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O movimento das sufragistas: modelo de combatividade

Terça-feira, 26 Janeiro 2010

Ana Barradas

Como em quase tudo o que diz respeito ao feminismo, criou-se uma imagem depreciativa do movimento das sufragistas inglesas. Bom seria que aprendêssemos com os seus exemplos de firmeza política.

Partindo da consulta de jornais, revistas, arquivos, bibliotecas, cartas, diários pessoais e relatos autobiográficos das sufragistas inglesas do princípio do século XX, Joyce Marlow construiu, num livro recente, uma narrativa emocionante e verdadeira do movimento que, abalando a patriarcal sociedade vitoriana, conquistou o direito de voto para as mulheres, em 1928. Esse direito elementar não lhes foi dado de mão beijada; foi uma conquista duramente alcançada que incluiu mártires, prisões, condenações, greves de fome, até acção directa violenta.

É esse aspecto extremo da luta das sufragistas que mais impressiona e nos faz reflectir. Hoje não se tem uma ideia da coragem que foi precisa para desafiar as prisões sucessivas, a alimentação forçada por entubação – três vezes ao dia, por vezes semanas e meses a fio, até chegar ao limite da resistência física e mental – e, como se não bastasse, a hostilidade machista quando se apresentavam em público para fazer propaganda, em que eram recebidas com insultos, agressões e ataques com ovos, fruta podre e lixo.

Este ambiente profundamente hostil explica que as tácticas das sufragistas tenham sido tão radicais, inventivas e variadas. Junto do parlamento e do governo, não davam tréguas aos políticos; pressionavam os partidos e personalidades influentes, obrigavam-nos a explicar-se e a tomar posição; resistiam à acção da polícia prendendo-se com correntes de ferro às grades e monumentos; para combater a parcialidade da imprensa, criaram órgãos próprios que vendiam na rua aos milhares; nos julgamentos, recusavam-se a pagar multas e optavam sempre pela prisão; para chamar a atenção do grande público organizaram cortejos alegóricos, lançaram panfletos de um balão, passearam nas ruas uma carruagem puxada por mulheres, a simbolizar a opressão, exibiram cartazes num barco no Tamisa sob a varanda onde centenas de parlamentares tomavam chá.

Na fase mais aguda da luta, de 1910 a 1914, inspiradas nas tácticas do movimento independentista irlandês, recorreram à acção directa, muitas vezes de iniciativa individual. Sob o lema “Actos, Não Palavras”, as activistas partiam janelas, cortavam fios telegráficos, enfrentavam a polícia na rua e faziam duras greves de fome na cadeia. Além disso, interrompiam as sessões da Câmara dos Comuns lançando sacos de farinha sobre os deputados, esfaqueavam quadros nos museus e faziam rebentar explosivos de fraca potência nos estádios. O acto mais impressionante foi de Emily Davison, licenciada em Oxford e militante da WSPU, alimentada à força na prisão quarenta e nove vezes, que sacrificou a vida pela causa lançando-se para a frente do cavalo do rei na famosa corrida do Derby.

No plano mais geral, foram exemplares a campanha de recusa ao pagamento de impostos e contra o censo de 1911: as sufragistas entendiam que, se as mulheres não eram consideradas cidadãs para efeitos de voto, também não o seriam com o objectivo de ajudar o governo a compilar as suas estatísticas ou a sustentar as despesas públicas.

Atacando em todas as frentes das formas mais diversas e imaginativas, ao mesmo tempo que suportavam com heroicidade as sevícias prisionais, tornaram-se completamente visíveis e incómodas para todos os actores políticos, que se viram obrigados a deixar de as ignorar e a posicionar-se em relação às suas reivindicações.

Uma das razões para este protagonismo prende-se com a base social de apoio que o movimento soube conquistar e com as organizações de base que foi formando. Começado inicialmente por iniciativa de algumas mulheres da pequena burguesia, apoiadas por duas ou três aristocratas, ele foi-se alargando sucessivamente, até incluir largos sectores operários e populares.

Mulheres de todas as profissões e grupos sociais foram aderindo e participando aos milhares, com acções espectaculares como as “peregrinações”, que percorriam a pé centenas de quilómetros, unindo as regiões e as cidades e dando uma ideia física da amplitude e força da organização. O governo respondia com brutalidade. Em 1913, foram presas mais de mil sufragistas.

Durante a guerra de 1914-18, quando as duas principais organizações femininas decidiram (tal como os sindicatos, aliás) suspender a sua campanha para aderir ao esforço de guerra, muitas activistas opuseram-se ao militarismo, objectando que se glorificavam os heróis do campo de batalha enquanto se esqueciam os heróis e heroínas da paz.
Após o interregno da guerra e até aos anos 1940, conforme relata um outro trabalho de Hilda Kean, a luta prosseguiu.

Valendo-se do facto de terem contribuído de forma decisiva para o bom funcionamento da sociedade e da produção enquanto os homens estavam ausentes na guerra, as mulheres, ao mesmo tempo que conservavam uma parte dos seus novos postos de trabalho, passaram a outras reivindicações.

Com efeito, o direito de voto já revelara as suas limitações. Todas percebiam que não estava adquirido o essencial. Os percursos individuais das activistas estiveram intimamente relacionados com as campanhas pela igualdade salarial, o direito de voto e o reconhecimento do estatuto como profissionais de pleno direito, sobretudo no caso das professoras primárias, um dos sectores mais activos.

Um dos cavalos-de-batalha das sufragistas residia nos métodos de ensino que vigoravam na educação primária, extremamente autoritários e repressivos. Nas escolas onde leccionavam, as feministas destacavam-se pelo alto nível de preparação das crianças sob sua orientação, qualquer que fosse a origem de classe. Em Londres, preferiam trabalhar nos bairros operários.

Que diferença dos dias de hoje!

Estes relatos revelam uma concepção avançada de luta política, hoje posta de parte em todas as lutas sociais. Nos nossos dias é difícil encontrar movimentos feministas de base popular, dedicados a promover a consciência e o desejo de mudança. As feministas mais radicais desapareceram ou passaram a dedicar-se aos estudos académicos ou às reformas sociais. Deixaram de desafiar as instituições de dominação e teorizam uma suposta necessidade pedagógica de fazer compreender a sua causa, adiando para as calendas o confronto que é obrigatório promover para revelar claramente as contradições e para que algo comece a mudar.

As organizações de mulheres que dantes reivindicavam uma prática organizativa democrática, com estruturas não hierárquicas, acabaram por imitar as instituições existentes. Seduzidas pelos financiamentos postos à sua disposição, dedicam-se agora a obras sociais ou de formação profissional, todas elas concorrendo, ainda que indirectamente, para o reforço do Estado e dos governos. Vêem a igualdade de direitos enquadrada no sistema e não denunciam a desigualdade fundamental, a económica, que condiciona mais do que todas as outras condições de vida das mulheres, sobremaneira deterioradas desde que se iniciou a dominação neoliberal. A acção feminista, virada para outros objectivos, não tem praticamente influência alguma nos salários das trabalhadoras mais exploradas e mais discriminadas e nos sectores em que predomina o emprego feminino mal pago (têxteis e vestuário, alimentação, serviços indiferenciados na educação e na saúde), embora as mulheres da classe média tenham vindo a ascender nas suas carreiras.

O crescente assalariamento das mulheres e as contradições de classe que as dividem (chefas e subordinadas, patroas e empregadas, senhoras e criadas) reduzem o espaço para as reivindicações comuns. Mesmo assim, causas como o direito ao aborto, o assédio sexual e a violência masculina têm condições para unir todas as mulheres.

Porém, mais campanha, menos campanha, o domínio do homem continua a exercer-se, dentro e fora de casa. Os políticos são os primeiros a dar o exemplo, com os seus governos, parlamentos e autarquias monocromaticamente preenchidos com o cinzentismo do fato e gravata. No mundo da hierarquia estatal e empresarial, a mesma coisa, a todos os níveis. Nos sindicatos e outras formações supostamente mais democráticas e populares, a mulher surge timidamente representada e sempre alinhada pelas posições dominantes.

No plano da vida quotidiana, não é só a violência contra as mulheres que as impede de se sentir livres e sem medo. É o salário desigual, a segregação sexual no local de trabalho, a condenação aos escalões mais baixos nas hierarquias, os efeitos gravosos da redução dos gastos públicos, a luta cada vez mais dura pela sobrevivência, a noção de que as conquistas relacionadas com os direitos reprodutivos estão sob ataque, podem sofrer novos recuos e, na melhor das hipóteses, são tuteladas por decisões tomadas por outros, segundo critérios patriarcais.

Os movimentos feministas deixaram de ser motores de mudanças sociais e nisso acompanham quase todos os movimentos que no passado tiveram um papel revolucionário. Muito preocupados com a sua reputação e desejosos de se fazer aceitar, acabam por não estar dispostos a fazer seja o que for para se porem à margem dos manuais de boa conduta que lhes prescreveram as instituições com as quais se relacionam. A tentativa de tornar o feminismo mais aceitável (em especial junto dos homens) despojou o movimento de programas políticos e ganhou-lhes uma respeitabilidade altamente suspeita, no sentido em que os paralisa.

Outras tantas “doenças” que só poderão ser curadas quando se renovar o espírito combativo das sufragistas de há cem anos.