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Umha estória de piratas

Terça-feira, 1 Dezembro 2009

Ramiro Vidal Alvarinho

O Índico parece um cenário perfeito para umha estória de piratas. Esse oceano, que banha três continentes, apresenta-se à nossa imaginaçom como o locus amoenus ideal para un moderno Shandokan que o sulque na procura de novas e excitantes aventuras. O caso é que é certo que o Índico é um oceano cheio de perigos e violência, mas o que alí acontece nom tem o encanto e o romantismo das estórias de piratas de antano.

Se houvesse que falar de pirataria no corno de África, por exemplo, o primeiro que haveria que discutir é quem é o pirata. A Somália é um país sem Estado, muito empobrecido, que sofreu umha fame brutal nos anos noventa. Como conseqüência disso, foi objecto de umha ocupaçom militar por parte dos Estados Unidos, teoricamente para ajudar na distribuiçom de alimentos entre a populaçom, ainda que nom seja segredo nengum que essa regiom do continente africano está no alvo do capital internacional polos seus jazigos de petróleo. Sobre as violaçons de direitos humanos cometidas durante a estadia dos soldados ianques e dos capacetes azuis de diferentes nacionalidades há bastante material apesar da imaginável censura nos media ocidentais. Intermitentemente, a Somália também mantivo confrontos armados com a Etiópia e ainda recentemente houvo incursons militares etíopes em solo somali.

A situaçom de guerra constante em que se acha a Somália fai com que nom se dê consolidado um Estado. Nom há umha autoridade e umhas instituiçons que controlem a totalidade do território, nom há um governo reconhecido por toda a populaçom, ou por umha maioria significativa. Esta circunstáncia interessa a alguns. Por exemplo, às multinacionais que deitam materiais tóxicos nas redondezas da costa somali. Ou às empresas gregas, italianas ou espanholas que se dedicam à pesca industrial nessa zona.

Na Somália, como digo, nom há um governo central ou local com que negociar condiçons para faenar nas suas águas. Ninguém vai estabelecer quotas de captura, ninguém vai impor regras sobre a matriculaçom dos barcos, sobre as percentagens de tripulaçom ou sobre que artes se poderám utilizar. Todo vale, porque ninguém controla. É campo aberto para o saque. Mas, como contrapartida a essa vantagem, está a desvantagem de que em princípio ninguém garante a segurança dos trabalhadores do mar embarcados nos barcos que faenam frente às praias somalis. Também acontece que entre os habitantes da costa somali a presença de buques de grande comprimento que capturam sem limite túnidos nas proximidades das suas praias, provavelmente com artes que danificarám outras espécies, até encherem as suas enormes cámaras frigoríficas, nom produz precisamente contentamento.

Podo perfeitamente imaginar como esta sobreexploraçom das zonas de pesca somalis estará a arruinar as que tradicionalmente aproveitavam os marinheiros daquelas praias e o profundo dano que isto fará nas economias locais. E, neste contexto, podo compreender os seqüestros de barcos nessas águas. Umha maneira desesperada de tirar algum benefício da desfeita. O grito desesperado também de quem sofre a fame e a pobreza extrema. Naturalmente que compreendo o medo, a dor, a angústia dos familiares, das amizades, da vizinhança dos marinheiros seqüestrados e a sua alegria perante a sua libertaçom. É claro que nom desejo que nengum marinheiro galego, basco ou de onde quer que seja sofra dano nem no Índico, nem em nengum lugar. Mas o que é verdadeiramente injusto é pintar de todo isto um conto onde uns maldosos piratas de cor escura seqüestram e torturam uns honrados marinheiros europeus.

Como sempre que o primeiro mundo recolhe o que sementa, gostamos de pintar-nos de vítimas, quando nom somos tal. A “pirataria” somali é a ponta de um icebergue de injustiça e horror, e os espoliadores tenhem sorte de que este fenómeno nom tome forma de guerrilha, que é o que deveria acontecer. Este mesmo fenómeno manifestado numha forma mais ideologizada poderia aguilhoar consciências dentro e fora da Somália. Quiçá esse é o medo real que tenhem algumhas potências imperialistas, e quiçá por isso facçons das oligarquias espanhola, galega e basca andam a defender que está na hora de pensarmos numha intervençom militar. Umha intervençom militar que encaixaria muito bem dentro dessa doutrina da “guerra global contra o terrorismo”.