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….e nós, por quem torcemos?

Sábado, 19 Junho 2010

Ramiro Vidal Alvarinho

O Mundial de futebol (masculino) é considerado o maior dos espectáculos desportivos do planeta. Com certeza, no que di respeito ao acompanhamento mediático nom tenho a menor dúvida de que está por cima das Olimpíadas ou da NBA, e de certo tem muita mais pessoas pendentes dos jogos e dos resultados do que outros eventos.

Isto tem a ver com as próprias características do futebol, um desporto que se pode praticar quase sobre qualquer terreio, que nom necessita mais do que umha bola e quatro paus e que, por esse motivo, é o desporto mais estendido e mais praticado do mundo. Por isso também surgem jogadores notáveis em todo o mundo e quase nom há estado, por pequeno e pobre que for, que nom tenha selecçom de futebol, mesmo nom tendo ligas oficiais próprias. Certo é que as diferenças de nível enquanto a jogo som bastante evidentes, mas isto nom significa que as afeiçons de países com selecçons menos potentes nom tenham ilusom por ver as suas cores sobre a relva.

Haveria muitas reflexons que fazer sobre os mundiais como fenómeno, inclusive além do desportivo, e sobre este em concreto. Às poucas horas de arrancar o Mundial de África do Sul, houvo umha manifestaçom recordando os meninhos e meninhas que nom poderám ver esta “festa do futebol”, porque estám a trabalhar em condiçons subumanas, fabricando as bolas com que se jogam as partidas da Copa do Mundo, ou as botas que usam os jogadores. Certamente, um pensa em crianças paquistanesas de quatro anos condenadas a nom ver a luz do sol para maior glória do desporto rei e maior distracçom dos seguidores de Forlán, Eto’o, Messi, Fernando Torres e restante família, e este festival do virtuosismo balompédico perde a sua mágia.

Dos mundiais e o seu papel na história também se podia escrever nom um artigo, mas talvez um ou dous livros, mas podemos ficar com o paradoxo tantas vezes comentado sobre a algarvia do público a celebrar os golos no Mundial da Argentina (1978), enquanto a poucos metros, na Escola de Mecánicos da Armada, os gritos eram de dor polas torturas. A campanha de terror da ditadura militar que padecia o país naquele momento foi tapada polo circo do Mundial’ 78. Essa mesma ditadura continuava a torturar e a “desaparecer” pessoas em 82, enquanto a maioria do povo argentino festejava as gestas desportivas de Maradona e de Kempes.

Este Mundial dim que é o Mundial de toda África, pois é a primeira vez que se leva este evento àquele continente. Para a África do Sul, é umha oportunidade para demonstrar que a República Sul-africana pós-Apartheid é capaz de organizar eventos internacionais de maneira exitosa, que há um povo capaz de se comprometer e implicar nesse repto para o país, que esse povo superou as feridas deixadas polo regime nazi que dividia a populaçom, educada no ódio, na justificaçom da opressom racial. Poderám umhas horas de futebol apagar a lembrança da guerra do coltám no Congo, da violência mafiosa em Angola, da infámia a que se submete o povo saarauí, do arame farpado da vergonha nas fronteiras de Marrocos com Ceuta e Melilha, do mar a engolir african@s desesperad@s e famentos aos quais prometêrom esse paraíso chamado Europa, poderá o Mundial fazer-nos esquecer a ditadura sanguinária de Mohamed VI, a fame e o terror no corno de África? Para um revolucionário é impossível que estas realidades incómodas nom chamem á porta da consciência, por muito que gostar de futebol.

Além disto todo, cumpre recordar mais umha vez que o nosso povo nom está representado no Mundial. A Irmandinha nom joga, porque a Real Federación Española de Fútbol veta essa possibilidade, fundamentalmente, ainda que também porque nom há vontade política na própria Galiza de reivindicar o direito a competir. É curioso ver como selecçons que nom tenhem muito mais nível do que poderia demonstrar umha selecçom galega numha competiçom destas características, poderiam passar à seguinte fase. É também muito ilustrativo da debilidade dos argumentos daqueles e aquelas que se burlam da ideia de umha selecçom galega a competir a nível oficial ver o capacidade de competiçom demonstrada por exemplo pola Austrália. Qualquer das nossas equipas de 2ª B jogaria melhor. E ainda assim há quem continue a defender que umha Selecçom Galega nom teria nada que fazer… pois o certo é que a Irmandinha já ganhou ao Uruguai, que vai líder do seu grupo, e empatou com os Camarons, que também jogam esta ediçom do Mundial.

Eu acompanho o Mundial sabendo que é um espectáculo narcotizante em boa parte, onde nem todo é fair play e exaltaçom do espírito desportivo; vejo-o com o nariz tapado muitas vezes, ou com surriso irónico, a tentar inutilmente abstrair o que acontece sobre o relavado do que acontece à volta. E às vezes desfruto com algumha genialidade, ou celebro a queda de algum favorito cheio de estrelas que cobram num dia mais dinheiro do que eu verei junto na minha vida, a maos de algumha equipa modesta formada por jogadores que a olhos do público europeu som anónimos ou quase. Gostei de ver França derrotada polo México, ou Inglaterra a passar dificuldades com a Argélia, ou Itália impotente para derrotar o Paraguai. Umha boa maneira de esquecer-me dessa vontade insatisfeita de experimentar o que é que aconteceria se a Irmandinha jogasse aí.

De resto, na Galiza o pessoal anda a criar redes de apoio a outras selecçons em funçom de afinidades lingüísticas, simpatias ideológicas… há quem defenda que devemos torcer por Portugal e Brasil, as participaçons lusófonas neste Mundial, e há quem defenda que as nossas simpatias deviam estar com a Coréia do Norte… eu com Portugal e com o Brasil tenho um problema, e é que nom suporto nem o Cristiano Ronaldo nem o Ronaldinho. Os Chollima som um grupo de jogadores anónimos e provavelmente para eles será desconhecido esse mundo de ostentaçom e vaidade em que vivem os seus colegas argentinos, brasileiros, espanhóis ou ingleses. Som a selecçom da humildade, do desportista-operário cujo maior prémio é ter a possibilidade de jogar. Seria bonito que chegassem às eliminatórias.