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Cuba, democracia e socialismo

Terça-feira, 6 Abril 2010

Guillermo Almeyra

Por um lado está a cínica e mentirosa campanha desenfreada da CNN e de todos os meios e governos de direita contra o sistema político cubano. 

É evidente a ligação que existe entre o Departamento de Estado e a manifestação em Miami dirigida pela cantora Glória Estefan, filha de um ministro do ditador Batista, que contou com a participação do terrorista e multiassassino Posada Carriles em apoio às chamadas Damas de Branco e o grevista de fome Guillermo Fariñas que, como estas, pede a intervenção da ONU, da OEA e dos Estados Unidos, não só em Cuba mas também em Venezuela, para apoiarem a oposição pró-imperialista. 

Os que mantêm o centro de tortura em Guantánamo erigem-se agora em defensores dos direitos humanos. A guerra não declarada contra Cuba desde 1959 -que passou pela provocação com incêndios, a sementeira de doenças, a tentativa de invasão, a cobertura a grupos de bandidos mercenários, o bloqueio, a ameaça de guerra atómica- entra agora em outra fase, tratando de aproveitar a crise mundial capitalista que afeta duramente a ilha para derrubar o governo resultante da revolução, que é um dos principais membros da ALBA, junto à Venezuela, Equador, Nicarágua e Bolívia, que também estão na mira de Washington.

Portanto, a defesa de Cuba e do direito à autodeterminação e a luta contra o bloqueio, imoral e ilegítimo, mais do que nunca está na ordem do dia. Porque este uso capitalista e imperialista da crise procura fechar o caminho a uma alternativa e, para isso, deve combater todo o que soar a esquerda, começando pela ALBA e abrangendo também os governos do Brasil, Paraguai, Argentina e Uruguai, que estão longe de ser esquerdistas e mantêm políticas neoliberais levemente modificadas.

Por isso, dito seja de passagem, se enganam gravemente os que sustentam que o Brasil é nada menos que “imperialista” e que nesse país e em outros similares o inimigo central seria uma suposta “nova classe” (não proprietária do capital financeiro nem dos meios de produção!) formada pela fusão entre servidores públicos corruptos e capitalistas locais. Não ver o que fazem o capital financeiro e Estados Unidos e centrar, em troca, a atenção só nos erros ou barbaridades dos governos “progressistas”, incluindo o cubano, ajuda poderosamente as vestais da democracia que pontificam a partir do Departamento de Estado e da CNN, apoiando as bases na Colômbia ou a IV Frota ou a Iniciativa Mérida.

Pelo outro lado estão as lerdezas políticas e a brutalidade de grupos burocráticos que acham que a oposição se combate com a polícia e os aparelhos. Efectivamente, uma coisa é combater com todos os meios as conspirações e as acções criminosas, e outra abafar a expressão pública de ideias, inclusive reaccionárias, e louvar -como o fazem os jornalistas cubanos- os méritos da unanimidade (na Assembleia ou nos meios). Em tempos de Lenin e até a guerra civil, por exemplo, os partidos e os meios de informação capitalistas ou opositores eram legais. A unanimidade pressupõe, em troca, que alguém decide que se diz, que se vota, que se publica. Mas nem a classe operária nem a sociedade são homogéneas nem podem ser unânimes.

Sem discussão democrática não há socialismo, porque este é resultado da informação, a maduração e a participação directa dos trabalhadores e o povo, que devem criticar, controlar, sugerir, propor, exigir. A democracia, aliás, é para quem pensa diferente, não para quem o faz como um; inclusive para os criminosos e os pró-imperialistas e contra-revolucionarios que não cometerem crimes. E o socialismo constrói-o a sociedade, nas contradições, resolvendo-as, e não a burocracia partidária ou militar. As idéias falsas combatem-se com ideias melhores para convencer; as acções concretas conspirativas ou criminosas, em troca, com a força estatal.

Quando há criminosos comuns, marginais, portanto, antissistémicos, que se imolam ao serviço da oposição de direita e quando começa a ter suicídios (como as greves de fome extremas ou os monges budistas que se queimam na Tailândia), é evidente que algo anda muito mal. A repressão aberta ou oculta é desanconselhável perante este problema, que é político, não policial. E o pior que se pode fazer é fuzilar (como sucedeu com os que sequestraram em ferryboat faz nuns anos) ou organizar, com o aparelho da Juventude Comunista, “multidões indignadas” para calar as escassas forças ultrarreaccionárias que se querem manifestar. Isso dá mais combustível à ofensiva imperialista (que de qualquer jeito está ali) e confunde os defensores de Cuba e todos os que, nos seus países, defendem os seus direitos de dissentir, publicar e se manifestar (que são constitucionais), e combatem a repressão e a ilegalização das suas idéias e organizações.

A democracia e o socialismo só são possíveis com a autogestão e a autorganização de vizinhos, operários e camponeses, para discutir todos os problemas e, além dos planos governamentais, as suas próprias idéias e soluções locais. A imprensa, em lugar de louvar a funesta unanimidade, deveria dar voz às pessoas, em cujo nome fala e decide o aparelho burocrático. Além disso, não pode ter aumento da produção e a produtividade agrícolas sem esse tipo de democracia e de autogestão, que dê liberdade à criatividade e às críticas.

Se se quiser tirar base às manobras imperialistas e contra-revolucionárias, há que transformar radicalmente e melhorar a vida quotidiana, com maior produção voluntária e com maior democracia. A economia de Cuba e seu Estado ainda seguem sendo capitalistas, mas tentam dar as bases para o socialismo. Portanto, há que enterrar os métodos contra-revolucionários aprendidos no passado na prática e os manuais dos burocratas que, em nome de um suposto marxismo, encerravam em manicómios os seus opositores e são hoje, abertamente, grandes capitalistas e mafiosos.

Fonte: La Jornada.