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Superstiçons e fraudes da “nova política”

Terça-feira, 31 Maio 2016

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Carlos Morais

Erroneamente a maioria da militáncia situada em parámetros marxistas estava convencida de que a profunda multicrise que arrasta o capitalismo hispano como expressom da crise global sistémica provocaria um incremento e radicalizaçom das luitas populares e do nível de consciência, requisitos imprescindíveis para avançar na criaçom das condiçons que facilitem articular um projeto revolucionário de massas superador do capitalismo.

As duras medidas neoliberais impostas polos governos do PSOE e PP causárom um empobrecimento geralizado da classe trabalhadora e das camadas intermédias, acompanhado polo incremento da sobre-exploraçom e o retrocesso em direitos e liberdades.

Umha parte significativa das massas identificárom o PP como responsável direto do incremento do desemprego, da queda dos salários e do poder adquisitivo das pessoas reformadas, de maior precariedade laboral, do deterioramento dos serviços públicos essenciais, da emigraçom da juventude, do aumento do preço da eletricidade e combustíveis; e banqueiros e casta política tradicional como executores destas medidas de austeridade e cortes que caraterizam a última década.

A crise económica facilitou um questionamento da legitimidade do quadro jurídico-político emanado do postfranquismo polas suas estruturais carências democráticas e intrínseca corrupçom geralizada.

À medida que os pacotes neoliberais impostos sem piedade por Bruxelas e Madrid se sentiam nas condiçons de vida da classe operária, dos setores semiproletários e da pequena burguesia, provocando despedimentos, reduçons salariais e feche de negócios, o malestar foi adotando forma concreta, exprimindo-se na denúncia dos despejos, na oposiçom ao roubo dos bancos a preferentistas, em múltiplos conflitos laborais. Porém, nunca tentárom forjar umha convergência entre as reivindicaçons parciais e as organizaçons políticas revolucionárias, visada para dotar-se dumha estratégia permanente e encadeada de luita para derrubar o governo e abrir um processo constituínte. A hegemonia reformista, a despolitizaçom da imensa maioria dos ativistas e a fraqueza do marxismo revolucionário impossibilitou criar estas condiçons subjetivas.

Inicialmente -no primeiro treito da crise em curso-, o desprestigiado movimento sindical logrou de forma errática, mediante amórficas greves gerais defensivas, encabeçar transitoriamente a luita popular contra as reformas laborais e das pensons executadas por Zapatero [29 de setembro de 2010, 27 de janeiro 2011, 29 de março e 14 de novembro de 2012]. Mas a plena fagocitaçom da burocracia sindical polo aparelho estatal burguês e a estratégia eleitoralista dos partidos da esquerda sistémica, consolidárom a plena absorçom e paulatina desapariçom do movimento operário, diluído, oculto e perdido entre as prebendas dos seus aparelhos e incorporaçom às “marés cidadanistas”.

Consciente da grave crise de legitimidade que minava o regime a oligarquia optou por implementar um conjunto de medidas arriscadas, imprecindíveis para modular a politizaçom dos protestos, evitando assim que adoptasse formas perigosas para a sua hegemonia, umha orientaçom inasimilável pola lógica do parlamentarismo burguês.

Os seus poderosos monopólios de [in]comunicaçom, disfarçados de pluralismo informativo, basicamente as televisons, convertérom-se no principal espaço de “debate” e criaçom de opiniom política, inçado de “analistas” e tertulianos que reproduzem entre banalidade e manipulaçom obscena a mais reacionária ideologia dominante, incorporando nos platôs a “esquerda caviar” para legitimar a virtual  ditadura burguesa.

A “doutrina do choque” bombardeou durante meses que “todos som iguais”, inundou os meios de [des]informaçom da corrupçom que carcome políticos, empresários e banqueiros, filtrando nos ecrás o que antes blindava, e com o intuito de impossibilitar que a radicalizaçom cristalizasse no reforçamento das organizaçons revolucionárias e/ou na vertebraçom de um movimento antisistema, optou por facilitar umha válvula de escape que lograsse reduzir a pressom, orientando-a corretamente.

Estes lamas provenientes daquele pós

Assim aparece o 15M em 2011 como movimento aparentemente espontáneno que permitiu abrir um espaço de participaçom alimentado por milhares de tam bem intencionados como ingénuos que pensavam que era possível -mediante umhas acampadas, manifestaçons festivas, atrativas palavras de ordem e uso maciço das redes sociais-, introduzir melhoras no sistema com um difuso programa regeneracionista tendente a recuperar a democracia “sequestrada por políticos e banqueiros”.

O 15M nom foi mais que um movimento bem domesticado e inofensivo, enquanto indiscutivelmente pacifista, contrário ao questionamento da unidade de Espanha e dominado pola ideologia pequeno-burguesa negadora da luita de classes, da tomada do poder e do caráter classista do Estado.

O 15M foi funcional para catapultar a nova geraçom de políticos socialdemocratas visados para lograr a estabilizaçom política após ter neutralizado e desarmado o movimento operário e as luitas populares.

A susbtituiçom de Juan Carlos I por Felipe VI em junho de 2014 foi umha jogada mestra dos estrategas do sistema pois contribuiu para desativar a indignaçom e legitimar a monarquia bourbónica. Novamente prevaleceu o “mudemos algo para que todo continue na mesma”.

É inegável que o 15M logrou boa parte dos objetivos que perseguia o Ibex 35 ao promover, divulgar e facilitar a sua popularizaçom. Nom só reforçou o nacionalismo espanhol renovando o seu relato patriótico; contribuiu para penetraçom da ideologia burguesa introduzindo a narrativa cidadanista negadora da contradiçom Capital-Trabalho; desviou e alterou a folha de rota anticapitalista por mornos objetivos visados para introduzir reformas constitucionais que “melhorem e aprofundem na democracia”; reforçou a alienaçom das massas fazendo-as acreditar que a soluçom aos problemas radica em afastar políticos e banqueiros corruptos e nom no caráter injusto e explorador do capitalismo.

O 15M sentou as bases para alterar o mapa politico eleitoral espanhol, aggiornando ainda mais o discurso das moderadas e entreguistas forças que se reclamam do campo da esquerda.

Assim a multicrise do capitalismo espanhol facilitou a eclosom do populismo progressista, dumha nova réplica do nacional-populismo, taponando o desenvolvimento da luita de classes e de libertaçom nacional, abduzindo boa parte dos setores sociais imprescindíveis para configurar umha alternativa revolucionária, reativando a contaminaçom postmodernista entre a juventude, enfraquecendo, esterilizando e desmobilizando as luitas populares, atualizando a tam velha como fraudulenta linha promovida por Bernstein de defender reformas graduais e melhoras no sistema empregando a legislaçom e as instituiçons vigorantes, tendente à sua democratizaçom e regeneraçom. Quando a história da luita de classes tem demonstrado nos últimos mais de 150 anos a impossibilidade de implementar esta estratégia pois sempre conduziu à derrota do proletariado.

Do laboratório do 15M emana a imensa fraude da ¨nova¨ política que hoje representa Podemos e os seus imitadores

1. A ¨spanish revolution¨ transitou de forma fulgurante de denunciar “chamam-lhe democracia e nom é” e “nom nos representam”, de querer “mudá-lo todo” a praticar o mais convencional parlamentarismo burguês, renunciando à rutura democrática e promover um processo constituínte, substituindo-a pola reproduçom da palavra de ordem felipista do “cámbio”, tam exitosa como falaz em 1982 para consolidar os pactos da Transiçom. As formas atrativas e o novo estilo dos seus líderes sem garavatas e camisas a quadros nom ocultam os pactos ocultos que os comprometem com o cerne do postfranquismo: monarquia bourbónica, UE e NATO, ausentes do programa com que concorrem à eleiçons de 26 de junho.

Podemos e imitadores som funcionais instrumentos -tal como foi o PCE e PSOE no período da Transiçom-, para implementar umha nova transiçom incuberta, um infame pacto imprescindível para manter a unidade de mercado chamada Espanha e consolidar a “irreversibilidade” dos retrocessos laborais, amputaçons de direitos e supressom de liberdades.

2. A “nova política” nom só nega a luita de classes promovendo umha alternativa transversal cidadanista, a sua prática real [nom a do relato propagandístico] suplanta a participaçom do que chamam vulgarmente “gente” polas decisons dumha nova elite de políticos profissionais que empregam similares métodos e práticas às da casta política tradicional.

O ritual de consultas internas realizadas entre a sua filiaçom caraterizam-se pola participaçom raquítica e por umha tendência à queda tangencial proporcional ao incremento eleitoral.

A ¨nova¨ política nom quer povo auto-organizado e mobilizado, quer simplesmente meros votantes seguidistas do caudilhismo televisivo e formais participaçons telemáticas onde nom tem cabimento o debate político e ainda menos o confronto ideológico.

Três exemplos recentes som expressom gráfica deste grande engano.

Em setembro de 2015 na consulta telemática de Em Marea para avaliar a confluência com a plataforma Iniciativa Pola Uniom só participárom 422 pessoas.

No processo de eleiçom da nova direçom da sucursal podemita na Galiza em março deste ano participou 15.77% de um censo claramente inchado: 3.225 pessoas premérom o cómodo voto telemático durante três dias.

Na mais recente consulta entre a filiaçom de IU na Galiza para avalar o pacto eleitoral com Podemos votárom 507 pessoas.

Mas quando a consulta adota forma de assembleia ou congresso a participaçom é inferior, tal como se constata na recente Assembleia da Marea Galega [15 de maio] onde só se inscrevérom 715 pessoas. O inocultável confronto interno entre Podemos, Anova e IU nom estimulou muita mais assistência que a das microcastas dos minúsculos partidos, das elites locais, dos apparatchiks e dos carreiristas e oportunistas que competem por situar-se adequadamente para ocupar os staffs .

3. Outro dos fetiches da “nova” política achamo-lo no referente à metodologia e transparência e democracia organizativa versus o que denominam aparelhos de controlo dos partidos tradicionais. Novamente a retórica nom passa de ser umha monumental candonga. As primárias estám normalmente amanhadas, som simples acordos entre as cúpulas que contariamente ao mantra que emitem, reproduzem similar estrutura de controlo e dominaçom do que afirmam pretender superar. Anova, Podemos e IU pactuárom os cabeças de lista das eleiçons de 20 de dezembro do ano passado assegurando a sua representaçom, sem prever o sucesso eleitoral posterior que originou as tensons atuais.

As listas abertas nom garantem maior democracia interna tal como se comprovou na Assembleia de Anova de outubro de 2014 onde 40% da filiaçom aglutinada à volta do setor crítico com o liderato de Beiras ficou excluida da sua direçom pola concentraçom de voto que copou assim a totalidade do órgao, algo inviável com o método de listas fechadas que garante a proporcionalidade.

O confronto cainita que hoje debilita a credibilidade da En Marea está  parcialmente vinculado com o papel molhado que significa para os cargos institucionais quando pisam alcatifa a defesa da rotaçom, revogabilidade e limitaçom de mandatos.

4. Por nom falarmos da soberania da militáncia das organizaçons frente ao poder absoluto da direçom. A fulgurante dissoluçom polo aparelho de Madrid da direçom galega de Podemos e defenestraçom esta primavera da sua cara vísível, certifica a hipercentralizaçom, verticalismo e concentraçom absoluta de poder polo núcleo presidido por Pablo Iglesias e a sua concepçom puramente sucursalista.

As más artes, os obstáculos e as dificuldades denunciadas polas candidaturas alternativas nas consultas internas do espaço podemita e imitadores som umha constante em todos os processos de eleiçom e renovaçom de lideratos.

Podemos é o paradigma da carência de direçom coletiva, do poder “despótico” de um secretário-geral que escolhe a dedo a sua Executiva [Assembleia de Vista Alegre de outubro de 2014], que dissolve com mao de ferro as direçons autonómicas incómodas, que esmaga o pluralismo ao que demagogicamente apela utilizando métodos caraterísticos dos partidos burgueses, completamente alheios à tradiçom política do marxismo que a sua narrativa sempre questiona pola sua “carência de cultura democrática”.

Sucesso conjuntural ou preâmbulo da arremetida fascista?

A “nova política” é todo o contrário de nova. Nom passa de ser umha versom mais atrativa da velha política sistémica. Nom podia ser de outro jeito pois os seus dirigentes e principais quadros procedem dos tradicionais partidos reformistas que pactuarom o postfranquismo, de forças que se adaptárom à lógica imperante e/ou de difusos espaços movimentistas contaminados polas “perspetivas fragmentadas” e o relativismo promovido polo postmodernismo, tam funcional para o Capital.

E os objetivos que perseguem nom passam de pretender atenuar os antagonismos de classe [da gente segundo eles] e melhorar a sociedade existente.

O we can da “nova política” só pretende ocupar espaço na lógica parlamentar burguesa, susbtituir a velha casta política por novos profissionais da institucionalidade. Resulta paradoxal ouvir alguns dos deputados do grupo parlamentar da franquia autótone de Podemos o seu entusiasmo por exercer o “cretinismo parlamentar” que antes combatiam e desprezavam desde as margens do espacos sociais autónomos ou anarcos de que procedem. Contrariamente à disparatada caraterizaçom da extrema direita espanhola, Podemos e os seus imitadores, como expressom 2.0 da nova socialdemocracia nom pretende mais que aplicar remendos sobre roupa velha e inservível, aplicar curas superficiais ocultando a gravidade da doença. De forma fulgurante já resolvérom que fazer perante o dilema reforma ou rutura que tem acompanhado a crise, optando pola restauraçom da ordem, no que é umha descomunal burla a quem acreditou e a umha boa parte dos que ainda acreditam no seu inexistente rol antisistema.

E umha sociedade nova nom se constrói sobre a pax social nem em base a meras mudanças cosméticas.

De momento tem logrado um sonoro e indiscutível êxito no frágil ámbito eleitoral, incidindo e modulando o discurso da sua competência reformista tradicional, contaminando e quebrando o projeto da esquerda revolucionária socialista e indepedentista galega.

Mas nom passa de um moda, e como todas as modas é um fenómeno passageiro, carente de projeto estratégico e como um balóm, ao igual que foi inchado, também será furado no momento em que deixe de ser funcional para os senhores do “capital que enxurra sangue e lodo por todos os poros, da cabeça aos pés”.

O ilusionismo eleitoral e o discurso triunfalista em que se tem sustentado até o momento tem facilitado e acelerado a atrofia social, reduzido a auto-organizaçom e a luita popular, mas quando os véus caiam provocará umha profunda disilusom e decepçom, posterior frustraçom que abrirá as portas à eclosom do fascismo. Porém, a diferença do vivido a finais da década de setenta pola traiçom do carrilhismo aceitando a reforma franquista que hoje padecemos, as suas consequências serám ainda mas graves polo desencanto que provocará.

A iminente nova crise financeira a escala global e o novo pacote neoliberal que obedientemente imporá o governo emanado do 26 de junho -seguindo os diktames de Berlim e Bruxelas, passarám factura à “nova política”.

Só o rearme político e ideológico do proletariado e do conjunto da classe obreira, o desmascaramento do engano ao que está submetido o povo trabalhador, unido à reorganizaçom e construçom do partido comunista revolucionário, poderá impossibilitar esta evitável tendência histórica.

Pois quando se esgote o marketing eleitoral e as promessas vazias chegará a “hora dos fornos”. Até esse momento devemos resistir entre ventos adversos e incompreensons, realizar um repregamento parcial sem abandonarmos a luita política, centrando esforços em deslindar e confrontar os reformismos para podermos acumular. Nom fica outra!