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A guerra de EUA contra o Iraque: a destruiçom de umha civilizaçom

Quarta-feira, 9 Setembro 2009

James Petras

Os sete anos de guerra e ocupaçom estado-unidenses no Iraque tenhem estado manejados por várias forças políticas importantes e impregnados de toda umha variedade de interesses imperiais. No entanto, esses interesses nom explicam por si mesmos a profundidade nem o alcance da sustentada, maciça e continuada destruiçom de toda umha sociedade nem a sua reduçom a um permanente estado de guerra. O ámbito de forças políticas que contribuírom para orquestar a guerra e a subseqüente ocupaçom de EUA inclui as seguintes (por ordem de importáncia):

A força política mais importante foi também da que menos abertamente se falou: a Configuraçom do Poder Sionista (ZPC, polas suas siglas em inglês), que inclui o importante papel dos apoiantes, persistentes e incondicionais de linha dura, do Estado de Israel que conseguirom postos importantes no Pentágono de Bush (Douglas Feith e Paul Wolfowitz), operativos chave no escritório do Vice-presidente (Irving –Scooter- Libby), no Departamento do Tesouro (Stuart Levy), no Conselho de Segurança Nacional (Elliot Abrams) e toda umha falange de assessores, escritores dos discursos presidenciais (David Frum), servidores públicos secundários e assessores políticos no Departamento de Estado. Esses comprometidos “insiders” sionistas estavam apoiados por milhares de servidores públicos com dedicaçom exclusiva de “Antes de mais nada, Israel” das 51 organizaçons judaicas mais importantes, agrupadas sob o seu Presidente (PMAJO, por suas siglas em inglês). Todos declararom abertamente que a sua mais alta prioridade era avançar na agenda de Israel, concretada, neste caso, numha guerra dos EUA contra o Iraque para derrocar a Saddam Hussein, ocupar o país, dividir fisicamente o Iraque, destruir o seu exército e a sua capacidade industrial e impor um regime-títere pró-Israel/pró-EUA. Se o Iraque era etnicamente limpo e dividido, como defendia o ultradireista Primeiro Ministro de Israel Benjamin Netanyahu e o Presidente Emérito “Liberal” do Conselho de Relaçons Exteriores e sionista-militarista Leslie Gelb, teria entom vários “regimes clientelistas”.

Os altos políticos pró-Israel que promovêrom a guerra nom tinham directamente ao princípio a política de destruir sistematicamente o que, efectivamente, constituía toda a civilizaçom Iraquiana. Mas o seu apoio e desenho de umha política de ocupaçom incluía o desmembramento total do aparelho do estado Iraquiano e o recrutamento de assessores israelitas que proporcionassem a sua “perícia” em técnicas de interrogatório, repressom da resistência civil e contrainsurgência. Certamente, os expertos israelitas jogárom um papel importante ao fomentar o confronto étnico e religioso entre os Iraquianos, que Israel tanto pujo em prática na Palestina. O “modelo” israelita de guerra colonial e ocupaçom –a invasom do Líbano de 1982- e a prática da destruiçom “total” utilizando a divisom sectária e étnico-religiosa foi já evidente nos infames massacres dos campos de refugiados de Sabra e Chatila no Beirut, que tivérom lugar sob supervisom do exército israelita.

A segunda força poderosa em pós da Guerra do Iraque estava constituída polos militaristas civis (como Donald Rumsfeld e o Vice-presidente Cheney) que procuravam estender o alcance imperial dos EUA polo Golfo Pérsico e fortalecer a sua posiçom geo-política eliminando a um nacionalista forte, laico e apoiante da resistência anti-imperialista árabe no Oriente Médio. Esses militaristas civis procuravam ampliar as bases militares estado-unidenses para envolver a Rússia e assegurar o controlo das reservas petrolíferas como elemento de pressom contra a China. Os militaristas civis estavam menos movidos polos passados laços do vice-presidente Cheney com a indústria do petróleo e mais interessados no seu papel como Director Executivo da gigantesca filial de Halliburton, a contratista de bases militares Kellog-Brown and Root, que foi consolidando o Império Estadounidense através da expansom de bases militares por todo mundo. As companhias petrolíferas estado-unidenses mais importantes, que temiam sair perdendo frente as suas competidoras européias e asiáticas, estavam desejando negociar com Saddam Hussein, e alguns dos apoiantes de Bush dentro da indústria petrolífera estavam já embarcados em operaçons de comércio ilegal com o embargado regime do Iraque. A indústria do petróleo nom se sentia muito inclinada a promover a instabilidade regional mediante umha guerra.

A estratégia belicista de conquista e ocupaçom desenhou-se para estabelecer umha presença militar colonial a longo praço sob a forma de bases militares estratégicas dotadas de um importante e sustentado contingente de assessores militares coloniais e unidades de combate. A brutal ocupaçom colonial de um estado laico independente com forte história nacionalista e avançada infra-estrutura que dispunha de um aparelho policial e militar sofisticado, estendidos serviços públicos e mínimas taxas de analfabetismo impulsionou o crescimento de umha ampla colecçom de movimentos militantes e armados contra a ocupaçom. Em resposta, os oficiais coloniais estadounidenses, a CIA e as Agências da Inteligência de Defesa criárom umha estratégia de “divide e vencerás” (a denominada soluçom “El Salvador”, associada ao ex-embaixador em zonas quentes e ex Diretor da Inteligência Nacional estadounidense John Negroponte) para fomentar os conflitos armados de base sectária e promover os assassinatos interreligiosos para assim debilitar qualquer esforço por conseguir um movimento unido nacional anti-imperialista. O desmantelamento da burocracia civil laica e do exército foi desenhado polos sionistas da administraçom Bush para incrementar o poder de Israel na regiom e fomentar o surgimento de grupos militantes islámicos, que tinham sido reprimidos polo deposto regime baazista de Saddam Hussein. Israel tinha aperfeiçoado esta estratégia antes: patrocinou e financiou nas suas origens a grupos militantes islámicos sectarios, como Hamas, como alternativa à laica Organizaçom para a Libertaçom de Palestina, criando um marco que favorecia as luitas sectárias entre os palestinianos.

A conseqüência das políticas coloniais estado-unidenses financiando e multiplicando umha ampla variedade de conflitos internos foi a proliferaçom dos mullah, os líderes tribais, os gángsters políticos, os senhores da guerra, os expatriados e os esquadrons da morte. A “guerra de todos contra todos” servia aos interesses das forças ocupantes estadounidenses. O Iraque converteu-se numha lameira de jovens armados, sem emprego, entre os que era fácil recrutar um novo exército de mercenários. A “guerra civil” e o “conflito étnico” proporcionarom um pretexto para que EUA e os seus fantoches Iraquianos despedissem centos de milhares de soldados, polícias e servidores públicos do regime anterior (especialmente se eram de famílias sunníes, mistas ou laicas), socavando a base do emprego civil. Sob a cobertura de umha generalizada “guerra contra o terror”, as Forças Especiais estado-unidenses e os esquadrons da morte dirigidos pola CIA implantarom o terror dentro da sociedade civil Iraquiana, perseguindo a qualquer suspeito de criticar ao governo-fantoche, especialmente entre as classes educadas e profissionais, precisamente os iraquianos mais capazes de reconstruir umha república laica independente.

A guerra do Iraque estivo dirigida por um influente grupo de ideólogos neoconservadores e neoliberais com fortes vínculos com Israel. Valorizarom o sucesso da guerra do Iraque (por sucesso eles entendiam o desmembramento total do país) como a primeira ficha de “dominó” de umha série de guerras para “recolonizar” o Oriente Médio (nas suas palavras: “voltar a traçar o mapa”). Disfarçarom a sua imperial ideologia com um fino verniz de retórica sobre “promover as democracias” em Oriente Médio (excluindo, por suposto, as antidemocráticas políticas da sua “pátria” Israel sobre os subjugados palestinianos). Ao confluir as ambiçons hegemónicas regionais de Israel com os interesses imperiais dos EUA, os neoconservadores e os seus companheiros de viagem neoliberais do Partido Democrata apoiarom em primeiro lugar ao Presidente Bush e depois ao Presidente Obama na sua escalada das guerras contra o Afeganistám e o Paquistám. Secundarom unanimemente a feroz campanha de bombardeios de Israel contra o Líbano, o ataque por terra, mar e ar e o massacre de milhares de civis atrapados em Gaza, o bombardeio de instalaçons sírias e o grande impulso (de Israel) para um ataque preventivo militar e a grande escala contra Irám.

Os defensores estadounidenses de múltiplas guerras seqüenciais e simultâneas em Oriente Médio e no Sul de Ásia criam que nom poderiam despregar todo o potencial destrutivo em massa que possuem até nom se ter assegurado o controlo total da sua primeira vítima: o Iraque. Confiavam em que a resistência iraquiana viria-se rapidamente abaixo depois de treze anos de brutais e exterminadoras sançons impostas contra a república polos EUA e as Naçons Unidas. Para consolidar o controlo imperial, os políticos estado-unidenses decidirom silenciar permanentemente a todos os dissidentes civis independentes iraquianos. Dedicarom-se a financiar a clérigos xiitas e assassinos tribais sunnies e a contratar dezenas de milhares de mercenários privados entre os senhores da guerra pesmergas curdos para que perpetrassem os assassinatos selectivos dos dirigentes dos movimentos da sociedade civil.

EUA criou e treinou um exército-fantoche colonial iraquiano de 200.000 membros, composto quase inteiramente de pistoleiros chiies, excluindo aos experimentados militares iraquianos com antecedentes laicos, sunnies ou cristiáns. Um resultado pouco conhecido de todos esses esquadrons da morte financiados e treinados por EUA e do seu exército-fantoche iraquiano foi a destruiçom virtual da antiga populaçom cristá iraquiana, que foi deslocada, as suas igrejas bombardeadas e os seus dirigentes, bispos e intelectuais, acadêmicos e científicos assassinados ou forçados ao exílio. Os assessores israelitas e estado-unidenses eram bem conscientes de que os cristaos iraquianos tinham jogado um papel chave no desenvolvimento histórico dos movimentos laicos, nacionalistas antibritánicos e antimonárquicos e a sua eliminaçom como força influente nos primeiros anos da ocupaçom estado-unidense nom foi algo acidental. O resultado das políticas estado-unidenses levou a eliminar aos movimentos e aos dirigentes anti-imperialistas mais democráticos e laicos e a apresentar a umha rede assassina de colaboradores “étnico-religiosos” como “sócios” incontestáveis para sustentar a presença colonial estado-unidense a longo prazo no Iraque. Com os seus fantoches no poder, o Iraque serviria como plataforma de lançamento para a procura estratégica de outros “domínios” (Síria, Irám, as Repúblicas Centroasiáticas…).

A continuada purga sangrenta do Iraque sob a ocupaçom estado-unidense conseguiu acabar com a vida de 1,3 milhons de civis iraquianos durante os primeiros sete anos da invasom de Bush de 2003. Até meados de 2009, a invasom e ocupaçom do Iraque custou ao tesouro estado-unidense mais de 666.000 milhons de dólares. Este enorme gasto dá fé do seu caráter central na mais ampla estratégia imperial dos EUA em relaçom a todo o Oriente Médio e à regiom do Sul e Centro de Ásia. A política de Washington de politizar e militarizar as diferenças étnico-religiosas, armando e fomentando a rivalidade dos líderes étnicos, religiosos e tribais para que estejam sempre a brigar em mútuas sangrias serviu para destruir a resistência e a unidade nacional. As táticas de “divide e vencerás” e a confiança em organizaçons religiosas e sociais retrógradas é a práctica mais comum e melhor conhecida quando se trata de conquistar e subjugar a um estado nacionalista avançado e unificado. Romper um Estado nacional, destruir a conciência nacionalista e promover as primitivas lealdades regionais, feudais e étnico-religiosas requeria da sistemática destruiçom dos principais fornecedores da conciência nacionalista, da memória histórica e do pensamento científico e laico. Ao provocar os ódios étnico-religiosos se destruírom os casais, as comunidades e as instituiçons mistas com os seus perduráveis laços profissionais e amizades pessoais de origens diversas. A eliminaçom física de académicos, escritores, professores, intelectuais, científicos e profissionais, especialmente físicos, engenheiros, advogados, juristas e jornalistas foi decisiva para impor um governo étnico-religioso sob umha ocupaçom colonial. Para estabelecer o domínio a longo prazo e sustentar a uns governantes clientelistas étnico-religiosos, todo o edifício cultural pré-existente foi destruído fisicamente polos EUA e as suas marionetas iraquianas. Isto supujo a destruiçom das bibliotecas, os escritórios do censo e os depósitos de todas as propriedades e arquivos judiciais, os departamentos sanitários, laboratórios, colégios, centros culturais, instalaçons médicas e, por cima de todo e ao completo, as classes profissionais, os científicos sociais, os humanistas, os literatos… Centos de milhares de profissionais iraquianos junto com as suas famílias, fôrom empurrados mediante o terror ao exílio interno e externo. Cortou-se qualquer tipo de financiamento destinado às instituiçons nacionais, seculares, científicas e educativas. Os esquadrons da morte empregárom-se a fundo no sistemático assassinato de milhares de acadêmicos e profissionais suspeitos da menor dissidência, do menor sentimento nacionalista; eliminou-se todo aquele que tivesse a mínima capacidade para colaborar na reconstruçom da república.

A destruiçom de umha moderna civilizaçom árabe

O Iraque laico e independente tinha a mais avançada ordem científico-cultural do mundo árabe, apesar da natureza repressiva do Estado policial de Saddam Hussein. Tinha um sistema nacional de antedimento sanitário, educaçom gratuita universal e generosos serviços sociais, combinado todo isso com níveis de igualdade de género sem precedentes. Isto marcou a avançada natureza da civilizaçom iraquiana de finais do século XX. A separaçom entre igreja e estado e a protecçom estrita das minorias religiosas (cristás, assírios e outros) contrasta agudamente com o que resultou da ocupaçom estado-unidense e a sua destruiçom das estruturas governamentais e civis iraquianas. O duro governo ditatorial de Saddam Hussein presidia umha muito desenvolvida moderna civilizaçom em que o avançado trabalho científico ia da mao de umha forte identidade nacionalista e anti-imperialista. Isto notou-se especialmente no povo iraquiano e nas expressons de solidariedade do regime com a causa do povo palestiniano sob o domínio e ocupaçom israelita.

Umha mera “mudança de regime” nom podia extirpar esta profundamente incrustada e avançada cultura laica republicana no Iraque. Os planificadores estadounidenses da guerra e os seus assessores israelitas eram bem conscientes de que a ocupaçom colonial aumentaria a consciência nacionalista iraquiana a nom ser que a secular naçom fora destruída e daí o imperativo imperial para arrancar e destruir aos portadores da conciência  nacionalista, eliminando fisicamente os talentosos, os cientistas, os elementos mais laicos da sociedade iraquiana. A ênfase em todo o retrógrado converteu-se no principal instrumento para que EUA impusesse no poder os seus fantoches coloniais, com as suas primitivas e “pré-nacionais” lealdades, num Bagdade culturalmente purgado e despido dos seus estratos sociais mais sofisticados e nacionalistas.

Segundo o Centro de Estudos Al Ahram do Cairo, durante os primeiros dezoito meses da ocupaçom estadounidense, 310 cientistas iraquianos fôrom assassinados, um número que o ministério de educaçom iraquiano nom discute.

Outro relatório recolhia umha listagem com mais de 340 intelectuais e científicos assassinados entre 2005 e 2007. As bombas colocadas nos institutos de educaçom superior tinham feito baixar a taxa de matrículas um 30% com respeito aos números anteriores à invasom. Numha bomba colocada em Janeiro de 2007 na Universidade Mustansiriya de Bagdade, 70 estudantes fôrom assassinados e centenas deles ficárom feridos. Esses dados obrigárom a UNESCO a advertir que o sistema universitário iraquiano estava à beira do colapso. O número de importantes profissionais e cientistas iraquianos que tinham escapado do país andavam polos 20.000. Los Angeles Times informou que em Outubro de 2008, dos 6.700 profissionais universitários iraquianos que tivérom que fugir a partir de 2003, só 150 tinham regressado. Apesar das proclamas dos EUA de que melhorou a segurança, a situaçom em 2008 contemplou numerosos assassinatos, incluindo o do único neurocirurgiao que ficava na segunda maior cidade iraquiana, Bassorá, cujo corpo foi arrojado às ruas da cidade.

Os dados nom processados dos académicos, científicos e profissionais iraquianos assassinados polos EUA e as forças ocupantes alidadas e as milícias, bem como das forças na sombra controladas por elas, reflectirom-se numha lista publicada polo Pakistan Daily News (www.daily.pk) a 26 de Novembro de 2008. Esta lista levanta ampolas a respeito da realidade da sistemática eliminaçom de intelectuais no Iraque sob a trituradora da ocupaçom estado-unidense.

Assassinatos

A eliminaçom física de um indivíduo mediante o assassinato é umha forma extrema de terrorismo, que tem um efeito dominó de longo alcance através da comunidade da que procede a pessoa, neste caso o mundo dos líderes intelectuais, académicos, profissionais e criativos das artes e as ciências. Por cada intelectual iraquiano assassinado, milhares de educados iraquianos escapavam do país ou abandonavam o seu trabalho na procura de umha actividade mais segura, menos vulnerável.

Bagdade era considerada o “Paris” do mundo árabe em termos culturais e artísticos, científicos e educativos. Na década de setenta e de oitenta, as suas universidades eram a inveja do mundo árabe. A campanha de “comoçom e pavor” dos EUA que arrasou Bagdade, evocou emoçons similares às do bombardeio aéreo do Louvre, a Sorbona e as bibliotecas mais importantes da Europa. A Universidade de Bagdade era umha das universidades mais prestigiosas e produtivas do mundo árabe. Inclusive sob o letal colapso produzido polas sançons econômicas impostas polos EUA e Naçons Unidas, que aniquilarom o Iraque durante os treze anos anteriores à invasom de 2003, milhares de estudantes licenciados e de jovens profissionais chegavam ao Iraque procurando formaçom especializada. Jovens médicos de todo mundo árabe recebiam formaçom médica avançada nas suas instituiçons. Muitos dos seus académicos apresentavam documentaçom científica nas conferências internacionais mais importantes e publicavam em revistas de prestígio. E o que é mais importante, a Universidade de Bagdad formava e mantinha umha cultura laica científica altamente respeitada e livre de discriminaçom sectária, com acadêémicos de todas as origens religiosas e étnicos.

Esse mundo foi para sempre destroçado: sob a ocupaçom estado-unidense, até Novembro de 2008, fôrom assassinados 83 académicos e investigadores que ensinavam na Universidade de Bagdad, fazendo que vários milhares de colegas seus, as suas famílias e estudantes se vissem obrigados a fugir.

A selecçom de acadêmicos assassinados por disciplinas

O artigo publicado em Novembro polo Pakistan Daily News oferecia umha listagem de um total de 154 importantes académicos de Bagdade, famosos na sua especialidade, que tinham sido assassinados. Ainda, um total de 281 bem conhecidos intelectuais que ensinavam nas melhores universidades do Iraque caírom vítimas dos “esquadrons da morte” sob a ocupaçom estado-unidense.

Antes da ocupaçom estado-unidense, a Universidade de Bagdade possuía a Faculdade de Medicina de ensino e investigaçom mais importante de todo o Oriente Médio, que atraía  centenas de jovens doutores na procura de formaçom avançada. Esse programa foi devastado durante o surgimento do regime dos esquadrons da morte estado-unidenses, com poucas perspectivas de recuperaçom. Dos assassinados, 25% (21) eram os catedráticos e professores mais importantes da Faculdade de Medicina da Universidade de Bagdade, a que tem o mais alta percentagem de assassinados entre as faculdades. A segunda mais alta percentagem das faculdades massacradas fôrom os professores e investigadores da nomeada Faculdade de Engenharia da Universidade de Bagdade (12), seguidos de primeiríssimos académicos em Humanidades (10), Ciências Sociais e Físicas (8 catedráticos em cada umha), Educaçom (5). Os restantes altos académicos assassinados na Universidade de Bagdade pertenciam às Faculdades de Engenharia Agrícola, Economicas, Educaçom Física, Comunicaçons e Estudos religiosos.

Nas outras três universidades de Bagdade fôrom assassinados 53 importantes académicos, entre eles, 10 que pertenciam ao campo das Ciências Sociais, 7 à Faculdade de Direito, 6 a Medicina, 6 a Humanidades, 9 a Ciências físicas e 5 às Engenharias. O 20 de Agosto de 2002, o Secretário de Defesa Donald Rumsfeld brincava antes da invasom: “… Um tem que assumir que eles (os cientistas) nom tenhem estado jogando às bolas” (justificando a sangrenta purga de cientistas em Ciências Físicas e Químicas). Um abominável sinal da sangria de académicos que ia seguir-se à invasom.

Em todas as universidades situadas no resto das províncias perpetrárom-se purgas sangrentas similares de académicos: 127 catedráticos e cientistas fôrom assassinados nas diversas e bem consideradas universidades de Mosul, Kirkuk, Bassorá e outros lugares. As universidades localizadas em outras províncias com o maior número de professores e catedráticos assassinados estavam nas cidades nos que os exércitos británico e estado-unidense e os seus aliados e mercenários curdos fôrom mais activos: Basora (35), Mosul (35), Diyala (15) e Al-Anbar (11).

O exército iraquiano e os seus aliados dos esquadrons da morte perpetrárom a maioria dos assassinatos de académicos nas cidades que estavam sob controlo estado-unidense ou “aliado”. O assassinato sistemático de académicos levou-se a cabo por toda a naçom, em todas as disciplinas a fim de destruir os alicerces educativos e culturais de umha civilizaçom árabe moderna. Os esquadrons da morte que cometêrom a maioria dos assassinatos eram grupos étnico-religiosos primitivos, pré-modernos “actuando por si mesmos” ou instrumentalizados polos estrategas do exército estado-unidense para eliminar qualquer intelectual consciente politicamente ou a qualquer cientista nacionalista que pudesse empenhar-se numha agenda de reconstruçom de umha sociedade laica moderna e umha república unificada e independente.

No seu pánico por impedir a invasom estado-unidense, o Directorado Nacional de Controlo Iraquiano apresentou a 7 de Dezembro de 2002 ante as Naçons Unidas, umha lista que identificava 500 cientistas importantes iraquianos. Nom há praticamente duvida algumha de que essa lista converteu-se para o exército estado-unidense num elemento central na hora de confeccionar a lista de pessoas a eliminar entre a elite científica Iraquiana. No seu infame discurso anterior à invasom perante as Naçons Unidas, o Secretário de Estado Colin Powell citou umha listagem, de 3.500 cientistas e técnicos iraquianos que teriam que “conter” para impedir que a sua sabedoria fosse utilizada por outros países. EUA tinha inclusive criado um “orçamento” de centenas de milhons de dólares, tirado do dinheiro iraquiano do programa “Petróleo por Alimentos” das Naçons Unidas a fim de estabelecer programas de reeducaçom “civil” para voltar a treinar os engenheiros e cientistas iraquianos. Estes tam arejados programas nunca se levárom a cabo. Formas mais baratas de conter o que um especialista em política estado-unidense denominou como o “excesso de cientistas engenheiros e técnicos” do Iraque aparecem claramente num documento do Carnegie Endowment (actualizaçom da política RANSAC, Abril de 2004). EUA tinha decidido adoptar e ampliar, a escala industrial, a operaçom secreta do Mossad israelita para assassinar os cientistas Iraquianos mais importantes.

As campanhas estado-unidenses de “Incremento” e “Assassinatos Máximos” (2006-2007)

O momento terrorista mais álgido contra os acadêmicos coincide com a renovaçom da ofensiva do exército estadounidense em Bagdade e nas províncias. Do total de académicos assassinados em Bagdade há recolhidas umhas datas (110 intelectuais famosos assassinados), quase 80% (87) produzírom-se em 2006 e 2007. Umha pauta similar seguiu-se nas províncias, perpetrando-se nessa época 77% de um total de 84 académicos assassinados fora da capital durante o mesmo período. A pauta está clara: a proporçom de assassinatos de acadêmicos cresce quando as forças ocupantes estado-unidenses organizam um exército iraquiano de mercenários e força policial, e proporcionam dinheiro para o treino e recrutamento de membros de tribos e milícias rivais xiitas e sunitas como meio de reduzir as baixas estado-unidenses e de purgar os potenciais críticos dissidentes da ocupaçom.

A campanha de terror contra os académicos intensificou-se em meados de 2005 e atingiu o seu pico em 2006-2007, provocando a fuga em massa de dezenas de milhares de profissionais, cientistas, académicos iraquianos e das suas famílias ao estrangeiro. Faculdades universitárias inteiras convertêrom-se em refugiados de Síria e outros países. Aqueles que nom pudérom dar-se ao luxo de abandonar os seus anciaos pais ou parentes e permanecêrom no Iraque, tivérom que adoptar medidas extraordinárias para ocultar a sua identidade. Alguns escolhêrom colaborar com as forças ocupantes ou com o regime-fantoche esperando que os protegessem ou permitissem imigrar com as suas famílias aos EUA ou Europa, ainda que os europeus, especialmente os británicos, nom se sintam muito inclinados a aceitar a académicos iraquianos. Depois de 2008, produziu-se umha aguda queda no assassinato de académicos, com só 4 assassinados esse ano. Isto reflecte a fugida em massa de intelectuais iraquianos para o estrangeiro ou que tivérom que se esconder antes que confiar em nengumha mudança de política por parte dos EUA e os seus fantoches mercenários. Como conseqüência, as instalaçons dedicadas à investigaçom em Iraque vírom-se dizimadas. As vidas dos integrantes das equipas de apoio que ainda permanecem, incluídos técnicos, bibliotecários e estudantes vírom-se devastadas, com muito escassas perspectivas de poderem conseguir um emprego no futuro.

A guerra e ocupaçom do Iraque por EUA, como os Presidentes Bush e Obama declarárom, é um “sucesso”: umha naçom independente de 23 milhons de cidadaos foi ocupada pola força, colocando-se nela um regime-fantoche, com tropas mercenárias coloniais que prestam obediência aos oficiais estado-unidenses e campos petrolíferos postos em venda. Todas as leis nacionalistas do Iraque que protegiam o seu património, os seus tesouros culturais e os seus recursos naturais fôrom anuladas. Os ocupantes impugérom umha “constituiçom” que favorece o Império estado-unidense. Israel e os seus lacaios sionistas nas administraçons tanto de Bush como de Obama celebram o desaparecimento de um adversário moderno… e a conversom do Iraque num deserto político-cultural. Em linha com um suposto contrato efectuado entre o Departamento de Estado dos EUA e os oficiais do Pentágono com coleccionadores influentes do Conselho Americano para a Política Cultural em 2003, os saqueados tesouros da antiga Mesopotamia “encontrárom” um caminho nas colecçons das elites de Londres, Nova Iorque e muitos mais lugares. Os coleccionadores podem agora também antecipar-se ao saque no Irám.

Advertindo o Irám

A invasom, ocupaçom e destruiçom por EUA de umha civilizaçom científico-cultural moderna, como a que existia no Iraque, é um prelúdio do que o povo de Irám pode esperar se chega a produzir-se um ataque militar por parte de EUA/Israel. A ameaça imperial aos alicerces científico-culturais da naçom iraniana tem estado totalmente ausente da narrativa dos manifestantes e estudantes iranianos e as suas ONG´s financiadas polos EUA durante os seus protestos pós-eleitorais da Revoluçom “batom”. Nom deveriam esquecer que em 2004, os educados e sofisticados iraquianos de Bagdade consolavam-se com um fatalmente equivocado optimismo de ao “menos, nom estamos como no Afeganistám”.

Essa mesma elite encontra-se agora em miseráveis campos de refugiados em Síria e em Jordánia e o seu país parece-se mais com o Afeganistám do que nengum outro lugar do Oriente Médio. Cumpriu-se a pavorosa promessa de Bush de Abril de 2003 de transformar o Iraque na imagem de nosso “recém libertado Afeganistám”. E os relatórios de que os assessores da administraçom estadou-nidense teriam revisado a política do Mossad israelita de assassinatos selectivos de cientistas iranianos, deveria fazer com que os intelectuais liberais pró-Ocidente de Teerám ponderem seriamente a liçom da campanha assassina que sobretodo em 2006-2007 eliminou praticamente todos os cientistas e académicos iraquianos.

Conclusom

Que é o que ganham EUA (e Gram Bretanha e Israel) ao estabelecer um regime clientelista retrogrado em Iraque baseado em estruturas sócio-políticas étnico-religiosas medievais? Primeiro e principal, Iraque  converteu-se num posto de avançada para o império. Em segundo lugar, é um regime débil e atrasado incapaz de desafiar o domínio militar e económico israelita na regiom e incapaz de questionar a continuada limpeza étnica dos nativos palestinianos árabes de Jerusalém, Cisjordánia e Gaza. Em terceiro lugar, a destruiçom dos alicerces legais, culturais, científicos e académicos de um Estado independente supom incrementar a sua dependência das corporaçons multinacionais ocidentais (e chinesas) e a sua infra-estrutura técnica, facilitando assim a penetraçom e exploraçom económica imperial.

Em meados do século XIX, depois da revoluçom de 1848, o conservador sociólogo francês Emil Durkheim reconheceu que a burguesia europeia se via enfrentada a um crescente conflito de classes e umha classe trabalhadora cada vez mais anticapitalista. Durkheim assinalava que, qualquer que fossem os seus receios filosóficos sobre religiom e clericalismo, a burguesia teria que usar os mitos da religiom tradicional para “criar” coesom social e rebaixar a polarizaçom de classes. Fijo um apelo à educada e sofisticada classe capitalista parisiense para que superasse a sua recusa do obscurantista dogma religioso em favor de instrumentalizar a religiom como ferramenta para poder manter o seu domínio político. Da mesma forma, os estrategas estado-unidenses, incluídos os sionistas no Pentágono, instrumentalizárom as forças étnico-religiosas, tribais e mullahs para destruir a liderança política nacional laica e a avançada cultura do Iraque para consolidar o seu domínio imperial, ainda que essa estratégia exigisse a matança das classes científicas e profissionais. O domínio imperial contemporáneo estadounidense baseia-se em apoiar aos sectores mais atrasados social e politicamente de umha sociedade e aplicar a tecnologia bélica mais avançada.

Os assessores israelitas jogárom um papel importante na hora de instruir as forças ocupantes no Iraque nas práticas da contrainsurgencia urbana e repressom de civis, baseando-se nos seus sessenta anos de experiência. O infame massacre em 1948 de centos de famílias palestinianas em Deir Yasin foi emblema da eliminaçom sionista de centenas de povos agrícolas produtivos, que tinham sido povoados durante séculos por um povo nativo com a sua civilizaçom endógena e vínculos culturais com o cham, a fim de impor umha nova ordem colonial. A política de aniquilaçom total dos palestinianos é um elemento base no assessoramento de Israel aos políticos no Iraque. A sua mensagem foi trasladada polos seus acólitos sionistas presentes nas administraçons Bush e Obama, ordenando o desmembramento de toda a burocracia estatal e civil moderna iraquiana e utilizando os pré-modernos esquadrons da morte tribais compostos de extremistas xiitas e curdos para purgar as modernas universidades e instituiçons de investigaçom dessa massacrada naçom.

A conquista imperial estadounidense do Iraque se construe a partir da destruiçom de umha república laica moderna. O deserto cultural que fica (um “ermo” empapado do sangue dos preciosos sábios iraquianos) é controlado por mega-vigaristas, bandidos e mercenários que se fam passar por autoridades “iraquianas”, analfabetos culturais étnicos e tribais e personagens religiosos medievais que actuam sob o guia e direcçom dos graduados de West Point que levam os “planos do império” formulados polos bacharéis de Princeton, Harvard, Johns Hopkins, Yale e Chicago, ansiosos de servir aos interesses das corporaçons multinacionais europeias e estado-unidenses.

Isso denomina-se “desenvolvimento desigual e combinado”: O casal dos mullahs fundamentalistas com os sionistas da Ivy League* ao serviço dos Estados Unidos.

N. do T.:[*] Ivy League: o grupo das oito universidades mais prestigiosas dos EUA.