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Guerra das caixas e localismo

Segunda-feira, 10 Maio 2010

Alberte Moço Quintela

O surto da pugna localista entre a Corunha e Vigo a respeito da reestruturaçom do Capital financeiro galego, impulsionado e alimentado sem o mais mínimo rubor polos presidentes das Cámaras Municipais dos dous municípios, merece a nossa atençom. Em primeiro lugar, porque conseguiu incorporar activa ou passivamente camadas significativas do nosso Povo Trabalhador; em segundo lugar, porque nom podemos deixar de perguntar-nos porque, precisamente agora, se bota sal na velha ferida e porque respondendo a esta pergunta podemos puxar do fio e encontrar certas chaves para compreendermos o que se está a cozer por trás do barulho mediático.

A disputa entre Abel Caballero e Javier Losada nom é, evidentemente, fruto do acaso ou dum desproporcionado amor à terra de qualquer dos dous dirigentes; tampouco se trata dumha guerra entre facçons dentro do PSdG como alguns pretendem fazer-nos acreditar. Folga dizê-lo, mas nesta ocasiom tampouco é o responsável exercício do seu cargo à frente da vizinhança o que move os nossos estimados governantes; é bem sabido que a umha corunhesa ou a um viguês tanto lhe tem se o usurário que rouba o fruto do seu trabalho é de cá ou de acolá. Para além disso, conhecemos o suficiente sobre o funcionamento dos partidos do sistema, e do PSOE em particular, como para sabermos que tal espectáculo foi planificado minuciosamente antes de ser posto em cena. E repetimos a pergunta: com que objectivo?

Antes de respondermos, devemos ter umha mínima noçom sobre o que está a acontecer entre Caixa Galicia e Caixanova. Sabemos que os primeiros som favoráveis a umha fusom que dê como resultado umha única entidade, enquanto os segundos se mostrárom radicalmente contra, depois reticentes e finalmente forçados a umha negociaçom contra vontade que, no momento de escrevermos estas linhas, ainda nom deu os seus frutos. A nossa curiosidade crítica volta obrigar-nos a perguntar: porquê? Pois basicamente, sem entrarmos em muitos pormenores, porque Caixa Galicia atravessa umha etapa difícil após ter dilapidado boa parte dos seus recursos em operaçons com a máfia do tijolo, que comprometêrom seriamente a sua viabilidade, enquanto Caixanova, com um modelo de investimento menos dependente da especulaçom financeira em mercados alheios, se acha numha conjuntura sensivelmente mais favorável do que a sua concorrente. Neste cenário é facilmente compreensível que uns estejam doentes por compartilhar as suas desgraças e outros prefiram olhar para outro lado (para Espanha, concretamente, mas nom vamos aprofundar nisto).

Mas o miolo da questom nom está aqui, e sim numha pergunta anterior: porque estamos a falar de fusom das caixas? Semelha que após meses de engolir manchetes esquecemos o que provocou o início desta polémica. Foi o Estado espanhol quem, através do Banco de Espanha, pujo em andamento diversos processos de fusom em caixas de aforro de todo o Estado. Como? Ameaçando aquelas que nom cumprissem determinados critérios de solvência com serem intervindas, expropriadas e vendidas a outras entidades. É entom quando salta o primeiro alarme, pois as caixas “galegas” se acham numha situaçom em que som susceptíveis de padecerem este processo. E neste ponto, mergulhando um pouco mais por baixo da superfície visível é que encontramos a pedra de toque de todo este assunto: porque toma tal decisom o Estado? As caixas tenhem umha importantíssima vantagem competitiva frente aos bancos. Enquanto estes repartem no fim de cada exercício os lucros entre os seus accionistas, os primeiros (obrigados pola lei) devem investir esses ganhos em “obra social” (diligentemente orientada para os seus amigos e aliados) e em reforçarem a sua estrutura financeira e expandirem-se. Nom ter que alimentar a cobiça dumha manada de empresários dota as caixas dumha competitividade difícil de igualar… e isto nom é do agrado dos bancos, naturalmente. Feridos pola crise, com as suas expectativas de fabulosos lucros truncadas e com um futuro incerto ante si, nom perdêrom um momento em utilizar todos os seus meios para que o Estado (que é da sua propriedade) dirigisse um ataque frontal contra as caixas de aforro.

Ao que assistimos é à última manobra do Capital financeiro “duro” para sair vivos da crise que provocárom. Nesta ocasiom expropriando pola força os mercados açambarcados pola sua “asa branda”. O sistema necessita realizar certos reajustamentos e reduzir a influência de formas imperfeitas de apropriaçom e acumulaçom de Capital que ainda se regem em certa medida por decisons políticas, comportamento este absolutamente inapropriado para os objectivos imediatos e estratégicos da burguesia.

O que está realmente em jogo é se o fruto do nosso trabalho após ser-nos roubado é parcialmente devolvido em forma de “obra social” (apesar de que a maior parte é desviado para os petos de outros empresários) ou se os magnatas do dinheiro ficam com todo o botim para o seu uso exclusivo. Em definitivo, embora dentro dumhas margens muito estreitas, a velha contradiçom entre propriedade colectiva e propriedade privada que cindiu a sociedade em classes antagónicas e leva escrevendo a história desde há milénios.

É neste contexto e conscientes desta contradiçom que devemos entender a posiçom de NÓS-Unidade Popular que defende sem ambagens a nacionalizaçom da banca como única medida que pode supor umha melhoria real para quem vive dum salário, embora os nossos objectivos como força socialista vaiam bastante mais além disto, mas nom podemos aqui estender-nos sobre este aspecto.

Agora que temos umha ideia sobre os processos que se estám a dar no fundo nom será difícil compreender a necessidade imperiosa que o Estado, o partido do governo e a sua sucursal galega tenhem de desviar a nossa atençom mesmo que for com umha absurda e artificial competência entre localidades. Naturalmente esta pequena aproximaçom também nos seriviria para explicarmos a posiçom do Partido Popular ou do Bloque Nacionalista Galego, que vendeu o seu discurso a Caixa Galicia – La Voz de Galicia por um punhado de títulos de imprensa, mas esse também é tema para outro artigo.

Centrando-nos no que nos ocupa, a nengumha leitora ou leitor do Abrente escapa o nefasto papel que Caixa Galicia e Caixanova representam no nosso país, promovendo e financiando toda classe de projectos predadores do nosso território e meio natural, discriminadores do nosso idioma e reforçadores da ideologia burguesa e machista. Por muito que tenhamos definido as caixas como a “asa branda” do Capital financeiro, nom deixa de ser esse mesmo Capital e os interesses de classe que determinam o seu accionar som exactamente os mesmos que os dos grandes bancos, este accionar só se vê limitado por umha legislaçom fruto de conquistas populares e que sem dúvida aboliriam se tivessem oportunidade. Como podemos entom considerar umha destas entidades património nosso? Que razons nos podem levar a sair em defesa de qualquer umha delas? Os vários milhares de pessoas que nos últimos meses se tenhem mobilizado em favor de um ou outro lobby financeiro sob argumentaçons localistas obrigam-nos a umha reflexom sobre o alcance deste fenómeno e sobre a sua provada capacidade para reforçar os mecanismos de dominaçom e alienaçom.

Nom nos será difícil transitar do particular para o geral porque sem dúvida nom estamos a falar dumha realidade nova. O localismo, as disputas artificiais entre comarcas e municípios acompanham-nos desde que temos memória. O conflito pola capitalidade na década de 70 ocultava a questom fundamental de que a capital que necessitávamos era a dum Estado soberano e nom a dumha regiom de Espanha. A estúpida reivindicaçom localista de vias, estaçons e traçados rápidos do AVE dificulta-nos questionar um modelo de transporte irracional e contrário aos interesses populares, criado à medida dos enclaves empresariais e da transferência de valor a Espanha. As companheiras e companheiros de Siareir@s Galeg@s poderiam ilustrar-nos sobre como absurdas competências nascidas do desporto espectáculo dificultam o trabalho em chave nacional no ámbito do desporto. A lista seria interminável. Nom há que ir muito longe para comprovarmos como dentro das nossas próprias organizaçons, do nosso movimento revolucionário, entre camaradas, encontramos por vezes este mesmo mal.

O localismo é umha poderosa arma em maos da burguesia porque, por um lado, serve para fazer-nos ver contradiçons e confrontos inexistentes que se superponhem, se mesclam e acabam por impor-se aos reais, os que nos enfrentam dia após dia com os patrons e os opressores. É neste sentido que falamos do localismo como ideologia, entendendo tal cousa como a falsa consciência necessária para perpetuar a ordem burguesa e o sistema de exploraçom, dominaçom e opressom. Mas sobretodo o seu poder radica na sua capacidade para minar a nossa consciência de sermos um Povo e romper os nossos laços de solidariedade, limitando as nossas possibilidades de dotarmo-nos dumha visom global das opressons que padecemos, impedindo-nos compartir a nossa memória colectiva de luita contra as mesmas e portanto actuar em conseqüência em relaçons de colaboraçom e ajuda mútua.

O caso que nos ocupa, o que dá título a este artigo, é se calhar umha oportunidade de ouro para explicarmos como o espectro do localismo é conjurado à vontade dos patrons. O facto de dous Presidentes das Cámaras de Vigo e da Corunha do PSOE se enfrentarem com a beligeráncia mostrada tem que gerar desconfiança em qualquer mente crítica, e a desconfiança, como sabemos, é umha excelente qualidade do pensamento dialéctico. Mas também é umha qualidade imprescindível deste pensamento estar orientado para a acçom concreta e material, o nosso movimento nom pode deixar de denunciar todas as formas de localismo que infectam a nossa consciência como parte do Povo Trabalhador, hoje a respeito da “guerra das caixas” e amanhá lá onde o encontrarmos.

 

Alberte Moço Quintela é Porta-Voz Nacional de NÓS-UP