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O fantasma comunista no seu labirinto [Notas “desde um oscuro recanto do mundo”]

Sexta-feira, 7 Junho 2019

 

Néstor Kohan

O capitalismo a debate

Após várias décadas de guisos requecidos posmodernos, sopas “posmarxistas”, saladas reformistas e sobremesas “poscoloniais” à ementa, a discusom sobre o capitalismo mundial volta ao centro da mesa. Nos movimentos sociais, nas organizaçons políticas e no mundo cultural. Já ninguém se conforma com os “microrrelatos”, os “micropoderes”, a “microhistória”. Todos os pretextos e malabarismos para nom fazer-se cargo das crises selvagens que atravessam o sistema capitalista son afastados, como migalhas sujas, fora do mantel.

O incêndio da crise del 2008 nom se apaga. O fogo extende-se. O planeta chia. Cada vez voltam-se mais impostergáveis as explicaçons totalizantes sobre o que atravessamos.

Estaremos, por fim, numha época de capitalismo “desterritorializado” e interdependente, sem imperialismos, metrópoles, dependências nem periferias, onde um grupo de vendedores ambulantes de um bairro perdido do Haiti joga o mesmo papel no sistema mundial que o Bundesbank alemam, umha aldeia longíqua da Indonésia tem o mesmo rango de poder financieiro e político-militar que Wall Street ou o Pentágono?

Ou tal vez sigamos situados, embora nom nos demos conta, no antigo capitalismo keynesiano de posguerra, com cadeias de produçom de valor ancoradas em cada país e capitais regulados a escala puramente nacional? Foi totalmente inoqua a contraofensiva capitalista iniciada em setembro de 1973 no Chile, logo extendida à Argentina de 1976 e finalmente aplicada durante 1979-1980 no Londres de Margaret Thatcher e no Washington de Ronald Reagan? Que alguem acerque umha explicaçom por favor e nos aclare o panorama!

Nom estaremos vivendo quiçá umha nova fase do imperialismo, na qual se combinam as revoluçons tenológicas do capitalismo tardio que estudou Ernest Mandel, os cinco monopôlios mundiais que explicou Samir Amin e a reconquista planetária por despossesom sobre a que nos alertou David Harvey?

For qual fore a resposta correta, o que está claro é que a partir da crise feroz del 2008 e a reconversom dos antigos fanáticos do livre comércio em “protecionistas” e “guerreiros comerciais” [USA, Alemanha, China, etc.], somadas às invasons, bombardeamentos, bloqueios económicos e intervençons políticas-militares imperialistas da última década, qualquer análise séria do presente já nom pode seguir repitindo os tics, os slogans e as modulaçons da “coexistência pacífica” de 1960.

Aquele tosco e demasiado inocente “pacifismo” de Nikita Kruschev dos velhos documentais em branco e preto; umha década mais tarde adotado nas metrópoles ocidentais polo eurocomunismo [acompanhado de refinadas e exquisitas argumentaçons epistemológicas), hoje… atrasa!

Formular que a grande meta estratégica do comunismo é … “a paz” [assim, em geral, como falavam os soviéticos] e a defesa da “democracia” [também em geral, sem especificaçons nem apelidos], está demodé. Nom vai mais. Nom se corresponde com o planeta em que vivimos.

Flower power frente ao imperialismo ou estratégia comunista?

O mundo mudou. Lamentavelmente nom o fijo para melhor. O hippismo de John Lennon e Yoko Ono, junto com o flower power, ficárom no fermoso recanto da nostalgia estética e a memória musical. Longe de aqueles cabelos longos e os seus protestos pacifistas nos lençóis brancos,  o nosso  mundo atual parece-se muito mais às sombrias imagens distópicas onde proliferam as invasons, as bases militares a escala planetária, a vigilância global, a repressom das massas empobrecidas migrantes e as guerras por recursos naturais nom renováveis.

Se temos os pés sobre a terra e nom confundimos o princípio do pracer [e a imaginaçom psicodélica] com o princípio de realidade, o trauma da queda do Muro de Berlim e as vetustas nostalgias, hoje inoperantes, devem superar-se de umha boa vez. De nada serve invocá-las periodicamente para reinventar novos reformismos.

Num livro recente, Estudando a contrainsurgência de Estados Unidos. Manuais, mentalidades e uso da antropologia [2019], o antropólogo mexicano Gilberto López y Rivas descreve o sistema mundial capitalista da nossa época. É só unha tentativa possível, mas ao nosso entender mui útil e realista.

À hora de definir as caraterísticas centrais e o tipo de capitalismo que predomina nos nossos dias, o autor de facto impugna as versons apologéticas de umha suposta globalizaçom “homogénea, plana, sem assimetrias nem desenvolvimentos desiguais”.

Gilberto López y Rivas formula que o sistema capitalista do nosso presente conforma um imperialismo global lançado sem escrúpulo algum a umha “recolonizaçom do mundo”. A sua tese, arriscada e precisa, desmonta na prática esse lugar comum das academias [financiadas por fundaçons “desinteressadas” como a NED ou a USAID] segundo a qual “num mundo globalizado, governado pola informaçom e o capitalismo cognitivo, Estados Unidos, Europa ocidental e os países capitalistas mais desenvolvidos já nom necessitan da América Latina, África nem os países pobres da Ásia, é dizer, do Terceiro Mundo”. Essa formulaçom trilhada, repetida até o cansaço por especialistas na guerra psicológica, opinólogos do marketing mediático e diletantes vários assalariados do impêrio, choca com as guerras permanentes contra países periféricos, os bombardeamentos “humanitários” contra os chamados “estados falidos”, as invasons político-militares contra as sociedades dependentes, os bloqueios económicos e comerciais contra qualquer governo desobediente -despetivamente nomeado como um “regime” polo só facto de nom ajoelhar-se perante as ordens das embaixadas estadounidenses, a Uniom Europeia ou as receitas do FMI e o Banco Mundial- e o saqueio ininterrumpido dos recursos naturais e a biodiversidade do Terceiro Mundo.

Esse processo renovado de dominaçom e apropriaçom ou a tentativa de levá-lo a cabo por métodos violentos, constitui a manifestaçom de um “neocolonialismo imperialista”, segundo a rigorosa análise de Gilberto López y Rivas. Toda umha definiçom.

O arco-íris da bandeira vermelha

Dentro de esse contexto global, nom cabe a passividade. As resistências som múltiplas. Embora nom todas tenhem a mesma capacidade de organizaçom, mobilizaçom nem a mesma nitidez ideológica para convocar e unir a escala internacional as indignaçons populares, as rebeldias antisistémicas e as dissidências contra “a nova ordem mundial”, cada dia mais caótico, cruel e despiadado. As bandeiras das massas oprimidas e os movimentos sociais a escala planetária tenhem as cores mais diversas, desde o verde ecologista e o lilás feminista até o emblema multicolor LGTBI, entre muitíssimas outras expressons da palestra rebelde. Mas de todas as cores e matizes, necessariamente variados e coexistentes, cremos que o horizonte vermelho do marxismo segue sendo a perspetiva teórico-política mais abarcadora, inclusiva e integradora e a que permite articular e unir todas las demais rebeldias a escala mundial, como há alguns anos sinalou a pensadora dos Estados Unidos Ellen Meiksins Wood no seu conhecido livro A renovaçom do materialismo histórico. Democracia contra capitalismo  [2000].

A nova resistência. Polémicas a 90 anos da Primeira Conferência Comunista sudamericana

Há “apenas” 90 anos, quando nom existia internet nem a TV, destacamentos de diversas organizaçons revolucionárias da Nossa América reunirom-se em Buenos Aires [Argentina] para organizar a resistência das classes trabalhadoras, o mundo plebeio e popular. Tratava-se pois de confrontar em forma unida e organizada ao imperialismo de aquele tempo e a sua famosa crise capitalista de 1929.

A reuniom de 1929 tivo lugar na Nossa América, dez anos após de que em 1919 os bolcheviques fundassem a Internacional Comunista [da que se comemoram atualmente 100 anos].

A obra que reune as intervençons, teses, debates e discusons de aquele rico encontro histórico leva por título O movimento revolucionário latinoamericano. Versons da Primeira Conferência Comunista latinoamericana de 1 a 12 de junho de 1929. Foi editada por “La correspondencia Sudamericana”, Buenos Aires, 1929. O grosso volume -durante muitos anos no poder de escasos colecionistas- hoje pode-se ler e descarregar íntegra e gratuitamente do seguinte link: http://cipec.nuevaradio.org/?p=92 [O exemplar escaneado obtivemo-lo da biblioteca pessoal do historiador marxista Rodolfo Puiggrós, de ai que várias páginas levem o carimbo do seu arquivo].

Nalgumhas investigaçons e livros tentamos analisar os eixos e discusons de aquela lendária reuniom que tentava desenvolver na Nossa América as ensinanças de Lenine e os bolcheviques, tomando mate, escuitando música latinoamericana e conversando no idioma castelhano. Nom abundaremos agora nessas análises.

Porém, 90 anos depois, enteramo-nos que em abril de 2019 voltárom a reunir-se organizaçons comunistas de vários países (Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Paraguai, Peru, Uruguai e a Venezuela) em Montevideo, Uruguai. Estas organizaçons publicárom um documento conjunto onde, invocando aquela Conferência Comunista de 1929, tentam descrever como vem o capitalismo atual e quais deveriam ser as estratégias e táticas para luitar contra ele.

Pode consultar-se a Declaraçom do Encontro de Partidos Comunistas de América do Sul no seguinte link:

 http://www.pcu.org.uy/index.php/noticias/item/3110 [datada na web 30 de abril de 2019].

A essa reuniom nom assistírom todos os comunistas do continente. Alguns nucleamentos, inclusive, realizárom fortes críticas ao documento. Por exemplo, pode consultar-se: A propósito da Declaraçom de Montevideo. Resposta do Comité Central do Partido Comunista de México, no seguinte link:

http://comunistas-mexicanos.org/partido-comunista-de-mexico/2213-por-cuestion-de-principios [datada na web de 24 de maio de 2019].

Até onde sabemos e temos notícias, a organizaçom comunista de Cuba [noutras décadas, em vida de Fidel, cabeça ideológica da revoluçom continental “nuestro-americana”] nom só nom participou senom que além nem sequer se tem manifestado acerca de nengumha das duas posiçons encontradas. Desde que foi dissolvido o célebre “Departamento América” do comunismo cubano [outrora conhecido como “Departamento de Libertaçom Nacional”, sob direçom de Manuel Piñeiro Losada [“o galego”; comandante “Barbarroja”], Cuba pronuncia-se a escala internacional prioritariamente atravês do seu Ministério de Relaçons Exteriores. Mas nesta ocasiom nem sequer por essa via oficial-diplomática-institucional se tenhem escuitado ou lido pronunciamentos cubanos.

No meio de este debate político-ideológico aberto a escala continental e perante o silêncio de Cuba, umha terceira organizçom que até há mui pouco tempo se reclamava e definia como comunista, tampouco se pronunciou no debate, pois está atravessando umha crise aguda à beira da divisom, feita pública por todos os meios de comunicaçom do mundo. Trata-se das antigas FARC-EP [Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia-Exército do Povo, vinculadas anteriormente ao Partido Comunista Clandestino da Colômbia – PCCC], definidas antes do seu desarme, reconversom e da assinatura com o Estado colombiano como um “partido comunista em armas”.

O que está claro é que  já ninguém se atribui nem exerce a funçom internacional de “partido guia”. Nem o antigo partido comunista da Rússia [que liderava o universo “prosoviético”), nem o da China (outrora à cabeça da constelaçom maoista), nem o da Coreia do Norte, nem o da antiga Albánia, nem o de Grécia, nem o já mencionado partido comunista de Cuba (durante décadas, farol das insurgências latinoamericanas e inclusive con influências diretas nas Panteras Negras dos USA]. Embora existem afinidades, simpatias e acercamentos internacionais, o comunismo mundial já nom tem Vaticano nem Meca ideológica.

E se isto sucede com o mundo comunista, algo nom demasiado diferente experimenta também a galaxia de corte trotskista, dividida em nom menos de oito coordenadoras, todas autobatizadas “Quarta Internacional”, mas na prática nengumha de elas aglutina mais de dez representaçons, de distintos países [no caso das maioritárias, várias outras estám integradas por apenas dous ou três grupos diferentes].

Contrainsurgência, correlaçom de forças e problema nacional

O debate aberto em 2019, entom, tem muitas aristas. Desde como definir o novo tipo de capitalismo mundial até o projeto alternativo polo qual se deveria luitar se se pretende resistir e mudar o mundo.

Os marxistas e em particular os comunistas devem ter um projeto progressista, de reformas democráticas e na defesa da paz ou, em troques, deveriam tratar de construir alianças e acumular forças em funçom de um projeto revolucionário, anti-imperialista e anticapitalista? Quando avançam as forças da extrema direita, neofascistas e anti-institucionais [no caso latinoamericano: Brasil, Colômbia, ambos sob o guardachuvas dos Estados Unidos e Israel, embora algumhas de estas correntes neofascistas também proliferam na Europa], as forças comunistas devem defender, como estratégia, o parlamento, a legalidade, a constituiçom e a paz a qualquer custo ou, em troques, se devem preparar para confrontar mediante todas as formas de luita possível a contrainsurgência, hoje realimentada e atiçada em tempos de ofensiva capitalista?

No plano da estratégia a longo praço, quando na América Latina “o ciclo progressista” se debilitou notavelmente e a direita mais agressiva monstra o seu punho de ferro, los comunistas devem promover frentes democráticos, seguindo as velhas palavars de ordem de Jorge Dimitrov e o Sétimo Congresso da Internacional Comunista de 1935 ou em troques devem propiciar um frente único das forças revolucionárias, antifascistas, anti-imperialistas e anticapitalistas?

No ámbito das táticas a curto prazo, qual deveria ser a proposta a apresentar no seio dos movimentos de massas para derrotar aos governos neoliberais [Macri na Argentina, Bolsonaro no Brasil, Duque-Uribe na Colômbia, Piñera no Chile, etc.]?

Priorizar “a paz e a democracia”, diluindo-se em partidos tradicionais do sistema que encabecem os inquéritos eleitorais, sem monstrar a identidade própria [ou inclusive escondendo-a] ou, polo contrário, promover frentes unitários de liberta    çom que tenham como objetivo recuperar a soberania nacional pisoteada polo imperialismo [desde o económico, o produtivo e o financieiro até o territorial e o geopolítico] e por tanto tratar de influir ideologicamente nas grandes massas que participam de processos eleitorais com umha identidade definida a través de um programa antineoliberal mas ao mesmo tempo propondo medidas anti-imperialistas e com perspetivas anticapitalistas?

A disjuntiva é atual, é urgente, mas tem longa história.

Lembremos que já naquela Conferência Comunista de 1929 o grupo liderado por Victorio Codovilla [com anuência do PC da Uniom Soviética, presente  através do bujarinista Jules Humbert-Droz [“camarada Luís”]) terminou impondo a estratégia continental da revoluçom democrática burguesa, “agrária-anti-imperialista”, basando-se no seu suposto “feudalismo” latinoamericano. Posiçom hegemónica que confrontou, com nome e apelido, as propostas dos delegados de José Carlos Mariátegui, quem propunha como estratégia continental o seguiente: “A mesma palavra revoluçom, em esta América das pequenas revoluçons, presta-se bastante ao equívoco. Temos que reivindicá-la rigorosa e intransigentemente. Temos que restituir-lhe o seu sentido estrito e cabal. A revoluçom latinoamericana será nada mais e nada menos que umha etapa, umha fase da revoluçom mundial. Será simples e puramente a revoluçom socialista. A esta palavra agregade, segundo os casos, todos os adjetivos que querais: «anti-imperialista», «agrarista», «nacionalista-revolucionária». O socialismo suponos, antecede-os, abarca-os a todos” [editorial da revista Amauta: “Aniversário e balanço” [setembro de 1928].

Noventa anos depois, reaparece o debate. Ficamos sós na defesa da “democracia” a secas, em geral, ou esforçamo-nos por disputar a hegemonia político cultural tirando da corda face posiçons socialistas, entrecruzadas, na Nossa América, com antigas, postergadas e irresolvidas demandas étnico-nacionais [como sucede com a naçom mapuche, os mais de trinta povos-naçons do estado plurinacional da Bolívia, os povos originários do Peru, os do Equador, os da Guatemala, os de México, etc.].

Tem sentido suicidar umha insurgência? Balanço do inventário

Ao evaluar as diferenças atuais entre os comunistas do cono sul e os mexicanos, nom deveria perder-se de vista o contexto regional e a correlaçom de forças a escala continental.

Nesse horizonte, perguntamos com a cabeça fria e absoluta serenidade: foi umha boa decisom desarmar [ou suicidar?] o maior exército revolucionário do continente quando proliferam e se multiplicam as bases militares estadounidenses? [Sobre este tema pode consultar-se a voluminosa obra de Telma Luzzani [2012]: Territórios vigiados. Como opera a rede de bases militares norteamericanas em América do Sul. Buenos Aires, Editorial Debate]. Desde 2012, quando esse documentado livro se publicou, até hoje, as bases militares estadounidenses tenhem ido em aumento. Nom é nengum segredo que o governo do presidente Macri tem entregue parte do território argentino para essas novas bases. No livro Estudando a contrainsurgência dos Estados Unidos [2019] de Gilberto López y Rivas acham-se várias descriçons detalhadas dos diferentes tipos de bases operativas estadounidenses fora do território norteamericano.

Ao levantar a barreira geopolítica que a insurgência comunista -com uma experiência prática de mais de meio século de luita- interpunha entre os estados da Colômbia e a Venezuela, nom se deixou as maos livres ao paramilitarismo e ao narco estado colombiano para que arremeta contra o governo bolivariano do chavismo e tente, da mao dos “falcons” do Pentágono e a administraçom Trump, derrocá-lo por vias violentas?

Quiçá o governo cubano imaginou que, ajudando a desativar, em nome da “paz”, o último contingente político-militar comunista de envergadura, afrouxaria o bloqueio criminal norteamericano contra essa ilha heroica e rebelde? Polo pouco que um conhece, pareceria ser que dito bloqueio está mais duro que nunca…

Tal vez o governo do presidente legítimo da Venezuela, pensou que, desaparecida a guerrilha bolivariana, o estado colombiano ia respeitar, finalmente, a lei, o direito internacional e a “boa vecindade”? As apariências indicam o contrário. Desaparecidas as FARC-EP como força beligerante, o uribismo [o oficial e o paralelo] está mais cebado que nunca… e os seus paramilitares podem dispor da fronteira para cometer todo tipo de delitos e felonias contra o valeroso e abnegado povo venezuelano.

Enquanto, no interior da Colômbia, o Estado tem executado 135 ex-combatentes, desarmados, assassinados a sangue fria. Sem contar toda a militáncia social e de direitos humanos que tem sido reprimida nos últimos meses.

Até o jornal The New York Times, insospeito de posiçons marxistas, publicou nos Estados Unidos um artigo assinado por Nicholas Casey, gerando umha agitaçom de alcanço internacional. Ali alerta sobre as execuçons extrajudiciais na Colômbia, o papel do ex presidente Uribe e o desconhecimento permanente do atual presidente Duque aos acordos de paz. Até 79 congressistas do Partido Demócrata dos Estados Unidos tenhem solicitado à Casa Branca suspender todo apoio aos saboteadores [estatais] da paz na Colômbia.

Segundo o diário norteamericano, o governo ultradereitista de Iván Duque e os seus principais mandos militares ordenárom voltar à suja prática dos “falsos positivos”. Isto é, executar civis disfarçando-os de insurgentes e aumentar os “caídos em combates” [falsos] a como dé lugar. Até tal ponto o jornal The New York Times deu na tecla que as forças armadas da Colômbia iniciárom umha investigaçom interna para descubrir as fontes militares que deixárom fluir a informaçom de esses novos operativos contrainsurgentes. Perante semelhante evidência, tem sentido seguir teimudamente abraçados a um papel assinado em A Havana do qual a burguesia colombiana e o seu imenso aparelho de guerra se ri em público?

Neutralizar, desarmar, dividir e aniquilar

Essas semelham ter sido as fases estratégicas da contrainsurgência colombiana, dirigida com muita precisom desde os Estados Unidos e Israel. Quiçás tenham chegado à hora de interrogar-se polas debilidades ideológicas que permitírom semelhante operaçom. Ou foi só “perfídia”? Atinge a categoria de “perfídia” para explicar todo esse processo?

Nesse contexto inscreve-se o triste e bochornoso “affaire” à volta do sequestro -completamente ilegal e “tirado dos cabelos”- de Jesús Santrich, acusando-o de narcotraficante, burda montagem ao mejor estilo DEA/CIA. Como explicá-lo?

Valendo-se de umha montagem digna do famoso computador mágico de Raúl Reyes [de onde brotavam os delírios mais hilarantes, as histórias mais descabelhadas],  recrutou-se a um militante da organizaçom, seguindo o manual de operaçons da CIA.

Todo o mundo lembra como Philip Agee, antigo agente da “companhia” que escreveu há décadas um livro famoso: Inside the Company [traduzido para castelhano com o  título Diário da CIA], descreve o clássico método de recrutamento da inteligência estadounidense: o dinheiro. Mediante este método, a montagem DEA/CIA contra o revolucionário cego Santrich, apelou mais umha vez à figura do “arrependido” [assim os chamavam na Itália dos anos ’70 quando o estado burguês venceu as Brigadas Vermelhas; na Argentina denominavam-nos “quebrados”, em cada país som conhecidos com nomes diferentes. Mas neste caso nom se trata de algum antigo militante revolucionário que nom aguanta a tortura e colabora -como na Itália ou na Argentina- senom de alguém que se cruza de bando sem aprêmios físicos senom a partir do dinheiro]. Na montagem contra Jesús Santrich [dirigente insurgente comunista e bolivariano, mas também escritor, poeta, músico e filósofo], o seu “acusador” tomou um voo imediato para os USA onde imediatamente começou a trabalhar, segundo os meios de comunicaçom, para a DEA, como na série mais imaginativa de Netflix.

Qué objetivo perseguiu esse injusto, ilegal e cruel encarceramento?

Na nossa opiniom os objetivos fôrom vários.

Além da humilhaçom pública de um dirigente revolucionário conhecido a escala internacional -típica operaçom de guerra psicológica para causar baixas morais à tropa inimiga-, o principal objetivo consistiu em dividir as FARC e todos os comunistas da Colômbia. Gerar intrigas, confrontar entre si os revolucionários, debilitar todo projeto de mudança. Umha velha receita… que o reformismo aceita com tal de que o sistema o tolere.

As provas estám à vista. Parte da dirigência oficial do novo partido reciclado, que já nom menciona a palavra “marxismo” nem “comunismo”, tratou de desentender-se de Santrich. Inclusive algum dos seus editorialistas estrelas, agora converso, deu certa credibilidade à montagem oficial deixando em maos da vítima a carga provatória da sua inocência, em lugar de negar rotundamente o que a todas luzes era umha manobra fabricada artificialmente contra um dos seus companheiros. Esse mesmo editorialista estrela que, com evidentes intençons de provocaçom política, acusou Iván Márquez de estar “assessorado” por expertos trotskistas estrangeiros. A direita feliz, aplaudia a rabiar! A família comunista desangrava-se e dividia-se sem pena nem glória em troques de… nada.

Isso motivou que Iván Márquez, principal líder insurgente [quem em agosto de 2017 ficou primeiro nas votaçons da nova organizaçom com 888 votos, equanto Rodrigo Londoño Echeverri [“Timoléon Jiménez”, “Timochenko”] ficou no quinto posto, por baixo inclusive dos votos obtidos por Jesús Santrich], escrevesse umha carta pública intitulada “Aos guerrilheiros nos ETCR e a todos os colombianos” que se pode consultar no seguinte link:

https://www.lahaine.org/mundo.php/a-los-guerrilleros-en-los [publicada na web 21 de maio de 2019]. Nela fazia umha autocrítica pública pola entrega de armas ao estado colombiano antes de concretizar o prometido.

Em lugar de ler com humildade o apelo, refletir em conjunto, assumir debilidades e pensar um plano coletivo a futuro para tentar reconstruir -nas novas condiçons- o politicamente perdido, a carta pública de Iván Márquez foi respondida ao instante por Rodrigo Londoño quem “decretou” que Iván Márquez… era separado das FARC. A decisom de Londoño foi aplaudida por toda a direita e os meios de comunicaçom monopólicos, ameaçando os dirigentes políticos, ex guerrilheiros, perante um eventual regresso à luita.

Cumprido o objetivo, Santrich é posto em liberdade. Os Estados Unidos e o narco estado colombiano já tinham obtido o que queriam.

Refletindo “Desde um oscuro recanto do mundo”

Há meio século o velho professor marxista Rodolfo Puiggrós escreveu que como os argentinos nom temos logrado tomar o poder e fazer a nossa própria revoluçom socialista vamos polo mundo inspecionando revoluçons alheias. Essa filosa ironia de Puiggrós, lúzida e sabia, acompanha-me desde a primeira vez que a li. É um apelo à humildade. Um bem escaso na nossa esquerda. Porém, respeitando as decisons políticas de cada país, polo menos se pode opinar.

Acreditamos que as únicas opçons revolucionárias nom som as que se autodenominam exclusivamente “PC”. Muita água tem corrido baixo a ponte desde a Conferência Comunista de 1929 e da outra, ainda mais grande, de 1960 (“de partidos comunistas e obreiros”), por mencionar só duas.

Se deixamos de lado as denominaçons e as autoproclamaçons: onde está representado hoje o movimento revolucionário latinoamericano? A resposta nom é contundente nem matemática. Está no espaço dos “PC” mas também em outros espaços politicamente contíguos, que muitas vezes se tenhem formado em polémica com os “PC”.

Existem também outras coordenaçons, nom denominadas exclusivamente “PC”, mas que implicitamente assomem essa cultura, como o Movimento Continental Bolivariano [MCB], onde o marxismo e a herdança de Lenine se entrecruzam com as histórias de luita independentistas [neste caso simbolizadas n a figura de Simón Bolívar, embora também haveria que agregar o Che Guevara]. Nom será hora de revitalizá-lo e ampliá-lo?

E em paralelo também existem movimentos que se nutrem do marxismo, entrecruzando-o com o indianismo revolucionário [como no caso da Bolívia e o de Chiapas], ou também com a teologia da libertaçom, de inspiraçom marxista e cristiana [como é o caso do Brasil e de alguns países centroamericanos].

Em todos estes casos e espaços, umha das chaves centrais para afrontar os desafios pendentes é assumir umha posiçom internacionalista que nom dependa de “capitais” nem “vaticanos” ou “mecas” ideológicas: for Moscovo, Pekin, Havana, Paris, Atenas, etc.

A discusom entre reformismo e revoluçom tem-se complexizado. Cinquenta anos de guerra civil só para alcançar a paz? Nom estava na agenda a transformaçom social, a tomada do poder, a revoluçom? Quem tenha visto mesmo na web algum vídeo do velho Manuel Marulanda sabe perfeitamente que o líder insurgente con mais anos de insurgência de todo o continente (pois começou inclusive antes que Fidel) repetiu umha e mil vezes: “Que ninguem se confunda. Nós luitamos polo poder. Esse é o melhor sonho e o mais grande que temos sonhado: o poder” [pode-se procurcar no youtube ou noutras plataformas da web. Enquanto diz isto, o velho líder colombiano sorri perante a cámara].

O que quiçá haveria que preguntar-se e explicar no desarmamento ideológico, anterior a todo desarmamento político ou militar. Como e porqué razons se levou a cabo? Como se poderia reverter? Embora importantíssimo, quiçá a questom no seja em que momento se realizou “a deixaçom das armas”, senom as razons polas quais se tomou semelhante decisom política.

Tampouco resulta determinante se no cono sul unicamente se plantea a luita pola democracia  e o progressismo, deixando o socialismo para um horizonte já indistinguível no tempo e no espaço. O problema é que se voltou a recuperar a mui antiga cultura da “frente democrática”. Aquelas velhas teses de Dimitrov, mas de umha maneira muitíssimo mais light e descafeinada.

Porque umha cousa é que, numha conjuntura determinada, numha situaçom concreta, nom haja forças suficientes para projetar a tomada do poder e o socialismo e algo totalmente distinto é que esse projeto se arquive definitivamente e se abandone para a eternidade. Lembremos quando o joven Hugo Chávez dixo, com enorme lucidez e valentia política: “Temos fracassado….por agora”. Outra seria a história deste continente se tivesse dito: “Temos fracassado”. E ponto.

Na nossa modesta opiniom, nom se trata de voltar à nostalgia, por-se umha camisola com a sigla CCCP [URSS], como habituam fazer alguns jovens que cultivam a moda “retro”. Tampouco se trata de seguir virando à volta de se Trotsky reprimiu anarquistas em Kronstadt e se Estaline à su vez assassinou Trotsky e se no seu turno Kruschev traiu Estaline volcando-se face o pacifismo, redobrado até o paroxismo polo eurocomunismo e assim de seguido. Nom. Definitivamente nom.

O que se trata é de abandonar o síndrome do Muro de Berlim. Recuperar a ofensiva ideológica. Ter os pés na terra e nom cair na dupla moral de proclamar palavras de ordem ultra-radicais mantendo umha prática quotidiana ultra-reformista. Sabemos que a conjuntura nom joga ao nosso favor. Mas nom abandonemos a perspetiva revolucionária.

Se num contexto de contrainsurgência global, as organizaçons marxistas revolucionárias tenhem que fazer alianças com forças que nom som anticapitalistas, haverá que ser flexíveis. Os movimentos de libertaçom nacional [lembremos o exemplo vietnamita, por nom mencionar outros mais próximos ] assim o exigírom. Mas isso nom implica diluir-se, apagar a própria identidade, carecer de umha estratégia própria nem soltar para sempre o sonho da revoluçom socialista.

“Todo é ilusom, menoso poder”, escreveu Lenine algumha vez. Mariátegui, Mella e Farabundo Martí concebérom o poder, inclusive quando nom pudérom concretizá-lo. Fidel, o Che, Marulanda, Marighella, etc. seguírom esse caminho. Outros e outras, que nom se definírom dentro da cultura “PC” [como Robi Santucho, Raúl Sendic, Miguel Enríquez, Carlos Fonseca, Roque Dalton, Camilo Torres, etc,] na prática… dérom a sua vida pola revoluçom e o comunismo. Chamassem-se como se chamassem. A sua memória, que é a nossa, merece-se muito mais que ir a reboque da burguesia.

30 de maio de 2019