Michael Jackson, a metáfora inevitável
Ramiro Vidal Alvarinho
Se o meu vizinho de coluna, Xavier Moreda, escrevesse o seu artigo umhas horas depois do que o fijo, seguro que aproveitava melhor do que eu este autêntico filom, com toda a sua carga poética: morreu Michael Jackson. Morreu de morte matada, vítima do monstro que ele próprio criou. Por isso digo que o Moreda o havia aproveitar bem: ele que tam bem retrata o auto-ódio, e ele que é mais ou menos coetáneo daquele contraditório vulto do “show bussines”.
Ele, que começou a sua andaina artística nos Jackson Five, com os seus outros quatro irmaos varons, preto, filho de família pobre, depois caçado e explorado pola indústria discográfica, manipulado, enlouquecido, desclassado, renegado da sua própria raça até o extremo de fazer-se descolorar a pele. Os últimos anos de Michael Jackson faziam albiscar um final trágico para tam rocambolesca e absurda história.
Os que amamos as músicas dos negros americanos, nom podemos deixar de ter certo reconhecimento cara um gajo que, claramente, tinha um inegável talento como músico e como showman. Mas para os galegos tinha a sua figura um aquele nojento. Lembrava-nos demasiado comportamentos e maneiras de pensar com que estamos familiarizados. O querer ser o que nom se é. O desprezo por princípio do próprio.
Essa insuportável evocaçom levava-nos à metáfora inevitável. Com certeza que achegados e admiradores de Michael Jackson nom estariam nunca conformes com o paralelismo. Muitas vezes se tem discutido se o da obsessom de Michael Jackson com a sua pele era excentricidade ou era realmente cenreira cara as suas origens. A questom é que a sua metamorfose forçada a base de cirugias e quem sabe que mais artifícios, vista a partir da Galiza e polos olhos de um indivíduo galaico conscientizado da sua realidade, conduzia teimosamente a um reflexo em cenário próprio.
O nosso fantasma, tétrico, mandou-nos umha mensagem que se projecta de maneira despiadada sobre as agónicas manifestaçons do nosso ser maltreito. A paisagem galega transformada em rebeliom violenta contra si própria: campos de golfe onde antes havia branhas, montes invadidos por urbanizaçons de luxo, passeios marítimos em lugar de peiraos marinheiros, cultivos intensivos de eucalipto furtando ao bosque a sua diversidade…
…e o indivíduo galego, evoluindo em fatal consonáncia com essa metástase finiquitadora de toda evidência de que estamos onde estamos. Começando pola língua, inútil, claro, como bagagem na travessia terminal em que os nossos particulares remedos da pop star norte-americana nos querem embarcar. Nom parecer o que um é, para começar a deixar de o ser. Um processo doloroso de mais, pois a ruidosa presença de anticorpos no sujeito paciente fai com que o mortal tránsito nom seja precisamente plácido. Os símbolos, a memória… e certos restos de massa vertebrada. Molesta resistência ainda nom varrida.
Michael Jackson, a metáfora inevitável. O único evitável é o fim da história, só que a única via para o eludir é umha viragem no nosso próprio guiom. Que alguém detenha este cortejo fúnebre, que caminha sob a partitura de um determinismo reaccionário.



Parabéns polo artigo, muito bom.
[...] Posted on Xuño 26, 2009 by telmanaveira Interesante relación con Galicia no artigo: Michael Jackson, a metáfora [...]
O não reconhecimento de si, de uma valoração daquilo que NÃO se é. Isto se dá numa sociedade que não se respeita.
Fátima Soares
Cidade: Rio Claro, São Paulo, Brasil
Michael Jackson, a metáfora inevitável…
Os que amamos as músicas dos negros americanos, nom podemos deixar de ter certo reconhecimento cara um gajo que, claramente, tinha um inegável talento como músico e como showman. Mas para os galegos tinha a sua figura um aquele nojento. Lembrava-nos…
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