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Garzón, um herói antifascista?

Segunda-feira, 19 Abril 2010

Carlos Taibo
 
São muitos os amigos latino-americanos que, comprometidos com a causa da memória das vítimas das ditaduras nos seus países, mostram a sua estranheza pelos avatares que veio a assumir o caso Garzón. Não faltam entre esses amigos, ainda, os que se surpreendam ante os receios que muitos -mais dos que pudesse parecer- mostrámos na hora de apoiar o juiz que tanta tinta fez correr nas últimas semanas.  

Vá por diante que não me escapa que o que ocorre nestas horas com Garzón tem uma dimensão que de forma inequívoca deve preocupar aqueles que, entre nós, tomaram cartas no assunto de recordar à cidadania algo de singular relevo: a transição política, trinta anos atrás, cancelou qualquer possibilidade de ajuizamento crítico público do que o franquismo supôs e, com isso, fechou as portas que conduziam  a um desejável ressarcimento material e moral para as vítimas da ditadura. Também não quero esquecer que na disputa que nestes dias tem o juiz Garzón como centro se fazem valer muitas das misérias do jogo partidário que nos assedia, e isso da mão de uma regra que não parece ter excepções: se os partidos apoiam os juízes quando as decisões destes os beneficiam, bem que se encarregam de doestá-los quando aquelas os prejudicam.
 
Temo muito, no entanto, e volto ao princípio, que a honrosa tarefa que devia conduzir a rectificar o que três decénios atrás se fez manifestamente mal aparece hoje lastrada da mão do referido caso Garzón. Isso é assim por duas razões que, em virtude de caminhos diferentes, rodeiam a figura do juiz. A primeira dessas razões bebe da condição do próprio Garzón. Que excelso paradoxo é que nestas horas se nos apresente como defensor de uma reconsideração crítica de muitas das misérias que rodearam a transição espanhola um personagem que por muitos conceitos tem estado imerso em cheio nessas misérias.
 
E é que mal faríamos em esquecer que a mesma pessoa que teve a coragem de processar Pinochet é-nos oferecido a muitos com um rosto que não é o do herói popular submetido ao assédio das forças mais obscuras. Estamos a falar -não se esqueça- do responsável por muitos dos excessos legais que marcaram indelevelmente uma luta contra o terrorismo da qual foram vítimas tantas pessoas inocentes; não é por acaso que no País Basco o nome de Garzón se identifique com freqüência com práticas judiciais e policiais nada edificantes, comunmente ocultadas depois de um universal e cúmplice silêncio. Falamos também de quem, num momento de singular podridão da vida política espanhola, não duvidou em ir ao chamado de Felipe González para secundar este numa polémica, e depois frustrada, operação eleitoral. Fechemos o nosso percurso com a lembrança dos nomes, não precisamente heterodoxos, das pessoas -desde o próprio González até José Bono, passando por Rosa Díez- que Garzón resolveu convidar, nuns anos atrás, aos seus cursos de Nova Iorque. Parece que as três metas que acabamos de resgatar bastam para concluir que o nosso juiz se movimentou com singular soltura em alguns dos teatros mais deploráveis que a transição espanhola acabou por forjar. A imagem de lutador antifascista que tantos alimentaram ingenuamente na América Latina e que hoje vemos referendada, melhor ou pior, entre nós não é senão um mito interesseiro que o próprio Garzón pôs todo o empenho em promover.  
 
Maior relevo tem, contudo, a segunda das razões que acima invocava. Ainda que os protagonistas bem intencionados da solidariedade com Garzón pareçam ignorá-lo, é muito grave que o debate sobre a memória histórica tenha ficado engolido por uma discussão relativa a se um juiz prevaricou ou não. Di-lo-ei de outra forma: já não se discute, falando com propriedade, sobre a memória e sim sobre Garzón. Apesar de que das explicações conspiratórias gostei sempre pouco, não me resisto a sugerir que de algo há, como transfundo, de inteligentíssima e ocultatória operação. E é que, ao cabo, o Partido Socialista, que nada fez durante três décadas para restaurar uma memória espezinhada e que nos últimos anos promoveu uma timorata e curta lei que nada resolve ao respeito, conseguiu que a maioria de quem se sentiu defraudado por esta última tenha esquecido para onde devem lançar muitos dos seus tiros e rodeiem hoje arroubados um juiz de equívoca trajectória e ego desmesurado. Ninguém sai melhor parado desta disputa que esse Partido Socialista, responsável evidente pelas misérias que rodearam -que rodeiam- a lei de memória histórica.
 
Que  triste é contemplar, enfim, como alguns dos segmentos da esquerda que resiste preferiram atravessar nestes dias uma fronteira delicada: a que obriga a embrenhar num mundo que obriga por igual a aceitar as regras que outros impõem e a defender quem, ao cabo, não o merece.