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De cultura populista e cultura popular

Quinta-feira, 8 Outubro 2009

Domingos Antom Garcia Fernandes

Alguém me perguntava se a Feira Franca de Ponte Vedra era cultura. E bem se poderia estender tal interrogaçom aos milhares de feiras e festas que se estivérom a celebrar na Galiza na época estival (e nom só!). Por descontado que a resposta é afirmativa, pois, se as grandiloqüentes palavras universais acabam por significar à vez todo e nada (um exemplo bem preclaro seria a voz Deus), seguimos a as usar e possuem valor interpretativo, orientador (também ideológico no senso de mascarador do real), esclarecedor, classificador e, cabalmente, crítico (ou isso temos de dizer os que vivemos da Filosofia!).

De certo que tales eventos encerram fascinaçom, feitiçaria, reafirmaçom simbólica, transgressom e caos. Todo um ludismo dionisíaco, mas igualmente umha ritualidade regulada.

Porém, voltemos ao propósito: que haveria que entender por cultura? Acudindo aos sociólogos e aos antropólogos, e deixando de lado a clásica e batida definiçom de Tylor, poderia-se concordar em que nom se di das pessoas individuais, mas de colectivos (e está-se a falar da cultura dos esquimós, ou da delinqüência, ou rockeira, ou de massas…). E vem ser umha caste de entendimento compartido de como é e como tem de ser o mundo (umha caste de mapa cognitivo e ético) e assim mesmo as construçons artificiais que se exprimem em elementos tangíveis (p.e. as ferramentas e os edifícios) ou impalpáveis como as normas ou os costumes. Para Marvin Harris por cultura haveria que entender “as pautas de conduta e pensamento aprendidas e compartidas características dum grupo societal”. Conrad Phillip Kottak insiste en características como aprendida, partilhada, simbólica, nom natural, omniabrangente, integrada (sistema), adaptante e nom adaptante, etnocêntrica, relativista, et cetera. Para um materialista o cuidado dumha camélia ou escrever umha poesia fariam parte da cultura, enquanto que um idealista estaria num aperto para considerar cultura o primeiro dos casos (o dualismo alma/corpo assenta no imaginário social e é renitente a considerar cultura o que nom se liga às claras com actividades que dérom em chamar espirituais). E seria questom de jamais concluir o adentrar-se nas perspectivas emic/etic e fazer luz sobre preconceitos ocidentalistas, racistas, sexistas, e doutra índole. Tampouco se poderia obviar toda umha gama de teorias que vam desde o determinismo cultural radical até o determinismo genético da mesma forma radical.

A aspiraçom deste rascunho, que nom tem um objectivo classificador, mas de rumo, leva a dividir a cultura em: de elites ou superespecializada (os considerados sábios no campo da Ciência ou das Humanidades. Talvez mais os primeiros); especializada, dos peritos, dos versados em, dos doutos: labregos con ciência, mecánicos, a fauna académica com excepçons…; de massas, implica expectadores, que nom actores, um consumo passivo, umha mercadorizaçom; populista ou de pseudoparticipaçom, como o consumismo gastronómico, os espectáculos de duvidosa qualidade – e em multíplices ocasions foráneos -, a cultura da cafonice; popular ou participativa, criativa, de trabalho continuado, nom episódica – em grupos de teatro, música… – com investigaçom da cultura própria.

O anterior permite enquadrar essa Galiza folclórica, sempre em disposiçom de papar e ir de farra (nom sei que diriam os sociólogos e os psiquiatras). Há, ja que logo, muito de populismo e dumha política que desvia dos verdadeiros problemas. Esse repouso do lombo, do qual falava Castelao, entre pau e pau (e já em disposiçom para umha nova surra).

Nom quero rematar estas linhas sem me referir às páginas de O Capital de Marx arredor do carácter de feitiço da mercadoria e o seu segredo. E recordo:

– O misterioso da forma-mercadoria consiste simplesmente no facto de ela reflectir para os homens os caracteres sociais do seu próprio trabalho como caracteres objectivos dos próprios produtos do trabalho (…)
– Os produtos do trabalho tornam-se mercadorias (…)
– É apenas a relaçom social determinada entre os próprios homens que toma aqui para eles a forma fantasmagórica de umha relaçom de cousas (…)
– Para encontrarmos umha analogia temos de nos escapar para a regióm nevoenta do mundo religioso. Aqui, os produtos da cabeça humana parecem figuras autónomas, dotadas de vida própria (…)

De modo semelhante a como no mundo brumoso da religiom se muda em ser divino a fantasia do ser humano com todo o que implica de alienaçom, de inversom, de substituiçom do sujeito polo predicado (o ser humano, criador de Deus, passa a adorar o seu produto fictício com o que envolve de despojamento, de despersonalizaçom), também no mundo do capital a mercadoria possui vida autónoma e o produtor adora o produto. O capitalismo todo o mercadoriza, mesmo as pessoas. A reificaçom total é o santo e senha do sistema.

Estám mercadorizadas e politizadas as nossas feiras e festas? Eis a questom que cada um pode responder.