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A Ágora na Grécia Clássica: um lugar para a cidadania

Sexta-feira, 25 Dezembro 2009

Domingos Antom Garcia Fernandes

Conta Heródoto que Ciro II, o Grande, rei de Pérsia, veu de se referir aos gregos diste jeito: “Nom tenho medo algum destes homes que tenhem por costume deixar no centro das suas cidades um espaço vazio ao que ocorrem todos os dias para tentar fraudar-se uns aos outros sob juramento”. Tal espaço vinha a ser a ágora, ou praça pública, na qual coexistiam a assembleia e o mercado. E na devandita assembleia havia que dialogar, argumentar e contra-argumentar de cara a procurar consensos e aprovar leis. Seria o ideal no caso de debater em igualdade, pois, em vez do que acontecia noutros lugares com palácios, igrejas, reis, sacerdotes, amos… o protagonismo corresponderia ao demos (o povo) e o regime levaria por nome democracia. Porém, sabemos que esse demos era constituído por cidadaos livres e, de excepçom, alguns metecos. Nem as mulheres, nem os escravos (estes nem sequer eram pessoas, somente instrumentos com voz) faziam parte do mesmo. E tendo em conta o poder dos oligarcas, tal assemblearismo adquiria tingimentos de gregarismo.

Mas o anterior é  muito formoso: na vida privada es homem, mulher, transexual, jovem, velho… E na agora somente cidadao. Nom seria este o lugar de ninguém para ser o lugar de todos. Seria o lugar da razom, um espaço de liberdade.

E que é o que sucede nas nossas democracias de baixa intensidade, delegadas? Algo semelhante ao que já acontecia em tempos de Platom. Lembramos aquela caverna em que os prisioneiros se vem na obrigaçom de olhar para a frente, sem perspectivas, condenados a um imaginário de sombras. E na nossa caverna capitalista estamos encadeados aos marcos sociais da época, conhecemos um mundo de aparências, estamos atados a umhas instituiçons (famílias, escolas, tribunais, igrejas, estados…) que transmitem um modo de ver o mundo. E som em boa medida os mass media quem conformam toda umha cosmovisom. O mundo do cinema e da TV, que permitem ver sem que o nosso corpo esteja ali, som toda umha insidiosa caverna. E sair dela é para Platom um processo de conhecimento que arranca da doxa, um saber por imagens ou sensorial, percorre um mundo cheio de conjecturas (os dados múltiplos e dispersos dos sensos tenhem de se submeter a hipóteses explicativas, é preciso pôr ordem e siso na diversidade sensorial. Tratar-se-á de entender). Porém, ainda é mister um outro passo: apanhar o conhecinmento an-hipotético, a noésis, a filosofia como um saber de ideias à altura do momento, um saber de segundo grau, que vem de se apoiar em saberes prévios, e de modo especial os saberes científicos. Contodo o problema nom se resolve de forma idealista, nom se trata de dispor de ideias claras ou de tomar consciência… Nom há democracia sem igualdade económica, algo que se dizia no anterior artigo em rede.

Muitos pensam, talvez muito influídos polo idealismo do ambiente, agravado pola versom religiosa, em que fôrom enculturados, que é questom de conversons interiores e individuais (o graozinho de areia nom serve, requer-se umha revoluçom social!) e esquecem que as leis, os estados, os governos e a totalidade do sistema ideológico derivam dialecticamente, que nom de modo mecánico, da infraestrutura social e económica. E, como di Marx, “nom é a consciência dos homens que determina a sua existência, mas ao contrário, é a sua existência social que determina a sua consciência”. E também di que “o modo de produçom da vida material domina em geral o desenvolvimento da vida social, política e intelectual”. E todo isso sem cair en determinismos, economicismos, filosofias da história e visons teleológicas.

Mas concretizemos um pouco mais o assunto. Como se pode falar de cidadania, se nom decides na cidade? Se no terreno da economia nom resolves que produzir, nem quanto, nem quando, nem como, nem para quem, nem para que, nem como distribuir o produto, et cetera; se a nível político som os que dominam na socioeconomia (a classe social preponderante) que ditam boa parte das leis, favorecedoras da propriedade privada, e que controlam em boa medida os Estados; se no campo da ideologia passa algo semelhante (a ideologia dominante vem ser quase que sempre a ideologia da classe dominante), podemos perguntar: de que cidade imaginária se está a falar? Se a cidade está construída sem ti e contra ti, que figura de cidadao és? Como ousam chamar-te cidadao se nom contas na cidade? Se o teu cérebro é passivo e consumidor, e nom planeia a cidade, somente um discurso de ocultaçom pode outorgar-che carta de cidadania.

Embora o anterior nom seja cousa nova. Umha vez mais o discurso pseudo-humanista dos direitos humanos muda-te em algo que nom és. Porem, desmascarar tal humanismo teórico ficará para melhor ocasiom. De pouco valem grandes proclamas de liberdade, igualdade e dignidade e direitos como o do trabalho ou o dumha habitaçom digna, se a realidade vai por outro caminho. Para-te a pensar quem som os grandes porta-vozes dessas infecundas dissertaçons ateigadas de humanismo.