Abrente

Ediçons digitais da publicaçom trimestral do nosso partido

Documentaçom

Textos e outros documentos políticos e informativos de interesse

Ligaçons

Sites recomendados de ámbito nacional e internacional

Opiniom

Artigos assinados sobre temas de actualidade galega e internacional

Video

Documentos audiovisuais disponíveis no nosso portal

Home » Opiniom

Recuperando o passado que nunca lograrám extirpar

Domingo, 21 Junho 2020

Carlos Morais

Ainda nom tinha sido contagiado pola melancolia inerente ao crepúsculo do estio, quando tomei a decisom de estudar a experiência do sindicalismo campesinho no Val do Límia. Adiando assim outros projetos que tinha definido e que ainda seguem pendentes.

Foi na curva de Fontaboa, naquele memorável 14 de setembro de 2019, quando Manuel Rodriguez Valencia voltou a falar de que conservavam em Barcelona documentos do Sindicato Campesino de Souto. Poucas semanas depois encaminhou por e-mail cópia do Livro de Atas e o de Contabilidade que guardam como ouro em pano.

O seu avó materno tinha sido um dos seus dirigentes. Até dous meses antes, devo confesar que nada sabia desta experiência de auto-organizaçom dos que viviam de lavrar a terra na nascente da concavidade do rio Lethes, hoje assulagada pola desfeita depredadora e colonial provocada pola oligarquia fascista dos Barrié de la Maza.

Foi precisamente na infame data de 18 de julho de há agora perto de um ano que, acompanhado pola Íria Moreiras, descubrim em Güimil os irmaos Píli e Jose Benito Rodriguez Valencia

A diferença de muitos outros familiares das vítimas do fascismo, pouco proclives e mesmo reticentes a reparar a dignidade e a memória , manifestárom entusiasmada colaboraçom para participar ativamente na homenagem que em oito semanas desvelaria um majestuoso monólito de sete toneladas de granito dourado, na infame curva onde o falangismo executou o “Noches”, um sexagenário campesinho de Nigueiroá chamado Juan Manuel Álvarez Álvarez, e um jovem de Mexide, artesao dos obradoiros de pam, chamado Jenaro Alonso Santos.

Orgulhosos da sua estirpe luitadora, pudemos pôr cara ao quadro comunista assassinado polos criminais que Vox impunemente a dia de hoje reclama. Escaneamos as primeiras fotografias que conservavam do seu venerado avô.

Voltamos a encontrar-nos ao longo do inesquecível verao de 2019. Compartilhamos a sua hospitalidade e boa cozinha, na casa que foi sede do Sindicato Campesino de Souto, onde o vindouro 1 de agosto será descuberta umha placa de bronze.

José Benito exerceu de consagrado cicerone. Apesar das sequelas de dous trágicos acidentes que lhe segárom a visom, ensinou-nos umha a umha, todas as casas ou as ruínas do que foi umha harmónica aldeia das terras do milho, na veiga limiá, relatando com detalhe quem vivia em cada umha delas, e o seu destino.

Evocou com nostalgia as relaçons entre a sua família e a dos Álvarez Pena. A amizade do seu avô com o meu avô, a camaradagem escarlata compartilhada no Partido Comunista comandado polo Benigno Álvarez. E a satisfaçom deste reencontro. Sem lugar a dúvidas a reputaçom da minha avó Rosa, do seu marido, e de boa parte das famílias Tejada e Pena, permitírom abrir as portas da memória de par em par.

Pili rememorou, como ainda sendo umha nena, viu por primeira vez a minha mae numhas festas de agosto no Güimil da década de cinquenta. Falamos de dom Paco [Francisco Álvarez Pena], carinhosa fórmula para designar com respeito e admiraçom o meu visavô.

Como pai e filho, Secretário Municipal do Concelho e do Julgado de Paz de Moinhos respetivamente, durante a etapa republicana, teriam contribuído para que Benito Valencia Bouza fosse incorporado no quadro de pessoal municipal, exercendo de escrivao.

Foi umha grande alegria para ambos descubrir que Benito Valencia Bouza, nom só tinha sido junto com o seu amigo e vizinho porta com porta Constantino Fernández Martínez “o catalám”, os dous máximos dirigentes do Sindicato Campesino de Souto, mas também tenente de alcaide da Gestora Municipal de Moinhos frentepopulista encabeçada polo Demetrio Seoane.

O contato direto com os lugares onde se desenvolvérom os factos históricos que pretendemos recuperar e reivindicar, fôrom determinantes na investigaçom. Güimil, ponte do Boado, igreja de Souto, cemitério de Ginzo, pensiom da Anuncia, ponte Soutelo, Meaus e terras da desaparecida república do Couto Misto, casa natal de Farnadeiros, mas também em Ourense a sede da “Federación Provincial de Campesinos de Orense” situada no número 1 da daquelas conhecida como praça do Cid, e hoje dos Eironcinhos dos Cavaleiros; a rua do Progresso à volta do Possio onde estava a imponente Casa do Povo da feitura de Vázquez Gulias, a antiga Escola Normal e onde ainda hoje resiste frente ao deliberado abandono a prisom provincial onde estivérom encarcerados centos de republicanos antes da sua execuçom no campo de Aragom ou nas cunetas e encruzilhadas de caminhos; a rua da Porta da Aira, hoje Julio Prieto Nespereira, mas daquela “reina Victoria”, onde estava sediado o quartel geral do núcleo de titânio do bolchevismo ourensam, …

Mas foi a prodigiosa memória do José Benito, os seus pormenorizados detalhes, quem ajudárom a compreender melhor as mentalidades, as relaçons sociais, a cosmovisom labrega, da nossa tam formosa como maltratada naçom querquenna.

A partir de esse momento, logramos mediante dúzias e dúzias de horas de conversas telefónicas, reconstruir fragmentos da curta, mas intensa vida do seu avó Benito Valencia Bouza. E tecer umha amigável cumplicidade.

Da sua efémera estadia na Lisboa de 1927, da posterior emigraçom a Buenos Aires. Do lustro na metrópole argentina procurando fundos económicos que lhe permitissem comprar umha terra chamada “A cortinha”, encaminhar dinheiro para que a sua mulher Digna Portela Penín criasse Obdulia, a filha de ambos que só conheceu ao regresso do cono sul. Mas também adquirir a sonhada máquina de coser com a que arranjava e confecionava roupa para as famílias de mais recursos de ambas beiras do Límia.

Da viagem para o exílio via Portugal, da amargura de desconfiar quem poidérom ser os delatores da sua captura polos falangistas de Ginzo, da sua execuçom na ponte do Boado no quilómetro 194.518 da velha n-525, naquele sinistro 1 de agosto de 1936, de nom saber onde estám os seus restos, do drama familiar, da intimidaçom padecida durante décadas polo falangismo e a Guarda Civil, …

Durante o pasado outono e inverno dediquei centos de horas a investigar e estudar essa etapa histórica em geral, e realizar umha primeira e inacabada aproximaçom a esta experiência concreta.

A pandemia impossibilitou culminar algumhas das vias de investigaçom abertas, consultar arquivos e hemerotecas pendentes, receber documentos solicitados, realizar e finalizar entrevistas inconclusas, que aperfeiçoariam e melhorariam o texto.

A satisfaçom do dever cumprido é o livro “Benito Valencia Bouza, artífice do Sindicato Campesino de Souto, Val do Límia”, que em formato caderno editado polo Comité pola Memória Histórica do Val do Límia, vem de sair do prelo há exatamente 72 horas.
Este trabalho nom teria sido possível sem a infatigável colaboraçom do José Benito Rodriguez Valencia, Íria Moreiras, Davide de Bande, Miro Martinez Cerredelo, José Dias Cadaveira, e de dúzias de pessoas que desinteressadamente figérom possível recuperar mais umha peça do puzzle de umha das melhores etapas históricas do Val do Límia, que o fascismo e postfranquismo teimam em deformar e ocultar.

1 de agosto teremos a honra de apresentá-lo publicamente em Güimil.