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Marxismo, umha filosofia da praxe para a Revoluçom

Quarta-feira, 24 Janeiro 2018

Como homenagem ao camarada  Jean Salem, recentemente falecido, publicamos “Marxismo, umha filosofia da praxe para a Revoluçom“, a sua comunicaçom nas XVII Jornadas Independentistas Galegas organizadas por Primeira Linha em abril de 2013, sob a legenda  “Karl Marx 1883-2013. Atualidade e vigência do marxismo. Tomar o céu por assalto”.

1- Marx, mais atual que nunca
Marx nom é só um “clássico” do pensamento filosófico. Estou convencido que Marx é hoje mais contemporáneo para nós do que era há trinta ou quarenta anos! Tomemos, por exemplo, o Manifesto do Partido comunista. Lembro que, quando o lia pola primeira vez, fum perguntar ao meu pai: que significa essa “concorrência” entre operários que evocam os autores em várias ocasions? A concorrência entre capitalistas, a concorrência no seio mesmo da burguesia, isso era, com efeito, evidente; mas a possibilidade de que existisse umha concorrência entre trabalhadores nom parecia tam evidente, numha época em que os sindicatos eram fortes, em que a classe operária estava poderosamente organizada, numha época de pleno emprego (ou quase) e de políticas “keynesianas”. Hoje em dia, ao contrário, qualquer pessoa confinada em empregos cada vez mais precários e menos freqüentes compreenderia isto -desde a primeira leitura: “ se nom estiveres contente, repete-lhe efetivamente o sistema e, mais ainda, se protestares, há outros dez que estám prontos para ocupar o teu lugar!”. Penso também naquele trecho no qual Marx e Engels falam da prostituiçom, na altura muito estendida na classe operária inglesa: nom era um fenómeno de massas na década de 1960. Mas, nos nossos dias, depois da grande “libertaçom” de 1989-1991, há mais de 4 milhons de mulheres do leste que, di, fôrom -literalmente- vendidas: e esta atmosfera de mercantilizaçom generalizada dos objetos e dos seres humanos, a nossa, facilita-nos, mais umha vez, a compreensom imediata da carta do Manifesto. Em definitivo, há muitas cousas que poderíamos encontrar em Marx, podendo, claro está, afiná-las, se for preciso, podendo adaptá-las à nossa própria época. Por isso é que continuo a acreditar que o marxismo se mantém como filosofia nom ultrapassável do nosso tempo.

Em primeiro lugar, nom se pode falar, se nom for por troça, da desapariçom da classe operária, visto que a China e a Índia, que contenhem quase metade da populaçom humana, se convertêrom nas duas principais manufaturas em que se vem alimentar o comércio mundial. E além disso, subsiste ainda, noutros lugares do mundo, alguns operários, nom achades? Sem contar todos esses imigrantes que trabalham na Europa ou nos Estados Unidos, amiúde clandestinos e, mais amiúde ainda, invisíveis ou quase. Isso parece dificilmente contestável… Na realidade, essas consideraçons relativas à pretensa extinçom da classe operária parecem-me ser os frutos de umha perspetiva estreitamente euro -ou “ocidentalo”-céntrica. Nascem, numha grande parte, sobre o húmus da antiga exploraçom colonial; germinam num mundo em que a classe operária ocidental pudo, e pode continuar (ainda que numha menor medida) a se beneficiar, embora de jeito mais exíguo, de migalhas provenientes da pilhagem de países pobres. Isto, noutros tempos, contribuiu para prevenir a explosom de umha revoluçom real na Europa, e as estruturas capitalistas pudérom assim se manter, embora fossem entom muito contestadas polas correntes políticas muito poderosamente organizadas. Desindustrializai à toa; devastai regions inteiras fechando os lugares de produçom em que antes se concentravam operários qualificados muito visíveis e franco-franceses; nom apanheis nunca o metro antes das 7h30 da manhá; olhai fixamente a televisom, que nom vos deixa quase nunca a palavra; e, sobretodo, nom viajeis: entom, tereis suficientes boas razons para nom ver nunca a classe operária, e mesmo para imaginar que esta morta …

Sobre isso, e em muitas ocasions, a social-democracia serviu, como foi anda o caso em 1981, de “salva-vidas” para o sistema, e de isca extraordinariamente eficaz para arruinar qualquer perspetiva de mudança social. Mas a crise está aí. Aí mesmo. Ririam na vossa cara, no fim da década de 1960, se vos tivésseis atrevido a sustentar a tese de umha possibilidade de pauperizaçom absoluta da classe operária nos países capitalistas desenvolvidos: nos Estados Unidos, umha família operária podia, sem demasiadas dificuldades, possuir dous carros… Nom acabamos, desde entom, de acordar das ilusons de um passado muito recente (o da época que o pensamento único decidiu baptizar “os Trinta Gloriosos”). Estamos confrontados a um mundo preenchido de insuportáveis desequilíbrios, a um mundo em que o poder aquisitivo daqueles que trabalham (e de aqueles, com certeza, que estám privados de qualquer trabalho) se reduz à sua expressom mais simples.

Em suma, apesar da destruiçom da escola, da saúde pública, de todo aquilo que foi adquirido graças à luita, subsistem ainda, sem dúvida, possibilidades de concentraçons, de alianças, nom só entre operários franceses e operários italianos, europeus, mas também, entre operários europeus e trabalhadores “extra-comunitários”, como se di no vosso país. Pois todos tenhem fundamentalmente interesses convergentes, sejam quais forem as diferenças dos seus percursos, das suas crenças privadas, dos seus ritos alimentares, dos seus hábitos. Sejam quais forem os mexericos do fascismo que vem. Ou que poderia, polo menos, voltar. Todos som, com efeito, mercadoria humana. Umha mercadoria tratada cada dia com menos consideraçons.

2. A crise

Nom é um segredo para ninguém: o sentimento do declínio invadiu a maior parte da Europa. Nos nossos países, evoca-se sem parar, hoje, com umha nostalgia nom desprovida de amnésia, os “30 gloriosos” (que nom eram gloriosos para todo o mundo!), isto é, os 30 anos de expansom económica, de pleno emprego e de crescimento industrial que seguiram o fim da segunda guerra mundial. Até o fim da década de 1970, inclusive aos olhos de muitos comunistas, a ideia de que, nos países da OCDE, a classe operária pudesse um dia se empobrecer parecia constituir umha ilusom. O capitalismo ocidental parecia ter que puxar indefinidamente para “cima” o conjunto da escala das rendas.

Com a crise, a partir de 1973, estas utopias começárom a perder todo o seu crédito. Dezenas de milhares de pessoas começárom a dormir nas ruas. O desemprego começou a concernir a mais de 26 milhons de pessoas na Europa: na Grécia, na Irlanda ou em Portugal, a história repete-se e verdadeiros fluxos migratórios começam a se formar, assim, em direçom ao Canada ou à Austrália. Por falta de meios, os setores públicos deterioram-se: os transportes urbanos, mas também o setor da saúde, o da educaçom, etc. Os salários som cortados, comprimidos, ao ponto de quase um francês em cada seis viver atualmente sob a chamada “linha de pobreza”. As camadas médias estám confrontadas com dificuldades que, há 20 anos, pareciam impensáveis. Em resumo, a afirmaçom do jovem Engels segundo a qual a sociedade capitalista tende a partilhar o mundo em milionários e em pobres (…bis die Welt in Millionäre und Paupers geteilt ist)[1] nom poderia surpreender ninguém.

Ora bem, do ponto de vista ideológico, é preciso constatar que, como noutras épocas de crise, a mobilizaçom dos trabalhadores (ou dos nom trabalhadores!) em luita para a sua sobrevivência económica e social bate com dificuldades redobradas. O fim da Uniom Soviética e a forma em que esta foi apresentada pola propaganda oficial confortárom muitos daqueles que tinham 15 ou 20 anos em 1968 nas suas viragem e na sua adesom mais ou menos total ao sistema vigente. O oportunismo afluiu nos partidos comunistas oeste-europeus, que pareciam considerar como dados intangíveis o estado da “democracia” muito relativa e a prosperidade ainda mais relativa que prevalecia ainda na Europa até a década de 80, mesmo quando esta prosperidade começava a marcar passo e que esta “democracia” estava a ponto de ser sistematicamente feita pedaços (votaçons espezinhadas, guerra permanente contra as liberdades públicas e os direitos sindicais, crescimento exponencial das medidas de controlo social e da confusom burocrática neoliberal, etc.).

E é assim que a Europa, no meio dos anos 1980, pudo contar até 17 governos conduzidos por partidos social-democratas, -com os resultados que sabemos: financeirizaçom da economia em demasia; desengajamento cada vez mais pronunciado do Estado, salvo no que respeita à sua funçom de “vigilante de noite” (exército, polícia) perfeita confusom da “direita” e da “esquerda”, que alternam desde esta época para impor aos povos um plano de austeridade após outro (lembremos, a propósito o que declarou um dia Gianni Agnelli, o patrom da Fiat: “quando as cousas se complicam a tal ponto, a esquerda fai melhor o trabalho do que a direita”). Assim é como em França, no espaço de trinta anos, a parte da riqueza produzida que passou da remuneraçom do trabalho, isto é, dos salários, à remuneraçom do capital, isto é, sobretodo aos dividendos, corresponde a 10 pontos do produto interno bruto (PIB)…

3- O nosso seminário “Marx no século XXI” (na Sorbona)

Entom, neste contexto em que as luitas atuais dos operários som, infelizmente, polo momento, essencialmente defensivas neste clima de anticomunismo generalizado que tem um perfume de pré-guerra, lançamos em 2005, com alguns colegas, um seminário semanal chamado “Marx no século XXI”. Na Sorbona. Para mostrar ali a presença do marxismo que alguns diziam que estava “morto” desde há muito tempo. Esta seminário junta às vezes 200 pessoas, nunca menos de 100. Vinde ver! Olhai neste endereço:

http://chspm.univ-paris1.fr/spip.php?article271

Ali veredes que filmamos mais de 150 comunicaçons, feitas por quase tantas/os convidadas/os. Dezenas de milhares de pessoas acompanham cada semana na Internet as nossas conferências e outras jornadas de estudo.

Salvando as diferenças (!), a ideia que presidiu o andamento deste seminário era um pouco análoga à que, noutros tempos, conduzia Lenine a fundar o seu jornal, o Iskra, um jornal destinado, dizia, a reunir, a federar mil energias até entom dispersas na Rússia dos czares. Para nós, tratava-se de convidar, umha após outra, todas aquelas e todos aqueles que, até aqui, trabalhavam ou julgavam trabalhar “no seu recanto”, isoladamente, nas condiçons atuais da pesquisa em França e fora: pois, em França, particularmente, as pesquisas marxistas fôrom marginalizadas desde há muito tempo, quando nom censuradas.

É claro que a chegada de Domenico Losurdo, de Enrique Dussel, de David Harvey, ou a de Georges Labica, André Tossel, Daniel Bensaïd, Michael Löwy, Slavoj Zizek, etc. constituírom grandes momentos do seminário! E é também claro que, do ponto de vista político, sentimo-nos muito próximos de gente como um Losurdo ou de um Labica (este último infelizmente já falecido). Quanto a alguns outros entre os/as nossos/as amigos/as e convidados/as, apesar da estima que tenho por eles, tenho vários desacordos com eles, particularmente no que respeita à sua maneira de abordar a questom de muito necessário balanço da experiência do “socialismo real”.

Dito doutro modo, vemo-nos reduzidos neste momento a nos adaptar ao que Immanuel Wallerstein chamou os “mil marxismos”: aí está o efeito de umha situaçom tam apaixonante como inquietante, de umha situaçom que é a nossa, e que se carateriza, como dixem, por umha falta cruel de organizaçom revolucionária na Europa, no momento mesmo em que o sistema vacila nas suas bases.

4- O trabalho humano e o sistema do dinheiro

Como nom é possível falar de todo, falarei agora do jovem Marx, o que nom significa (acaso é útil que o precise?) que esqueça o Manifesto comunista ou o Capital! E começarei por lembrar um belo texto de Cicero (Dos Deveres, II, IV, 14-15) que me parece, além dos séculos, suscetível de esclarecer o presente trecho: “Pensa ainda nos aquedutos, na derivaçom dos cursos de água, na irrigaçom dos campos, nos diques contra as inudaçons, nos portos construídos polas nossas maos; como seria possível isso todo sem o trabalho dos homens? Através destes exemplos, entre outros muitos, fica claro que o benefício e a utilidade que retiramos das cousas inanimadas nom poderiam ser atingidas de nengum outro modo, a nom ser polos braços e o trabalho dos homens. Quanto aos benefícios e vantagens que obtemos dos animais, como poderíamos obtê-los se os homens nom vinhessem ajudar-nos? Umha vez que os primeiros que descobrírom o jeito de empregar cada espécie de animais fôrom certamente os homens; desde essa época, nom poderíamos sem o trabalho dos homens, nem fazer pascer os animais, nem os domesticar, nem os abrigar, nem tirar o proveito útil, nem especialmente exterminar os animais daninhos, nem apropriar aqueles que podem servir para o nosso uso. […] É só por isso que a civilizaçom humana se distingue da maneira de viver dos animais”.

Entom, para o jovem Marx, para o Marx dos Manuscritos de 1844, a via de acesso ao estudo do trabalho é a análise dos sintomas da sua perversom. Trata-se, para ele, de descrever a alienaçom nas suas formas ideológicas para remontar às suas formas concretas, à sua origem: àquilo que se chama o trabalho alienado.

A alienaçom religiosa que nom passa na consciência é a alienaçom económica que é claramente designada, em 1844, como a da vida real. A miséria resulta da essência do trabalho atual. Do mesmo modo que noutro tempo se opugeram o amo e o escravo, mais tarde o patrício e o plebeu, depois o soberano e o vassalo, vemos oporem-se hoje o que nom trabalha e o trabalhador, escrevera Gans, um professor hegeliano a cujos cursos assistira Marx, em Berlim (reconhece-se aqui umha frase que se encontrará no Manifesto). Assim, o que se opom à emancipaçom da humanidade é a desigualdade social que levanta os homens uns contra os outros.

Pois a realidade é esta: se bem é verdade que o trabalho produz maravilhas para os ricos, produz miséria para o operário. Adam Smith, o fundador da economia política clássica, afirma que, na origem, “o produto inteiro do trabalho pertence ao operário”[2]. Mas reconhece ao mesmo tempo que é a parte mais pequena e estritamente indispensável do produto que lhe chega. A economia política burguesa explica assim ao mesmo tempo que todo se compra com o trabalho, e que os proletários estám obrigados a se venderem cada dia. Por um mesmo movimento do pensamento, proporcionárom-se os meios para nom reconhecer a alienaçom no trabalho. A sua objetividade de fachada ratifica, consagra, a alienaçom dos homens. Nom se preocupa com a sua vida, e é essa a sua infámia. Quando considera o proletário somente como um operário, quando vê no homem somente umha máquina de consumir e de produzir, um “burro de carga”, quando considera a vida humana como um capital, quando abandona o homem no tempo em que nom trabalha o médico, o juiz, o coveiro e o preboste de mendigos, di ao operário: se por acaso nom tiveres trabalho, nem portanto salário -como nom existes para mim como homem, mas somente como operário– podes ser enterrado, morrer de fame. A categoria de salário recobre assim, para o economista, a de mínimo: mínimo vital para o operário e a sua família, -mínimo para que a raça dos operários nom se apague. E esta indiferença dos teóricos a respeito dos homens reais, encontra um perfeito símbolo no modelo da lotaria proposto do Smith: “Numha lotaria perfeitamente igual, os que tiram os bilhetes ganhadores devem ganhar todo o que perdem os que tiram os bilhetes sem prémio. Numha professom em que vinte pessoas fracassa por cada umha que tem sucesso, esta última tem que ganhar todo o que poderia ser ganho polos vinte que fracassam” (that one ought to gain all that should have been gained by the unsuccessful twenty)[3]. E o reino do dinheiro manifesta-se, evidentemente, pola proliferaçom anárquica das necessidades, sem nengumha relaçom com as exigências naturais do homem.

Se o trabalho só aparece entom no discurso dos economistas sob a forma da actividade que proporciona um ganho, isso quer dizer que o operário, no “estádio da economia” (e assim que Marx chama entom ao capitalismo), já nom pom a sua vida em açom mais que para adquirir os meios de subsistir. Por isso o objeto do trabalho é indiferente para o operário, pois este se vê espoliado polo outro homem, polo capitalismo, que o domina como deus o seu servidor, no momento mesmo  em que os milagres dos deuses se tornam supérfluos polo trabalho humano. O que conta para o trabalhador é quase exclusivamente a remuneraçom em dinheiro que o capitalista aceitará dar-lhe depois da operaçom de produçom.

E a alienaçom do objeto do trabalho (o facto de ter que o ceder a um outro) nom é mais do que o resumo da alienaçom, da despossessom na atividade de trabalho própria. O operário, ao depender cada vez mais de um trabalho penoso unilateral, mecánico, esse trabalho somente mantém a sua vida debilitando-o e perdeu para ele a aparência de manifestaçom de si próprio. É todo o seu penoso trabalho que é exterior, estrangeiro ao operário, já que nom realiza a sua essência, mas pelo contrário encontra nele a sua negaçom. Em definitivo, o trabalho deveria ser gozo da vida, prazer e o operário nom se sente bem com ele próprio mais que fora do trabalho.

A necessidade social e a necessidade humana, ao nom terem mais nada de comum, o indivíduo é, em terceiro lugar, totalmente separado do que Marx, depois de Feuerbach, chama a vida genérica, o género (die Gattung). Algo assim como a “essência” do homem. Marx abandonará mais tarde esta categoria, no fim de contas muito abstrata. Mas o essencial do que di é ainda atual: o trabalho lucrativo aliena, destrói também a natureza do homem, isto é, o seu ser-sociável. O trabalho, a vida foi conduzida a um meio de sobrevivência. A “essência” do homem tornou-se assim o meio da sua existência.

A indústria constitui o “livro aberto” das forças humanas essenciais. Quase nom encontramos hoje objetos puramente naturais: a atividade humana é “a base de todo o mundo sensível tal e como existe nos nossos dias”[4]. E porém, como se tornou estrangeiro para o produto do seu trabalho, para a atividade vital e para o seu ser genérico, o homem tornou-se estrangeiro para o outro homem. O outro é um poder hostil ou, no máximo, um objeto que se pode utilizar para satisfazer interesses egoístas. O capitalismo leva assim até o fim o que Marx chamará mais tarde, no Capital, a reificaçom das relaçons sociais, isto é, a dominaçom da matéria inerte sobre os homens. Leva ao paroxismo o que Georg Luckács chamará ainda mais claramente, na História e consciência de classe (1923), a “dominaçom da economia sobre a sociedade”.

Por isso, depois de indicar, desde 1843, as insuficiências do que se chamava o “partido político histórico”, Marx, nesses Manuscritos redigidos em 1844, parece abraçar a ideia de que “nom é a crítica, mas o proletariado a força motriz da revoluçom”. Esta ideia, o Manifesto, igual que toda a sua atividade prática, darám-lhe vida e farám-na passar aos factos.

5- Lenine, depois de Marx

Marx declarLa, como sabedes, na 11 das sus Teses sobre Feuerbach que até aquele momento, os filósofos nom figeram mais do que interpretar o mundo, mas que a partir desse momento, trata-se de o transformar. Na sua própria biografia, podemos ver que colaborou num jornal, a Gazeta renana, proibido em janeiro de 1843. Viu-se entom obrigado a se exilar em Paris. A partir de 1845, foi expulso da França, por petiçom de Humboldt, o embaixador da Prússia e vai entom para Bruxelas. A seguir, depois do sismo das revoluçons de 1848, a reaçom triunfa da Europa inteira. De junho a agosto de 1849, Marx tem que se refugiar de novo em Paris (de onde é de novo expulso), depois em Londres onde ficará quase todo o tempo. Conheceu grandes dificuldades materiais, umha miséria extrema, ao ponto de que a sua mulher e ele perdêrom quatro dos seus sete filhos. Em definitivo, Marx tivo a vida de um militante revolucionário, de um homem engajado, assediado, e nom a de um filósofo de gabinete. Também foi em Londres, que a 28 de setembro de 1864 participa na fundaçom da Associaçom Internacional dos Trabalhadores; e é no nome do Conselho Geral desta Iª Internacional que redigirá, em 1871, três “discursos” em que exalta a obra dos communards parisinos e tratar de analisar as causas da sua derrota. (“Sabes, escreve em junho ao seu amigo Kugelmann, que durante o tempo todo da última revoluçom parisiense, fum denunciado como o grande chefe da Internacional polos papéis de Versalhes e por repercussom polos jornalistas de aqui. […] E agora, além disso, o Discurso. […] Fai um ruído infernal e tenho a honra neste momento, de ser o homem mais caluniado e mais ameaçado de Londres”).

As seis teses que para mim resumem o essencial daquilo que Lenine dixo, mais tarde, a respeito da ideia de revoluçom, e também da açom própria que Lenine leva avante na Rússia ao início do século passado, parecem assim prolongar muito logicamente a postura e a inspiraçom fundamental de Marx. Para acabar, ides permitir-me referir, mais umha vez, estas seis teses:

– A revoluçom é umha guerra. Lenine compara a política com a arte militar e sublinha a necessidade de que existam partidos revolucionários organizados, disciplinas: pois um partido nom é um clube de reflexom (dirigentes do Partido Socialista: obrigado polo espectáculo!).

– Para Lenine, como para Marx, umha revoluçom política é também e sobretodo social, isto é, umha mudança na situaçom das classes em que a sociedade se divide. Isto significa que é sempre conveniente perguntar pola natureza real do Estado, da “República”. Assim, a crise do outono 2008 mostrou, com evidência, quanto nas metrópoles do capitalismo, o Estado e o dinheiro público podiam estar postos ao serviço dos interesses dos bancos e de um punhado de privilegiados, O Estado, dito de um outro modo, nom está em absoluto por cima das classes.

3º- Umha revoluçom fai-se de umha série de batalhas, e corresponde ao partido de vanguarda proporcionar, em cada etapa da luita, umha palavra de ordem adaptada à situaçom e às suas possibilidades. Sem isso, o movimento esgota-se e desanima aqueles que esperárom em vao que se lhes indicasse a natureza precisa dos objetivos a atingir e o sentido geral da marcha…

4º- Os grandes problemas da vida dos povos sempre se resolvem pola força, sublinha também Lenine. “Força” nom significa necessariamente, longe disto, violência aberta ou repressom sangrenta contra os outros! Quando milhons de pessoas decidem convergir num lugar, por exemplo a praça Tahrir, no centro do Cairo, e fam saber que nada os fará recuar frente a um poder detestado, estamos já, e em cheio, no registo da força. Segundo Lenine, trata-se de atacar as ilusons de um certo cretinismo parlamentar ou eleitoral, que conduz, por exemplo, à situaçom em que estamos agora: umha “esquerda” concentrada quase exclusivamente nos prazos de que umha massa imensa de cidadaos, com razom, nom espera… quase nada.

5º- Os revolucionários nom devem desprezar a luita em favor das reformas. Lenine é, claro, consciente de que em certos momentos, essa reforma pode representar umha concessom temporária, ou mesmo umha isca, ao qual consinte a classe dominante para adormecer melhor aos que tratam de resistir. Mas considera, no entanto, que umha reforma constitui, a maior parte do tempo, umha classe de alavanca nova para a luita revolucionária.

6º- A política, enfim, depois do início do século XX, começa ali onde se encontram milhons, ou mesmo dezenas de milhons de homens. Ao formular esta sexta tese, Lenine presente que os lares da revoluçom tenderam a se deslocar cada vez mais para os países dominados, coloniais ou semi-coloniais. E, de facto, desde a Revoluçom chinesa de 1949 até o período das independências, na década de 60 do século passado, a história confirmou amplamente este clarividente prognóstico.

Em definitivo, há que ler Lenine, depois do dilúvio e o fim do “socialismo real”. Lê-lo e relê-lo ainda. Há que ler Marx. Ou relê-lo. Há que estudar os seus escritos sempre tam atuais. Para preparar o futuro.

[1]– ENGELS (F.), Esquisse d’une critique de l’économie politique [1844], Paris, Allia, 1998, p. 63.

[2]– SMITH (A.), Recherches sur la nature et les causes de la richesse des nations [1776], I, VIII ; trad. G. Garnier [revue par A. Blanqui], Paris, GF Flammarion, 1991, t. I, p. 135.

[3]Ibid., I, X, 1ª section : “Des inégalités qui procèdent de la nature même des emplois” ; loc. cit., t. I,  p. 180.

[4]– Marx e Engels escreveram isto em 1845 na Ideologia alemá.