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Pode-se explicar a crise?

Terça-feira, 29 Setembro 2009

Iñaki Gil de San Vicente

Esta é a pergunta que me propugérom as amigas e amigos do colectivo Herria 2000 Eliza. Naturalmente que se pode explicar a crise, mais ainda, a crise deve ser explicada. A razom deste dever nom provém só da necessidade teórica enquanto tal, como também do dever ético inerente ao marxismo. A síntese entre a necessidade teórica e dever ético é a praxe revolucionária, ou se quiger, a acçom humana consciente e crítica é ao mesmo tempo explicaçom teórica das contradiçons irreconciliáveis do sistema social e dever ético-moral de dar cabo das injustiças inseridas em tais contradiçons. Teoria e ética interactuam na praxe e esta é a superaçom autocrítica das limitaçons de ambas no processo de emancipaçom. É por isto que a compreensom teórica é simultaneamente umha necessidade e um dever, e vice-versa, que a acçom ética é um dever e umha necessidade.  Dialecticamente falando, necessidade, dever, direito e liberdade formam um todo diversificado, de maneira que, junto à necessidade e ao dever de intervir contra a crise do capital em benefício das classes e naçons exploradas, também temos o direito e a liberdade de o fazer.

A exitosa greve geral do passado 21 de Maio é um exemplo da dialéctica de que falamos. Os avanços posteriores mostram como a necessidade e o dever de luitar contra a exploraçom se materializam na prática do direito e da liberdade de organizaçom de actos de massas. E ao invés, a partir dos interesses burgueses e dos estados espanhol e francês, a necessidade do capital é aumentar a exploraçom, frear e reprimir as luitas populares e sociais, restringir os direitos e as liberdades, e impor a ética da submissom e da pasividade. Som duas concepçons globais antagónicas. A primeira explica a crise e o capitalismo para luitar contra este modo de produçom, a segunda para o reavivar, para carregar os efeitos da crise sobre as costas do povo. Nom existe, portanto, umha única explicaçom. As “ciências sociais” nom som unitárias nem neutras, e menos a “teoria económica”, tendo sido elaboradas pola burguesia desde finais do século XVIII para explicar, basicamente, três problemas a cada vez mais inquietantes: qual era a origem da riqueza e porque a economia dava mostras de esgotamento; porque aumentavam as resistências das classes trabalhadoras e como vergá-las e, porque aumentavam as resistências dos povos à colonizaçom europeia.

Para fins do século XIX a burguesia tinha elaborado as explicaçons elementares que resolviam aparentemente as três inquietaçons básicas, agravadas já em verdadeiros medos. A tese da liberdade absoluta do mercado e do benefício marginal, isto é, a riqueza provém da diferença marginal entre custos e preços, e as crises som provocadas pola estupidez de uns poucos que anulam a efetividade da mao invisível do mercado. A tese do determinismo genético, isto é, o egoísmo obreiro nom se resigna à sorte de perdedores na sobrevivência do mais forte na selva da vida; e a tese genetista e sociobiológica da superioridade ocidental, ou seja, os povos se sublevam pola sua inveja da civilizaçom eurocêntrica. A Grande Crise de 1929 a 1945 introduziu a variante keynesiana que reforçava o fundo do argumento mudando sua forma ao reconhecer parcialmente a importáncia do Estado no controlo dos egoísmos individuais, que nom som negados.

O essencial das respostas dadas desde o Verao de 2007 tem sua base naquelas justificativas com a variante keynesiana aceite por umha fracçom burguesa mas recusada por outra, mais purista. Di-se-nos que a crise estourou polo egoísmo incontrolado do capital financeiro, polo egoísmo dos trabalhadores que querem cobrar mais trabalhando menos, e polo egoísmo dos povos “atrasados” que querem “modernizar-se” sem pagar os custos da civilizaçom. Dado que, segundo a burguesia, é um problema de egoísmo instintivo, de determinismo genético, há que aplicar medidas duras, “educativas”, ou seja, “a letra com sangue entra”, tanto às classes trabalhadoras como aos povos empobrecidos. Enquanto os financeiros sem escrúpulos recebem umha pequena reprovaçom para que sejam bons, nom se lhes tocam os seus lucros e contuam a ser presenteados com dinheiro público a fundo perdido, e mal se introduzem controlos superficiais nos esgotos financeiros.

No entanto, a realidade nom tem nada que ver com esta ficçom. Ao mesmo tempo que se criavam as “ciências sociais”, o marxismo demonstrava que o benefício nom provém da diferença marginal entre custos e preços, mas da mais-valia, do ganho extra obtido com a exploraçom da força de trabalho, e que as crises estouram porque, em síntese, produz-se mais do que se vende, o que fai com que os benefícios empresariais desçam, surgindo umha espiral que acaba em crises sucessivas. A exploraçom e a tendência objectiva às crises açulam as resistências obreiras e populares, a luita de classes, o que obriga a burguesia a ceder algo para nom perder nada, mas chegado um nível crítico a partir do qual nom quer nem pode conceder nada mais, impom medidas duras e a repressom, e chega à contrarrevoluçom e ao terrorismo para salvar a propriedade privada das forças produtivas. Nesta dinámica, que as mulheres sofre antes e mais do que os homens, também som atingidos antes os povos empobrecidos e as naçons oprimidas e sem Estado para que, mediante o seu saque, as burguesias imperialistas podam manter os seus lucros e seguir adormecendo os trabalhadores com parte desse lucro extra.

Marx explicou com base nos dados entom existentes, que as crises som recorrentes, com fases curtas periódicas; explicou também as medidas básicas que devia tomar a burguesia para conter e atrasar no possível o rebentamento das crises, e para reduzir a sua duraçom lançando-a contra os explorados e contra os burgueses mais fracos; demonstrou a tendência imparável para a concentraçom e centralizaçom do capital no mercado mundializado, bem como a tendência para o aumento da classe assalariada como classe maioritária frente a umha grande burguesia cada vez mais reduzida em número mas mais poderosa, tendência contrarrestada cada determinado tempo pola recuperaçom transitória das classes “médias”, que ele teorizou, criticando a economia burguesa o que tinha esquecido a sua existência; e por nom nos estendermos, explicou o papel do capital-dinheiro ou capital financeiro como instrumento para obter ganhos extras quando os ganhos industriais e comerciais começavam a cair. Estas e outras mal chamadas “profecias” do marxismo cumprírom-se e agravárom-se excessivamente.

De facto, a crise actual começou antes do estalido oficialmente reconhecido da bolha financeira no Verao de 2008, e antes também do primeiro estalido financeiro no Verao de 2007. Inclusive a OCDE confirmou que a taxa mundial de lucros estava a cair com anterioridade a estas datas. Para a reactivar, incomensuráveis massas de capitais ociosos, de dinheiro negro, etc., destinavam-se ao capital especulativo e de alto risco, que ia entrando em crises regionais cada vez mais sérias e próximas, até que ruiu o edifício a partir das suas raízes, ainda que em aparência, o desabar tenha começado polo telhado. É a estrutura interna do capitalismo a que está afectada, e desde há muito tempo, polo que a recuperaçom vai supor tremendos ataques à humanidade trabalhadora, à natureza, e às burguesias mais débeis por parte do imperialismo, que vê como se esquarteja a sua unidade interna, e como se lhe complica sua hegemonia, questionada por potências chamadas “emergentes” e polas classes e povos explorados.

Para acabar, o marxismo nom é determinista, sustenta que as leis sociais som tendenciais, abertas à complexidade crescente, isto é, dialécticas, polo qual som decisivas as luitas humanas no interior do inferno de exploraçom e injustiça, para orientar a evoluçom das contradiçons na senda da liberdade ou da opressom. A interacçom entre liberdade e necessidade, ética e política, teoria e prática, vive-se sempre dentro da materialidade histórica dos conflitos, ainda que a mente julgue que existe umha separaçom absoluta e insalvável entre o pensamento e a acçom. A actual crise, que vai ser prolongada e muito severa apesar de recuperaçons pequenas magnificadas pola propaganda, reafirma a correcçom do marxismo na sua componente de crítica do sistema, mas também confirma a sua advertência de que o “factor subjetivo”, a capacidade organizada da humanidade trabalhadora para vencer o imperialismo, requer de umha praxe revolucionária permanente que supere as violências visíveis e invisíveis que sempre aplica a burguesia. Esta última é umha das “profecias” marxistas mais confirmadas pola história.