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A mulher no nacionalismo galego (1900-1936)

Quinta-feira, 12 Outubro 2000

Noa Rios Bergantinhos

A incorporaçom da mulher e do discurso em defesa dos seus direitos ao Nacionalismo Galego é um processo que se vai produzindo paralelamente à conformaçom do Nacionalismo como movimento sociopolítico ao longo do primeiro terço do século XX. Se bem há antecedentes tanto na etapa denominada Provincialista como na Regionalista, nom será até a fase propriamente Nacionalista, –aquela que se inicia com a criaçom das Irmandades da Fala em 1916—, quando escuitemos claramente as primeiras vozes que reivindicavam a igualdade de direitos para as mulheres.

Para poder compreender quais som as razons que explicam que no ano 1918, no quadro da I Assembleia Nacionalista, se solicite no Manifesto de Lugo a igualdade de direitos para a mulher galega –Igoaldade de direitos prá muller— e, num ponto posterior do Manifesto, umha aclaraçom de que a igualdade de direitos reivindica-se, quando menos, para a mulher casada e co marido emigrado –Igoaldade de direitos prá muller casada, polo menos no caso de emigración do marido—, temos, ineludivelmente, que analisar três factores de suma importáncia.

O primeiro deles fai referência ao processo bélico que tivo lugar entre 1914 e 1918, a denominada “primeira guerra mundial”. Em todo enfrentamento armado há umha mudança significativa dos roles das mulheres. Umha grande maioria de homens som transferidos para a frente, provocando um vazio na mao de obra, fundamental e imprescindível para o sustentamento do Estado e da guerra, trabalhos que serám rapidamente ocupados por mulheres. Estas abandonam o seu espaço habitual, –o lar—, encarregando-se agora das tarefas antes dominadas polo sexo masculino. Do seu habitual papel passivo e privado jogarám no terreno activo e público: postos de decisom, labores de infraestrutura, ofícios vários, luita clandestina, espionagem, etc. Esta participaçom activa romperá os seus roles tradicionais, aumentando a consciência das suas possibilidades, ocasionando que, ao final do conflito e co regresso dos homens, as mulheres nom aceitassem umha volta à antiga reclusom no fogar. Por isso, após a “primeira guerra mundial”, –igual que acontece após qualquer conflito bélico—, deparamos com umha avalancha de reivindicaçons feministas. O Feminismo experimentará um pulo nos países ocidentais, cujos ecos chegarám também à Galiza, reflectindo-se nas declaraçons recolhidas em artigos de militantes nacionalistas onde se remarca como um logro da guerra, –juntamente coa independência de novas naçons—, o movimento pola emancipaçom da mulher.

O segundo factor que cumpre tratar, –conseqüência em grande parte do anterior—, é de ámbito estatal espanhol. A partir do ano 1918 surgem as primeiras organizaçons autónomas de mulheres espanholas, a Asociación Nacional de Mujeres Españolas, a Unión de Mujeres de España, Cruzada de Mujeres Españolas ou a Juventud Universitaria Feminista. Este florescimento sem precedentes da auto-organizaçom das mulheres provocará nom poucos receios no conjunto da classe política espanhola, provocando como clara reacçom a criaçom apressurada de secçons femininas nos partidos e a inclusom das reivindicaçons dos direitos para as mulheres nos diferentes programas políticos. O Nacionalismo Galego nom foi alheio a este processo, assim as Irmandades da Fala criarám as Irmandades Femininas, –compostas na sua maior parte por mulheres vencelhadas familiar ou sentimentalmente aos militantes nacionalistas—, e incluirám-se pontos reivindicativos nos seus programas, como o do Manifesto de Lugo ou em assembleias posteriores, ainda que sempre de jeito minoritário.

O terceiro e último factor a ter em conta é propriamente galego. As altas taxas de emigraçom com que se desangrava o país nas primeiras décadas do século provocárom, como conseqüência directa, um elevado número de mulheres que ficavam a cargo da economia familiar. Estas mulheres, ao nom terem personalidade jurídica, nom poderám negociar coas suas possesons, o qual supunha um claro obstáculo económico, nom só para as próprias famílias, senom também para aqueles sectores económicos interessados na compra-venda de terras. Neste terceiro factor encontramos a explicaçom das causas da incorporaçom do segundo ponto no Manifesto de Lugo, –a igualdade de direitos para a mulher casada que tiver o marido emigrado—, pois esta reivindicaçom era considerada mais urgente e com mais possibilidades de ser aceitada.

Estes três factores oferecem-nos umha explicaçom da postura do Nacionalismo Galego nesta etapa inicial, o qual introduz as reivindicaçons em prol da igualdade nom por umha questom de consciência igualitária, quanto por puro possibilismo e oportunismo político do momento.

Nos anos posteriores de desenvolvimento organizativo e ideológico do Nacionalismo Galego, –das Irmandades ao salto que supujo a fundaçom do Partido Galeguista em 1931—, achamos poucos elementos referentes ao tema que nos ocupa. Há que vincar a ausência significativa de mulheres que actuassem publicamente, assim como a inexistência dum discurso elaborado de reivindicaçons feministas, de artigos, conferências, intervençons ou programas políticos que aludissem ao problema. Certo é que alguns autores (Jaime Quintanilha, Luís Pena Novo, etc) abordam o problema, e em determinados momentos si topamos alguns elementos sobre mulheres presentes (crónicas de actos nacionalistas em que se fai referência à assistência de mulheres, pequenos comentários em artigos de variada índole, etc), mas sempre de maneira minoritária. Nestas escassas fontes podemos resumir em três constantes os eixos reivindicativos do discurso das Irmandades a respeito da problemática feminina.

O primeiro é a reivindicaçom dos direitos das mulheres galegas porquanto tenhem demonstrada a sua capacidade de trabalho, quer dizer, a mulher galega tem realizado um grande esforço e sacrifício tanto no trabalho (fundamentalmente no agro) como na família, isto fai-na sujeito de direitos. Fica sem explicitar se as mulheres em geral som merecentes ou nom da igualdade de direitos.

A segunda constante observada é o emprego sistemático de qualificativos que dim respeito ao aspecto físico e sentimental das mulheres, a sua beleza, doces sentimentos, tenrura, etc, sendo um elemento recorrente para todo o período de pré-guerra.

Em terceiro e último lugar, aparece em vários lugares a definiçom do rol que a mulher galega deve ocupar dentro do nacionalismo, o seu dever é o de ajudar os homens, outorgando-se-lhe um labor assistencial, passiva, de mero apêndice.

Nos anos que transcorrem entre a fundaçom das Irmandades da Fala e a fundaçom do Partido Galeguista há muito poucos avanços no plano organizativo no que atinge às mulheres. Certo é, tal e como afirmamos anteriormente, que se criam Irmandades Femininas em diferentes pontos do país, mas, apesar deste avanço inicial, a maioria delas nom terám vida organizativa activa, para além de algumhas que realizassem actos pontuais e mui próprios de mulheres na época: arrecadaçom de fundos económicos, bordado de bandeiras para as Irmandades, etc. Em relaçom coa presença pública de mulheres nos jornais vinculados ao Nacionalismo (A Nosa Terra, A Fouce, Nós, fundamentalmente), nas conferências, comícios, etc, há que assinalar umha destacada ausência, excepto pontuais excepçons.

O parêntese organizativo e ideológico que supujo para o Nacionalismo a Ditadura de Primo de Rivera fai-nos dar um salto até a proclamaçom da II República espanhola para o nosso estudo. Este período supujo um avanço teórico, —e prático—, nos diferentes direitos relacionados com as mulheres: direito ao voto, ao divórcio, a ter personalidade jurídica completa, a poder realizar o matrimónio civil, ao reconhecimento da igualdade entre os sexos nos diferentes textos oficiais espanhóis, etc. A maioria destes direitos supugérom um debate e umha polémica que será ignorada polos nacionalistas. Estes, reunidos em Assembleia nos dias 5 e 6 de Dezembro de 1931, decidem fundar o Partido Galeguista, editando ao mês seguinte os primeiros documentos oficiais: a Declaración de Principios e o Programa de Acción. Em ambos os documentos apenas achamos dous pontos referentes à mulher, os mesmos que estavam no Manifesto de Lugo de 1918. Este grave feito evidencia um absoluto desinteresse e falta de preocupaçom pola mulher galega, pois que nom estamos ante umha postura contrária aos novos direitos, dado que tampouco os atacam, senom mais bem de total indiferença. Caso único na prática totalidade dos partidos políticos espanhóis e dos nacionalistas bascos e cataláns, que sim incluíram valorizaçons políticas, —positivas e negativas—, sobre a nova situaçom gerada. Esta postura inicial de indiferença mudará co transcurso dos meses, sobretodo devido à urgente necessidade de atrair o imenso caudal de votantes que representava o sexo feminino. Assim, nomeadamente em período eleitoral, toparemos apelos públicos dirigidos à mulher galega, ao mesmo tempo que se destinam maiores esforços na captaçom e organizaçom de mulheres nacionalistas.

O discurso do Partido Galeguista em relaçom coa mulher nom sofrerá demasiadas variaçons a respeito da etapa anterior, constinuará-se apelando à mulher como mae ou esposa de galegos, o governo nacionalista redundará no seu benefício porque melhorará a situaçom dos homens galegos, e segue-se ressaltando a sua  beleza, tenrura, etc.

Cumpre demorar num facto que, até o momento, nom fora investigado correctamente, o qual tem ocasionado umha certa tergivesaçom histórica. Trata-se da postura adoptada polos deputados nacionalistas nas Cortes espanholas no dia da votaçom do sufrágio feminino celebrado no mês de Outubro de 1931. Nos períodos eleitorais da II República espanhola, o Partido Galeguista afirmará nos apelos às mulheres que os deputados nacionalistas votarám a favor desse direito. Há que indicar que à altura da votaçom o PG ainda nom existia, —falamos de dous meses antes—, mas sim havia quatro deputados nacionalistas em Madrid: Daniel Castelao, Ramom Suárez Picalho, Antom Vilar Ponte e Ramom Outeiro Pedraio, os quais formariam parte depois do PG. Segundo o Diario de Cortes do dia, somente Suárez Picalho emitiu o voto favorável para o sufrágio feminino, estando ausentes da votaçom os três restantes. A presença dos deputados em Madrid parece estar confirmada pola sua assistência ao plenário do dia anterior, o qual semelha invalidar umha possível escussa por ausência. Além deste factor, há que valorizar que nos dias anteriores à votaçom houvo grandes debates que trespassárom as paredes do Congresso, chegando às tertúlias, imprensa, cafés, etc. Nom se tratava dumha votaçom sem importáncia ou intranscendente, estamos ante três ausências muito reveladoras da atitude do PG ante os direitos das mulheres.

A participaçom organizativa de mulheres nas fileiras nacionalistas é muito difícil de investigar devido à ausência de fontes e a escassa presença pública que tinham. Para as Irmandades carecemos de listagens de militantes, nom para a época do PG, polo que sabemos que o seu número foi aumentando ao longo da etapa republicana, mostrnado um ascenso elevado nos últimos dous anos, chegando a representar 6% da militáncia do PG. Umha boa parte das mulheres filiadas estavam vencelhadas sentimental ou familiarmente aos homens do PG, indicando umha clara linha de continuidade a respeito do período anterior, sendo habitual topar como militantes as mulheres e filhas de persoeiros do PG. Apesar disto, o período republicano supujo um pulo na organizaçom política das mulheres, ausentes do cenário público até o momento.

Outra característica importante destas mulheres nacionalistas é que a sua presença pública, —escasa mas nom inexistente—, em comícios, artigos, conferências, etc, virá marcada pola sua maior aceitaçom ou nom do rol patriarcal. Quer dizer, aquelas mulheres mais submissas, as que aceitavam a sua suposta inferioridade, serám as que protagonizem quase a totalidade das suas apariçons públicas. Mulheres como Francisca Herrera, —única, juntamente com Rosalia de Castro a quem se tem dedicado o Dia das Letras Galegas—,  Mª Pura Lourençá, Emília Docet, etc. Outras mulheres, cumha consciência feminista clara e avançada, escreverám em poucas ocasions: Coroa Gonzalez, Mª Luz Morais, Elvira Bao Maceiras, etc. Estas mulheres dispugérom brevemente dum espaço em A Nosa Terra reservado só para mulheres, O Recanto da Muller, mas esta prometedora iniciativa só saiu à luz em cinco números da publicaçom.

Resulta complexo emitir algumhas linhas gerais sobre a posiçom que a respeito da mulher tinham os principais teóricos e dirigentes nacionalistas, dentro e fora do PG, devido ao escasso material de que dispomos. A maioria das posturas oscilam entre as claramente reaccionárias e machistas, —como a de Vicente Risco ou Antom Lousada Diegues—, até as claramente defensoras da igualdade entre mulheres e homens, —Fuco Gômez—, passando polas posturas defensoras do patriarcado e dos roles estabelecidos, mas sem atacar nem criticar abertamente os direitos acadados polas mulheres, Castelao, Joám Vicente Biqueira e outros.

Um último ponto a tratar sobre a questom feminina nos anos iniciais do Nacionalismo Galego fai referência à sexualizaçom do discurso nacionalista. Há anos que se tem testemunhado que todos os processos de colonizaçom se concebem em termos sexuais e de género, daí que nas últimas décadas se venha investigando a sexualizaçom dos discursos de libertaçom nacional. O caso galego nom escapa à norma. Galiza, como sujeito de referência, apresenta-se totalmente sexualizada, trata-se dum sujeito feminino que protagoniza diversos roles: como mulher escrava, como mae, como donzela, etc, sempre necessitada dum sujeito masculino heróico, —o povo galego, os homes galegos—, que a libertem e ajudem a redimir-se, a libertar-se das suas cadeias de escravitude.

Esta breve e parcelar olhadela sobre a mulher nos começos do nacionalismo galego oferece-nos umha valorizaçom, em traços gerais, bastante negativa, o qual nom deve levar-nos ao pessimismo, senom que deve animar-nos a fazer umha reflexom projectada face à actualidade que nos permita analisar e situar correctamente o nosso passado colectivo como mulheres e como povo. De pouco serve ficarmos na comprazência de demonstrar o machismo presente no nacionalismo em geral, —e no independentismo em particular—, se isso nom nos levar a actuar contra ele constantemente e a assinalar como enfrentá-lo. Nom é este o lugar para indicar todas aquelas carências que atravessam o MLNG no seu conjunto em relaçom co feminismo, mas sim gostaria de assinalar duas questons que considero que atingem especialmente o independentismo.

A primeira delas tem a ver coa especial situaçom que se estabelece entre mulher e violência, umha das causas que, ao meu entender, contribuem para reduzir a participaçom da mulher no conjunto da esquerda independentista. A estratégia de tensom, de ruptura da normalidade democrática, da prática da desobediência civil que defendemos, gera diferentes graus de tensom, interna ou externamente, elemento que o poder patriarco-burguês se tem encarregado de socializar como algo alheio e estranho à mulher, dada a sua suposta “natureza pacífica“. O objectivo destas mensagens, inculcadas desde o nosso nascimento, é manter afastada de qualquer ruptura coa ordem estabelecida nada menos que a metade da populaçom mundial. Nom é por acaso que dos meios de comunicaçom do sistema se ataque com maior virulência as mulheres participantes em diferentes movimentos de resistência, fazendo especial fincapê na sua actividade antinatural posto que assumem o rol masculino. A última etapa de accionar armado que viveu o nosso país, a do EGPGC, está cheia de exemplos que demonstram esta estratégia. Um obstáculo importante que teremos que salvar é a própria assunçom por parte de sectores feministas desta mensagem, é o chamado Pacifismo Feminista que postula a incapacidade da mulher para gerar violência e agressividade pois que, ao termos capacidade de gerar vida, seria contraditório. A violência, —revolucionária ou nom—, aparece como umha criaçom masculina, mas existem estudos antropológicos que rebatem com força esta afirmaçom.

O segundo é último elemento a que quero fazer referência sobre a actualidade é fortemente controvertido dentro do próprio independentismo. Trata-se de qual é o papel que o feminismo cumpre, como movimento organizado autónomo de mulheres, dentro do conjunto do MLNG ou, dito doutra maneira, se é necessário ou nom que exista umha organizaçom feminista situada claramente sob os parámetros independentistas. A meu parecer é de suma importáncia e urgente necessidade a existência dumha organizaçom feminista inserida na esquerda independentista. O MLNG deve contar com organizaçons sectoriais fortes que abranjam todos e cada um dos campos e áreas possíveis: vizinhais, feministas, culturais, ecologistas, juvenis, estudantis, anti-repressivas, etc. O campo feminista é um dos mais importantes e necessários e, se quigermos firmemente luitar por umha sociedade realmente igualitária e superadora do patriarcado, só dos objectivos estratégicos da independência e o socialismo poderemos acadá-los. Nom é viável defender a libertaçom da mulher se nom se figer desde o convencimento da necessidade de destruir o actual sistema económico, desde umha postura nitidamente anticapitalista. Resulta impossível defender a nossa identidade como mulheres galegas pertencentes a um povo oprimido, se nom participarmos desde o primeiro momento tanto na luita de resistência contra o nacionalismo opressor que nos nega, o imperialismo espanhol, como na construçom da nossa própria identidade nacional.

Noa Rios Bergantinhos é membro do Comité Central de Primeira Linha e autora de A Mulher no Nacionalismo Galego. 1900-1936. Ideologia e Realidade (no prelo).

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