Abrente

Ediçons digitais da publicaçom trimestral do nosso partido

Documentaçom

Textos e outros documentos políticos e informativos de interesse

Ligaçons

Sites recomendados de ámbito nacional e internacional

Opiniom

Artigos assinados sobre temas de actualidade galega e internacional

Video

Documentos audiovisuais disponíveis no nosso portal

Home » Opiniom

Quebrar o círculo de ferro

Sexta-feira, 11 Dezembro 2009

Ana Barradas

Enquanto houver capitalismo, haverá um projecto utópico, renovando-se a partir dos falhanços da sociedade actual. Com efeito, e sem que muitos de nós o saibamos, o socialismo está em vias de se reactualizar, pela incapacidade de recuperação do capitalismo.

Apesar dos anúncios de uma retoma global, as economias apontadas como mais dinâmicas não cresceram. Retoma-se, isso sim, o ciclo anterior ao crash, em que os sectores produtivos são preteridos em favor do sector especulativo, mais lucrativos a curto prazo. Quando a coisa corre mal, os neoliberais, esses mesmos que reclamavam “menos Estado”, exigem-lhe e obtêm créditos, subsídios, isenções e todo tipo de facilidades, pagas afinal com o dinheiro dos contribuintes. Na ausência de resistência organizada das classes trabalhadoras, continua a ser grande a margem de manobra dos segmentos dominantes para recuperar de nova crise económica.

No plano político, o nosso reformismo de esquerda, de doente que está, assiste passivo no parlamento à “luta pelo desemprego” em que o CDS surge como campeão. Descendo ainda mais baixo do que no combate económico, ao erigir como modelo ideal um sucedâneo mal enjorcado daquilo que já temos, ou se cala, sem alternativa, ou celebra, a propósito do muro de Berlim, as toscas liberdades da democracia que nos impõem em vez de apelar à queda de outros muros, como o muro que Israel construiu para isolar os palestinianos e apoderar-se das suas terras, como o que separa os EUA do México, exigir o encerramento da prisão de Guantánamo, onde continuam presos centenas de muçulmanos sem processo legal e sujeito a torturas, ao fim da discriminação da União Europeia contra os imigrantes, etc.

Neste contexto, convém não esquecer porém que a capacidade do capitalismo para restabelecer a sua postura hegemónica é ilusória e tem prazo de validade. Contudo, ele não cai se não for derrubado. Para este efeito sine qua non, faria toda a diferença um programa globalizado que se apresentasse como estratégia contra-hegemónica. Como não é isso que se passa, a actual falta de alternativas teóricas e políticas da esquerda existente prolonga pelo contrário a viabilidade do sistema e alheia-se desde já, de forma criminosa, dos padecimentos que aguardam os explorados e excluídos, sobre os quais recai já o ónus mais duro de suportar, numa altura em que o pior ainda está para vir.

A história popular já criou nos nossos tempos formas modernas e eficazes de acção: ocupação dos locais de trabalho, sequestro de patrões, apropriação das casas devolutas, amanho colectivo de terras abandonadas. O nosso 25 de Abril foi uma pequena amostra do que é possível fazer-se. Maio de 68 foi outro caso em que pela primeira vez um movimento de ideias se espalhou por todo o mundo e se transformou em protestos contra o sistema. As campanhas antiglobalização atingem dimensões consideráveis à escala intercontinental, os protestos contra a guerra do Iraque tiveram expressão em todo o planeta, as revoltas contra a escassez e preços elevados de cereais e produtos alimentares alastraram por dezenas de países pobres.

Tudo isto são sinais de que os debaixo nem sempre estão dispostos a que os de cima os governem como bem entendem. A experiência acumulada aponta o caminho. Quando retirarmos as devidas ilações da história, começarmos a passar à prática e substituirmos as bandeiras destas entidades decadentes que nos dominam por outros estandartes mais universais, talvez estejamos a empurrar o sistema para o seu fim, livrando-nos de vez do círculo de ferro com que nos estrangulam.