de Marx certo grau de organicidade entre os movimentos sociais e políticos. Só com a espontánea comunicaçom virtual (via email, facebook ou o que seja) ou as redes voláteis já nom dá. Continuam a ser úteis mas… insuficientes. Jogárom um grande papel, importantíssimo e insubstituível, durante a primeira fase da resistência ao neoliberalismo, quando se vinha do dilúvio e a dispersom absoluta. Mas hoje já nom é suficiente. A oposiçom ao sistema, se pretender ser eficaz e modificar realmente as relaçons sociais de força a nível regional, nacional e mundial, entre opressores e oprimidos/as, entre exploradores e explorados/as, deve assumir o desafio de construir força social e bloco histórico, tendendo para a convergência das mais diversas emancipaçons contra as mesmas relaçons sociais do capital. Para isso, torna-se necessário e impostergável, nom só no ámbito da discussom das ciências sociais, como também na agenda política, recuperar a radicalidade de Marx e tirar-lhe todo o pó cinzento, encardido e burocrático que se depositou sobre os seus ombros na hora do derrube do muro de Berlim.