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Pinheiro entre nós

Terça-feira, 24 Novembro 2009Um Comentário

André Seoane

A oficialidade cultural galega decidiu dedicar este ano 2009 a celebraçom do Dia das Letras a umha figura da nossa cultura de evidente importáncia, mas que desperta sentimentos enormemente contrapostos. Ramom Pinheiro foi um personagem com um papel central na rearticulaçom da consciência cultural e política da afirmaçom da galeguidade após o golpe de estado do 1936, mas o papel jogado por ele nom suscita consensos e sim abre um azedo confronto entre quem se reclama seguidor e quem rejeita abertamente a via impulsionada por Pinheiro, o que se deu em chamar o pinheirismo.

Porém, nom é a nossa intençom fazermos aqui umha analise serôdia do papel jogado por Pinheiro durante a sua dilatada actividade como criador e dinamizador dum determinado tipo de galeguismo, centenas de artigos e dúzias de livros publicados ao longo do presente ano cumprírom sobejamente com essa tarefa, mas sim incidir na sobrevivência do pinheirismo na actualidade e em especial na aparentemente paradoxal influência das analises desta corrente de pensamento num cenário supostamente tam afastado no ideológico como é o independentismo galego do presente, entendido este no seu senso mais amplo. Daí o título escolhido para encabeçar este artigo: “Pinheiro entre nós”, onde o “nós” inclui apenas aqueles que dizemos defender a segregaçom de Galiza do Estado Espanhol.

Para centrar a questom, deveríamos especificar os traços substanciais de aquilo que entendemos como pinheirismo, para o qual escolhemos como método nom só a analise do pensamento de Ramom Pinheiro, facilmente rastejável na sua relativamente escassa obra escrita, mas fundamentalmente na realidade da sua actividade prática que evidentemente vai dar-nos umha imagem mais acertada. No fim de contas, o essencial, em especial no tocante à actividade política, o importante nom é o que se di, e sim o que se fai.(1)

Assim, do repasso da actividade do esgrévio vulto de Láncara podemos tirar como conclusom duas características fudamentais das quais derivam outras secundárias que também nos interesará ressaltar.

A primeira destas características é a do “elitismo”. Se repassarmos a actividade de Ramom Pinheiro, em especial desde que é libertado de prisom e retoma a sua actividade como líder do galeguismo do interior na década de 50, temos que concluir que nunca mostrou umha mínima preocupaçom por atingir umha grande influência no nível de massas. Muito ao contrário, as iniciativas por ele impulsionadas dirigiam o seu alvo face reduzidos núcleos de pessoas que se situavam em lugares estratégicos, em especial entre as novas geraçons de universitários.

O objectivo de Pinheiro nom era o de que o seu galeguismo fosse adoptado e assimilado directamente polo maior número possivel de pessoas, pois que essa visom ideológica era destinada em exclusiva a um reduzido e selecto grupo, com desetaque para aqueles que se sentárom na famosa “mesa-camilha”, e que umha vez impregnados deveriam ser os que, a partir dos mais diversos postos dirigentes da sociedade, expandiriam a sua influência. Umha das conseqüências lógicas desta estratégia foi a famosa ideia de abandonar qualquer actividade destinada a reorganizaçom do nacionalismo político num partido e a posterior tese de “galeguizaçom” de todas as forças políticas actuantes na Galiza a apartir do seu interior.

Em resumo, seguindo este esquema, seriam os elegidos doutrinados por Pinheiro os encarregados de levar à sociedade essa noçom de galeguismo por ele defendida. Lamentavelmente para ele, a realidade demonstrou a inutilidade desta estratégia que parecia nom ter avaliado adequadamente as resistências a esta “galeguizaçom” a partir de dentro por parte de estruturas coma as dos diferentes partidos de ámbito espanhol.

Mas, atrás desta dimensom elitista, aparece umha outra característica nom menos importante e ainda mais vergonhosa: a cobardia.

E arriscamo-nos a qualificar de cobarde a actividade de Pinheiro embora sejamos plenamente conscientes de que mesmo lhe supujo nalgum momento ser vítima da represosm, porque, como bem sabemos, o estabelecimento de avaliaçons absolutas só nos leva a afastarmo-nos da compreensom da realidade quando o que queremos e conhecê-la e avaliá-la. E Pinheiro foi um cobarde se abordarmos a sua praxe numha dimensom relativa.

Assim, a actividade de Pinheiro caracterizou-se por praticar-se em trincheiras bem guarnecidas onde rara vez chegavam as balas do inimigo, atitude que nom teria nada de criticável a nom seri pola insuficiência para conseguir avanços se o único que se fai é guardar a posiçom. Mas o realmente cobarde da atitude de Pinheiro foi o de ficar nessa posiçom entrincheirada enquanto muitos outros saíam a campo aberto a combater, para além de criticar abertamente e atacar todo aquele que nom seguia a sua agónica estratégia de agardar tempos melhores. Tempos que so poderiam chegar se alguém ia procurá-los.

Elitismo e cobardia som pois as características fundamentais que, do nosso ponto de vista, definem ao pinheirismo e deles derivam-se toda umha série de questons que em maior ou menor grau fôrom ressaltadas por críticos e seguidores de Dom Ramom como o culturalismo ou o anticomunismo.

Certamente, o pinheirismo nom é mais que a expresom concreta num momento e num lugar determinados dumha outra cousa que tem umha dimensom mais global. O pinheirismo nom passa de ser a expressom galaica dumha forma concreta da ideologia e a praxe da pequena-burguesia levada a umha situaçom de incerteza no abalar das tensons sociais. Pinheiro nom fijo mais que formular as soluçons próprias do pensamento pequeno-burguês às condiçons dum país oprimido submetido na altura ao pé de ferro do fascismo.

Nessa situaçom concreta a pequena-burguesia galeguista tem em Pinheiro a um guia que oferta um caminho cómodo que a afastará tanto da liquidaçom absoluta que provocaria a plena asimilaçom cultural, conseguindo-lhe um acubilho como elemento colateral e por veces meramente folclórico do sistema establecido, como da vorágine revolucionária do novo nacionalismo de matriz marxista nascido na década de 60 que gardava no seu seio a potencialidade de criar umha nova realidade onde a comodidade pequeno-burguesa também se veria seriamente atacada.

O pinheirismo é pois um facto do seu tempo e o seu lugar mas que garda relaçom directa com umha “atitude social” própria dumha fracçom de classe, a pequena-burguesia intelectual, que podemos atopar  por toda parte e em todos os tempos nos que este grupo social existiu. Umha atitude que se caracteriza polo ressentimento duplo face a outras fracçons da burguesia que exercem o dominío político efectivo numha sociedade e contra as camadas populares que podem alterar a plácida mediocridade onde “o intelectual” está tam cómodo.

Possivelmente seja esta realidade, a do pinheirismo como expresom concreta da ideologia da pequena-burguesia intelectual na Galiza, a que explique a sua sobrevivência e mesmo o abrolhar de neo-pinheirismos incluso em espaços ideológicos tam afastados da matriz como pode ser o independentismo galego.

Nom seríamos nós os primeiros a revelar que já há tempo que o pinheirismo pareceu renascer precisamente entre os filhos pródigos do próprio Dom Ramom. Entre aqueles que na década de 60 fôrom embora da “mesa-camilha” e incluso pretenderom matar o pai, embora só fosse literariamente. Os mesmos que agora se acobilham na trincheira da CULTURA com maiúsculas ou dos mais diversos tipos de respeitáveis gabinetes, ao tempo que atacam o aventureirismo de quem continua na rua e afirma, com a  palavra e os factos, que o labor de libertar este país e este povo nom vai nem pode ser cómoda nem respeitável, quando menos segundo as convençons da ideologia dominante.

Mas nom é só entre os derrotados e entregados de geraçons passadas que o espírito de Pinheiro conseguiu abrigo, mas mesmo entre gente que nunca tivérom contacto com Dom Ramom por questons meramente cronológicas.

Assim, há um tempo que cada vez é mais habitual ler e escuitar comentários que criticam a marginalidade que acompanha a existência da esquerda independentista como movimento. Comentários que surgem de pessoal relativamente próximo de nós e que nalguns casos mesmo chegam a afirmar cousas como que coincidem com as nossas propostas políticas, mas discrepam dos nossos métodos. Gente que di manifestar a sua incomodidade diante de atitudes “violentas”, tais como boicotes ou pintadas, que rejeitam o independentismo organizado por considerá-lo impregnado da sordidez da repressom (como se a repressom fosse algo criado por nós e nom imposto).

Pessoal que afirma que o independentismo tem de ser um movimento “sério”, mas entendendo como “sério” nom um movimento político esforçado realmente na transformaçom revolucionária dum país com todas as suas conseqüências, mas um movemento ou organizaçom política totalmente homologável às do sistema vigorante. Um independentismo que nom ponha medo e que inspire “respeito”.

Curiosamente, com muitas destas afirmaçons ou demandas @s comunistas galeg@s poderíamos estar de acordo, mas como em todo a questom está na focagem relativa.

Sabemos perfeitamente que essas vozes que reclamam seriedade e respectabilidade estám é a dizer-nos o mesmo com que nos bombardeia o espanholismo quando nos qualifica de “radicais”. Querem que o independentismo nom passe de ser umha postura mais da “pluralidade” política da realidade espanhola, umha postura que atinga a cobertura que atingiu o pinheirismo no seu tempo. Vozes que estám a reclamar construir a sua Galaxia, o seu ILG, a sua Real Academia e, porque nom, sentar um par de “sérios e respetáveis” independentistas numha cadeira do Paço do Hórreo.

Lamentamos pois informar que nom estamos interessad@s neste tema.

Quando nós falamos da nossa vontade de construir um movimento político sério estamos a referir-nos a que queremos construir ferramentas organizativas e políticas que funcionem correctamente de acordo aos objectivos que nos marcamos, nom a que aos dirigentes das organizaçons da esquerda independentista compadreiem com os empresários e as forças vivas do País.

Para nós, fugir da marginalidade é simplesmente deixar de ser umha força minoritária e atingir umha ampla base social, nom que se nos abram as portas dos gabinetes universitários e consigamos colocar peças estratégicas em instituiçons e empresas.

E, sobretodo, somos bem conscientes de que se a esquerda independentista quer ser respeitada, em especial polos seus inimigos mais directos, deve ser quem de pôr medo. Realmente  tem que conseguir causar terror ao capitalismo espanhol.

A nossa atitude é a mesma que a de aqueles que na década de 60 pugérom a andar a nova onda do nacionalismo galego. Sabemos que da “torre de marfim” ou da “mesa-camilha” nom se pode mudar nada, e o nosso objectivo é mudá-lo todo.

Notas:

(1) Nesta tarefa foi de grande ajuda a obra de recente publicaçom do historiador Carlos Velasco Piñeiro e o Piñeirismo em perspectiva histórica. Laiovento, 2009

(Artigo publicado no número 54 de Abrente)