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O primeiro mandato: descomposiçom social e luita de classes em Gaza

Sábado, 12 Junho 2010

Fabián Harari

Ter varicela aos doze anos nom é um mal negócio: nom é nada grave e falta-se à escola por duas semanas. Um jamais imaginou que alguém poderia chegar a morrer de umha doença como essa. Mas esse foi o caso de Tamer a al-Yazji. Tamer tinha que baixar a febre e precisava alguns medicamentos ou, ao menos, água. O Hospital Central de Gaza nom podia fazer nada mais e Israel nom permitia nengum ingresso. A sua trágica história é a de muitos outros rapaces: 17 em total, de umha lista de 98 pessoas cujas vidas dependiam de poder ser assistidos em algum hospital com elementos básicos (1).

Gaza está bloqueada desde Junho do 2007. As mortes que relatamos produzirom-se em doze dias de Janeiro, nos que o isolamento foi total. Hamas evitou o que podia ser um genocídio. Sem prévio aviso, fijo estoupar umha parte do muro que separava a cidade palestina de Rafah com Egipto e 600.000 palestinianos cruzarom a fronteira em procura de provisons. Apesar de que os meios apartarom a atençom do tema (depois de umha verdadeira flexibilizaçom israelita) a ameaça de umha catástrofe humanitária, ou de umha próxima guerra, segue latente. O caso foi abordado com a superficialidade própria do prisma burguês. A maior parte das análises oscilam entre o elemento testemunhal e o acento no problema cultural ou nacional. Nom obstante, as causas do problema encontram-se no que fai que Gaza seja o que é.

A regiom consta de 360 km2, com 1,5 milhons de habitantes. Umha das maiores densidades que conhece o planeta. Desse total de populaçom, dous terços vivem nos 8 campos de refugiados da ONU. O desemprego chega ao 35%, sem ter em conta à populaçom feminina. O 80% da populaçom encontra-se por embaixo da linha de pobreza e a ONU entrega ajuda alimentária a 860.000 pessoas. O cálculo ao que chegou dito organismo é que o 72% da populaçom de Gaza corre o risco de desnutriçom.

Já nom te preciso

A alta densidade provem da guerra de 1948, pola qual os palestinianos residentes em Israel forom expulsados a Cisjordânia e Gaza. Com o tempo, regularizou-se na segunda certa economia. Umha regiom apta para cultivos frutais, desenvolveu umha agricultura de exportaçom. O sector alimentário foi um dos mais importantes renglons económicos, com a conhecida empresa Awda como grande motor. A expansom capitalista em Israel requeriu, no entanto, um exército de trabalhadores que nom podia prover a imigraçom judia. Em 1968, o exército israelita desmantelou todos os cultivos cítricos em Gaza. Em 1979, Egipto comprometeu-se a nom receber palestinianos. Assim, o coraçom da vida nos territórios ocupados o constituírom os trabalhadores “andorinha”: mao de obra que trabalha em Israel. Gaza converteu-se, junto com Cisjordânia, numha grande reserva de força de trabalho barata. Enquanto o trabalhador judeu estava sindicalizado e recebia todos os benefícios sociais, o palestiniano era um sujeito sem direito civil algum. O racismo cumpria, entom, a funçom de sancionar ideológicamente umha vantagem económica para a acumulaçom de capital em Israel. Muitas grandes indústrias tinham sotos para que os trabalhadores palestinianos passassem a noite nas longas jornadas laborais (2). Com este esquema, resultava difícil a organizaçom palestina dentro do território. A OLP trabalhava no exílio e as acçons mais importantes apareciam no marco de umha intervençom estrangeira (Síria, Egipto ou Jordânia). O salto em qualidade foi a primeira Intifada de 1987: umha rebeliom popular com o protagonismo das organizaçons locais.

Este panorama mudou radicalmente a partir da década de 1990. Desde 1989 até o 2004, Israel recebeu 1.180.000 imigrantes dos países do Leste e de África (3). Trata-se de pessoas de origem judia que se amparom na Lei da Volta (4). Deles, Rússia contribuiu 962.000 e, na sua maioria, forom destinados a empregos de baixa qualificaçom (5). Para calcular a magnitude da cifra, basta saber que, dantes do aluviom, a populaçom israelita constava de 3,5 milhons de pessoas. Os novos trabalhadores nom forom totalmente incorporados aos velhos benefícios sociais. Inclusive, forom submetidos a normas similares às que se aplicavam aos palestinianos (6).

Como consequência, decreceu a importância da força de trabalho palestina e aumentarom as restriçons ao acesso a Israel. Em 2005, a Knesset votou um plano para prescindir de trabalhadores palestinianos. De 30.000 operários de Gaza que no 2000 trabalhavam nas indústrias de Israel, em 2003 se reduzirom a 4.000 (7). Assim, a atençom concentrou-se nos recursos naturais da zona (gás e cultivos). Multiplicarom-se as colónias (que derom saída à populaçom israelita) e as expulsons de palestinianos. De 2001 a 2004 Israel desalojou a mais de 24.000 pessoas (8). Ante a imposibilidade de avançar sobre as terras, em 2005 pujo fim aos assentamentos judeus na zona e levantou os que ainda ficavam.

A economia em Gaza reduziu-se ao ramo alimentário, à confecçom e aos cultivos de frutinhas, guayabas e flores. Na sua maioria para exportaçom a Israel. Para asfixiar a este último ramo, o rabinato declarou a essas frutas como um produto taref (9). No 2006 Israel bombardeou a única central eléctrica e a dependência de energia israelita passou a ser total. Do 2003 ao 2007 as empresas diminuírom o seu nível de produçom de 76% ao 11% da capacidade instalada e o salário reduziu-se um 40% (10). Os empresários palestinianos encontram-se entre o risco de ser estranguladas pola burguesia israelita e o conflito de classe. Alguns optarom pela relocalizaçom (11). Os sucessivos bombardeios e incursons militares devastarom amplas zonas e tenhem criado verdadeiros povos fantasma.

Este processo produziu importantes transformaçons na vida dos territórios ocupados, em particular em Gaza: de reserva de força de trabalho, a regiom transformou-se em um depósito de sobrepopulaçom relativa. Umha regiom sem estado nem leis, com umha economia reduzida à mínima expressom e os laços sociais avariados. Umha fonte de conflito e ressentimento e umha fábrica de militantes sem nada que perder. Mas, a sua vez, à medida que passa o tempo, um risco de epidemia de fame que constituiria um verdadeiro escândalo mundial. Para evitá-lo, a ONU sustenta a vida da metade da populaçom.

Boqueteiros

Os combates nom podem explicar-se a partir do confronto entre culturas nem entre naçons. Trata-se essencialmente da contradiçom que gera a expropiaçom de produtores directos (em 1948) e a sua posterior conversom em pauperismo consolidado. Nom é umha questom étnica, senom de classe. O conflito cobra características mais agudas por umha série de razons. Em primeiro lugar, porque o primeiro processo (a expropiaçom) tem umha cercania temporária na qual média tam só umha geraçom. Polo que o reclamo da restituiçom e a reconstruçom de antigas relaçons (a “volta”) aparece como um elemento permanente. Em segundo, porque ambos processos se concentram em 40 anos. Com o qual, os reclamos potenciam-se. A terceira é que esta fracçom da classe operária nom está dispersa senom que se localiza geograficamente em umha regiom específica e separada. Portanto, o capital pode “precintá-la” e prescindir dela.

O bloqueio de Gaza começou em Junho do ano passado e agudizou as tendências à descomposiçom. Produziu-se no contexto de um processo político polo qual Hamas deslocou do governo palestiniano, em eleiçons gerais, ao conciliador Al Fatah. Umha guerra entre estas duas organizaçons derivou na expulsom desta última de Gaza e a divisom do território: Cisjordânia para Al Fatah e Gaza para Hamas. Desde entom, Israel mantém um bloqueio nestes últimos territórios enquanto negocia com Mahmud Abbas, líder da Al Fatah (um partido secular). A intençom de Israel era nom permitir que a organizaçom islâmica poida levar a cabo umha experiência “estatal”. O agravamento das condiçons de vida em Gaza nom mermarom a popularidade do Hamas, senom todo o contrário. Israel, entom, elevou a aposta e impujo um bloqueio total. Doze dias onde a morte mais absurda campeou livremente polos povos e as carpas de refugiados.

A tentativa de pôr ao povo palestiniano de joelhos fracassou. Por um lado, a ONU, ante o escándalo, ameaçou suspender o fornecimento de alimentos. Polo outro, a populaçom nom se deu por vencida e tomou o problema nas suas moas. A opçom que baralha o governo de Olmert é, agora, a guerra.

Perspectivas

Tendo em conta as características da populaçom, nom resulta estranho que se formem exércitos irregulares do lado palestiniano, como o Hamas. No entanto, reduzir a sua acçom ao plano militar é desconhecer a sua base de edificaçom política. A organizaçom islâmica reparte 70 milhons de dólares ao ano em assistência social e ocupa-se de resolver litígios económicos e penais (12). Isto é, é um protoestado. Num contexto de descomposiçom social (ausência de economia e de estado), esta organizaçom tenta sustentar certas relaçons vitais. Os seus fundos provenhem de alguns estados árabes e da própria burguesia palestina: as poucas empresas que ainda ficam devem defender-se do estrangulamento israelita e, a sua vez, ter certa segurança de que a nengum deserdado se lhe ocorra reclamar-lhe algo.

O desenvolvimento do capitalismo na regiom e o processo que observamos anteriormente determina a inviabilidade do programa de dous estados. Nem Gaza nem Cisjordânia podem sustentar-se por si mesmas. Também nom é possível a “volta”: as terras expropiadas em 1948 hoje som cidades, indústrias e grandes exploraçons agrícolas. Portanto, o problema nom é a soberania palestina, nem o restablecimento do antigo camponesado árabe, senom a socializaçom dos meios de produçom em um estado único. Um objectivo que nom se pode realizar à margem da organizaçom das massas judias, no coraçom do capitalismo da regiom. Portanto, nom som as tarefas nacionais senom as socialistas a chave do triunfo.

Notas

1) http://www.imemc.org/article/52912.

2) Veja-se Grossman, David: O vento amarelo, Aguilar, Madri, 1987.

3) Veja-se _ e Ministry of Immigrant Absorption: Immigration Data 2004,

February 2005.

4) Lei de 1948 que lhe dá o direito a toda pessoa judia a ser considerada, automaticamente, como cidadao israelita e a reclamar o seu passaporte. No entanto, a condiçom de judeu está submetida a um tribunal rabínico que examina a “pureza de sangue”.

5) Veja-se Cohen, Sarit e Chang-Tai Hsieh: ?Macroeconomic and Labor

Market Impact of Russian Immigration in Israel?, HIEBS working papers,

2000.

6) Idem.

7) http://news.bbc.co.uk/hi/spanish/international/newsid_4119000/4119461.stm.

8) Idem.

9) Comida nom apta para o judeu, segundo as leis hebréias.

10) Página/12, 17 de dezembro de 2007.

11) http://news.bbc.co.uk/2/hi/middle_east/7199335.stm

12) http://www.cfr.org/publication/8968.