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Algumhas reflexons a respeito das classes médias e da sua ideologia

Sábado, 29 Novembro 2003

Domingos Antom Garcia Fernandes

“Os filósofos estám satisfeitos. Estes homes, produto da democracia burguesa, construem com reconhecimento quantos mitos ela está a demandar: elaboram umha filosofia democrática. Tal regime parece-lhes o melhor dos mundos possíveis (…) Estamos perante o final da história: as meditaçons cardinais estám cumpridas; Descartes, Rousseau e Kant vivirom xa; os grandes inventos estám consumados, os continentes explorados, as revoluçons concluídas (…), sentem com bastante claridade que tenhem a boa sorte de pensar, de ensinar e de viver no que chamariam de bom grado a sociedade social por excelência”.

De Paul Nizam em Os cans de guarda (1932)

“As indefiníveis classes médias: tornam a encontrar-se sob esta etiqueta o empregado e o quadro superior, o técnico e o advogado, o mestre e o professor de Universidade, e mesmo… certos dirigentes de empresa. Um duplo movimento atravessa todas estas categorias; por um lado, umha parte deles contestam um sistema do que som vítimas; polo outro, eles consideram-se parte que recebe dinheiro desse mesmo sistema. Daí o carácter ambivalente das suas relaçons com a burguesia e assimesmo com as classes populares”.

De Alaim Accardo em Le Monde Diplomatique (Dezembro de 2002)

O primeiro texto, editado recentemente com um prólogo de Serge Halimi, autor de Os novos cans de guarda (onde denuncia um jornalismo de reverência, dominado por grupos financeiros e por um pensamento de mercado), pode server mais de sete décadas depois para delatar estas democracias formais em que estamos imersos e os seus justificadores ou ideólogos. Lembrar o prologuista e o seu livro tem por objecto constatar que os mass media som hoje os grandes produtores da ideologia dominante e também reproduzir umha nota de redacçom da Revista Análise Empresarial, n° 33 (Abril de 2003) que di: “Este artigo- o titulo do mesmo é “Notícia dos cans de prensa no governo de Fraga” e o autor o jomalista Gustavo Luca de Tena- foi redigido para limiar do livro de Serge Halimi “Les nouveaux chiens de garde”. Umha vez conseguidos os direitos por umha editora galega, e com o original traduzido, o director da mencionada editora boicotou a sua publicaçom. A ver se o leitor adivinha o porquê”. Sobram comentários.

O fragmento de Alain Accardo, um dos discípulos mais próximos ao recentemente finado Pierre Bourdieu, conduz a umha vaga e apressada ideia das clases médias. Vaga, entre outras razons, porque, como bem analisou há uns quantos anos Étienne Balibar, é umha identidade, a de classe, muito real, mais muito ambígua. Acontece além disso que as classes baixas dum país podem ser médias noutro (a modo de exemplo: o nível económico e a precariedade laboral na Galiza situa nas classes médias profissons que na Catalunya pertenceriam às baixas). É de salientar também a relaçom dialéctica a respeito das classes altas e baixas.

Essas clases médias som um segmento de impotência de burguesia, que usam as baixas e ao lumpen no seu interesse. Em modo nengum pensam em diluir-se nas classes baixas e dim com farta freqüência que “ainda há classes”, que por fortuna nom somos todos iguais. Os seus ideais, verbalizados, que nom realizados (dificilmente estám em disposiçom de perder os seus privilégios por muito que discurseiem sobre democracia e horizontalidade) encaixam à perfeiçom no mundo existente, nom vam mais alô de tímidos reformismos, sobreestimam a mobilidade social, vivem sob a ilusom de revoluçom… No fundo esperam que nada aconteça que abale a sua situaçom acomodada. Protestan, mais consolidam o sistema, contribuem para que semelhe que há dissidência e pleno exercício das liberdades. Mudam o particular em universal. A generalizaçom -Declaraçom de Direitos Humanos, etc-, é um recurso para canalizar as divergências, para anular as diferênças, para liquidar o específico… As verdades absolutas, os princípios incontrovertíveis, som ideologias compartilhadas com as classes altas de cara a perpetuarem a hegemonia destas últimas. Colaboram assimesmo com as classes dominantes na conservaçom da ordem simbólica, diluem a consciência de exploraçom sob a falácia dos benefícios globais. Mesmo nom chegam a compreender em muitos casos (e a sua inconsciência muda-os em mais eficazes) os verdadeiros porquês das desigualdades e da sua reproduçom. A concorrência é assimilada a um imperativo natural. Podemos perguntar a nós próprios por que a luita em contra do neoliberalismo (eufemismo que tenta dissimular o capitalismo selvagem) nom está à altura da indignaçom que aparentemente amostram. Dam a entender que as cousas nom mudam porque os mais, nunca eles, som os nom dispostos (mesmo os mais da sua classe)… Som contra o consumismo, mas os seus hábitos som esbanjadores; som contra de entropia planetária, embora sejam eles ínclitos protagonistas; claman, já se indicou, em contra das hierarquias, mais no seu posto de trabalho e no seu salário nom renunciam a nengumha delas; o bode expiatório é a direita, mas nom lhes passa polo miolo que eles podam ser parte da mesma; a sua política de direitas mascara-se com fraseologia de esquerdas e nom desejam entender que umha mudança de govemo nom é umha mudança de sociedade… Concorrem na adesom dum povo ao seu próprio despossuimento (da economia, da paisagem, do tempo, do idioma. ..). Nom param mentes em pensar que luitar “no” sistema pouco tem a ver com a luita “contra” o sistema… Som partidários de todo o tipo de festas, que sempre dim que som para o povo. Pensam que o povo inculto precisa de mitos e crenças de que eles estám de volta… É o velho estratagema do poder: o “panem et circenses” (pam e jogos)… Talvez a social-democracia em versom centralista e noutras versons seja a expressom mais nítida desta “mediocracia” (é em relaçom com o capitalismo o que a monarquia constitucional a respeito das monarquias absolutas, umha maquilhagem do sistema).
De certo que o sistema capitalista nom é o inventor de instituiçons como a família, a educaçom, a arte, o trabalho, a ciência, etc., mas perpetua, nom corrige, mais bem agrava, as suas negatividades. O capitalismo das classes altas em conivência com as classes médias todo o mercadoriza, muda o bezerro de ouro em ídolo… E nesse trabalho de produçom simbólica joga um papel destacado a escola, mais por cima de todo os mass media… Umha escola que cultiva a ilusom de igualdade, uns media que alimentam a ilusom de pluralismo; e o anterior no seio dumha política que provoca a ilusom de democracia…

Nessa hipocrisia do discurso mediocrático figuram os sindicatos quando dim estar a defender aos assalariados e os desempregados defendendo as decisons empresariais e os média que apresentam os actos de invasom, de colonizaçom, como um pular pola democracia e as liberdades, pois fundamentalistas sernpre som os outros.