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Já não acredito neste 8 de Março

Segunda-feira, 8 Março 2010

Ana Barradas

Deixei de acreditar no 8 de Março desde que soube que o rendimento médio do homens portugueses no final de 2008 foi de 1112,4 euros por mês, contra os 871,6 euros das mulheres – uma diferença de 21,65% –, que os patrões portugueses devem a cada trabalhador 1259 euros e que o sismo do Chile desviou o eixo da terra.

É que é muita coisa a mais, custa a digerir. Tal e qual como quando se deixa de acreditar no Pai Natal, na Fada dos Dentes ou no Menino Jesus. Eu pensava que o 8 de Março servia para alguma coisa, que podíamos forçar uma melhoria da vida das exploradas e oprimidas, que a data comemorada tocava nos corações mais empedernidos – cento e tal meninas-operárias sacrificadas nas chamas do edifício da Triangle Waist de Nova Iorque há mais de cem anos fizeram tremer os alicerces do mundo do trabalho: os protestos que se seguiram puseram os patrões em sentido por uns tempos e a energia libertada pela indignação diante desse holocausto continua a fazer-se sentir até hoje, por mais que nos queiram fazer esquecê-lo e convencer-nos de que o 8 de Março foi uma invenção gentil da bondosa burguesia em prol da mulher.

Contra essas falsificações patéticas, nunca é de mais recordar que, faz este ano precisamente cem anos, em 1910, o II Congresso de Mulheres Socialistas aprovou, por proposta da comunista Clara Zetkin, a realização de um dia de luta internacional da mulher, a exemplo do 1º de Maio, dia de luta da classe operária, para lutar pelas reivindicações laborais das operárias e defender os direitos políticos das mulheres. Na Europa, a primeira celebração do Dia Socialista das Mulheres, organizado por iniciativa do Secretariado Feminino Internacional, deu-se a 19 de Março de 1911, por decisão da Secretaria da Mulher Socialista, órgão da Internacional. Levou às ruas mais de um milhão de mulheres na Europa e nos Estados Unidos, evidenciando o seu carácter massivo.

A luta pela participação política da mulher e a ideia da emancipação feminina encontram-se em primeiro lugar nos escritos de Marx e Engels. A frase de Marx, “A opressão do homem pelo homem iniciou-se com a opressão da mulher pelo homem” e a perspectiva sobre a família, a mulher proletária e a mulher burguesa contidas em A Origem da Família, da Propriedade e do Estado, de Engels são parte do legado teórico que dá base à noção da necessidade da libertação da mulher proletária.

E o eixo da terra ? O eixo da terra devia desviar-se, sim, mas quando se ouvisse o clamor triunfal da classe revolucionária por excelência – o proletariado das fábricas, aquela de produz mais-valia, não esse falso proletariado que nos vendem agora em que cabem todos os assalariados, síntese teórica da colaboração entre classes em que os de baixo ficam sempre a perder porque são carne para canhão dos de cima – e se levantasse um terramoto tal que o mundo tremesse e oscilasse e uma nova ordem surgisse sobre o caos em que hoje vivemos.

Uma nova ordem com as mulheres dentro. Isto é, em igualdade, em simetria e em sintonia com o resto da espécie humana. Uma ordem que promulgasse uma coisa muito simples: a trabalho igual, salário igual. O resto viria atrás. Depois do pão, as rosas. Nesse ainda incumprido 8 de Março (ou 23 de Junho, ou 14 de Novembro, tanto faz) é que vou acreditar.