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O nosso partido participou na ‘Rolda da Rebeldia’ (continuaçom)

Quarta-feira, 31 Janeiro 2007

Continuaçom

Qual é o sujeito sobre que deverá construir o movimento de libertaçom nacional?

Sem lugar a dúvidas a classe trabalhadora no sentido mais amplo. As profundas mudanças experimentadas na formaçom social galega nas dus últimas décadas convertem a Galiza numha sociedade bastante semelhante a do capitalismo avançado, embora sigamos a ser periferia. Da nossa actual morfologia de classes, despreende-se que já nom somos um país estritamente rural, desindustrializado e incomunicado. Somos umha sociedade com elevadas taxas de urbanizaçom conformada por umha hegemónica massa de assalariados e assalariadas com um destacado proletariado industrial.

É o povo trabalhador quem sofre nas suas carnes a dependência nacional que padecemos por Espanha: trabalha mais horas por menos salário, tem taxas de desemprego, precariedade e eventualidade laboral mais elevadas, pensons mais baixas, percentagem de pobreza e exclusom social superiores à média, os mais altos índices de sinistralidade laboral de Europa Ocidental, umha emigraçom maioritariamente juvenil que desangra a Naçom de boa parte dos seus futuros quadros técnicos e intelectuais no que nom deixa de ser um autêntico êxodo que esvazia a Pátria de boa parte dos construtores e construtoras do amanhá. A nossa renda é 25% inferior à espanhola.

Assim é como a opressom nacional se materializa na exploraçom da classe trabalhadora que conforma o sector social, claramente hegemónico, directamente afectado pola carência de soberania. E ele em conseqüência quem deve dirigir a luita de libertaçom nacional.
Devemos pois, tal como nos ensinou Francisco Martins, priorizar a concentraçom preferencial dos esforços “nas camadas proletárias onde é maior a carga de antagonismo com a sociedade estabelecida” e nom emprestar tanta atençom aos “sectores semiproletários e pequeno-burgueses, mais instruídos, com maiores hábitos de organizaçom, onde é mais fácil conseguir resultados, mas onde, em contrapartida, todo vai no sentido do reformismo”17.

A autonomia de classe é essencial para evitar converter-se em simples massa de manobra da burguesia progressista. As organizaçons interclassistas nom som tal. Som forças que empregam as classes populares para os seus fins, quase nunca coincidentes com os do proletariado. A pequena-burguesia nom é de fiar, nas encruzilhadas históricas nas que a confrontaçom de classe atinge o grau de máxima efervescência, e portanto há que posicionar-se, sempre acaba oscilando com a classe da qual procede atraiçoando o seu discurso popular.

A Galiza necessita umha organizaçom ampla onde a classe trabalhadora seja hegemónica na sua direcçom, entre a sua militáncia, na sua base social, na sua cultura, nos seus referentes históricos nacionais e internacionais, armada com um discurso claramente ao serviço das camadas populares.

É dever da esquerda real estirpar a terminologia burguesa hoje cada vez mais enraizada no movimento popular. O nosso sujeito é a classe trabalhadora nom a cidadania. Esse é um concepto espúrio para a esquerda, filho do aggiornamento e a adulteraçom, que pretende ocultar a luita de classes reforçando a hegemonia burguesa. No período de tránsito de um BNG que nom aceitava a lógica da Transiçom espanhola mas que progressivamente ia renunciando ao questionamento constitucional e autonómico, também tivo que mudar o seu imaginário colectivo substituindo as camadas populares que divulgou Beiras entre o escárnio e a mofa da ignoráncia espanholista por esse aparentemente neutral termo de cidadania.

Ou se está com as operárias e operários de Inditex ou com Amáncio Ortega, ou se está com o proletariado metalúrgico do sul da Naçom ou com os empresários da construçom naval. Ou defendemos as trabalhadoras de Gadisa ou o empório de Tojeiro.

Nós nom queremos voar com a gente que simpatiza com Díaz Ferrán nem com os associados ao sindicato do crime dirigido por António Fontenla. Ou se pom umha vela a deus ou ao demo. Tentar satisfazer a ambas partes nom é politicamente viável e sim eticamente rejeitável.

A nova esquerda patriótica que este foro de debate e reflexom avalia como hipótese, mas que as necessidades do País e da sua classe obreira demandam como umha urgência, nom pode ser o projecto dos bem remunerados funcionários das ONGs subsidiadas polo regime e as instituiçons imperialistas, nom pode ser o espaço de intervençom e promoçom social para os profissionais liberais incómodos com a direitizaçom do BNG e o PSOE, nem de vitalícios sindicalistas alheios à realidade de fábricas e centros de trabalho, incapazes de despreender-se dos seus privilégios. Deve ser umha força com umha composiçom genuinamente popular, conformada por trabalhadoras e trabalhadores em activo, por desempregadas e desempregados, pola cada vez maior massa de juventude precarizada, polos líderes vicinais, sindicais, dos movimentos sociais, logrando incorporar esse crisol de culturas e tonalidades cromáticas de pel que cada dia som mais significativas entre o povo trabalhador galego, independentemente de terem nascido no Senegal, Equador, Marrocos ou na Colômbia.

Obviamente bem intencionados militantes de extraçom social pequeno-burguesa devem fazer parte da nova esquerda transformadora a construir, mas nom para mudar os objectivos estratégicos por umha mais assumível e amável reivindicaçom de umha “democracia avançada”, “maior autogoverno e bem-estar para a Galiza”, por umha reforma estatutária que permita um melhor encaixe da Galiza na Espanha contribuindo para desactivar o conflito por mais “vinte anos mais de paz”.

A inócua e calculada indefiniçom promovida polos foros sociais e o desaparecido movimento antiglobalizaçom de um outro mundo é possível deve dar passagem à actualizada máxima luxemburguiana de Socialismo ou barbárie18.

Comunismo ou caos!19 é umha disjuntiva de máxima actualidade. Eis a única equaçom possível sobre a que construir o novo sujeito transformador, evitando cair no determinismo catastrofista quando o capitalismo avança face a destruiçom das classes sociais ao conduzir ao conjunto do planeta face a sua devastaçom. Conscientes de que nom pode ser assumida por centos de companheiras e companheiros @s comunistas galeg@s consideramos que sintetiza o eixo dialéctico sobre as que progressivamente vam girar as primeiras décadas deste século XXI.

Nos dias de hoje, a reclamaçom do exercício do direito de autoderminaçom deve tem como objectivo prioritário construir a suficiente massa crítica para avançar face a soberania, a independência nacional e o Socialismo. Deve elaborar com habilidade e inteligência as políticas tácticas, os necessários passos graduais para incorporar o maior número de povo ao projecto, para seduzir a maior quantidade de activistas e militantes desencantados com as fracassadas estratégias eleitoralistas e institucionais do reformismo nacional e espanhol presente na Galiza.

Pois após três décadas de autonomia as bases medulares sobre as que assenta o projecto nacional galego acham-se no estado de maior enfraquecimento da sua história. É pois evidente que há que mudar o rumo, dotar-se de um novo barco e renovar a tripulaçom. Há que opor-se radicalmente ao modelo autonómico optando pola independência, há que negar-se a aceitar as receitas do neoliberalismo defendendo com clareza a alternativa socialista.

Que métodos de intervençom e luita devemos empregar?

Nom se pode mudar a realidade, transformar a Galiza e o mundo sem tomar o poder. Aqui radica a pedra angular da construçom de um projecto genuinamente de esquerda, nom as versons tuneadas das velhas e obsoletas forças políticas reformistas.

Embora o projecto nacional que nos oprime, explora e domina seja incapaz de superar a crise permanente desde que se configurou num Estado-naçom moderno confrontamos um inimigo poderoso e com enorme experiência: o capitalismo espanhol. Após mais de quinhentos anos tentando exterminar-nos, procurando a nossa plena assimilaçom, Espanha nom cede na incessante procura da destruiçom do projecto nacional galego. A sua maior vitória tem sido a desactivaçom do movimento nacional herdeiro das múltiplas reformulaçons e operaçons de cirugia plástica realizadas sobre o melhor do legado e tradiçom do projecto desenvolvido a partir do núcleo de 1964. A integraçom do BNG à logica institucional, renunciando à auto-organizaçom e mobilizaçom popular, permite compreendermos melhor que métodos de intervençom aceita o nosso inimigo e quais som os que nom suporta, extraindo de ai as liçons para o presente e futuro do movimento de libertaçom nacional galego.

Levam décadas a tentar convencer-nos de que o parlamentarismo e a concorrência eleitoral é a única via para agir politicamente numha democracia burguesa.

A esquerda nom deve renunciar a utilizar este método de luita sempre que for útil para avançar, para difundir o nosso projecto emancipador, para questionar as enormes carências e défices democráticos da corrupta partitocracia ao serviço dos grandes poderes económicos e financeiros, dos bancos, monopólios e multinacionais que finaciam as suas campanhas de mercadotecnia, condicionando e hipotecando assim as posteriores decisons e orientaçons políticas.

Mas o fundamental é centrar a maioria das energias na organizaçom social e popular, investindo os melhores quadros e militáncia em construir contrapoder popular autónomo, em avançar na construçom nacional sem aguardar a termos um Estado próprio. A recuperaçom da figura do apalpador frente aos “reis magos” é um magnífico e actual exemplo de como podemos avançar nessa direcçom no quadro da dependência nacional.

É imprescindível e prioritário dotarmo-nos de umha ampla rede de entidades e organizaçons populares de carácter sectorial no ámbito local e nacional sobre as quais tecer o projecto independentista e socialista, pois é mais democrático ao permitir o enquadramento popular, e porque é o melhor antídoto para evitarmos a cooptaçom a que se vem submetidas as bancadas parlamentares, os quadros institucionais, pola perversa lógica do parlamentarismo burguês.

A consciência política, os valores, hábitos e princípios éticos socialistas, a formaçom ideológica permanente som fundamentais para evitar a seduçom do vil metal que corrompe sem trégua. Daí a importáncia do igualitarismo salarial entre @s camaradas que desenvolvem as tarefas profissionalizadas que as necessidades do movimento exige. Deve cobrar igual umha deputada que um administrativo de umha sede, deve ter igual remuneraçom económica quem desenvolve as ingratas tarefas de organizaçom que quem representa a cara pública do movimento perante os meios de comunicaçom.

A corrupçom, o suborno e o transfuguismo som fenómenos promovidos pola lógica das sociedades classistas baseadas na propriedade privada, e um movimento como o que Galiza e o seu povo trabalhador necessita nom vai estar blindado aos cantos de sereia dos cheques em branco que emita a democracia burguesa espanhola.

Os nossos desafios colectivos som imensos, embora caibam num grau de milho, nom podem confiar-se na utilizaçom de um só método. O marxismo em geral e o leninismo em particular sempre monstrárom umha imensa flexibilidade táctica na hora de empregar todos os métodos e formas de luita possíveis para acumular forças e criar consciência para avançar face o objectivo estratégico da tomada do poder.

A combinaçom dialéctica de todas as formas de luita para combater a opressom e a dominaçom devem ser utilizadas em funçom das condiçons objectivas e subjectivas, do nível de consciência popular socialmente compartilhado, nunca em base a rígidas interpretaçons doutrinais. “O que pode ser eficaz e útil num determinado lugar nom serve noutra latitude”20.

Mas a cultura maioritária na nossa esquerda nacional deve libertar-se das vacinas que lhe fôrom aplicando consciente e inconscientemente para conseguir fazer parte dessa falsa respeitabilidade com que Espanha anestesia os oprimidos. As reflexons de Maquiavel e Clausewitz sobre a guerra como prolongaçom da política por outros meios fôrom perfeitamente assumidas por Lenine e Gramsci sobre a inevitabilidade do confronto violento entre as classes.

Hoje, recolher as clássicas e vigentes concepçons do marxismo nesta questom pode ser constitutivo de delito de apologia de terrorismo pola “Audiência Nacional”, essa versom renovada do Tribunal de Ordem Público (TOP) franquista. “A arma da crítica e a crítica das armas”21 à qual aludia em 1843 Karl Marx, irremediavelmente cada vez adopta máxima actualidade perante a agudizaçom da luitas que a evoluçom da crise capitalista provocará.

Nom pretendemos que se nos apliquem atenuantes na interpretaçom das nossas palavras. Como comunista, sou consciente que os objectivos que persigo “só podem ser alcançados pola queda violenta de toda ordem social existente”22; porém, sei que o processo até atingirmos esses objectivos deverá utilizar todas as formas possíveis.

“A Revoluçom Galega como parte intrínseca da mundial deve impulsionar a construçom de forças sociais tendentes a atingir a hegemonia popular para a tomada do poder empregando de forma complementar e criativa todos, sem excepçom, os métodos de luita: legais, alegais e ilegais. A via reformista fracassou há décadas. A alternativa insurreccional nom só continua vigente, é a única via factível para transitar com sucesso da cada vez mais próxima descomposiçom do regime de partidos burgueses para umha democracia socialista que solucione as três grandes tarefas do nosso particular processo: independência nacional, superaçom da exploraçom da força de trabalho, e plena igualdade de género quebrando as bases do patriarcado”23.

Sei que é um debate polémico e incómodo, mas nom por isso desnecessário e pouco actual. Todo o contrário. Nom podemos pensar em construir algo novo comentendo idênticos erros de experiências anteriores.

Hoje na Galiza o movimento popular transformador deve apostar primordialmente na autorganizaçom e movimentaçom social, por promover convergências amplas e alianças sólidas, por penetrar nas instituiçons para as utilizar ao nosso serviço, evitando sermos utilizados por elas, mas também por ensaiar a acçom directa, os métodos de desobediência civil de vanguarda e de massas.

Nom podemos renunciar a “tensionar a sociedade com imaginaçom e contundência, evitando a indiferença, provocando adesons e solidariedades, estimulando a participaçom popular, nom reproduzindo hábitos políticos tradicionais, mantendo umha prática coerente com o discurso político”24.

Galiza, 5 de Janeiro de 2010

NOTAS

1. - Carlos Morais. “Crise ou crises no nacionalismo galego”. Abrente 39. Janeiro-Março 2005.

2.- 3- Os meios de produción, distribución e creto perteñecen ó povo.
4- A coleitivización do agro comenzará cunha etapa cooperativa, como fase previa a formas máis desenroladas de socialización.
5- A pequena empresa e a industria artesá serán concentradas en unidás produtivas superiores.
6- A grande empresa capitalista será socializada dun xeito imediato.

3. -  Entrevista do jornalista Jean Daniel ao Che Guevara realizada em Julho del 1963.

4.- Formulaçom empregada polo marxista peruano José Carlos Mariátegui num artigo de 1928 para descartar a aplicaçom mimética dos paradigmas soviéticos transmitidos polas directrices da III Internacional no seu país.

5.- “Mensagem aos povos do mundo através da Tricontinental” elaborada polo Che Guevara antes da sua partida para Bolívia em Novembro de 1966, embora difundida em Abril de 1967.

6.- Manifesto à Pátria e ao Povo Trabalhador Galego. Chegou a hora da unidade para resistir e luitar. www.nosgaliza.org/principal.php?pag=lerdoc&id=76

7.- Concepto empregado polo economista marxista argentino Jorge Beinstein e polo marxista egípcio Samir Amin em 2001 e 2002 seguindo as formulaçons utilizadas por Roger Dangeville em 1978.

8.-  “A verdade que aconteceu na Cimeira”, artigo de Fidel Castro. http://primeiralinha.org/home/?p=5932

9.- Leon Dadidovich Bronstein “Trostski”. “E agora?. Problemas vitais do proletariado alemám”, artigo publicado 25 de Janeiro de 1932.

10.- Vladimir Ilich Ulianov. Que fazer? Problemas candentes do nosso movimento.

11.- Intervençom na Festa da Política Operária, Clube Oriental de Lisboa, 19 de Janeiro de 2008. Política Operária 113, Janeiro-Fevereiro de 2008.

12.- Carlos Morais. “Quinze teses sobre Nunca Mais. Manipulaçom do movimento de massas e fracasso da estratégia reformista”. Abrente nº 29. Julho-Setembro 2003.

13.- “A estratexia da dinamita”. Faro de Vigo, 1 de Novembro de 2003.

14.- Consultar a “Tabela reivindicativa de mínimos para o novo governo autonómico. 444 medidas concretas para umha nova política nacional e de esquerdas”, elaborada por NÓS-Unidade Popular, Setembro de 2005. www.nosgaliza.org/web444/Tabelareivindicativa.pdf

15.- “Marx en su (Tercer) Mundo. Hacia un socialismo no colonizado”. Ediciones Pensamiento Crítico, Bogotá 2007.

16.- Carlos Morais. “A precária e velha proposta do neo-progressismo pequeno-burguês”. Abrente 44, Abril-Junho 2007.

17.- “Acçom comunista em tempo de maré baixa”. Abrente 30, Outubro-Dezembro de 2003.

18.- “Folheto de Junius (A crise da social-democracia)”, 1915.

19.- Iñaki Gil de San Vicente. http://www.kaosenlared.net/noticia/comunismo-o-caos

20.- Carlos Morais. “Sobre caminhos e modelos de Revoluçom”. Junho 2008. www.primeiralinha.org

21.- “Introduçom à “Critica da Filosofia do Direito” de Hegel”.

22.- Karl Marx e Friedrich Engels. “Manifesto do Partido Comunista”.

23.- Carlos Morais. “Parlamentarismo e via insurreccional”. Abrente 50 Outubro-Dezembro 2008.  http://primeiralinha.org/home/?p=520

24.- Tese Política das Resoluçons do III Congresso de Primeira Linha. Março 2002.

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