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Crise sistémica, ofensiva adulta e poder juvenil

Terça-feira, 4 Agosto 2009

Alexandre Rios

Em diversos meios de contra-informaçom tem-se reflectido muito sobre as novas perspectivas que abre a crise do capitalismo em curso, que por umha parte rubricou o fim de um ciclo dourado para a expansom do Capital e pola outra elevou a sua predaçom violenta a quotas inimagináveis até há só umhas décadas. Nestes artigos e ensaios há um claro consenso em várias questons, especialmente na que agoira umhas convulsons traumáticas e brutais cujas conseqüências a longo prazo som polo de agora extremamente incertas. A realidade demonstrável que constatamos é que o capitalismo atravessa umha crise de proporçons desconhecidas, sem antecedentes na história deste modo de produçom e que, previsivelmente, conformará cenários de luita (e portanto de violência e opressom) desconhecidos até a data.

Um dos factos que descobre mais claramente que a situaçom é esta é que os próprios instrumentos da Ditadura do Capital se tenhem pronunciado com verdadeiro medo sobre esta trovoada que ameaça com afundir o barco capitalista, que da singradura para o fim da história passou sem transiçom aparente a sulcar mares desconhecidos sobre simas abisais, onde espreitam terrores inomeáveis. Neste senso, realizárom-se as declaraçons de Paul Volcker, ex-presidente da Reserva Federal estado-unidense durante os mandatos de Jimmy Carter e Ronald Reagan, que afirmou que a profundidade da crise actual supera com muito a desatada com o crack de 1929. Esta afirmaçom, além de enfrentar-se de pleno com as vozes dos “especialistas” dos diferentes governos, racha com a tónica habitual do capitalismo de mentir e escamotear a gravidade dos acontecimentos através das suas empresas de comunicaçom. E isto só se entende porque a alta burguesia, esse reduzidíssimo clube conformado polos amos do mundo, está assustada. Esta tese foi recentemente confirmada polas declaraçons de umha outra peça basilar do capitalismo, esta vez do FMI, que através do seu director gerente Dominique Strauss Kahn comunicou ao mundo que a actual situaçom económica mundial é “extremamente grave”, prognosticando umha “recessom global” e advertindo do “perigo de distúrbios sociais que ameacem às democracias e degenerem em conflitos”.

Nom há tempo nem espaço para nos estendermos sobre como os governos do centro capitalista, nomeadamente EUA, UE e Japom (além da China, Índia e outros países), se lançárom a tentar encher o vazio que deixou a gigantesca bolha de especulaçom parasita (valorizada em mais de 20 vezes o Produto Bruto Mundial) com um incessante desvio de fundos públicos para as arcas de bancos, empresas, sociedades de investimento, seguradoras e outros  especuladores artífices da bolha financeira, cujo estourido concorreu em gravidade com outras crises simultáneas (militar, tecnológica, ecológica, política, social, alimentar, etc.) que provocárom o “caos levemente ordenado” actual. Baste assinalar que no Estado espanhol este accionar tomou a forma do Plano E, que além de repetir o esquema citado, está a investir a maioria dos esforços em manter com vida o agónico sector da especulaçom imobiliária durante mais uns meses, também pola via da injecçom de liquidez do erário público a fundo perdido.

Ofensiva do Capital contra a juventude e as mulheres

Neste contexto de grande risco de explosividade social, o Capital e os seus gestores políticos precisam de exercer umha quádrupla estratégia: Insuflar oxigénio ao decrépito coraçom do sistema pola via de potencializar a economia submersa (tráfico de armas, prostituiçom, drogas, escravidom, especulaçom), reactivaçom económica através da guerra (as principais potências imperialistas já estám a tomar posiçons para um possível confronto); socializaçom dos custos da crise que a burguesia provocou, e redobro dos mecanismos de violência contra as classes trabalhadoras, com o intuito de as manter anuladas e sumidas na aceitaçom da derrota; incapazes de cheirar os suores frios dos burgueses e reagir.

No ámbito europeu, que já era baluarte e berço da opressom e a violência modernas quando os EUA eram apenas um chaval a brincar às torturas, é fulcral incrementar a repressom e opressons de todo o tipo sobre os sectores mais agredidos pola dominaçom do Capital: A juventude e as mulheres. Mas, ao mesmo tempo, é imprescindível torná-los imperceptíveis. Isto consegue-se por duas vias simbioticamente complementares.

A primeira, elevando de um modo brutal a potência dos mecanismos que convertêrom as mentes de amplas massas de jovens em enormes macro-cárceres, invisibilizando assim a sua opressom cada vez mais violenta.

É esta a razom de que se reforce o culto ao autoritarismo reproduzido e fomentado nas escolas, institutos, universidades, centros de trabalho, nos bares e zonas de marcha, nas ruas, na casa, na família, nas relaçons pessoais, etc.  O submetimento ao poder reflecte-se na aceitaçom acrítica do mandato imposto pola violência ou pola ameaça de a exercer, quer por parte do professor, gerente, encarregado, capataz, segurança privado, polícia, porteiro, pai, companheiro, marido, noivo, etc.

Merece especial atençom o papel do poder adulto na assunçom do autoritarismo por parte d@s jovens, que já desde a infáncia e sobretodo nas mulheres consegue imprimir as formas em que encaixarám as futuras estruturas de dominaçom. Esta supeditaçom ao líder da família patriarcal é fulcral para a criaçom de futuros obreiros dóceis, mulheres submissas, jovens mentalmente castrados que aceitarám sem se rebelar qualquer agressom, seja esta um ERE, umha admoestaçom do encarregado, pressons do companheiro para ter relaçons sexuais, imposiçons paternas para conseguir um trabalho que nom permite a militáncia, etc. O alargamento do poder adulto é imprescindível para curtocircuitar a resposta juvenil à crise em curso.

Também devemos falar da crescente militarizaçom social, que é especialmente importante nas naçons oprimidas do Estado espanhol, que desde a reformulaçom do franquismo na transiçom tinha como um dos principais objectivos apagar das novas geraçons a memória do genocídio e das torturas perpetradas polo exército e a polícia durante quarenta anos. A paulatina lavagem de cara, unida a umha multimilionária campanha de marketing deu em que na actualidade um sector importante da juventude galega nom veja o militar, o polícia, o funcionário de prisons, o porteiro ou o segurança privado como um mercenário a soldo de um Estado ocupante, ou nos dous últimos casos como um simples mercenário. Outros sectores nom politizados abrigam certas renuências e desconfianças intuitivas, mas que em muitas ocasions som vencidas pola falta de um discurso social suficientemente amplo que denuncie o papel do exército, das polícias local e nacional, do funcionariado de prisons, e a tentativa do Estado espanhol de integrar a juventude trabalhadora nestas funçons repressivas pola via da miséria e a impossibilidade de atingir umhas condiçons de vida material dignas.

Os factores mencionados, além doutros sobre os quais agora nom podemos fazer umha análise em profundidade, como o negócio do desporto de massas, o ócio alienante ligado às drogas e à evasom, a ofensiva do espanholismo fanático contra os povos oprimidos ou os ataques do integrismo cristao-católico contra os direitos democráticos da mulher ao aborto livre; favorecem a penetraçom do fascismo e o neofascismo entre a juventude, o que neste contexto de crise tem um papel impagável como vacina reaccionária que evite a propagaçom da “epidemia” da emancipaçom juvenil. O aumento do racismo, a homofobia e o machismo entre a juventude galega nom é mais do que umha conseqüência deste processo, produto de umha estratégia planeada tempo atrás que agora em tempo de crise é selvagemente acelerada para amortecer possíveis efeitos nom desejados, como o avanço da alternativa socialista.

A segunda das vias para invisibilizar os efeitos da crise é a externa ou, o que é o mesmo, carregar à juventude  que na expansom neoliberal só viu o crescimento económico nos telejornais com o grosso dos custos da crise, mas disfarçando-o com diferentes métodos através das televisons, rádios, Internet, jornais, revistas, declaraçons institucionais, publicidade empresarial, estudos económicos pseudo-científicos, produçom universitária ao serviço do sistema, etc.

É central o papel das empresas de comunicaçom, que estám a diminuir o descontentamento social e sobretodo difundir a insustentável teoria burguesa da crise passageira, que defende que a economia já está a mostrar sintomas de recuperaçom. O exemplo mais evidente é o do pequeno repontar da contrataçom no Verao, ligado ao sector turístico e ao trabalho temporário amplamente ocupado por jovens, mas que nom modifica em modo nengum a realidade dum desemprego em acelerado ascenso. Assim, recordes históricos de desemprego som maquilhados nas estatísticas excluíndo dos números parte d@s desempregad@s, emitem-se hipócritas comparaçons com o resto do Estado passando por alto o pesso decisivo da economia submersa na Galiza, ou ignorando que a percentagem de desocupaçom nom sofreu umha subida tam forte como a espanhola, ao ser já das mais altas do Estado previamente à crise, para nom mencionar as dúzias de miles de jovens galeg@s que se vírom obrigad@s a abandonar a Galiza para encontrar trabalho, e que em caso de viverem no País engrossariam as filas do INEM. Outras notícias como a “queda dos acidentes laborais na Galiza” som tam fáceis de explicar como que a menos número de trabalhadores/as, menos possibilidades de ter acidentes laborais.

Se quigermos comparar dados com certo rigor, haverá que lembrar que a Galiza é a segunda comunidade autónoma com um maior número de desempregad@s que nom cobra ajudas de nengum tipo, em concreto 40% (face aos 28% espanhóis). Quer dizer, que quase umha em cada duas pessoas no desemprego esgotou já o subsídio ou nom quotizou o suficiente para o cobrar, e vive na actualidade desprovist@ dos meios mínimos para assegurar a subsistência. Mas nom só: Para os optimistas subsidiados de Sam Caetano e a Moncloa, haverá que dizer também que essas 84.000 pessoas (na realidade muitas mais porque tomamos as estatísticas trucadas) tenhem poucas ou nulas possibilidades de encontrar emprego. E neste contexto, a juventude e sobretodo as jovens, som as vítimas mais desprotegidas: A nossa taxa de desemprego duplica a global, sendo @s primeir@s a sermos despedid@s e @s que mais dificuldades temos para encontrar novos trabalhos, muito mais as jovens que além disso cobram muito menos polas mesmas horas.

O panorama é, pois, desolador; as previsons de agravamento da incertidom vital ligada a umha queda brutal das condiçons de vida, com grandes massas de jovens que nos veremos arrastadas à pobreza absoluta e relativa e que engrossaremos as superpovoadas prisons por delitos que já estám a proliferar no País (pequenos furtos de comida, combustível e assaltos de pouca importáncia). Começa também a repontar a prostituiçom de jovens galegas nom ligada às drogodependências e sim à miséria, e com certeza amplos sectores destas mulheres vam ver-se forçados a seguir este caminho no futuro ou a entregar a sua liberdade e aceitar a dependência económica do marido/noivo/companheiro e a sua violência.  O retorno d@s jovens emigrad@s que estám a perder o seu posto de trabalho e nom o recuperarám e a caducidade a curto prazo do emprego fictício que criou o Plano e acabam de completar o quadro. As portas estám a fechar-se umha após outra, e o desespero provocado pola crise está a criar um trauma psicológico colectivo, que perante este beco sem saída elevou o consumo de ansiolíticos ao segundo posto no ranking de drogas farmacêuticas mais consumidas pola juventude galega.

O poder juvenil como autodefesa contra a crise capitalista

Todo conceito tem o seu contrário que o define, e o poder adulto, esta opressom propriamente juvenil com os seus conteúdos de sexo-género, nacional, e de classe; nom é umha excepçom. Frente a umha estrutura de dominaçom que ancora os nossos processos conscientes e inconscientes à lógica da submissom, a juventude nom tem outro caminho que defender-se com o contra-poder juvenil.

A auto-organizaçom e autogestom da juventude, o combate na casa contra a imposiçom do pai e a família, a resposta nos centros do ensino ao todo-poderoso professorado, a reivindicaçom da validez das apostas juvenis no seio das próprias organizaçons revolucionárias “adultas”, a criaçom de um movimento social dentro das massas obreiras que visibilize a gravidade específica dos ataques à juventude, da sua precarizaçom vital estrutural, a entrada da juventude em espaços de decisom política, e a estruturaçom de um movimento juvenil de massas que supere a actual fragmentaçom e sectarismo e que atinja um degrau de desenvolvimento superior que a mera soma das partes som alguns dos reptos que a criaçom desse poder juvenil requer.

Este poder d@s jovens vai além da denúncia, e incluso da defesa da juventude diante das agressons provocadas pola crise. Para tal, precisamos nom só de um movimento juvenil criativo, vivo e emergente, auto-organizado e com capacidade de intervençom, simbioticamente relacionado com o tecido social e político, autoconsciente das forças próprias e da necessidade de as usar, nom só umha presença decisiva de organizaçons revolucionárias que assumam a necessidade deste poder e o apliquem na prática, mas umha aposta estratégica na ruptura em todos os ámbitos com o poder adulto, ligado a umha proposta revolucionária que tenha na independência nacional, a alternativa socialista e a destruiçom do patriarcado as suas linhas de força. Só cumprindo estas premissas é possível o início de umha contra-ofensiva que nos devolva o papel que temos como o futuro da revoluçom neste país. Só assim existirá a possibilidade real de impedir umha reforma laboral, de exigir e atingir êxito na reivindicaçom de umha vivenda digna, de combater o terrorismo machista com a sua mesma medicina, de conquistar espaços auto-geridos por e para a juventude, emancipados da supervisom adulta.

Estas devem ser algumhas das metas a médio prazo. Nom devemos esquecer que a iminente queda das condiçons de vida podem favorecer saltos qualitativos no nível de consciência das massas, na autopercepçom que @s jovens temos do que é possível e nom é possível conseguir com luita. Mas este cenário necessário nom vai a cair do céu. O capitalismo nom vai derrubar-se sobre ele próprio e a crise pode ser prelúdio de umha era de exploraçom como ainda nom se viu na história da humanidade. A possibilidade do avanço do fascismo e do neofascismo é umha realidade palpável a que a juventude trabalhadora deve fazer frente. A nossa criminalizaçom crescente polo poder adulto inerente ao patronato, aos corruptos partidos políticos governantes, à polícia e ao exército é um ataque constante que chega de todas as frentes; e que mina a nossa capacidade de intervençom.

É obrigaçom nossa deixar de lado lastros que só nos condenam a umha miséria certa nos próximos anos, como som o individualismo egoísta, a comodidade militante ou a desonestidade na hora de encararmos a luita.  Nom podemos priorizar os nossos desejos e ritmos ao pulso da história e, nesta altura, as jovens e os jovens organizados na Galiza enfrentamos um repto enorme, do qual só @s jovens que venham depois de nós poderám avaliar se estivemos à altura.