Abrente

Ediçons digitais da publicaçom trimestral do nosso partido

Documentaçom

Textos e outros documentos políticos e informativos de interesse

Ligaçons

Sites recomendados de ámbito nacional e internacional

Opiniom

Artigos assinados sobre temas de actualidade galega e internacional

Video

Documentos audiovisuais disponíveis no nosso portal

Home » Notícias, Opiniom

Petróleo, o combustível do motor capitalista

Sábado, 1 Março 2003

André Seoane Antelo

No passado 19 de Novembro de 2002, o buque monocasco Prestige afundia a 250 quilómetros da costa galega provocando a maior catástrofe ecológica que recorda o nosso país. No seu interior achavam-se 80.000 toneladas de fuel-oil, um derivado do petróleo destinado a ser empregue como combustível em plantas energéticas ou para a navegaçom, que em grande parte acabárom asfaltando umha considerável extensom do litoral galego. Incompetência governamental, descoordenaçom, péssimas condiçons climátericas… muitas fôrom as causas que agravárom a catástrofe, mas no fundo só há umha que permite entender porque um barco, em lamentáveis condiçons técnicas, passeava polo Atlántico Norte com umha carga perigosa sem um rumo definido. Tam só a lógica do lucro capitalista poderia explicar porquê um barco com bandeira das Baamas, propriedade dumha companhia liberiana, ao mando dum capitám grego, com tripulaçom filipina, que transportava combustível propriedade dumha empresa registada na Suíça, mas que pertence a umha multinacional de capital russo, que navegava sem destino fixado, à espera da ordem definitiva que lhe indicasse o porto em que deveria descarregar; pudesse naufragar e deitar ao mar milhares de toneladas dum produto altamente poluente, sem que até o dia de hoje os responsáveis directos fossem punidos de forma nengumha. E, lamentavelmente, o que se passou foi o normal, o que tinha que se passar, já que o ordenamento actual da indústria do petróleo a nível mundial provoca que quem comercia com umha das mercadorias mais importantes, a mais importante, para o bom funcionamento da economia mundo goza dumha impunidade praticamente absoluta na hora de estabelecer em que condiçons transporta e vende a carga de que é dono. A fim de contas, umhas quantas centenas de quilómetros de costa arrasada, uns poucos milhares de seres humanos com a sua fonte de sustento destruída, ou um pequeno país ao qual se lhe destruem ou danam seriamente os alicerces da sua economia produtiva, é um preço baixo que há que pagar para manter também baixos os preços do petróleo e os seus derivados. A pergunta que se fam os amos do petróleo é simples: o quê resulta mais caro, estabelecer toda umha série de medidas de segurança que obrigariam a mudar radicalmente o sistema de transporte do petróleo, encarecendo-o dum jeito obrigado; ou assumir a possibilidade da existência de acidentes que provoquem graves crises ecológicas e económicas, mas que só se cingem a áreas restritas? Evidentemente, aplicando a lógica do lucro imediato, própria do capitalismo, a opçom menos má é a segunda.


O PETRÓLEO NA PRODUÇOM INDUSTRIAL CAPITALISTA

Para compreendermos perfeitamente o contexto em que nos achamos, devemos começar por ser conscientes do papel central que joga o petróleo no nosso mundo, derivado da sua importáncia como fonte de energia e matéria prima. Bastaria só um dado: 65% da energia que se comercializa no mundo provém do petróleo ou do gás que se encontra nos mesmos jazigos, para situar o petróleo como a mais importante matéria prima das empregues na actualidade, mas nom se trata apenas de energia. Com apenas dar umha vista de olhos à nossa volta descobrimos que vivemos rodead@s de petróleo: lubrificantes, asfalto, plásticos, parafinas, fibras sintéticas; para além da gasolina, querosene, gasóleo que consumem os meios de transporte que empregamos, ou o gás e o fuel que consumem as instalaçons de aquecimento dos nossos lares. Desde a carcassa e a maioria das componhentes internas do computador que estou a empregar para escrever este artigo, passando por boa parte das fibras têxteis empregues na elaboraçom da roupa que levo, ou o pavimento das ruas por que caminho a diário, etc… todos estes elementos estám elaborados fundamentalmente com derivados do petróleo. Nom resulta difícil deduzir que esta matéria prima, o chamado ouro preto, ocupa um papel central, nesta altura praticamente insubstituível, na produçom industrial mundial.

E dizemos bem quando afirmamos que nesta altura o papel do petróleo é praticamente insubstituível, já que nom há nengumha outra matéria prima conhecida tam versátil. Há, com certeza, substitutos parciais, quer dizer, toda umha série de alternativas para cada um dos papéis cumpridos polo petróleo na produçom industrial capitalista, mas nengum que abranja todos os usos actuais. A ninguém escapa que os custos que haveria que assumir para achar substitutos viáveis a todas e cada umha das funçons que cumpre hoje em dia o petróleo som muito elevados. Mas tampouco podemos esquecer que as grandes companhias petroleiras nom estám dispostas a permitir o surgimento de alternativas ao produto que monopolizam, umha vez que isso suporia umha ameaça muito grave para a manutençom da sua taxa de benefícios, ainda sendo plenamente conscientes de que o petróleo é umha matéria prima que mais cedo que tarde acabará por esgotar-se e que os custos ecológicos do seu emprego som muito elevados.

O petróleo foi ganhando essa centralidade na produçom industrial num processo que começa na metade do século XIX, quando nos EUA começam a ser explorados os primeiros poços. Desde entom, a indústria petroleira foi-se desenvolvendo, abarcando, com um constante crescimento geométrico, cada vez umha maior extensom geográfica e um mais amplo abano de aplicaçons práticas. Se num primeiro momento o uso do petróleo se destinava fundamentalmente à elaboraçom de combustível para a iluminaçom, cinqüenta anos mais tarde já passou a ser utilizado como recurso energético fundamental, deslocando o carvom, para converter-se no século XX no amo e senhor nom só da produçom energética, como também da maior parte da indústria química. Este crescimento de aplicaçons práticas respondeu ao desenvolvimento combinado das capacidades científicas e do poder económico das grandes companhias petroleiras. Poder que nom fijo outra cousa que crecer nos últimos 150 anos até se converter num dos principais sectores do capital mundial, possivelmente no que mais e melhor simboliza a aparente omnipotência do capitalismo. Lembremos, ainda que poda parecer anedótico, que a primeira vez que um Estado capitalista se viu obrigado a legislar para regulamentar o processo de acumulaçom de capitais foi quando o governo dos EUA ditou as leis anti-trust dirigidas a controlar o excessivo poder da Standard Oil, leis que datam da segunda década da centúria passada.

Mas a tentativa de dissolver, ou quando menos esbater, o crescente poder da indústria do petróleo desenvolvido a começos do século XX nom tivo maior sucesso; possivelmente porque o objectivo nom era outro que o de estabelecer umhas normas de jogo que permitissem um maior crescimento afastando o perigo dum grande craque, mais factível no caso de existir umha única companhia monopolística. De facto, na actualidade a produçom, elaboraçom e distribuiçom do petróleo e os seus derivados, continua a estar nas maos de um punhado de multinacionais, das quais cinco repartem-se o grosso da torta, estas som Exxon-Mobil e Chevron-Texaco, de capital norte-americano; Total-Fina-Elf, de capital francês; BP-Amoco, de capital británico; e Royal Ducht-Shell, de capital anglo-holandês. Atrás destas cinco grandes, herdeiras das históricas sete irmás que já se repartiam os 90% da produçom mundial na década de vinte, aparecem outras companhias como a Repsol-YPF, de capital espanhol, ou a italiana ENI.


A POLÍTICA DOS AMOS DO PETRÓLEO

Que as grandes petroleiras que controlam a distribuiçom, produçom e comercializaçom do petróleo e os seus derivados, sejam companhias de capital radicado nos países do centro da economia mundo nom é nem muito menos um acaso, senom um facto que nom fai mais que reflectir nitidamente a lógica da rapina própria do imperialismo. Nom é nengum segredo que o interesse por controlar as principais fontes de petróleo estivo na origem de boa parte dos conflitos bélicos desenvolvidos nos últimos cem anos e, se o petróleo nom foi o detonante principal, quando menos tivo sempre umha importáncia estratégica. Já em datas tam temperás como a década de dez do século passado, as potências vencedoras na Grande Guerra repatírom-se a seu bel-prazer as concesons de exploraçom petrolífera em Oriente Médio, que já naquela altura despontava como a maior área produtora do Planeta. Hoje as cousas tenhem mudado bem pouco e os intereses dos amos do petróleo aparecem por trás das guerras do Afeganistam ou o Iraque, e na manutençom dos regimes ditatoriais imperantes na maioria dos países produtores.

Detendo-nos nalgum destes casos particulares, poderemos tirar umha ampla série de ensinanças que nos podem ilustrar dum jeito bem nítido como as democracias ocidentais actuam quando está em jogo a manutençom dum alicerce fundamental da sua preeminência económica. Começando pola recente intervençom militar no Afeganistam, deveríamos reparar que só uns meses após o remate oficial do conflito o governo títere, imposto polos EUA, assinou um compromisso polo qual permite a construçom no seu território dum oleoduto que, ligando com o Turquemequistám, transportaria o petróleo dos jazigos do Mar Cáspio até os portos paquistaneses. O que, traduzido a umha linguagem comum, significa que o petróleo do Cáspio, umha das mais importantes reservas mundiais, passaria de estar sob controlo quase exclusivamente russo, a ser directamente extraído e comercializado por companhias ianques. No caso do Iraque, a situaçom é ainda mais clara, já que nesse país se acham reservas de petróleo estimadas pola firma Platts (especializada em prospecçons) nuns 112.000 milhons de barris, número que o próprio ministério de energia do Iraque eleva até os 300.000. De desenvolver-se umha ocupaçom militar do Iraque por parte ocidental, os peritos indicam que, com a tecnologia ianque, a produçom anual de petróleo multiplicaria por três num prazo de dous anos, igualando quando menos o volume produtivo da Árabia Saudita. Tampouco pode surpreender o apoio prestado polos EUA e os seus aliados ocidentais à manutençom dos regimes ditatoriais imperantes na maior parte dos países do Oriente Médio; do Golfo da Guiné, onde destaca o caso da Nigéria, país que é um auténtico feudo das companhias Shell, Mobil e Chevron; ou da Indonésia.

Para explicar esta ánsia de predaçom petrolífera deveríamos lembrar que a dependência da produçom de petróleo por parte das grandes economias mundiais é realmente crítica. De facto, dos três grandes pólos de acumulaçom capitalista, só os EUA som um grande produtor, o maior do mundo, mas a sua própria capacidade produtiva nom basta nem tam sequer para cobrir 50% do consumo de petróleo da sua indústria; doutra parte, a velha Europa precisa de importar perto de 90% do petróleo que consume, e o Japom tem de importar 100%. Nestas condiçons, é lógico o pavor existente diante da perspectiva de voltar à situaçom da década de 70, quando os países integrantes da OPEP decretárom unilateralmente um aumento dos preços do crude, o que detonou umha crise económica ainda nom superada. Ante esta tessitura, a atitude que tomárom as grandes potências, nomeadamente os EUA, foi, numha chave interna adoptar umha política de acumulaçom de reservas que permitisse paliar um período de restriçom, e numha chave externa umha política abertamente intervencionista rumada a minar a emergência e a consolidaçom de regimes políticos de corte anti-imperialista e/ou nacionalista nos países produtores. Nom admira pois a política de apoio ao fundamentalismo islámico, com destaque para o waabismo da Arábia Saudita, como contra-peso dos projectos laicos nacionalistas inspirados no nasserismo. Política que tivo sucesso, especialmente na península Arábiga, apesar do relativo fracasso no Irám e das incertezas que provoca actualmente. Ou tampouco pode estranhar o medo à criaçom dum pólo anti-imperialista na América do Sul, que agrupe o Brasil, a Venezuela, o Equador e a Colômbia; o que explica a implicaçom dos EUA na revolta oligárquica anti-chavista e o cada vez maior interesse por intervir directamente no conflicto colombiano.

UM FUTURO PRETO

Só pensemos por um momento o que se passaria no nosso país, Galiza, e no conjunto da Uniom Europeia se de repente o fluxo de petróleo que as grandes multinacionais importam desde as áreas produtoras da periferia e vendem aqui, no centro da economia mundo, ficasse reduzido ou o seu preço aumentasse de jeito considerável. Imaginemos os preços dos combustíveis para viaçom e calefacçom multiplicados por quatro ou por cinco, ou umha escasseza de matéria prima que paralise a indústria química de elaboraçom de plásticos, pavimentos e fibras sintéticas. Evidentemente, umha tal situaçom provocaria um colapso económico absoluto que implicaria umha crise geral da nossa sociedade. Pois um cenário de tal calibre nom é algo tam afastado da realidade como pudesse parecer.

A lógica do capitalismo, com a sua característica visom curtoprazista, pretende paliar a possibilidade dumha crise petrolífera de grande calibre alargando a exploraçom de novos jazigos, como os do Golfo da Guiné, ou acrescentando a produtividade e embaratecendo os custos dos já existentes. Porém, isto nom deixa de ser um parche diante da perspectiva, já próxima, do esgotamento dos recursos petrolíferos. Com certeza, de nom produzir-se umha mudança radical e rápida, a crise da produçom de petróleo está ás portas, no breve prazo dumhas décadas. Crise que, de outra parte, muito facilmente poderia carecer de importáncia se som acertados os pronósticos que situam o limiar da crise ecológica que faria inabitável o nosso mundo nos próximos cinqüenta anos -crise de resto provocada em boa medida pola própria indústria do petróleo. Lamentavelmente o capitalismo situou-se num beco sem saída que só poderemos solventar ultrapassando o próprio capitalismo.


PAÍSES PRODUTORES DE PETRÓLEO INDEPENDENTES

EUA 7664

Rússia 7540

México 3330

China 3180

Noruega 3150

Reino Unido 2591

Canadá 2210

Brasil 1420

Angola 770


PAÍSES PRODUTORES MEMBROS DA OPEP

Arábia Saudita 7655

Irám 3270

Iraque 2800

Venezuela 2730

EAU 2020

Nigéria 1890

Kuwait 1885

Líbia 1340

Indonésia 1280

Argélia 740

Qatar 630


PAÍSES COM MAIOR CONSUMO DE PETRÓLEO

EUA 17735

Japom 5785

China 4010

Alemanha 2915

Rússia 2570

Coreia do Sul 2250

Canadá 1795

Itália 1970

França 1955

Reino Unido 1750

México 1690


As cifras exprimem a produçom diária em milhares de barris de petróleo.

Fonte: Instituto Nacional de Estatística, Geografia e Informática de México.