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Um diálogo com Roque Dalton e Lenine, desde o século XXI: A história em ajuda das futuras rebeldias

Quarta-feira, 26 Agosto 2009

Néstor Kohan

Há quatro décadas Roque Dalton apelou ao velho militante salvadorenho Miguel Mármol para desenterrar e tirar o pó a umha história de rebeldia esquecida. Nom reconstruiu o seu testemunho para ganhar umha bolsa nem para coroar umha tese universitária. Com ajuda de Mármol, Roque foi em procura do passado para assim alumear o presente e carregá-lo de energia. Desta maneira pretendia conjurar os fantasmas do quietismo, o “realismo”, o culto do “possível” e a impotência política que levanta altares pagaos à sempiterna “correlaçom de forças objetivas”.

Atravessados por essa mesma inquietaçom espiritual e com intençons análogas hoje recorremos a Roque para pedir-lhe socorro, inspiraçom, conselho e guia. Agora toca-lhe a ele dar testemunho, contribuir experiências, reflexons, pensamentos e sugestons políticas, para assim ajudar a umha nova geraçom a sair do impasse político e o desconcerto ideológico em que nos submergiu o neoliberalismo.

Lenine e o poder

Depois das derrotas insurgentes dos 60 e os genocídios militares dos 70, da socialdemocratizaçom e o posmodernismo dos 80, do desprezo de fundaçons e ONG´s polo marxismo revolucionário e a cooptaçom desvergonhada dos 90, Roque oferece-nos novamente a fruta proibida. “É conveniente ler Lenine”, sugere-nos, “actividade tam invulgar em extensos sectores de revolucionários contemporáneos”.

Mas o seu conselho para as novas geraçons de militantes nom fica detido ali. Burlom, incisivo, irónico e mordaz, Dalton pom o dedo na ferida. Depois dos relatos pós-modernos e daquelas tristes ilusons que pretendiam “mudar o mundo sem tomar o poder”, Roque provoca-nos:

“Quando você tiver o exemplo da primeira revoluçom socialista feita pola «via pacífica», rogo-lhe que me chame por telefone. Se nom me encontra na casa, deixa um aviso urgente ao meu filho menor, que para entom já saberá muito de problemas políticos”.

À contramao de modas académicas e mercantis, cruzando as fronteiras tanto da velha esquerda eurocêntrica como dos equívocos pseudolibertários e falsamente horizontalistas das ONG´s, a proposta radical de Roque Dalton vai apressada  encher um vazio. A sua releitura de Lenine permite-nos responder aos interrogantes que ao nosso passo nos apresenta a esfinge. Roque focaliza o olhar crítico e a reflexom teórica no problema fundamental do poder, desafio ainda irresoluto polos processos políticos contemporáneos da nossa América. Depois de várias décadas de eludir, ocultar ou silenciar esse nodo problemático de todo pensamento radical, recuperar a perspectiva anti-imperialista e anticapitalista de Roque pode ser de grande ajuda para submeter a crítica as mistificaçons e atalhos reformistas do pós-modernismo, disfarçados com gíria aparentemente -só aparentemente- libertária.

A redacçom deste livro

O pontapé inicial para a redacçom desta obra iconoclasta e provocadora responde a um convite de um reconhecido intelectual cubano, o poeta Roberto Fernández Retamar, director de Casa das Américas. Em 1970, ao se cumprirem 100 anos do nascimento de Lenine, Fernández Retamar convoca vários poetas a escrever sobre ele. Dos muitos trabalhos seleccionados, elegem-se dous, um de Roque e outro do intelectual haitiano René Depestre.

Essa pontada inicial, redigida em Havana, foi-se tecendo posteriormente com múltiplos materiais que Dalton vai acumulando para a sua investigaçom sobre a obra do principal teórico da filosofia da praxe -segundo o definira António Gramsci.

Aquela primeira redacçom a respeito de Lenine termina-se de completar três anos mais tarde, em Julho de 1973, em Hanoi, Vietnám do norte. O livro nasce entom em Havana e conclui no Vietnám. Um itinerário geográfico que é também político, índice expressivo do que Roque concebe como actualidade do leninismo.

O próprio autor esclarece no fim do último poema do seu livro, o “Ensaio de hino para a esquerda leninista”, que o seu texto fica, propositadamente, inconcluso. Concebe-o como umha obra aberta aos avatares da revoluçom latino-americana e às novas leituras que eventualmente se derivarám sobre Lenine no futuro (o seu esclarecimento textual di: “Poema inconcluso -enquanto o autor viver”).

Umha reflexom de maturidade

Dentro do arco de variaçom da sua própria obra, Um livro vermelho para Lenine constitui um texto de maturidade.

Umha vez que culmina, em 1965, a sua primeira investigaçom sociológica e política -em forma de livro monográfico- sobre a história de El Salvador, Roque começa a sua tarefa de maturaçom ideológica e radicalizaçom política. Tentando traçar umha ponte directa entre Farabundo Martí e a estratégia fidelista-guevarista continental, o poeta aproveita a sua estadia em Praga durante 1966 para procurar e reconstruir os testemunhos orais de Miguel Mármol sobre a insurreiçom comunista de 1932. Esses testemunhos fôrom recolhidos em extensas entrevistas -recolhidas em forma manuscrita, sem gravador- ao longo de três semanas de Maio e Junho de 1966.

Dessa tarefa rigorosa e obsessiva sairá o texto sobre a insurreiçom de 1932 e o massacre que a esmagou. Desse trabalho publicaram-se fragmentos pola primeira vez, em Janeiro de 1971, no Nº 48 da revista cubana Pensamento Crítico com o título “Miguel Mármol: El Salvador 1930-1932”. Mais tarde, já morto Roque, publicou-se o livro completo em forma póstuma. Foi em 1983. O livro levava por título Miguel Mármol. Os acontecimentos de 1932 no El Salvador e foi editado por Casa das Américas.

Numha etapa posterior deste trabalho intelectual e ensaístico, Roque mete-se até as orelhas nos debates políticos abertos por Regis Debray na segunda metade dos anos ’60. Dalí sairá o livro polêmico Revoluçom na revoluçom e a crítica de direita, onde o salvadorenho realiza o seu próprio balanço crítico sobre as absolutizaçons e unilateralidades de Debray, enquanto ao mesmo tempo acerta contas com o que denomina “a direita do movimento comunista latino-americano” que por entom arremetia contra Debray como umha via indirecta, menos comprometida e com menor custo político, para atacar a Fidel e ao Che e impugnar à Revoluçom Cubana.

De maneira que Um livro vermelho para Lenine nom é umha obra juvenil, produto de alguém entusiasmado e com vontade, mas inexperto e recém chegado. Polo contrário, na trajectória biográfica e ideológica de Roque Dalton constitui o coroamento de umha prolongada busca política (sempre nutrida e entrecruzada com experimentaçons poéticas e militáncia política) que começa pesquisando a própria história insurreccional de El Salvador nos anos ’30 e continua mais tarde com a polémica sobre a estratégia da luita armada em América Latina dos ´60 .

A sua leitura-diálogo-collage sobre Lenine conforma entom o ponto maduro de chegada dessas indagaçons prévias e o passo necessário que Roque empreende como plataforma ideológica da sua incorporaçom activa à luita armada no seu próprio país.

O estilo de Roque: a ironia como arma

Ao dar umha batalha ideológica de longo fôlego contra todo um leque de reformismos, Roque consegue conjugar um conteúdo revolucionário com umha forma de expressom que violenta as cristalizaçons habituais do discurso de esquerda. O seu estilo disruptivo, heterodoxo, iconoclasta, nom é alheio ao conteúdo que pretende transmitir. Nom fai sentido congelar umha forma de expressom nem atar-se a um só género se se pretende transmitir umha mensagem rebelde que rompa com os clichés e lugares comuns que impedírom durante décadas aproveitar e utilizar o imenso arsenal teórico proporcionado por Lenine. As rebeldias deveriam estar, entom, em ambos pólos da equaçom, na forma e no conteúdo, nom só neste último.

Deste modo, Roque leva à prática na sua escrita ensaística os recursos que já tinha empregado na sua poesia. A cultura revolucionária volta-se mais eficaz e adquire maior poder de fogo (e de convencimento) quando mais irónica e mordaz.

Essa ironia, tam própria e característica da sua escrita, ajuda-o também a rir-se, ou ao menos, a perder o respeito aos géneros discursivos tradicionais. Nesse sentido reaparece umha e outra vez, em cada página do seu livro, umha pergunta que nom por tácita é menos operante: porque a polémica ideológica nom pode ser poética?, porque umha obra poética deve renunciar à sua projecçom ideológico política?

Ao saltar sobre os géneros, Roque combina poemas, relatos, episódios e até documentos históricos com as instruçons de Lenine para realizar um sabotagem, empregar um molotov, assaltar umha esquadra, construir um exército revolucionário. No seu conjunto, a obra constitui um imenso collage em que se integram materiais ensaísticos, biográficos, documentários, poéticos e pedagógicos.

Dentro desse collage, na aproximaçom a Lenine e na crítica do reformismo que pretendeu manipulá-lo, deformá-lo ou directamente recusá-lo, intervenhem numerosas vozes com as que ele concorda e polemiza.

Roque o foi construindo como um diálogo inacabado. Nas suas páginas aparecem também os seus oponentes, personagens inventados que, desde o horizonte da velha esquerda metropolitana e eurocêntrica, tentam por em dúvida a leitura leninista que, em chave latino-americana, o seu autor nos propom.

Conquanto é inegável que os personagens do diálogo-collage som múltiplos, também é evidente que esse elenco numeroso conta com dous protagonistas centrais e inequívocos: Lenine e Roque, Roque e Lenine. Ambos, membros activos da nossa confraria anti-imperialista e anticapitalista. Fazê-los falar significa incorporá-los ao jogo, envolvê-los na resoluçom dos nossos desafios políticos actuais e os nossos interrogantes abertos. Ler o livro implica, entom, participar no diálogo.

Mas o collage de Roque nom é pós-moderno, pois a sua proposta de leitura-escritura tem eixos e contornos netamente definidos, habitualmente desprezados e vilipendiados polo chamado «pensamento débil». Em primeiro lugar, a história, especialmente a da América Latina, ainda que também a de outras revoluçons anti-imperialistas e anticapitalistas do mundo subdesenvolvido. Em segundo lugar, a ideologia. Em terceiro lugar, o sujeito e, finalmente, em quarto mas nom em último lugar, a revoluçom. O collage de Dalton, repleto de retalhos polifónicos, nom tem entom nada que ver com a fragmentaçom entrecortada de um videoclip pós-moderno, onde as partes coexistem justapostas sem um sentido articulador que as ordene e lhes outorgue umha direcçom.

Nessa articulaçom de história, ideologia, sujeito e revoluçom, o relato nom corre unicamente por conta de Roque. Junto à sua, ouvem-se também outras vozes, permanecendo o collage aberto e expressamente inconcluso como a mesma revoluçom continental e a própria história do marxismo latino-americano nos quais este livro se insere.

A forma collage e o trespasso permanente de género em género nom som as únicas notas definitórias desta escrita. Ao mesmo tempo devemos registar o seu humor, nom como algo aleatório ou conjuntural, e sim como um registo fundamental de toda a obra de Roque Dalton.

O humor de Roque, por exemplo, intercala sem nengum tipo de advertência ao leitor, no meio de umha rigorosa explicaçom do nosso comum amigo e companheiro Fernando Martínez Heredia sobre o marxismo russo, os terroristas populistas, Plekhanov e o jovem Lenine, a frase da cançom de Carlos Puebla: “mas entom chegou o comandante e mandou parar”. Umha irrupçom sem aviso que desconcerta ao leitor e, como aquelas velhas técnicas teatrais que utilizava Bertolt Brecht na sua dramaturgia, acordam ao espectador e o sacodem para que tome distáncia do relato e assim avance criticamente na consciência.

Ou também, aquela referência a Gramsci e ao seu vínculo com a Internacional Comunista da sua obra Um livro levemente odioso onde Roque, em lugar de escrever 275 páginas repletas de notas ao pé e documentos de arquivo, resume asua explicaçom com frases de um… bolero!: ““¿Qué le dijo el movimiento comunista internacional a Gramsci? No tengo edad, no tengo edaaaad para amarte….”.

O humor de Roque se converte assim numha ferramenta desacralizadora, um modo permanente de acercar-se ao marxismo e em particular a Lenine evitando toda mumificaçom, alivianando até corroer e dissolver o peso do bronze que durante décadas esmagou a sua mensagem rebelde.

No meio do riso e a ironia, Roque convida-nos a pensar em voz alta, a reflectir cotovelo a cotovelo e fraternalmente entre companheiros, mantendo ao mesmo tempo umha ácida e azeda polémica com os inimigos burgueses.

Lenine? Qual?

Depois de pesquisar sobre a história remota do El Salvador, de reconstruir a insurreiçom comunista de 1932 e de acertar contas com todo o affaire Debray, Roque debruça-se sobre Lenine. Nom é casual. Os sectores mais afins à Uniom Soviética e ao chamado “tránsito pacífico” ao socialismo invocavam a sua figura -com nom pouco cinismo- como antídoto frente a todos os “esquerdismos”, principalmente o do Che Guevara e os seus seguidores latino-americanos.

Qual é o Lenine que aqui nos traz Roque? Pois o Lenine do trabalho clandestino, o da insurreiçom, o da revoluçom e o da luita polo poder. Nesta eleiçom nom há arbitrariedade algumha senom umha perspectiva político-ideológica inequívoca. O grande presuposto de Roque assenta-se numha cosmovissom que concebe o marxismo de maneira viva, inflamável, como umha teoria da rebeliom e nom como umha doutrina académica morta assentada numha recopilaçom de citaçons “sagradas” tranqüilizadoras. Segundo Roque “interessa-nos muitíssimo mais o Lenine da tomada de Petrogrado e o Lenine que nos chega através do Che Guevara e o general Giap, que o Lenine (genial, sem dúvida) da NEP ou o Lenine que nos chega através do relatório sobre os sucessos da última colheita de trigo na Ucránia”.

A aproximaçom a Lenine está dada pola história, a do próprio Lenine e a dos seus leitores actuais, com problemas diversos aos de 1917 mas para os quais o ir ao pensamento do grande bolchevique pode ser sumamente útil e provocador. Dalí que Dalton, sucinto e económico, defina da seguinte maneira: “O leninismo é um complexo resultante da história, nom umha penetrável bola de aceiro”.

Nessa aproximaçom a Lenine, que nom por ser activa e em perspectiva deixa de ser objectiva, nom por tomar partido deixa de ser rigorosa e estrita, nom por eleger um perfil de abordagem deixa de tomar em conta os documentos e a investigaçom historiográfica, Roque Dalton esclarece a cada passo desde onde fala e contra quem fala. Os seus interlocutores polémicos estám abertamente mentados no poema “Contra quem é este livro”. Além de oportunistas, ali os classifica -umha vez mais, ironicamente- como “full backs da burguesia”, aqueles que acusam de “blanquismo” à natureza e à história ou crem que a grande obra de Marx consiste em ter prevenido a classe obreira contra o revolucionarismo excessivo.

Se está claro com quem é a polémica, também som nítidas as acusaçons que Roque pretende contestar. Estám enumeradas no poema titulado “Na polémica nos dim”. Isto é: anarquistas, bandoleiros, extremistas, terroristas, antissociais…

Se tivesse que resumir numha só categoria da história política do movimento socialista todos esses insultos, esse conceito seria o de “blanquismo”, referência depreciativa que remete ao líder conspirador francês do século XIX Auguste Blanqui.

Roque propom-se resgatar Lenine (e com ele a todo o marxismo revolucionário que nom serve de pasto de consumo académico) das acusaçons de “blanquismo”, mas também de outras que costumam acompanhá-lo: “aventureirismo”, “putshchismo”, “romantismo”, “jacobinismo” e “babuvismo” (referência depreciativa que remete para Graco Babeuf).

Todos estes epítetos, cunhados pola social-democracia de fins do século XIX e empregados polo estalinismo pró-soviético durante a década de 1960 para insultar o Che, a Fidel e os jovens revolucionários que seguiam a Cuba fôrom recuperados durante a década de 1980 e 1990, entom da mao de ex comunistas arrependidos e social-democratas subsidiados por fundaçons alemás ou norte-americanas. Tanto em 1890, em 1967 como em 1980-1990 o objectivo do seu uso era o mesmo: recusar a qualquer que se proponha ir além dos limites e protestos permitidos polo sistema de dominaçom capitalista.

Toda a polémica ideológica dada por Roque Dalton propom-se precisamente defender a legitimidade política do pensamento revolucionário latinoamericano e fazer jogar a Lenine nessa disputa, nom como dogmático censor que repta com o dedo autoritário em alto aos jovens esquerdistas senom como ácido impugnador do reformismo, a doença senil do comunismo.

O Lenine que nos aproxima Roque, através de discursos históricos, artigos ou testemunhos de pesquisadores, é o do revolucionário que propom aos jovens fabricar molotov, organizar células clandestinas de combate de rua, o que recomenda pensar melhor que defrontar as eleiçons antes de participar nelas com os olhos fechados e sob qualquer circunstáncia, o que ensina o caminho da luita frontal e armada contra os organismos de inteligência e repressom…

Mas Lenine, o maior de todos, nom está só neste livro! Acompanham-no o Che Guevara, Fidel Castro, o general vietnamita Giap (que se cansou de derrotar e humilhar a vários exércitos do imperialismo japonês, francês, ianque…), Ho Chi Minh, António Gramsci, György Lukács. E obviamente nom podia faltar o diabo…

Roque, Lenine e o diabo

Sim, num livro vermelho para Lenine aparece Leon Trotsky. Roque extracta e reproduz fragmentos da sua célebre História da Revoluçom Russa (o mesmo livro que Ernesto Guevara levou para ler, extractar e anotar na Bolívia em 1966). Aquela volumosa obra na qual o fundador do Exército Vermelho bolchevique sublinha as fortes dívidas que o marxismo revolucionário mantém com Blanqui, sem obviar as diferenças recíprocas.

Hoje em dia, no século XXI, som mais do que úteis, sedutores e sugestivos estes fragmentos de Trotsky sobre a violência revolucionária e a arte da insurreiçom, inteligentemente extraídos e incorporados por Roque. Servem sobremaneira para os comparar com a obsessom pretensamente “antifoquista” (na realidade espontaneísta e reformista) de Nahuel Moreno [Hugo Miguel Bressano] e alguns outros dirigentes trotskistas latino-americanos menos conhecidos do que terminárom convertendo Trotsky num vulgar apologista da participaçom eleitoral em qualquer circunstáncia.

Ainda que o alvo predilecto de Roque Dalton é, principalmente, a pseudo ortodoxia oportunista dos soviéticos e o reformismo estalinista -por exemplo de Victório Codovilla e Rodolfo Ghioldi, dous dirigentes do PC argentino que questiona com todos os pontos e vírgulas no seu outro livro Revoluçom na revoluçom e a crítica de direita-, o rádio de alcance das suas polémicas chega além desse espaço restringido. A lúcida reconstruçom de Roque Dalton deixa bem em claro que Leon Trotsky se sentiria bem mais à vontade em companhia dos guevaristas latino-americanos, “esquerdistas” e “románticos”, que com as instituiçons burguesas e as eleiçons parlamentares às quais tristemente o quigérom maniatar durante as últimas décadas em alguns dos nossos países.

Que adopta Roque de Trotsky? Pois aquilo segundo o qual o mais difícil de resolver numha situaçom revolucionária é o problema do sujeito colectivo e o papel activo dos revolucionários. Nesse contexto, entre os principais entraves a remover, Trotsky identifica a maquinaria institucional e as suas habituais acusaçons de “blanquismo” utilizadas pola propaganda reformista para recusar e demonizar as correntes de esquerda nom institucionais.

Nesse sentido, a Roque Dalton chamou poderosamentea atençom a forma como o criador do Exército Vermelho bolchevique define ao “blanquismo”. Segundo o autor de História da Revoluçom Russa, reproduzido por Dalton, por blanquismo deve entender-se, nom um desvio elitista, militarista ou conspirador do socialismo mas, polo contrário, “a essência revolucionária do pensamento marxista”. Nom é por acaso que Roque se tenha detido neste parágrafo de Trotsky, já que na América Latina as correntes mais moderadas do movimento comunista empregárom o termo de “blanquismo” para desqualificar a Fidel e ao Che.

Ao pôr em discussom a visom falsamente apologética de Lenine, que o convertia numha múmia de mausoleu mais preocupada pola coexistência “pacífica” entre diversas potências a nível internacional e pola governabilidade interna de cada estado a nível nacional, que em incentivar futuras rebelions populares, Dalton também realiza um benefício de inventário sobre a teoria do partido. “O partido de Lenine é um partido de combate”, afirma. A sua missom nom é garantir a paz (dos poderosos e os cemitérios) e sim encaminhar a juventude e a classe trabalhadora “para a tomada do poder”.

Nom é casual que as diversas organizaçons da esquerda salvadorenha, poucos anos depois de que Roque escrevesse este livro, se encaminhassem -unidas na Frente Farabundo Martí de Libertaçom Nacional (FMLN)- para a luita armada e a luita revolucionária polo poder. Justamente, para o final do volume, Roque reproduz um fragmento jornalístico que dá conta da actividade político militar das FPL (Forças Populares de Libertaçom Farabundo Martí, umha das principais expressons que anos depois conformariam o FMLN). Marca desta maneira umha linha de acçom práctica na política salvadorenha daqueles dias.

Lenine a partir do marxismo latino-americano

O poeta salvadorenho propom-se nada menos que traduzir a Lenine a nossa língua política, a nossa idiossincrasia, a nossa história, inserindo-o no mais rebelde e radical das nossas tradiçons revolucionárias. Nom é aleatório que na sua reconstruçom apele a outras experiências de revoluçons em países do Terceiro Mundo: a atrasada Rússia, a periférica China, Vietnám, Cuba, El Salvador… O Lenine de Roque veste-se de moreno, de indígena, de camponês, de cristao revolucionário, de habitante de populaçom, vila miséria, cantegril e favela, além de obreiro industrial, moderno e urbano. A sua é umha leitura alargada de Lenine, pensada para que seja útil já nom exclusivamente nas grandes metrópoles do ocidente europeu-norte-americano mas, principalmente, no Terceiro Mundo, única maneira de o manter vivo e ao alcance da mao nas rebelions actuais da América latina.

Essa perspectiva permite compreender a dedicatória do livro que ainda que está carregada de afecto e admiraçom, implica também umha definiçom política, já que Roque dedica-o “A Fidel Castro, primeiro leninista latino-americano, no XX aniversário do assalto ao Quartel Moncada, início da actualidade da revoluçom no nosso continente” . Essa dedicatória a Fidel retoma pontualmente a tese central do livro de Lukács sobre Lenine [veja-se o nosso estudo preliminar a G. Lukács: Lenine, a coerência do seu pensamento. Havana, Ocean Sur, 2007].

Alguns dos problemas prioritários que Um livro vermelho… aborda tenhem que ver com o carácter da revoluçom latino-americana e as vias (“tránsito pacífico”, confrontaçom directa, “nom tomar o poder…”, etc.). Mas o leque de problemas nom se detém ali. Pretende ser mais extenso.

Leitura sobre as leituras

A obra de Roque tem como objectivo fundamental pensar e repensar que significa o leninismo para e desde América latina. A sua reflexom merece ser balançada e contrastada com outras aproximaçons análogas realizadas em América Latina.

Em primeiro lugar, com o “leninismo” construído por Victório Codovilla e Rodolfo Ghioldi, dous dos principais expoentes argentinos da corrente latino-americana pró-soviética. Estes dous dirigentes começárom a ser hegemónicos dentro do Partido Comunista argentino (PCA) apartir de 1928, quando já havia dez anos que este se tinha fundado. Alinhados em forma férrea com a vertente de Staline no Partido Comunista da Uniom Soviética (PCUS), Codovilla e Ghioldi passárom a dirigir, de facto, a secçom sulamericana da Internacional Comunista (IC). Desde ali combatêrom José Carlos Mariátegui, difundírom suspeitas sobre Julio Antonio Mella e criticárom duramente todo o movimento político-cultural da Reforma Universitária nascido em Córdoba.

Quarenta anos mais tarde, durante os anos ´60, Codovilla e Ghioldi voltarom a repetir a mesma atitude daqueles anos ´20, recusando e combatendo a nova heresia que emanava entom das barbas de Cuba. Desde esse ángulo, construírom umha pretensa “ortodoxia” leninista desde a qual perseguírom quanto “heterodoxo” se cruzasse por diante. Lenine, neste registo estalinista rudimentário converte-se num receituário de fórmulas rígidas, propiciadoras da “frente popular”, a aliança de classes com a chamada “burguesia nacional” e a separaçom da revoluçom em rígidas etapas. Além do mais, desde os anos ´50 em adiante, o “leninismo” de Codovilla e Ghioldi foi-se convertendo em sinónimo de tránsito “pacífico” ao socialismo e oposiçom a toda luita armada (apesar de que Ghioldi tinha participado em 1935 na insurreiçom frustrada encabeçada por Luis Carlos Prestes no Brasil).

Todo o emprendimiento de Roque Dalton em Um livro vermelho para Lenine constitui umha crítica frontal e radical, ponto por ponto, parte por parte, desta versom de “leninismo” divulgada e custodiada nos nossas terras por Codovilla e Ghioldi.

Em segundo lugar, na América Latina o líder do Partido Comunista uruguaio (PCU) Rodney Arismendi elaborou umha versom mais refinada e meditada de “leninismo”. A sua foi umha leitura mais subtil e nom tam vulgar como a de Codovilla e Ghioldi -o que lhe permitiu certo diálogo com a vertente guevarista como o mesmo Roque reconhece no seu outro livro Revoluçom na revoluçom e a crítica de direita-, ainda que o dirigente uruguaio compartilhasse em termos gerais o mesmo paradigma político que os dous dirigentes de Argentina.

Em terceiro lugar, e já sob a estrela da Revoluçom Cubana, a pedagoga chilena Marta Harnecker tentará umha nova aproximaçom a Lenine a partir da América Latina. Fará-o com a óptica política e epistemológica althusseriana, já que Marta foi durante anos umha das principais alunas e difusoras do pensamento de Louis Althusser em idioma castelhano e em terras latino-americanas. Essa tentativa de leitura cristalizará-se na obra A revoluçom social (Lenine e América Latina), de algum modo devedora de obras prévias como Táctica e estratégia; Inimigos, aliados e frente política, bem como da mais famosa de todas: Os conceitos elementares do materialismo histórico.

A obra pedagógica de Harnecker, bem mais afeiçoada a Lenine do que as anteriores tentativas etapistas de Codovilla, Ghioldi ou Arismendi, tem um grau de sistematicidade muito maior do que a de Roque Dalton. No entanto, por momentos os esquemas construídos por Marta rendem um tributo desmedido a situaçons de facto, conjunturais. Por isso os seus livros teóricos vam de algum modo “acompanhando” os processos políticos latino-americanos. Assim, perspectivas políticas determinadas convertem-se, por momentos, em “modelos” quase universais: luita guerrillera -como em Cuba- nos ´60; luita institucional e poder local -como no Brasil e Uruguai- nos 80 e 90; processos de mudanças radicais através do exército -como na Venezuela- desde 2000 .

O livro de Roque, sem dúvida menos sistemático e com menor quantidade de referências e citaçons bibliográficas dos escritos de Lenine do que estes manuais, possui no entanto umha maior aproximaçom ao núcleo fundamental do Lenine pensador da revoluçom anticapitalista. A menor sistematicidade é compensada com umha maior frescura e, provavelmente, com umha maior largura de perspectiva de pensamento político.

Em quarto lugar, devemos recordar a operaçom de desmontagem que desde começos dos anos 80 pretenderom realizar os argentinos (por entom exilados) Juan Carlos Portantiero, Ernesto Laclau e José Aricó, entre outros. Toda a sua releitura de Gramsci em clave explícita e expressamente antileninista, constitui umha subtil tentativa de fundamentar a sua passagem e conversom de antigas posiçons radicalizadas a posiçons moderadas (esta referência vale para Portantiero e Aricó, nom assim para Laclau, quem nunca militou na esquerda radical e sim na denominada “esquerda nacional”, apoiabraços progressista do populismo peronista).

Concretamente, o ataque a Lenine (acusado de “blanquista”, “jacobino” e “estatalista”) e a manipulaçom de Gramsci (resignificado desde o eurocomunismo italiano e o pós-modernismo francês) cumprem nos ensaios de Portantiero, Aricó e Laclau o atalho directo para legitimar sonoramente “académicos” o seu rendimento alegre à social-democracia, depois da renúncia a toda perspectiva anticapitalista. Nom podiam realizar esse tránsito sem ajustar contas com a obra indomesticável de Lenine, osso duro de roer, inclusive para os académicos mais flexíveis e mais hábeis.

O livro de Roque, pensado para discutir com o reformismo e o oportunismo da direita “do movimento comunista latino-americano”, está cheio de argumentos que inclusive lhes ficam grandes às apologias parlamentaristas e reformistas destes três pensadores da social-democracia.

Em quinto lugar, nom podemos obviar a recente tentativa de John Holloway e os seus seguidores latino-americanos por responsabilizar a Lenine de todos os males e vícios tidos e por ter: substitucionismo, verticalismo, autoritarismo, estatalismo, etc., etc., etc. A “novidade” que inaugura a proposta de Holloway consiste em que realiza o ataque contra as posiçons radicais que se derivam de Lenine com pontos de vista reformistas mas…, a diferença dos antigos estalinistas pró-soviéticos ou dos social-democratas, ele o fai com linguagem pretensamente de esquerda.

A gíria pretensamente libertária encobre em Holloway um reformismo pouco dissimulado e umha impotência política mau digerida ou nom elaborada (extraída de um esquema académico demasiado abstracto da experiência neozapatista, caprichosamente despojada de toda perspectiva histórica ou de toda referência às luitas camponesas do zapatismo de princípios do século XX, que pouco ou nada interessam a Holloway). Toda a crítica de Roque Dalton golpeia contra este tipo de propostas académicas ao estilo de Holloway (ou dos seus seguidores igualmente académicos), ainda que por via indirecta, já que ao redigir o seu polémico collage Roque pretendia questionar posiçons mais ingénuas, menos subtis e, se se quer, mais transparentes nos seus objectivos políticos.

Finalmente, na hora de parangonar a leitura de Roque com outras leituras latinoamericanas sobre Lenine, deparamos com a recente análise de Atilio Borón. Este autor vai ao Que fazer? para analisá-lo, interrogá-lo e reivindicá-lo a partir da América Latina contemporánea.

Nom é por acaso que, como Roque Dalton, Borón chegue a umha conclusom análoga quando assinala a Fidel Castro como um dos grandes dirigentes políticos que compreendêrom a fundo Lenine. Particularmente, fai referência à importáncia atribuída por Lenine ao debate teórico e à consciência e o compara com o lugar privilegiado que ocupa a “batalha das ideias” no pensamento de Fidel.

Depois da rebeliom popular argentina de Dezembro de 2001, Borón analisa as teses do Que fazer? e as emprega para polemizar com o “espontaneísmo”, sobretodo de John Holloway, quem de facto classifica a Lenine como um vulgar estatista autoritário. Também polemiza com a noçom desfianhada e difusa da “multidom” de Toni Negri, quem acha, erroneamente, que toda organizaçom partidária das classes subalternas termina subordinando os movimentos sociais sob o reinado do Estado. Crítico de ambas interpretaçons -a de Holloway e a de Negri-, Borón sustenta que grande parte das revoltas populares de começos do século XXI fôrom “vigorosas mas ineficazes”, já que nom conseguirom, como no caso argentino, instaurar um governo radicalmente diferente aos anteriores nem construir um sujeito político, anticapitalista e anti-imperialista, perdurável no tempo.

Neste tipo de leituras, o leninismo de Borón mantém umha forte dívida com as hipóteses históricas do dirigente comunista uruguaio Arismendi, a quem cita explicitamente, ainda que no caso do argentino essas conclusons a favor de um comunismo democrático estejam completamente despojadas de todo vínculo com o estalinismo.

Da mesma forma que o salvadorenho, no seu trabalho sobre Lenine o argentino questiona “as monumentais estupidezes bosquejadas polos ideólogos soviéticos e os seus principais divulgadores”. Conquanto Borón e Dalton se esforçam por delimitar a reflexom de Lenine daquilo no que derivou posteriormente em estalinismo, depositam os seus olhares em arestas algo dissímeis. Por exemplo, enquanto Borón critica -seguindo Marcel Liebman- a “atitude sumamente sectária” de Lenine durante o período 1908-1912, Roque defende aqueles escritos de Lenine, duros, inflexíveis, propiciadores da clandestinidade, do “partido obreiro de combate” e inclusive da guerrilha.

Pensar (e agir) além da institucionalidade e o progressismo

As reflexons Um livro vermelho para Lenine tenhem vasos comunicantes com todas estas iniciativas intelectuais mas possuem, aliás, umha densidade específica e própria.

A proposta política de Roque, atravessada, sim, polas esperanças ardentes dos anos ´60 e inflamada, também, polo furacám continental que provocou nos seus primeiros anos a Revoluçom Cubana, possui, no entanto, umha de impacto actualidade. Conquanto é certo que o “espírito de época” da qual se nutre Roque ao escrever nom é exactamente o nosso, também é certo que o seu livro-collage pom sobre a mesa um problema que permanece ainda irresoluto. Como pensar na América Latina as mudanças radicais além da institucionalidade sem abandonar, ao mesmo tempo, a organicidade revolucionária anticapitalista?

Isto é, como voltar a colocar no centro das discussons, os projectos e as estratégias revolucionárias latinoamericanas do século XXI o problema do poder, abandonado, eludido ou inclusível negado durante um quarto de século de hegemonia neoliberal?

Roque provoca, molesta, incomoda. Ri-se e burla dos acomodaticios. Mofa-se das burocracias partidárias. Questiona a aridez dos discursos académicos que citam muito para nom dizer nada.

O livro de Roque também serve para pensar as derrotas das revoluçons latinoamericanas desde a esquerda, sem fazer tábua rasa com o passado de luita (como nos propuserom ao longo destes anos tantos conversos e arrependidos, convertidos subitamente em servidores públicos de traje, relógio caro e gravata). Repleto de ironia, permite ainda fazer um balanço meditado e reflexivo, recusando o desarmamento político-ideológico que pressupom a historiografia de terra “arrasada”, tam em voga durante os anos ´80 e ´90, onde se culpava a esquerda revolucionária polos golpes de estado, os desaparecimentos de pessoas, a instabilidade política, etc., etc.

Além de todos estes contributos, o livro de Roque pode-nos permitir ensaiar um balanço crítico das experiências frustradas ou truncas dos progressismos, depois da denominada “transiçom à democracia” dos 80, superado já o neoliberalismo dos anos 90 e depois do gatopardismo “progressista” que se inicia a partir do ano 2000 .

Roque Dalton, Lenine e o socialismo do século XXI

Por todo isto achamos nom nos equivocar ao afirmar que o ensaio-collage-poema inconclusso Um livro vermelho para Lenine, herdeiro de Mariátegui e do Che, dedicado a Fidel Castro e dirigido às novas geraçons de militantes polo socialismo, constitui um dos principais clássicos do marxismo latino-americano. Deveria estudar-se em todas as nossas escolas de formaçom política.

A sua leitura nom pode nem deve ser passiva. Submergir-se nos seus poemas irónicos, nos seus textos teóricos, nos seus documentos políticos, implica fazer falar a Roque e aos interlocutores que ele elegeu para, acompanhando Lenine, construir a sua obra polifónica. A tal ponto Roque foi-no construindo como um diálogo infinito que nas suas páginas aparecem também os seus contrincantes, personagens inventados que, a partir do horizonte da velha esquerda metropolitana e eurocêntrica, tentam por em dúvida a leitura leninista em chave latino-americana que o seu autor nos propom.

Conquanto é inegável que as personagens do diálogo-collage som múltiplos, também é evidente que esse elenco numeroso conta com dous protagonistas centrais e inequívocos: Lenine e Roque, Roque e Lenine. Ambos membros activos da nossa confraria anti-imperialista e anticapitalista. Fazê-los falar significa incorporá-los ao jogo, envolvé-los na resoluçom de nossos desafios políticos actuais e os nossos interrogantes abertos.

Inserido no mais rico e original do pensamento rebelde latino-americano, este texto constitui um convite extraordinário para dialogar em voz alta com estas duas personalidades entranháveis tendo em mente nom só a aprendizagem dos erros e acertos do socialismo do século XX senom também, e principalmente, o que significará o socialismo revolucionário do século XXI.