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Estados Unidos e América Latina em tempos de militarismo, proteccionismo e saque

Sexta-feira, 30 Outubro 2009

James Petras

Introduçom

Um dos aspectos mais surpreendentes das relaçons contemporáneas entre os Estados Unidos e a América Latina é a profunda divergência que existe entre, por um lado, as esperanças, as expectativas e a positiva imagem que de si mesmo oferece o governo de Obama e, polo outro, as políticas, estratégias e práticas que leva a cabo no mundo real.

Muitos dos comentaristas estado-unidenses e nom poucos escritores latino-americanos tenhem decidido ignorar os traços mais elementares da política exterior de Washington para se centrar exclusivamente na sua falsa retórica de “mudança” e “novo começo”.

Para compreender na sua justa medida a política exterior estado-unidense em relaçoma à América Latina é precisa umha análise dos principais objectivos do governo de Obama, a saber, das prioridades planetárias da política imperial nestes tempos de guerras múltiplas e crise generalizada.

As tácticas e a estratégia usamericanas com respeito à regiom do continente situada ao sul do Rio Bravo saem à luz unicamente se se tenhem em conta as recentes mudanças históricas, económicas e políticos na América Latina, bem como os variáveis alinhamentos políticos.

Umha avaliaçom realista da política de Usamérica requer que se vaia para além das declaraçons e da “projecçom do poder” de Washington para proceder a umha análise das suas actuais capacidades e dos recursos disponíveis para levar a cabo o programa de Obama em América Latina. Com vistas a avaliar a política de Washington, deve-se analisar a sua coerência e a sua viabilidade à luz do seu diagnóstico político de América Latina, o qual oferece umha base para determinar a compatibilidade ou o conflito de interesses entre ambas regions.

Surge entom umha questom básica: De que maneira as políticas, os objectivos e os recursos disponíveis do governo de Obama calham com as necessidades de desenvolvimento dos diferentes países latino-americanos nestes tempos de crise económica global?

A resposta a esta pergunta requer que examinemos as políticas recentes e os alinhamentos políticos na América Latina. Seria absurdo sobreestimar ou subestimar o grau da “hegemonia” estado-unidense ou da “autonomia” latino-americana, sobretodo se se consideram as importantes mudanças nas relaçons de poder que tivérom lugar durante as duas últimas décadas e ainda continuam a ter lugar hoje em dia.

As relaçons da América Latina com os Estados Unidos estám amplamente influenciadas polos acontecimentos externos, entre eles os conflitos de classe, que determinam a correlaçom de forças políticas, e também polos acontecimentos externos, tais como a intervençom estado-unidense e a sua expansom externa e as condiçons dos mercados mundiais. As mudanças nas relaçons político-económicas da América Latina podem dividir-se em períodos diferentes, que oferecem umha visom geral do seu grau relativo de hegemonia e autonomia a respeito do império.

Os contornos em mudança das relaçons entre os Estados Unidos e a América Latina (1990-2009)

Qualquer “análise geral” das relaçons entre os Estados Unidos e América Latina está sujeito a excepçons e variaçons segundo sejam as experiências particulares dos países, inclusive se existirem “tendências dominantes” na regiom.

As primeiras duas décadas, desde 1980 a 2000, estabelecem certos parámetros para políticas recentes, em particular os conflitos e as divergências de interesse.

O período desde 1980 a 1999 foi definido por Washington e Wall Street como a “Idade de ouro” das relaçons entre os Estados Unidos e América Latina. Os regimes aceitárom e promocionárom a hegemonia estado-unidense, consoante os termos ditados polo FMI, o Consenso de Washington e o modelo de acumulaçom capitalista.

Isto incluia a eliminaçom das barreiras arancelarias, a privatizaçom de companhias públicas (entre elas bancos, poços petrolíferos, minas, fábricas e companhias de telecomunicaçons) e a sua posterior desnacionalizaçom ou transferência a corporaçons multinacionais estado-unidenses e europeias.

Tanto os Estados Unidos como a Uniom Europeia tomárom posse dessas companhias públicas a preços e condiçons excepcionalmente favoráveis, o qual conduziu à transferência em massa dos lucros, os interesses e os pagamentos em conceito de aluguer às multinacionais, o que lhes proporcionou umha ampla influência sobre o sistema financeiro e creditício, bem como o acesso aos aforros locais nos países latino-americanos.

No ámbito político, tais países aceitárom e promovêrom a ideologia estado-unidense do livre mercado, conhecida como neoliberalismo, e apoiárom a intervençom diplomática e política do império na regiom, bem como noutras partes do planeta.

O saque dos tesouros públicos e das poupanças privadas por parte das multinacionais e a concentraçom resultante da riqueza e do poder político polarizárom a sociedade e precipitárom grandes crises políticas e económicas, o qual conduziu a levantamentos populares na maior parte da regiom entre os anos 2000 e 2004. A América Latina foi testemunha da substituiçom de vários governos clientelistas dos Estados Unidos, de um questionamento generalizado da ideologia do livre mercado e de um crescente potencial de mudanças estruturais radicais.

Como conseqüência da nova relaçom de forças, o poder político estado-unidense diminuiu e a sua influência viu-se amplamente limitada as elites políticas e económicas situadas nas margens do governo, assediado por movimentos activos e eleitorados desafectos.

O “terceiro período” foi testemunha de “regimes inibidos”, que responderom às exigências populistas e às críticas do neoliberalismo (estruturas e políticas económicas centradas no império), mas sem eliminar nengum dos impopulares legados estruturais e da propriedade impostos polos governos clientelistas anteriores. O auge e a consolidaçom de um amplo leque de “governos de centroesquerda”, altamente diferenciados, beneficiou-se das condiçons económicas mundiais, em especial dos elevados preços dos bens de consumo, que facilitárom programas de bem-estar social e a recuperaçom económica, bem como o “declínio” relativo do poder político estado-unidense. Este declínio intensificou-se por causa do envolvimento de Washington em umha série de guerras prolongadas em Médio Oriente e no sudeste asiático, bem como da sua “guerra global contra o terror”.

O “terceiro período” caracterizou-se por um aumento da relativa autonomia da América Latina, ajudado por enormes e imprevistos benefícios devidos a preços excepcionais e a mercados asiáticos em expansom, bem como às iniciativas político-económicas regionais do governo de Hugo Chávez na Venezuela.

O final do boom dos bens de consumo e o início de umha depressom de ámbito mundial marca o começo do quarto período. Dous fenómenos contraditórios impactárom as relaçons entre os Estados Unidos e a América Latina. Dado que a primeira era o epicentro da crise económica mundial e as suas instituiçons financeiras e de investimento voltarom-se insolventes, o financiamento e o investimento desaparecêrom ou fôrom repatriados, o qual debilitou a presença estado-unidense na América Latina e a sua influência económica na regiom com grandes reservas estrangeiras. Em segundo lugar, o incremento das forças militares estado-unidenses em outras regions (Médio Oriente a Ásia/Europa do Leste) diminuiu a sua capacidade de intervençom militar na América Latina. Enquanto os acontecimentos da situaçom económica e militar mundial oferecêrom oportunidades para exercer umha maior autonomia latino-americana, o declínio nos mercados da exportaçom, a contracçom dos mercados do crédito e dos rendimentos em conceito de capital estrangeiro sacárom à luz a vulnerabilidade dos regimes de “centroesquerda”, muito dependentes das “estratégias de exportaçom”. Os traços contraditórios do “quarto período” dérom forma ao marco actual das relaçons contemporáneas entre os Estados Unidos e América Latina e definem alguns das questons chave às quais se enfrentam os dirigentes latino-americanos e o governo do presidente Obama.

Aumento do militarismo, proteccionismo financeiro e diminuiçom do comércio

As políticas de Obama na América Latina estám negativamente presididas por estas três prioridades. Em política exterior, o novo presidente prossegue os desígnios militares imperiais dos seus predecessores. Contrariamente às esperanças de paz de muitos dos seus defensores progressistas e esquerdistas, Obama rodeou-se de militaristas comprometidos, de sionistas e de frios senhores da guerra.

As principais diferenças entre Bush e Obama estribam na linguagem diplomática que acompanha ao desígnio imperial e no alcance e a profundidade da actividade militar. Obama tem assumido umha retórica de reconciliaçom”, “negociaçom” e “mudança”, muito diferente da abertamente belicosa e confrontacional de Bush, mas isso nom lhe impediu acelerar e estender as actividades militares para além das de Bush.

Umha análise sistémica das políticas de Obama revela a sua insistência primordial em projectar o poderio militar como instrumento principal para a manutençom do império em todo o mundo.

Sueste asiático

Obama tem incrementado em mais de 40% as unidades militares dos Estados Unidos no Afeganistám ao acrescentar 21.000 soldados aos 38.000 já existentes; ademais, tem intensificado o financiamento para duplicar os efectivos do exército e da polícia afegao –ambos mercenários–, que agora ultrapassam os 200.000. Washington tem estendido o cenário da guerra no Paquistám, tem aumentado os seus bombardeamentos diários no vale de Swat e as operaçons fronteiriças com comandos. Obama tem estendido formalmente a guerra a zonas mais profundas do território do Paquistám e tem prolongado a sua influência nos serviços de inteligência do Paquistám.

Apesar da intensa pressom exercida por Obama sobre a Uniom Europeia e os seus aliados e clientes em todo mundo, poucos tenhem sido os países que lhe prometêrom forças de combate. Tal como Bush, Obama intensifica unilateralmente a ofensiva militar e depois espera que os seus aliados o secundem. O aparelho militar e os serviços de inteligência de Obama introduzírom-se ainda mais nas instituiçons paquistaneses com o claro intuito de se desfazer de oficiais nacionalistas e de seleccionar a servidores públicos que reprimam com mais empenhamento as comunidades, as organizaçons e os líderes opostos à intervençom estado-unidense no Paquistám, Afeganistám e o Médio Oriente.

Iraque

O contraste entre a retórica diplomática de retirada militar e a realidade da escalada militar é mais flagrante no caso do Iraque. Obama tem prolongado o marco temporário da ocupaçom e tem multiplicado os fundos para bases permanentes e as suas correspondentes infra-estruturas. A sua estratégia militar prevê um grande exército e polícias iraquianos mercenários para controlar a populaçom e reprimir qualquer resistência nacionalista. Obama duplicará o número de mercenários iraquianos em todo o país sob o comando do Pentágono.

Irám

A política mais surpreendente que Obama tem adoptado contra o Irám é a de acumulaçom de novas sançons ainda mais severas ao vigente embargo económico. Continua a ameaçar o Irám com um ataque militar preventivo, de acordo com os planos de guerra desenvolvidos polos máximos servidores públicos do Pentágono e propostos por Bush. Em consonáncia com este ambiente conspirativo, Obama conta com os serviços de dous dos mais belicosos israelo-estado-unidenses, Dennis Ross como emissário principal para o Irám e Stuart Levey no Tesouro para se ocupar das imponentes sançons económicas. Washington está a fazer um grande esforço diplomático para isolar o Irám por meios de negociaçons com Síria, Rússia e China. Perante tais factos, o oferecimento retórico de umha “nova política” ao Irám é pura propaganda. As forças aéreas e navais dos Estados Unidos junto à costa do Irám continuam a ameaçar Teerám com um bloqueio ou inclusive com ataques aéreos e navais em massa. Obama continua a financiar e treinar grupos terroristas para se infiltrarem no Irám a partir das suas bases no Iraque e Paquistám e ataquem as dependências e o pessoal do Governo iraniano. As ameaças militares israelitas contra o Irám realizam-se provavelmente com as novas tecnologias usamericanas, entre elas o mais avançado sistema antimísseis e as bombas de destrozabúnkeres, desenhadas para destruir as instalaçons subterráneas do governo iraniano.

Palestina, sul do Líbano, Síria

A política militar de Obama fica em evidência polo seu apoio incondicional à aggressom criminosa e homicida israelita em Gaza, aos assassinatos selectivos de activistas palestinianos em Cisjordánia e às ameaças contra Hezbolá.

O governo de Obama, com as duas cámaras do Congresso, tem apoiado todas as acçons de guerra de Israel, incluído o brutal bloqueio económico de Gaza e o despejo sistemático de residentes palestinianos na Cisjordánia e Jerusalém. Obama rodeou-se de proeminentes sionistas pró-israelista, que impedem qualquer mudança nos fortes ligaçons militares de Washington com o militarista governo de extrema-direita de Netanyahu/Lieberman.

África Oriental

Obama continua a aplicar umha política de confrontaçom com o Sudám mussulmano mediante o financiamento dos separatistas no sul de Darfur; também tem levado a cabo recentemente um ataque aéreo contra umha coluna militar sudanesa. Depois da sua frustrada intervençom militar na Somália junto ao seu cúmplice etíope, Washington tem optado por umha nova coligaçom clientelista somali apoiada por mercenários africanos do Uganda.

Rússia / Europa do Leste

Sob a liderança de Obama, o provocador cerco militar a Rússia continua por meio do recrutamento de novos “membros” clientes da NATO entre as ex-repúblicas soviéticas, bem como a construçom de bases frente às fronteiras russas. Obama combina um duplo discurso de reconciliaçom diplomática enquanto, ao mesmo tempo, constrói novas bases militares, depósitos de mísseis e postos avançados de radar a partir da Polónia para o sul, em direcçom à Ucránia e à Geórgia. As “aberturas diplomáticas” de Washington em relaçom à Rússia devem-se à sua necessidade logísticas no Iraque, Afeganistám e Paquistám e, sobretodo, aos seus preparativos de guerra contra o Irám. Obama está a exigir que a Rússia contribua com apoio logístico para a guerra e ocupaçom afganopaquistanesa da NATO e, ao mesmo tempo, exige que a Rússia cancele a sua venda de mísseis avançados e o seu acordo de contrato de centrais nucleares com o Irám, essa é a mudança da “boa vontade” estado-unidense…

China

Inclusive se Obama é muito consciente de que o défice estado-unidense depende do contínuo financiamento da China, tem iniciado umha confrontaçom naval de alto risco nas zonas económicas do litoral da China. Relatórios recentes do Pentágono sobre a preparaçom militar chinesa estám redigidos com umha chocante retórica de guerra fria, destinada a exagerar a “ameaça” Chinesa para o domínio estado-unidense na Ásia e a sua “falta de transparência”. De novo, Obama utiliza o duplo discurso de diplomacia amigável e agressivas políticas militaristas.

A China enfrenta-se a um cerco militar dos Estados Unidos ao longo de um arco de bases que vai desde Afeganistám, Paquistám e Japom, até Coreia do Sul, bem como a umha nova doutrina militar que etiqueta a China de “ameaça” que deve ser “contida” na Ásia.

A política latino-americana de Obama

Para poder descifrar o conteúdo real da política de Obama com respeito a América Latina é preciso observar as suas prioridades de política exterior, ao seu reparto dos recursos financeiros e os seus compromissos de política pública, bem como fazer caso omiso do seu insignificante retórica diplomata. A primeira declaraçom importante, de acordo com as suas políticas militares mundiais, foi a militarizaçom da fronteira com México, que recebeu umha asignaçom de quase quinhentos milhons de dólares em ajuda militar para o da direita Calderón. A política da Casa Branca com respeito ao problema do narcotráfico e a violência em México e Colômbia é de ordem militar e ignora suas raízes socioeconómicas estruturais:

Milhons de jovens camponeses e pequenos agricultores mexicanos tenhem sido conduzidos à falência, o desemprego e a pobreza por causa do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (TLC), o qual tem criado umha enorme quantidade de possíveis traficantes.

A expulsom de centenas de milhares de trabalhadores mexicanos imigrantes e as novas fronteiras militarizadas tenhem fechado a porta de saída com a que contavam os camponeses mexicanos para fugir da miséria e do crime.

Contrariamente ao acontecido na Uniom Europeia, que entregou milhares de milhons aos países menos competitivos no momento da sua incorporaçom, como Espanha, Grécia, Portugal e Polónia, Washington nom tem posto à disposiçom de México nenguns fundos compensatórios para que incremente a sua competitividade produtiva e crie emprego para a sua populaçom.

O militarizado regime colombiano, conhecido polas suas violaçons dos direitos humanos, é na actualidade o maior receptor de ajuda militar de Usamérica em América Latina. Através do Plano Colômbia de contrainsurgencia, Bogotá tem recebido mais de 5 mil milhons dólares, a tecnologia militar mais avançada e milhares de conselheiros militares usamericanos e mercenários subcontratados. O apoio de Obama ao ultradereitista Estado colombiano é a sua resposta aos governos populares e radicais elegidos democraticamente no Equador e Venezuela.

As políticas de Obama a respeito da América Latina som a continuaçom das prioridades militares e de defesa do governo de Bush, incluídos o embargo económico de Cuba e a sua violenta hostilidade em frente ao nacionalismo venezuelano. Nom há nengumha nova iniciativa económica. Para além do apoio retórico ao livre comércio, Obama mantém as quotas e os impostos anteriores sobre importaçons mais competitivas do Brasil e acrescenta novas medidas proteccionistas contra camions e transportistas mexicanos.

Inclusive nestes tempos de grave crise económica nacional, a incessante continuaçom do crescimento militar imperial constitui a base sobre a qual assenta a relaçom de Washington com a América Latina. OA focagem militar em relaçom à América Latina reflecte-se na sua ineptitude ou falta de predisposiçom para atribuir recursos económicos e sublinha a sua preocupaçom por sustentar os dous clientes muito importantes de Usamérica, Colômbia e México, com programas de ajuda militar. O escasso interesse e ainda pior compromisso económico da Casa Branca com a América Latina som a prova de que nom a tenhem entre as suas prioridades. De facto, está em quinto lugar após a crise económica, o Oriente Próximo e as guerras do sudeste asiático, a coordenaçom das políticas económicas com a Uniom Europeia e as estratégias económicas e as relaçons militares com a Rússia e a China. Com tais prioridades sobre a mesa, Obama carece de tempo, interesse ou ofertas programáticas para ajudar a América Latina na sua luita contra a crise económica.

No básico, Obama está a seguir umha tripla estratégia: (1) conserva o apoio de governos de direita (Colômbia, México e Peru); (2) incrementa a sua influência sobre governos “centristas” (Brasil, Argentina, Chile, Uruguai e Paraguai) e (3) isola e tira força a governos esquerdistas e populistas (Cuba, Venezuela, Equador, Bolívia e Nicarágua).

O que mais surpreende da supostamente “progressista” política latino-americana de Obama é a sua continuidade no referente ao governo reaccionário de Bush em quase todas as áreas estratégicas, entre as que se encontram as seguintes:

(1) A mesma baixa prioridade da América Latina na política planetaria do império;

(2) A insistência em colaborar militarmente na luita contra as drogas (leia-se a “segurança”) sem preocupar da pobreza socioeconómica nem da activaçom de programas de tratamento das toxicodependências;

(3) A sua estreita colaboraçom com os regimes mais de direita da regiom (México e Colômbia);

(4) A continuaçom do embargo económico de Cuba, apesar de ter perdido os seus últimos dous valedores latino-americanos;

(5) O duplo discurso de preconizar o livre mercado enquanto pratica o proteccionismo;

(6) O financiamento e reforço do papel do FMI como instrumento da expansom imperial;

(7) A política usamericana de meter umha cunha entre “governos centristas” (Lula no Brasil, Fernández na Argentina, Vásquez no Uruguai e Bachelet em Chile) e “governos nacionalistas de esquerda e centro” (Chávez na Venezuela, Morais na Bolívia, Correa no Equador e Ortega na Nicarágua) e

(8) O seu apoio às actividades separatistas de elites regionais que procuram a desestabilizaçom de governos de centro esquerda a partir das suas tradicionais bases de extrema-direita em Santa Cruz (Bolívia), Guayaquil (Equador) e Maracaibo (Venezuela).

Por outras palavras, Obama adoptou o programa estratégico do governo de Bush, essencialmente intacto salvo por algumhas mudanças menores, forçadas pola decadência do poderio estado-unidense. O Departamento de Estado utiliza umha linguagem diplomática menos polémica e tem procurado umha clara aproximaçom com regimes centristas, como se pode observar nas reunions que tivérom lugar na Casa Branca com o presidente de Lula da Silva (em Março de 2009) e com o vice-presidente Biden no Chile (nos dias 27 e 28 de Março de 2009). O recurso de Obama à “luva de seda numha mao de ferro”, que nom se acompanha de nengumha iniciativa económica e que continua as políticas básicas do seu predecessor, nom lhe forneceu novos aliados.

No entanto, há umha série de “mudanças” que dependem directa e indirectamente da crise financeira e do gigantesco défice do Estado Unidos e tenhem um impacto muito negativo sobre a recuperaçom económica de América Latina. Obama está a absorver a maior parte do crédito do hemisfério para o resgate financeiro no seu país. Esta política torna muito difícil que os exportadores latino-americanos financiem as suas vendas. Além do mais, Obama exige ao sector financeiro que alargue as suas reservas de capital e concentre a sua concessom de empréstimos no mercado nacional, o qual tem levado a que os bancos repatriem capital ao país a partir das suas filiais latino-americanas, a expensas dos prestatórios latino-americanos, todo o qual prolonga e fai mais profunda a recessom na América Latina.

As mudanças diplomáticas e retóricas e o apoio ao livre comércio de Obama tenhem pouca substáncia: a Casa Branca continua com o seu duplo discurso de louvança ao “livre comércio” enquanto apoia um novo e mais virulento proteccionismo financeiro. Além dos vinte mil milhons de dólares em subsídios para as exportaçons agrícolas, os democratas tenhem favorecido as provisons do “compre produtos do país” na política federal de aquisiçons e nos subsídios multimilonários acordados à indústria do automóvel.

A América Latina enfrenta-se umha crescente onda de proteccionismo nos Estados Unidos enquanto Obama reage frente à crise económica nacional forçando a América Latina a que procure novos sócios comerciais, a que proteja os seus mercados internos e a que procure novas fontes para o comércio e o crédito.

Honduras, o último exemplo da política estado-unidense na América Latina

A estratégia por parte de Obama de fazer retroceder regimes eleitos críticos para impor clientes acomodatícios encontra outra expressom no recente golpe militar nas Honduras. O uso do alto comando do exército de Honduras e dos velhos vínculos de Washington com a oligarquia local, que controla o Congresso e o Tribunal Supremo, facilitou o processo e obviou a necessidade de umha intervençom directa estado-unidense, como foi o caso em outras recentes campanhas golpistas. A diferença do Haiti, onde há só umha década intervinhérom os marines estado-unidenses para derrocar o democraticamente eleito Bertrand Aristide e apoiárom abertamente o frustrado golpe contra o presidente Chávez em 2002 e, mais recentemente, financiárom o trapalheiro golpe contra o presidente eleito Evo Morais em Setembro de 2008, as circunstáncias do envolvimento estado-unidense nas Honduras fôrom mais discretas para possibilitar um “desmentido crível”.

A “presença estrutural” e os motivos dos Estados Unidos em relaçom ao derrocado presidente Zelaya som facilmente identificáveis. Historicamente, Washington tem treinado e tratado com praticamente todo o corpo de oficiais das Honduras e tem mantido umha profunda penetraçom em todos os altos níveis graças a consultas diárias e a um planeamento estratégico comum.

Através da sua base militar nas Honduras, os agentes da inteligência militar do Pentágono mantenhem estreitos contactos, tanto para levar a cabo as políticas como para seguir a pista de todos os movimentos políticos por parte de todos os actores políticos. Como Honduras está tam fortemente militarizada, tem servido de importante base para a intervençom militar estado-unidense na regiom: em 1954 lançou-se desde as Honduras o golpe com sucesso apoios dos Estados Unidos contra o presidente guatemalteco eleito democraticamente. Em 1960 lançou-se desde as Honduras a invasom do exílio cubano concebida por Washington. Desde 1981 a 1989 o império tem financiado e treinado mais de 20.000 mercenários da “contra” nas Honduras, que integravam o exército de esquadrons da morte para atacar o governo sandinista nicaragüense eleito democraticamente. Durante os primeiros sete anos do governo de Chávez os regimes hondurenhos aliárom-se incondicionalmente com Washington contra o regime popular de Caracas.

É óbvio que nunca houvo nem poderia haver um golpe militar contra nengum regime fantoche de Washington nas Honduras. A chave da mudança da política estado-unidense com relaçom às Honduras produziu-se em 2007-2008, quando o presidente liberal Zelaya decidiu melhorar as relaçons com  a Venezuela para assegurar o generoso subsídio de petróleo e a ajuda exterior de Caracas. Posteriormente, Zelaya entrou em Petro-Caraíbas, umha associaçom das Caraíbas e da América Central organizada pola Venezuela para fornecer petróleo e gás em longo prazo e baixo custo com o fim de satisfazer as necessidades dos países membros. Mais recentemente, Zelaya uniu-se ao ALBA, umha organizaçom de integraçom regional patrocinada polo presidente Chávez para promocionar mais intercámbios comerciais e investimentos entre os seus países membros em oposiçom ao pacto de livre mercado promovido polo império, conhecido como o ALCA. Dado que Washington considera a Venezuela umha ameaça e umha alternativa a sua hegemonia na América Latina, o posicionamento de Zelaya com Chávez em questons económicas e a sua postura crítica com respeito à intervençom usamericana convertêrom-no em um objectivo provável dos planificadores de golpes ianquis desejosos de converter Zelaya num exemplo e preocupados polo seu acesso às bases militares hondurenhas, tradicional ponto de lançamento de sua intervençom na regiom.

Washington assumiu equivocadamente que um golpe em umha pequena república “bananeira” (de facto, a república bananeira original) na América Central nom iria provocar nengum protesto importante. Achou que o retrocesso centro-americano serviria de advertência a outros regimes com mentalidade independente na regiom das Caraíbas e da América Central de aquilo que os espera se se posicionam com a Venezuela.

A mecánica do golpe é bem conhecida e pública: o exército hondurenho seqüestrou o presidente Zelaya e “exilou-no” a Costa Rica e os oligarcas nomeárom “presidente” um dos seus no Congresso, enquanto os seus colegas da Corte Suprema proporcionavam um falaz argumento legal.

Os governos da América Latina, desde a esquerda à direita, condenárom o golpe e reclamárom o restablecimiento do presidente legalmente eleito. O presidente Obama e a secretária de Estado, Hillary Clinton, que nom estavam dispostos a renegar dos seus clientes, condenárom a violência sem mais especificaciones e pedírom negociaçons entre os poderosos usurpadores e o debilitado presidente no exílio, um claro reconhecimento do papel legítimo dos generais hondurenhos como interlocutores.

Umha vez que a Assembleia Geral de Naçons Unidas condenou o golpe e que a Organizaçom de Estados Americanos (OEA) exigiu a restituiçom de Zelaya, Obama e a secretária Clinton condenárom finalmente o derrocamento de Zelaya, mas negárom-se a chamá-lo “golpe”, o qual, de acordo com a legislaçom dos Estados Unidos lugar automaticamente a umha suspensom total do seu pacote anual de ajuda militar e económica (80 milhons de dólares) às Honduras.

Enquanto Zelaya se reuniu com todos os chefes de Estado latino-americanos, o presidente Obama e a secretária Clinton o remeterom a um servidor público de rango menor a fim de nom debilitar as seus aliados da Junta das Honduras. Todos os países da OEA retirárom os seus embaixadores, salvo Washington, cuja embaixada começou a negociar com a Junta para ver como se poderia salvar a situaçom em que ambos se encontravam cada vez mais isolados, especialmente perante o facto da expulsom das Honduras da OEA.

Que Zelaya regresse por fim ao seu posto ou que a Junta apoiada por Washington continue no cargo durante um período prolongado de tempo, enquanto Obama e Clinton sabotam o seu regresso imediato através de prolongadas negociaçons, a questom chave da estratégia de retrocesso promovida polo império tem sido extremamente custosa do ponto de vista diplomático e político. O golpe nas Honduras, apoiado por Washington, demonstra que, diferentemente do que se passava na década dos oitenta, quando o presidente Ronald Reagan invadiu Granada e o presidente George Bush (pai) invadiu o Panamá, a situaçom e o perfil político de América Latina (e do resto do mundo) tenhem mudado drasticamente. Entom, os militares e os regimes pró-ianques da regiom aprovárom em geral as intervençons dos Estados Unidos e colaborárom; alguns protestárom ligeiramente. Hoje em dia, o centro esquerda, e inclusive os regimes eleitorais da direita, oponhem-se aos golpes militares em qualquer parte porque os vem como umha ameaça potencial para o seu próprio futuro.

É igualmente importante que, considerando a grave crise económica e o aumento da polarizaçom social, o último que desejam os correspondentes regimes é um sangrante mal-estar interno estimulado por cruas intervençons imperiais de Washington. Por último, as classes capitalistas dos países latino-americanos de centro esquerda querem estabilidade, porque podem mudar o equilíbrio de poder através das eleiçons (como nos recentes casos do Panamá e Argentina) e os regimes militares favoráveis ao império podem alterar os seus crescentes laços comerciais com a China, Médio Oriente e Venezuela/Bolívia.

América Latina frente à crise mundial

Em toda a América Latina a crise económica está a fazer estragos na economia, o mercado de trabalho, o comércio, o crédito e o investimento. Os principais países da regiom vam caminho do crescimento negativo, com taxas de dous dígitos no desemprego, incremento da pobreza e protestos em massa. No Brasil, no final de Março e princípios de Abril, umha coligaçom de sindicatos, movimentos sociais urbanos e trabalhadores do movimento dos sem terra convocarom manifestaçons a grande escala, e nelas participou a confederaçom sindical CUT, que geralmente costuma aliar-se com o Partido dos Trabalhadores de Lula.

As taxas de desemprego no Brasil tenhem aumentado bruscamente e já ultrapassam os 10%, conforme aumentam os despedimentos nas indústrias do automóvel e outros sectores metalúrgicos. Na Argentina, Colômbia, Peru e Equador, as greves e as manifestaçons tenhem começado a estender-se em protesto polo desemprego e o aumento das falências entre exportadores, que se enfrentam ao esmorecimento da procura mundial e ao impossível financiamento.

Os países latino-americanos mais industrializados, cujas economias estám mais integradas nos mercados mundiais e que tenhem seguido umha estratégia exportadora de crescimento, som os mais afectados pola crise mundial. Isto inclui o Brasil, Argentina, Colômbia e México. Ademais, os países que dependem dos envios de divisas do estrangeiro e do turismo, como o Equador, América Central e os países das Caraíbas, que incluem o México, com as suas economias “abertas”, som os mais atingidos pola recessom mundial.

Enquanto o colapso financeiro estado-unidense nom tivo um enorme impacto imediato na América Latina, em grande parte porque os anteriores colapsos financeiros na Argentina, México, Equador e Chile tinham levado os seus governos a impor limites à especulaçom, os resultados indirectos, sobretodo no relativo à congelaçom do crédito e à diminuiçom do comércio mundial, tenhem destruído sectores produtivos. Em meados de 2009, as indústrias manufactureiras, a minaria, os serviços e a agricultura, tanto nos sectores privado como público, estavam já atingidas pola recessom.

A vulnerabilidade da América Latina perante as crises mundiais é o resultado directo da estrutura de produçom e das estratégias de desenvolvimento adoptadas na zona. Depois da “reestruturaçom” neoliberal ou supeditaçom ao império das economias, que tivo lugar entre meados dos anos setenta e noventa, o perfil económico da América Latina caracterizou-se por um débil sector estatal por causa das privatizaçons em todos os sectores produtivos chave.

A desnacionalizaçom dos sectores estratégicos financeiro, creditício, comercial e mineiro aumentou a vulnerabilidade, e o mesmo sucedeu na muito concentrada propriedade dos rendimentos e do imobiliário, em maos de umha pequena elite nacional e estrangeira. Estas características vírom-se exacerbadas polo boom dos bens primários, que tivo lugar desde princípios de 2003 até meados de 2008. A mudança das políticas governamentais para umha estratégia de exportaçom baseada em matérias-primas sentou as bases da catástrofe. Como resultado da sua estrutura económica, a América Latina era enormemente vulnerável à decisom dos políticos estado-unidenses e europeus encarregados dos sectores económicos chave. A desnacionalizaçom negou ao Estado as alavancas necessárias para controlar a crise mediante umha mudança de direcçom na economia.

As mudanças estruturais impostos polo Fundo Monetário Internacional / Banco Mundial e os seus sócios locais da classe neoliberal governante “abrírom” os países ao estalido da crise mundial por causa do desmantelamento das instituiçons estatais que poderiam ter protegido a economia ou, ao menos, evitado os piores efeitos da crise.

A privatizaçom levou à concentraçom da renda, diminuiu a procura local e aumentou a dependência nos mercados da exportaçom enquanto, ao mesmo tempo, privava ao Estado das alavancas necessárias para controlar os investimentos e a poupança, que poderiam ter contrarrestado o declínio da entrada de capital estrangeiro e o colapso dos seus mercados no exterior.

A desnacionalizaçom facilitou o fluxo de capital, especialmente no sector financeiro, aprofundou as crises do crédito e afectou de forma adversa a balança de pagamentos. A propriedade estrangeira submeteu os países latino-americanos a decisons económicas estratégicas controladas por elites económicas do exterior, mais preocupadas polos custos e lucros dos seus impérios económicos. Por exemplo, no Brasil, tanto o fechamento de fábricas de automóveis pertencentes a capital estado-unidense como os despedimentos em massa de trabalhadores devem-se aos cálculos dos custos no mercado mundial, algo totalmente alheio às necessidades do mercado de trabalho brasileiro.

A “estratégia da exportaçom” dependia dos subsídios estatais à expansom de plantaçons agroalimentares, que produziam alimentos básicos para o mercado da exportaçom, o qual se fazia a expensas de pequenos agricultores, camponeses sem terra e trabalhadores rurais, e tornava mais fraco o mercado interior como possível alternativa aos mercados exteriores em processo de colapso, aumentando a dependência de alimentos importados e atingindo a segurança dos alimentos.

As estratégias de exportaçom dependem de que os custos laborais e os salários sejam baixos, o qual debilita a demanda interior e fai que o emprego dependa das flutuaçons da procura exterior. A produçom especializada em um vasto complexo de divisom internacional do trabalho é fundamental para qualquer companhia multinacional. Isto tem reduzido de forma importante a diversificaçom nacional da indústria e a integraçom manufactureira, nas que todos os componentes de um produto se produzem no interior de umha única regiom geográfica. Abaixo da actual divisom do trabalho, um fabricante brasileiro de travons de automóveis depende por completo da procura exterior, determinada pola companhia multinacional. As desvantagens estratégicas desta “especializaçom” numha corrente capitalista mundial de produçom figérom-se evidentes na crise actual.

Apesar destas profundas fraquezas estruturais, herdadas de governos anteriores, os actuais governos de centroesquerda em América Latina nom estám a proceder a nengumha mudança estrutural para diminuir a sua vulnerabilidade económica, com a única excepçom parcial da Venezuela chavista.

A cimeira dos governos da “terceira via”, que tivo lugar em Março de 2009 (mais os democratas do tándem Obama-Biden e o governo do Laborista Britanico) reuniu em Santiago de Chile, onde cuidadosamente todos evitárom inclusive mencionar as imperfeitas estruturas internas que tenhem dado lugar à crise económica e prometem aprofundar.

As propostas de consenso dos governos da “terceira via” repetírom anacronicamente os apelos a maiores fluxos de capital, alheios à realidade da crise actual. Pedirom a Washington, à Uniom Europeia e a Japom que ressuscitassem mercados colapsados e promovessem o comércio. De maneira específica, a reuniom de e instou os dirigentes do G20 a que promovam programas de estímulos e se comprometam contra o proteccionismo. Pedírom aos governos latino-americanos que aumentassem a despesa e a liquidez para diminuir as taxas de juro, sustentar as instituiçons financeiras e promover as exportaçons.

Os governos de centroesquerda reunidos em Santiago nom mencionárom nengum plano para aumentar a procura interna mediante a intervençom no mercado laboral, impedindo que os proprietários despidam os trabalhadores. Nom mencionárom nengum aumento do salário mínimo. Evitárom qualquer discussom sobre o aumento da demanda em zonas rurais mediante reformas agrárias generadoras de salários. Nom considerarom o estabelecimento de umha industrializaçom que substitua as importaçons financiadas com fundos públicos, a qual poderia gerar emprego para os trabalhadores despedidos nos sectores da exportaçom.

Face ao aumento dos preços dos alimentos, nom se propugérom medidas de ajuda às famílias de renda baixa nem aos desempregados e pensionistas com umha renda fixa. As propostas dos governos de centro esquerda demonstárom umha enorme rigidez estrutural e a sua incapacidade para romper com estratégias fracassadas que dependem da poderosa classe dirigente do sector da exportaçom agromineira. Em vez disso, as suas propostas reafirmam a sua dependência de programas de estímulo “expansionista” das classes dirigentes dos Estados Unidos e Europa. Os seus insistentes apelos ao livre comércio e a evitar o proteccionismo nom tivérom bom acolhimento, já que todos os países imperiais perseguem umha dupla política de promoçom do livre comércio para as suas dinámicas multinacionais radicadas no estrangeiro e de proteccionismo para os seus esgotados sectores financeiros e manufactureiros locais.

Enquanto evitam qualquer mudança estrutural interna que puiesse favorecer os trabalhadores desempregados, camponeses, servidores públicos e pequenas empresas, persistem em seguir as políticas que favorecem banqueiros, elites da exportaçom e companhias multinacionais. O principal objectivo económico dos regimes latino-americanos de centro esquerda nom é a reforma interna, e sim a procura de investidores e novos mercados exteriores.

A princípios de Abril, os dirigentes latino-americanos e a sua elite dos negócios reunirom-se com os seus homólogos árabes em Qatar para incrementar os investimentos e o comércio mediante empresas conjuntas. Missons similares levadas a cabo na China, Rússia e Japom tenhem conduzido a investimentos quase exclusivos de capital em indústrias extractoras (petróleo e minerais) e em agricultura mecanizada para a exportaçom. O comércio interregional através do MERCOSUR tem sido altamente asimétrico, tal como o demonstra o déficit comercial de 4.000 milhons de dólares que Argentina tem com Brasil. O centroesquerda é estruturalmente incapaz de reconhecer que a crise mundial tem debilitado em grande parte a estratégia da exportaçom; que as elites nom se podem sobrepor as suas contradiçons internas e as suas limitaçons de classe e “exportam” os seus métodos de recuperaçom económica. A procura de novos mercados e inversionistas na Ásia e Oriente Próximo pode oferecer um aumento limitado de mercados de exportaçom, mas terá pouco ou nengum efeito sobre os sectores industriais e de serviços, os quais dam trabalho à maioria dos trabalhadores e empregados. Além do mais, os países asiáticos e de Médio Oriente também sofrem umha grave crise, já que o comércio (tanto as importaçons como as exportaçons), o sector manufactureiro e o emprego estám em declínio. Assim, Chines tem optado por um vasto plano de estímulo económico baseado no aumento da procura interna. Ásia, pois, pode oferecer muito pouco alívio à América Latina nesta crise.

O único país que brilhou pola sua ausência na reuniom de governos de centro esquerda em Santiago de Chile foi a Venezuela, em parte devido a que o presidente Chávez prossegue umha estratégia económica alternativa para enfrentar a crise mundial.

A estratégia de Chávez inclui a nacionalizaçom de sectores económicos chave como o petróleo e o gás, o qual aumenta os rendimentos do Estado; a protecçom de sectores sociais estratégicos como os alimentos e sua distribuiçom, e a expansom de umha reforma agrária para aumentar a produçom local de alimentos. O governo tem um programa de subvençom dos preços dos alimentos, um aumento de 20% no salário mínimo, que procura amortecer os efeitos da inflaçom, e umha despesa pública em projectos intensivos de infra-estruturas laborais, programa que tenhem dado lugar a umha diminuiçom do desemprego com a criaçom de 280.000 novos postos de trabalho em Janeiro e Fevereiro de 2009.

Chávez está a utilizar um radical programa keynesiano que depende de investimentos públicos a grande escala para expandir o mercado doméstico e de subsídios sociais dirigidos a umha ampla faixa das classes mais humildes. A sua política de investimentos estatais baseia-se na “cooperaçom” do ainda dominante sector privado, em especial as finanças, a construçom, a agromineria e as manufactureiras, quer mediante incentivos económicos e contratos estatais, quer mediante ameaças de intervençom ou nacionalizaçom.

As reformas estruturais internas de Chávez complementam-se com a promoçom de pactos politico-económicos regionais como Petrocaribe e a ALBA, com Bolívia, Cuba, Nicarágua e vários estados caribenhos e da América Central. Conta com os crescentes acordos financeiros e de investimento com China, o Médio Oriente –sobretodo o Irám– e a Rússia, em particular mediante parcerias empresariais nos sectores do petróleo e a minaria.

Enquanto a estratégia de Chávez representa umha alternativa e umha clara ruptura com a focagem da elite exportadora de centro esquerda, nom deixa de mostrar graves contradiçons. A Venezuela é muito dependente de umha exportaçom única –o petróleo– para os rendimentos do exterior e de um mercado único, o estado-unidense. Em segundo lugar, as suas reservas de divisas estrangeiras estám a esgotar-se rapidamente. Em terceiro lugar os seus esforços para promover a integraçom regional nom tenhem prosperado, já que os principais países latino-americanos olham para o G20 para tentar a salvaçom. A intervençom estatal e a nacionalizaçom tenhem aumentado o controlo nacional sobre a economia, mas nom se enfrentárom à desigual distribuiçom da renda, da propriedade e do poder. Como resultado disso, a economia viu-se afectada por umha onda de greves de trabalhadores e empregados nos sectores manufactureiros, da educaçom, a minaria e as fundiçons.

Igualmente grave é que umha taxa de inflaçom de 30% tem erodido o poder aquisitivo dos rendimentos fixos, que tem erodido os recentes aumentos do salário mínimo. Os aumentos do preço dos alimentos, que provem da importaçom em 90%, afectam adversamente a balança de pagamentos. O futuro imediato poderia converter em umha ameaça para a estabilidade social de Venezuela.

América Latina e o agravamento da crise

A participaçom de alguns países latino-americanos importantes na reuniom do G20 em Londres, que tivo lugar a 2 de Abril de 2009, e os acordos posteriores revelam a falência política da actual dirigência política. A declaraçom de um importante programa de novos “estímulos” ocultou o facto de que a maioria dos fundos citados (1,1 bilions de dólares) já estavam atribuídos antes da reuniom e nom teriam efeito algum. A quantidade real de novos fundos foi só umha fracçom deste desembolso (250.000 milhons de dólares), a maior parte deles destinada a resgatar o sector financeiro.

O solene acordo do G20 para opor ao proteccionismo viu-se falseado por um relatório da Organizaçom para a Cooperaçom e o Desenvolvimento Económico (OCDE), segundo o qual 17 dos 20 países tenhem adoptado recentemente medidas protectoras das suas indústrias locais e limitaçons ao financiamento exterior.

O mais beneficiado no G20 foi o Fundo Monetário Internacional, que tem prometido 500.000 milhons de dólares adicionais em linhas de crédito e financiamento. Dado o domínio estado-unidense e europeu no interior do FMI e a história recente de imposiçons de condiçons restrictivas a favor dos países imperiais, o seu fortalecimiento propom um obstáculo importante à recuperaçom de qualquer governo latino-americano progressista. As grandes expectativas que tinham os governos de centro esquerda e de direita na Latina de que o G20 os favorecesse com estímulos significativos ficárom defraudadas.

À esquerda, Fidel Castro e os seus aliados latino-americanos dirigem o seu olhar à China como mercado alternativo e sócio investidor. Mas os investimentos exteriores da China quase sempre se dirigem aos sectores da extracçom (minerais, petróleo) e, em menor grau, à agricultura. Por isso, os investimentos chineses na América Latina tenhem criado poucos empregos enquanto favorecem os sectores que poluem o medio natural. O perfil exportador da América Latina com a China reduz-se a um monocultivo de matérias- primas altamente vulnerável às variaçons dos preços mundiais. Mais ainda, os acordos comerciais da China com a América Latina incluem a importaçom de bens manufacturados chineses produzidos por trabalhadores nom sindicados e altamente explorados, o qual socava qualquer recuperaçom do sector manufactureiro latino-americano.

Os dirigentes latino-americanos, que confiam em que a China os tire da crise, estám imersos num estilo neocolonial de recuperaçom baseado em um modelo exportador de matérias-primas. Da mesma maneira, também nom a perspectiva da Rússia como novo mercado e estímulo económico melhora as cousas, e isso devido a que a economia russa é muito dependente do petróleo e do gás, carece de indústrias competitivas e, acima de todo, está imersa em umha grande crise com umha queda da economia que ultrapassa os 7% em 2009.

A procura de novos pacotes de estímulos provenientes dos Estados Unidos e da Uniom Europeia ou de novas alternativas comerciais com a China e a Rússia é um esforço desesperado dos dirigentes latino-americanos para salvar o desfalecente modelo exportador das suas elites. A ideia promovida por Brasil de que os países imperiais deveriam oferecer umha soluçom à crise mundial, já que fôrom eles que a provocárom, é totalmente descabida, sobretodo à luz da manifesta incapacidade que estám a demonstrar para estimular suas próprias economias. A promoçom usamericana do FMI tenta obstaculizar qualquer política progressista latino-americana e o florescimiento de regimes independentes, de jeito nengum ajudá-los a recuperar da crise.

Conclusom

Por causa da profunda e custoso envolvimento do governo de Obama com o complexo militar do império e do multibilonário financiamento do seu sector bancário interno (enquanto ao mesmo tempo apoia o proteccionismo crediticio), as classes dominantes latino-americanas nom podem esperar nengumha medida de estímulo económico que venha dos Estados Unidos.

As profundas divisons políticas entre Washington e a América Latina (e entre as próprias classes desta última), bem como as divergentes estratégias nacionais e de classe, impedem qualquer estratégia regional. Inclusive entre os governos nacionalistas de esquerda, aparte de algumhas limitadas iniciativas complementares entre os países da ALBA, nom existe nengum plano regional. Neste sentido, é um grave erro escrever ou falar de iniciativa ou “problema latino-americano”. O que hoje podemos observar é umha queda generalizada do modelo das exportaçons e respostas sociais divergentes entre as políticas proteccionistas salariais da Venezuela e as políticas que subsídiam a exportaçom no Brasil, Argentina, Chile, Peru e Colômbia.

Durante a recessom, estes governos de centro esquerda, tenhem demonstrado um alto grau de rigidez estrutural, já que nom tenhem realizado esforço algum para aprofundar e expandir o mercado interno e o investimento público, para nom falarmos de nacionalizarem as companhias em estado de falência. A crise sublinha o processo de desglobalizaçom neoliberal e o auge da importáncia do Estado-naçom.

A galopante crise económica afecta negativamente aos actuais governos, já sejam de centroesquerda ou de direita, e fortalece as suas oposiçons respectivas. Na Argentina, a direita e a extrema-direita tenhem controlado as ruas com um crescente poder interior entre a elite agrária do país e a classe média bonaerense. O sindicato progressista CTA (Central dos Trabalhadores Argentinos), que tem organizado greves e protestos, nom está vinculado a nengumha nova organizaçom política de esquerda alternativa.

O Brasil tem sido testemunha de protestos similares por parte de movimentos sociais e sindicatos contra um aumento de 10% do desemprego e a decadência do sector exportador. Nom obstante, o principal beneficiario político da queda de popularidade do autodenominado Partido dos Trabalhadores de Lula é a direita.

Polo contrário, o centro esquerda vai beneficiar-se nos países em que o poder está em maos da direita, entre eles o México, a Colômbia e i Peru. Mas, tal como noutros lugares, os movimentos de massas carecem de capacidade de resposta política organizada perante um capitalismo em pleno colapso.

Além disso, nem Cuba nem Venezuela oferecem um “modelo” ao resto da América Latina. A primeira é muito dependente de umha vulnerável economia baseada no turismo, enquanto a segunda é umha economia dependente do petróleo. Dado o colapso sistémico do capitalismo, estes países precisárom fazer reformas  particularizadas, tais como os subsídios alimentares de Chávez, bem como nacionalizaçons personalizadas, ou tender à socializaçom dos sectores financeiro, comercial e manufactureiro.

Os protestos em massa, as greves gerais e outras formas de rebeldia social estám a começar a surgir em todo o continente. Sem dúvida, o império intensificará o seu apoio aos movimentos de direita da oposiçom e a seus clientes actuais, também de direita, que estám no poder. A hegemonia imperial sobre a elite latino-americana continua a ser forte, inclusive se é praticamente inexistente entre as organizaçons da sociedade civil. Dada a posiçom militarista e proteccionista do governo de Obama, é de esperar umha intervençom do império sob a forma de operaçons encobertas, conforme a luita de classes se incremente e se dirija para umha transformaçom socialista.