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Dez anos presente, Francisco Martins Rodrigues sempre!

Quinta-feira, 19 Abril 2018

Carlos Morais

A derradeira vez em que estivem com o Francisco Martins Rodrigues o sol lisboeta acariciava o seu rosto protegido por um boné. Era 6 de abril de 2008. Estava sentado na rua e pola minha cabeça passárom imagens fotográficas dos últimos meses de Lenine em Gorki.

Só duas semanas depois, às 2 da madrugada de 22 de abril, deixa de latir o imenso coraçom do revolucionário comunista português.

Posteriormente tivem a honra de encabeçar a delegaçom galega que acompanhou e honrou o seu corpo no sepélio do cemitério do Alto de São João.

Dias mais tarde assistim à homenagem que tivo lugar em Lisboa no 1º de Maio.

Passárom dez anos da morte do Chico, um comunista excepcional. Umha década de constante involuiçom ideológica, de traiçons, de rendiçons, de capitulaçons, de permanente aggiornamento da prática totalidade das forças e organizaçons políticas que se declaram marxistas, que se autodefinem como comunistas.

Se o Francisco Martins estivesse vivo, as tendências em curso nom lhe teriam surpreendido, pois muitas décadas antes tivo a lucidez de identificar e caraterizar o cancro reformista que carcome a aplicaçom da açom teórico-prática marxista.

Tivo a coragem de abandonar o revisionista PCP em 1963, de promover umha nova organizaçom comunista inspirada nos ventos que provinham de Pequim, mas também de detetar as contradiçons inerentes ao maoismo, de fundar a Política Operária em 1983, de seguir pensando com cabeça própria, estudando e aplicando os textos fundacionais à realidade concreta, debulhando Marx e Lenine, intervindo com coragem e sempre tentando aprender.

Centenares de artigos e textos, de cadernos e livros, entrevistas, e basicamente o “Anti-Dimitrov. 1935/1985 – meio século de derrotas da revolução”, condensam a sua capacidade de compreender que o ponto de inflexom do abandono do marxismo-leninismo pola Internacional Comunista tivo lugar 21 anos antes do XX congresso do PCUS. Que foi no VII Congresso quando alterou a necessidade de que a classe operária se dote de umha plataforma política própria, evite diluir-se em espaços interclassistas hegemonizados pola pequena-burguesia.

Sem um partido genuinamente proletário, tanto na sua composiçom, como na orientaçom e intervençom, nom há possibilidades reais de transformar a indignaçom popular, o malestar social em potencialidades revolucionárias, em transitar com êxito da primária rebeldia ao antagonismo irreconciliável entre a classes.

A sua crítica, tam radical como rigurosa do “centrismo”, a forma do oportunismo vigorante em boa parte do século XX, é imprescindível na alforja de quem queira luitar contra o capitalismo e o imperialismo, em quem aposte por construir eficaces ferramentas proletárias de combate.

“Ninguém no mundo pode impedir a vitória dos comunistas a nom ser os próprios comunistas” prognosticou Lenine, e assim lamentavelmente está sendo, tal como tantas vezes lembrava o Chico.

 

Neste novo século, o “centrismo” desfruta da artificial saúde dos tam inofensivos como fugaces e inconsistentes êxitos eleitorais que bloqueiam a luita operária, e satisfazem os aparelhos burocráticos que só aspiram a ocupar as migalhas das periferias da dominaçom burguesa.

Na Galiza, o nacionalismo vernizado de adulterado marxismo compete por sobreviver, ancorado nas instituiçons que afirma combater, encistado nos aparelhos burocráticos que hipotecam e instrumentalizam as capacidades das organizaçons de massas pola simples alternáncia eleitoral.

A eclosom do novo “centrismo”, vestido com roupas aparentemente mais sedutoras e piercings mais atrativos, combinado com reivindicaçons nostálgicas do capitalismo de Estado soviético, é um híbrido entre marxismo-leninismo de manual e postmodernismo.

Arrasta idênticas deficiências que o tronco do que procede alguns dos seus principais núcleos, polo que nom passa de ser um analgésico funcional que tam só pretende deslocar o velho reformismo na competência oportunista por ocupar os espaços institucionais do inimigo.

Eleitoralismo, cretinismo parlamentar, utililizaçom e manipulaçom dos conflitos e mobilizaçons populares sob um prisma eleitoral, renúncia ao combate de ideias, conciliaçom com a burguesia, pacifismo obsessivo, legalismo e pánico à subversom nacional e de classe, definem as práticas reais dos dous espaços que hegemonizam a esquerda galega.

Ambos som simples tapons que atrasam o inevitável, que bloqueiam o imprescindível, a necessidade de que  o proletariado galego colha as rédeas, agarre o leme e assuma sem dilaçons nem componendas a direçom, no caminho da confrontaçom sob umha estratégia insurreicional.

No Chico Martins encontramos úteis reflexons e elaboradas análises que nos afastam da tentaçom de procurar atalhos, fraudulentos antídotos que evitam conduzir-nos aos labirintos que desvirtuam e esterilizam a luita operária e popular.

Neste décimo aniversário da sua despariçom física, e no bicentenário do natalício de Karl Marx, a melhor homenagem que se lhe pode fazer é seguir construindo o partido comunista revolucionário, abrir caminhos, combater toda forma de comodidade e amorfismo, particar o internacionalismo proletário.

Nem as cómodas práticas contemplativas, atrapadas em análises canónicas e no relato doutrinário, que nunca arriscam, mas pretende tutelar e dar leiçons; nem o acionar sem princípios ideológicos sólidos, tendente à promiscuidade e falso unitarismo, formam parte do imenso legado do Francisco Martins Rodrigues.

O seu pensamento é imprescindível para reconstruir e reorganizar o movimento comunista, na atualidade literalmente sequestrado pola pequena-burguesia que o converteu na prolongaçom “progressista” do establishment imperialista.

Legado que nom é propriedade de ninguém, mais sim de quem o considere útil para a luita pola Revoluçom Socialista, no combate anticapitalista, para armar de razons e legitimidade o direito universal dos povos e das camadas exploradas à rebeliom armada contra toda forma de dominaçom e opressom.

Neste décimo aniversário tenho imensas saudades do meu maior mestre em marxismo, de conversar com ele, de compartilhar o sabor dos coentros com o ser humano humilde, que sempre escuitava com atençom, do comunista solidário com a causa galega, com o nosso direito e necessidade de dotar-nos de um Estado soberano, do veterano revolucionário capaz de incorporar à sua mochila de combate com velocidade de vertigem o arco da velha multicor das rebeldias presentes e futuras, sempre sob o eixo da luita de classes.

A dia de hoje “cravos vermelhos choram lágrimas de dor”, tal como há dez anos afirmava o comunicado de Primeira Linha manifestando a tristeza e consternaçom dos comunistas galegos.

A Galiza rebelde e combativa nom te esquece e sempre terá umha dívida contigo, caro camarada Chico Martins. Até a vitória sempre!

Galiza, 19 de abril de 2018