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Crise económica internacional: Começa o segundo capítulo?

Sexta-feira, 19 Fevereiro 2010

Paula Bach

Três elementos fundamentais conjugárom-se na cena económica mundial. A situaçom económico-financeira pola que atravessam os três países da zona euro, Grécia, Portugal e Espanha, e mais em general os denominados depreciativamente PIGS (pola inicial dos três países mais Irlanda e que em inglês significa porcos), como conseqüência do crítico estado das suas economias, os seus avultados défices fiscais e dívidas públicas.

Esta situaçom, além de que poderia transformar-se numha séria ameaça à continuidade da moeda comum europeia, tem interessantes pontos de contacto com a crise da conversibilidade na Argentina que acabou com a queda do presidente De la Rúa no ano 2001. Como ontem na Argentina, hoje na Grécia e Espanha anunciam-se e já se estám aplicando duros planos de ajustamento fiscal, reformas laborais, reduçom de conquistas e rebaixas salariais. A Grécia antecipa as primeiras respostas dos trabalhadores e o movimento de massas, em Espanha há umha tensa situaçom política e o governo de Zapatero desceu aos níveis mais baixos de popularidade.

A crise da relaçom entre s China e EUA que tem a sua origem na negativa da China a desvalorizar o yuan, questom que pom obstáculos àas intençons de EUA de incrementar a sua competitividade internacional e reduzir as importaçons. América do Norte está a responder com ofensivas como a ameaça de Google de se retirar da China, a venda de armas a Taiwan (ilha que fazia parte de China e na qual se repregárom as forças da contrarrevoluçom de Chiang Kai-Shek em 1949) e a entrevista que Obama confirmou com o Dalai Lamba (líder espiritual do budismo tibetano e actual dirigente do governo do Tibete no exílio) contra a vontade do governo de Pequim.

A própria situaçom da economia norte-americana, que combina um crescimento anualizado de 5,7% do PBI para o quarto trimestre de 2009, com um desemprego que se mantém em torno de 10%, umha profunda crise orçamentária e de dívida, umha abrupta queda da popularidade de Obama e os últimos reveses democratas como a perda da banca em Massachussets que até a sua morte ocupou o democrata Edward Kennedy. Estes três elementos som expressom dos limites da forma como o o capitalismo evitou que a Grande Recessom se transformasse em depressom, que se manifestam de maneira mais ou menos mediada como crise de orçamento e de dívidas públicas. Esta situaçom poderia estar inaugurando umha nova fase da crise económica mundial.

Conseqüências da transformaçom de dívida privada em dívida pública

Depois da queda de Lehman Brothers a fins de 2008 e o fim da bolha imobiliária que inaugurou a recessom económica mundial mais profunda desde a crise dos anos ‘30, os principais Estados capitalistas evitárom umha depressom ao custo de converter dívida privada em dívida pública. Tanto nos Estados Unidos como nos países que integram a Uniom Europeia e Japom, as principais bancas de investimento, seguradoras e bancos comerciais (ainda que também empresas como General Motors) evitárom a falência através do salvaçom estatal.

Planes de estímulo fiscal e taxas de interesse historicamente baixas constituírom mecanismos chave para reanimar a procura e o crédito. Evitando um saneamento de capitais na magnitude que a crise o exigia, conseguirom conter o curso depressivo da economia, mas ao mesmo tempo transladarom o problema a outra parte, sem conseguir resolvê-lo no seu lugar de origem. E efectivamente parte da crise trespassou-se do sector privado para o sector público, isto é, ao Estado. Os défices fiscais e as onerosas dívidas públicas devenhem agora o sector mais vulnerável da economia. O mercado de dívida pública sob a forma de títulos, bónus e outros instrumentos financeiros funciona de maneira similar a qualquer outro mercado de capitais e dado que os ataques especulativos se dirigem para pontos críticos do sistema, pode sustentar-se que “ (…) os problemas nos mercados de dívida pública começam a parecer-se perigosamente aos ataques especulativos contra o sector financeiro de há ano e médio” (El País, 4/02).

A intervençom dos Estados para conter o curso da crise arroja assim um resultado de dous lados: contém a queda dos negócios privados a costa de absorver a crise e incentivar a gestaçom de umha nova bolha de dívida pública. O problema reside em que, por um lado, a dívida pública constitui, como dizia Marx, o mais fictício de todos os capitais fictícios já que carece de qualquer tipo de contraparte real. Por outro lado, no primeiro acto o Estado actuou como fiador dos negócios capitalistas; num segundo acto, se efectivamente o alvo o constituem os Estados, quem vai resgatá-los?

Europa: umha casa de loucos

As primeiras conseqüências financeiras dos altos endividamentos estatais e a sua duvidosa capacidade de pagamento, figerom-se sentir no pequeno emirato árabe de Dubai. Mais tarde a situaçom começou a ameaçar seriamente ao símbolo mais importante da unidade europeia: o euro. Primeiro foi Grécia. Agora sente-se na tríada Grécia, Portugal e Espanha. Mas sobretodo Espanha, onde a bolsa de valores sofreu em dous dias umha queda a mais do 7%, situaçom que o director geral do FMI, Dominique Strauss-Kahn, comparou com “o que se passou nos Estados Unidos”. Como assinalou o economista e editorialista do Financial Times, Nouriel Roubini, “Se Grécia é um problema para a zona euro, Espanha poderia ser um desastre porque se trata da quarta economia da regiom” (La Nación, 5/02). A economia espanhola caiu “(…) a umha velocidade vertiginosa depois de que o país entrara em recessom em 2008. Os seus défices públicos passárom de um excedente de 2,23% do PBI em 2007 a um défe de 11,4% em 2009. A dívida pública espanhola progressou de 36,2% em 2007 a 55,2% em 2009 e deveria chegar a 74% em 2012”. (La Nación, 5/02). O desemprego em Espanha roça 0% e é de longe o maior da zona euro.

Espanha junto com a Grécia, Portugal e Itália e, por fora da zona do euro, Gram Bretanha, som os países da Uniom Europeia cujas economias estiverom mais comprometidas no processo de especulaçom imobiliária. Por esse motivo estám entre os mais directamente afectados pola crise desatada em 2008 no coraçom de Estados Unidos. Além de Espanha, Grécia tem um défice público que chega a 12,7% PBI, a sua dívida pública se encontra em torno de 110% do PBI e em Portugal, o défice fiscal chega a 8% do PBI e a sua dívida pública atinge arredor de 80%.

No entanto a ideia de que o problema do endividamento afecta somente aos “PIGS” é, como assinala o economista marxista francês Isaac Joshua, umha ilusom. Como acaba de reconhecer o presidente do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet, os dezesseis países que integram a zona euro possuem em média um défice fiscal de arredor de 6% do PBI, um valor que se encontra muito acima dos 3% que exige a Uniom Europeia. Ademais para tomar alguns exemplos relevantes, em Estados Unidos o défice fiscal ronda os 11% do PBI, 8% em França, 11,6% em Gram Bretanha e ao redor de 10% no Japom. A dívida pública representa aproximadamente o 85% do PBI de Estados Unidos, os 76% em França, os 60% na Gram Bretanha e mais de 100% em Japom. O problema dos défices fiscais e o endividamento público em si mesmo, nom é entom um problema exclusivo dos “PIGS”, nem sequer é especificamente um problema da zona euro. A particularidade da zona do euro é que o pertence à moeda europeia impede recorrer a mecanismos tais como a manipulaçom das taxas de interesse que som manejadas polo BCE (actualmente sob direcçom alemá) ou implementar desvalorizaçons [1].

E o fio corta-se sempre pola sua parte mais fraca… É por isso que o ataque especulativo (que com particular sanha estimularom os jornais Financial Times e The Wall Street Journal, conselheiros do capital especulativo internacional) centrou-se nos países mais débeis que para permanecer na zona do euro terám que implementar fortes ajustes fiscais para reduzir os défices e a dívida e aumentar a competitividade externa das suas economias através de reduçons salariais e cortes de conquistas obreiras, tal como já anunciárom o presidente de Espanha, o “socialista” Rodríguez Zapatero e o ainda mais “socialista” primeiro ministro da Grécia, Giorgios Papandreu.

Os limites das políticas de saída da crise expressam-se assim com todo o seu potencial nos países mais pobres da zona euro, nos quais o antídoto contra a depressom económica, o endividamento estatal, nom pode continuar se querem manter-se no marco da moeda europeia. Os países mais ricos como Alemanha ou França, vam tentar manter o euro à custa da exigência de planos neoliberais aos países mais pobres para dar continuidade às políticas de keynesianismo “financeiro” nos países ricos. Ao fechamento desta ediçom transcendeu que os governos da zona euro teriam decidido assistir a Grécia, o que abre a possibilidade de que a mudança do plano de ajustamento anunciado polo governo se prepare algum tipo de salvaçom que poderia suavizar momentaneamente as pressons ao interior do mercado de bonus. No entanto estas políticas, obscenas como som, terám que se enfrentar (Grécia é um antecipo) à ira e a resistência mais aguda dos trabalhadores e os sectores populares pois já nom se trataria, ao menos nestes países, de conter a crise e sim de descarregá-la com os métodos mais tradicionais sobre as massas. Tanto um aprofundamento da crise financeira como o desenvolvimento da resistência do movimento obreiro, no curto ou no médio prazo, poderiam gerar um contágio para a Irlanda e para países cada vez mais centrais como Itália, questionando directamente a existência do euro ou o pertença de muitos países à zona euro.

Inclusive poderia terminar afectando à própria Gram Bretanha que está por fora da zona do euro mas dentro da Uniom Europeia, que possui fortes desequilíbrios na sua economia e cuja moeda, a libra esterlina, se encontra em estado reservado. A actual crise europeia volta a por na cena o velho-novo problema de que Europa nom é nem pode ser um “supraestado”. Nos anos ‘20 o economista inglês John Maynard Keynes chamou ao continente europeu umha “casa de tolos”. A impossibilidade da unidade capitalista europeia (e o papel do euro) representa um problema agudo que, ainda que nom pola primeira vez na história, hoje volta a por-se de manifesto em toda a sua dimensom.

Crescimento norte-americano e maiores tensons na relaçom com a China

Há poucos dias dérom-se a conhecer os dados do crescimento norte-americano do último trimestre de 2009 que fôrom de uns positivos 5,7% do PBI em termos anualizados. Este crescimento em aparência de impacto, que foi sem dúvida o maior desde o começo da crise de fins de 2008, explica-se fundamentalmente pola recomposiçom de inventários das empresas e pacotes governamentais de estímulo ao consumo. A recomposiçom de inventários associa-se ao facto de que durante o pior da crise, as empresas praticamente liquidarom seus stocks, polo que constitui um factor excepcional que nom pode ser considerado como elemento de crescimento estrutural da economia. Como conseqüência do freio da queda da economia que já leva dous trimestres, os stocks caírom a umha velocidade muito menor do que o vinham fazendo.

Segundo a agencia EFE “os inventários empresariais reduzirom-se em 33.500 milhons de dólares no quarto trimestre, depois de cair 139.200 milhos entre Julho e Setembro.” (4/02) Segundo a mesma agência “ao todo, 60% do crescimento do último trimestre obedeceu a essa forte queda na reduçom de inventários, que demonstra que as empresas voltarom a repor as suas existências, mermadas pola recessom.” Se se elimina esses 60%, o crescimento do quarto trimestre representaria aproximadamente 2,3% (sempre em termos anualizados) isto é seria menor do que o crescimento de 2,4% do terceiro trimestre e estaria na linha com a recuperaçom previsivelmente débil da economia norte-americana. Recuperaçom que, por outra parte, está sustentada sobre as muletas dos planos de estímulo fiscal e as baixas taxas de juros.

Tal como nos “PIGS”, os défices e o endividamento estatal cumprem um papel central em manter salvar a economia norte-americana que está a acumular o maior défice desde a Segunda Guerra Mundial e possui a dívida pública maior do mundo, equivalente a mais de 12 bilhons de dólares. As dúvidas sobre as possibilidades de cumprimento de pagamento redundam numha permanente fonte de instabilidade na economia norte-americana e mundial. É por isso que a contrapartida do anúncio do crescimento saiu à luz como umha profunda crise orçamentária quase ao mesmo momento em que se anunciava o índice e conduziu a umha série de compromissos pouco críveis de reduçom do défice fiscal como subproduto de pressons republicanas. Inclusive, no último momento, e como expressom da debilidade extrema das finanças norte-americanas, o presidente da Reserva Federal, Ben Bernanke, anunciou que procederia a diminuir a base monetária como um primeiro passo para suprimir posteriormente as medidas de estímulo ao que aparentemente seguiria um incremento das taxas de juro. Esta medida de duvidosa aplicaçom imediata dada a vulnerabilidade da economia norte-americana, procuraria aprofundar a atracçom de capitais mediante um maior rendimento dos bóus do Tesouro a acelerar falência dos países mais débeis. Nom obstante, numha situaçom extremamente crítica, arrisca impulsionar novamente para umha tendência recessiva à alicaída economia norte-americana.

Polo momento, nom só a recuperaçom tem umha débil base estrutural, apoiada como está nos planos de estímulo estatal e dinheiro barato, senom que ademais mostra a sua debilidade na incapacidade de gerar recuperaçom do emprego. A taxa de desocupaçom é de arredor do 10% e representa um dos problemas mais graves que enfrenta o estado. Os índices de recuperaçom da economia nom afectam a taxa de desemprego que mal conseguiu deter o ritmo do seu incremento. Este problema está na base da queda da popularidade de Obama e o debilitamento do Partido Democrata.

O caráter pouco genuíno da recuperaçom da economia norte-americana e com ele, a elevada desocupaçom, som os elementos que determinam que Estados Unidos tenha apostado a umha política de dólar sob que implica umha atitude internacional mais ofensiva com o fim de aumentar a competitividade e reduzir as importaçons. É neste contexto que toma relevância a sua relaçom com China. As próprias condiçons da recuperaçom negam a possibilidade de que se reestableza o equilíbrio relativo entre China e Estados Unidos que regeu durante os últimos anos e determinam umha política internacional mais agressiva por parte de Estados Unidos. A América do Norte precisa de que a China desvalorize o yuan [2] procurando frear as importaçons ,mas também para captar umha faixa importante do seu mercado interno. Estes som os elementos que se encontram por trás da mudança de política “amigável” norte-americana e o sua actual ofensiva sobre a China com o fim de a debilitar e render [3].

Para um incremento das contradiçons

As medidas que no seu conjunto aplicárom os principais estados capitalistas para conter a depressom encontrárom um limite. As instabilidades assinaladas ponhem em cena a situaçom paradoxal de que nom se pode continuar como até agora, mas umha mudança de política no sentido de reduzir os estímulos fiscais e aumentar taxas de juro no contexto de umha recuperaçom que quase nada tem de estrutural, conduziria para umha nova queda. Em princípio é provável que esta situaçom redunde numha combinaçom ecléctica de planos neoliberais nos países mais fracos e a continuidade de salvamentos nos mais fortes ainda que isto último ameaça com crises recorrentes e provavelmente leve a mudanças abruptas de políticas com conseqüências imprevisíveis. Salvagens planos de ataque nas naçons mais débeis vam incentivar seguramente um recrudescimento da luita de classes que poderia contagiar as naçons mais fortes com muito alto desemprego ,como é o caso dos Estados Unidos.

A estratégia de desvalorizaçom do dólar e a política de mao “aberta” dos Estados Unidos para a China, que procurava umha recuperaçom mais estrutural da economia norte-americana “guardando as formas”, fracassou. Também estám a abortar as tentativas ao interior da Uniom Europeia de manter dentro do euro a economias profundamente desiguais, deixando correr desequilíbrios extremos. Todos estes elementos vam provocar, estám a provocar, maiores contradiçons no interior dos blocos ou os pretensos blocos existentes. Por sua vez, um aprofundamento da crise na Europa aumentaria as tendências à desvalorizaçom do euro cuja contrapartida é a reavaliaçom do dólar. Este elemento afectaria seriamente as tentativas dos Estados Unidos de recompor a sua competência mundial e reduzir as importaçons, agudizando as tensons entre blocos e em particular, entre as potências como os Estados Unidos e Alemanha. Tanto estes elementos como as tensons entre Estados Unidos e a China, que nom há que esquecer que ainda sendo um país dependente, é a terceira economia mundial atrás dos Estados Unidos e do Japom e possui 22% dos bónus do Tesouro norte-americano, poderiam conduzir para um incremento do proteccionismo e a um maior estagnamento do comércio mundial.

Além dos tempos concretos, estamos frente aos primeiros elementos de umha nova fase da crise mundial que muito provavelmente vai aumentar as contradiçons no interior dos blocos ou semi-blocos, entre os Estados, com maiores ataques ao movimento de massas, maiores desigualdades económicas e maior luita de classes. Nom parece que no imediato se volte a um curso depressivo coordenado, do conjunto da economia mundial como sucedeu a fins de 2008, entre outras questons porque o principal afectado por agora nom é nengum país central. No entanto é muito provável que de forma mais estendida no tempo se estejam gestando as condiçons para umha nova recaída que, numha primeira etapa, provavelmente seja mais desigual do que a de 2008, mas que no médio prazo pode voltar a por em cena de forma mais violenta nom só as condiçons da depressom económica mas aquelas do confronto entre estados e do desenvolvimento da luita de classes.

Notas

[1] Para um estudo exaustivo dos antecedentes da actual crise da Uniom Europeia e o euro ver “Europa frente a la crisis capitalista mundial”, Juan Chingo, artigo traduzido para o espanhol da revista Stratégie Internacionale ano 2009, disponível en www.ft-ci.org

[2] Esta definiçom pressupom que a maior competitividade de China está associada só a umha política monetária quando na realidade, é só um elemento. A chave da maior competividade de China está sujeita aos seus paupérrimos salários, questom que os Estados Unidos nunca vam mencionar porque é altamente beneficiosa para as suas próprias multinacionais e a deslocalizaçom de inversom cara China que operou durante os últimos anos.

[3] Para profundizar sobre as tendências da relaçom entre a China e EUA no marco das condiçons da recuperaçom económica ver LVO Nº355, “Cuatro preguntas sobre la situación económica mundial. Crujidos de la ‘recuperación’”, Paula Bach.