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A economia ortodoxa como ideologia

Quinta-feira, 25 Fevereiro 2010

Domingos Antom Garcia

Vamos assumir que a palavra ideologia designa a ilusom de autonomia da consciência por mor da divisom entre trabalho manual e trabalho intelectual. E oferece como resultado a representaçom invertida da realidade e a propagaçom das ideias da classe social dominante, isto é, a justificaçom da dominaçom. Ou, tentaremos de o dizer de modo mais simples, um conjunto de crenças falsas das quais se servem as classes dominantes de cara a manter a sua situaçom privilegiada. De certo que há outras acepçons (cosmovisons, ismos políticos, et cetera) e mesmo nom possui para muitos a categoria de conceito pola sua ambigüidade. Ainda assim, vamos sustentá-lo como sinónimo de especulaçom, de visom deturpada do real, de falsa consciência, de engano (intencionado ou nom).

E antes de tornarmos explícito o título, recordaremos que Marx e Engels aderem à Liga dos Justos, que mudam em Liga dos Comunistas, na década de quarenta do século XIX, para a qual escrevem o Manifesto do Partido Comunista. A tarefa de ambos é abandonarem as quimeras e acederem à compreensom científica do real. Faga-se memória da tese XI sobre Feuerbach: Os filósofos apenas interpretárom o mundo de maneiras diferentes. Agora é preciso transformá-lo.

A teoria deve percorrer o caminho da prática, mas cumpre nom esquecer que há que elaborar essa teoria científica da sociedade. E a economia política clássica (os fisiocratas, Petty, Smith, Ricardo) tenciona esse conhecimento: a lei do juro nom é para eles algo semelhante ao que acontece em Física com as leis de Newton? Qual é, para Marx, um dos grandes problemas da Economia Política? Que recusa o carácter histórico do modo de produçom capitalista e apresenta como natural e eterno o que nom é outra cousa que umha etapa de um processo. Há, já que logo, que ir além da crítica da filosofia idealista alemá para se centrar na crítica da economia política. Os manuscritos do 44 som apontamentos para tal crítica, porém Marx está ainda prisioneiro da maneira especulativa própria dos jovens hegelianos. Um dos primeiros passos dessa empresa, que ocupará toda a sua vida, será a crítica de Proudhon em 1847 (Miséria da Filosofia). Em 1849 presenteia umha primeira aproximaçom em Trabalho assalariado e capital. Em 1857 escreve umha introduçom geral à devandita crítica, mas, preocupado em nom apresentar resultados antes de os ter justificados, com ocasiom da publicaçom em 1859 da Contribuiçom para a crítica da Economia Política, inclui um simples prefácio que resume os princípios do materialismo histórico e dará lugar a fortes polémicas a respeito de determinismos, economicismos, fatalismos, filosofias da história… Muita hermenêutica para um texto de poucas páginas que se perde nos milhares e milhares da sua basta obra. En Junho de 1865, retoma os pontos mais salientes da sua economia em Salário, preço e mais-valia. E será em 1867 quando publique o livro primeiro de O Capital, enquanto os outros três livros (as Teorias sobre a mais-valia seriam o livro IV) ficarám em situaçom de esboços.

Porque Marx? Porque a sua tarefa e as suas análises estám em vigor. Na vez de contabilidade económica do sistema capitalista e de justificaçom ideológica da sua inelutabilidade cumpre tornar à crítica.

A actual “ciência” económica isolou-se no mundo dos valores monetários e deitou fora as inquietaçons originárias dos pais da disciplina que se encaminhavam a acomodar a gestom às condicionantes do mundo físico, ao meio ambiente. O reducionismo do discurso económico cataláctico (em expressom de Polanyi) encobre a problemática ecológica e social ligada ao comportamento da civilizaçom industrial. Diante da maior sensibilidade da povoaçom de cara a estes temas visam incorporar toda umha retórica formalista ecoverdosa em que prolifera a ideia de sustentabilidade. Mas está-se a banalizar e a desviar a atençom dos verdadeiros conflitos. A questom nom é enfeitar o sistema para que aparente o que nom é, mas substituir o mesmo.

O metabolismo da sociedade industrial afastou-se do modelo da biosfera e limitou-se à extracçom e deterioramento dos recursos da crosta terrestre.

As teses anteriores teriam de ser demonstradas, e nom somente mostradas, porém nom é o objectivo desta reflexom, nem há espaço (sim para dizer que há análises rigorosas em Naredo, Martínez Alier, e outros, que nom mencionamos por nom sairmos dos dous que se costuma considerar pioneiros no Estado espanhol).

E ao regressar a umha maior concreçom, cumpre assinalar o conformismo com o universalismo do sistema capitalista (umha caste de fatalismo a-histórico), o que leva a que sejam poucos os cientistas críticos radicais. O velho corpo doutrinal resiste-se a mudar e as apologéticas proporcionam pingues benefícios económicos.

A metáfora da produçom de riqueza nucleou a disciplina económica e acabou por eclipsar outros modos de focar o processo. A mitologia do crescimento ocupa a quase totalidade do discurso.

Outra das mitologias (ideologias) presente na economia convencional é a do trabalho. A actividade mercantil orientada ao lucro e a actividades penosas e dependentes, nom livres. E sempre localizados na desigualdade social. Um trabalhar compulsivo sem tempo para o lazer. Isso que tam bem explicou Marx em o feitichismo da mercadoria: os produtos tenhem vida independente do produtor, tornam-se em autónomos, e o produtor transforma-se em adorador e escravo do seu produto. Seria preciso, como indica repetidas vezes Naredo, fugir da fé beata no progresso. E já seria hora de olhar além do trabalhar capitalista, provocador de fractura social e frustraçom dos indivíduos.

E seguirá-se com Naredo para denunciar umha nova ideologia do capital, a do desenvolvimento. Um país desenvolvido é no panorama comercial o que procura um intercámbio favorável à frente do resto do mundo; no panorama financeiro atrai capitais, assim mesmo do resto do mundo, e tenta emitir passivos nom exigíveis; no panorama físico será deficitário em recursos e excedentário em resíduos; e no panorama demográfico atrairá povoaçom do resto do mundo. Em resumo: desenvolvimentisto é sinónimo de predaçom.

Há outras mitologias, ideologias. Contodo o que se visava era chamar a atençom sobre o discurso económico dominante como ideologia mascaradora.

E já para acabar, esse capitalismo defendido polos intelectuais orgánicos do sistema, também com demasiada freqüência é considerado de modo fatalista polos que se dim de esquerda. A modo de exemplo: a teoria do colapso possui para eles umha funçom exculpatória. Nom importam as derrotas, o fim do inimigo está perto (funciona toda umha religiom da esperança!). Criticar tal teoria nom é capitular face ao capitalismo, pois a ausência de discursos proféticos e apocalípticos nom fai melhor o sistema em que vivimos. De certo que Marx pudo ver nos movimentos revolucionários de 1848/49 umha consequência da crise económica desses anos e generalizar de modo precipitado e mesmo estar à espera dumha próxima revoluçom, nom obstante, por mais que fale no livro III de O Capital sobre os limites do modo de produçom capitalista, nom está a se referir a um final no tempo. Tal limite há de entender-se como um desenvolvimento das forças produtivas ao serviço unicamente da valorizaçom do capital. O conflito permanente entre o desenvolvimento ilimitado das devanditas forças e o fim limitado da produçom capitalista nom significa nengum colapso. Somente numha passagem dos Grundisse, anteriores a O Capital, há umha observaçom que se poderia interpretar em tal senso, quando di que o plustrabalho da massa deixou de ser a condiçom para o desenvolvimento da riqueza geral, do mesmo modo que o nom-trabalho duns poucos deixou de ser a condiçom para o desenvolvimento dos poderes gerais da mente humana, e com isso colapsa a produçom fundada no valor de troca. Nom é o momento para explicar a ciência em Marx, mas sim de dizer que a separaçom desas potências espirituais e o trabalho manual, que figuram por vezes em O Capital, dim relaçom a um incremento do poder do capital sobre o trabalho. E que se gaste menos trabalho no processo de produçom das mercadorias nom tem de entender-se como tendência ao colapso, e sim como fundamento da produçom de mais-valia relativa.

Assim pois, nom há que esperar com placidez que o sistema se derrube, como esperou certa esquerda que a revoluçom vinhera do Terceiro Mundo, o capitalismo tem de ser abanado.

Domingos Antom Garcia Fernandes é filósofo