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Prática leninista nas ruas da Galiza

Quinta-feira, 8 Maio 2014

carlosgarcia

Carlos Garcia Seoane

Membro do Comité Central de Primeira Linha

A minha intervençom numha das palestras incluídas na programaçom da última Escola de Formaçom organizada por AGIR e BRIGA em Vigo motivou umha reflexom importante a respeito da legitimidade dos métodos de luita empregados polo MLNG na sua prática diária, assim como umha caraterizaçom argumentada dos princípios ideológicos e políticos que definem ao movimento político que estamos a construir.

Somos marxistas e leninistas

Com a palestra começamos por refletir sobre os nossos princípios ideológicos e, portanto, partimos da consideraçom a respeito do conceito ideologia, definindo-o em dous sentidos diferentes. Num sentido amplo referimo-nos à ideologia como a nossa conceçom do mundo, o filtro através do qual vemos a realidade, um saber teórico que implica ao mesmo tempo um conjunto de valores e condutas práticas e, portanto, serve a uns interesses de classe determinados. É neste sentido que podemos diferenciar entre umha ideologia burguesa (a que defende os interesses da burguesia) e umha outra socialista (que expressa os interesses d@s trabalhadores/as). Num sentido restrito, referimo-nos a ideologia como a “falsa consciência necessária”, isto é, o erro sistemático e inconsciente que se introduz no conhecimento quando a classe dominante quer impedir que se conheça a realidade tal qual é. A realidade fica invertida, como na “cámara escura” de Marx.

O marxismo é para nós umha conceçom do mundo que questiona a falsa consciência burguesa e a sua inversom da realidade, além de fornecer à classe obreira umha ferramenta muito valiosa para luitar pola sua emancipaçom. Tal como Marx rebate a Feuerbach, “os filósofos tenhem apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questom, porém, é transformá-lo.”

Segundo a nossa ideologia, a história da humanidade entende-se como umha luita permanente contra a necessidade. Relendo o Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engels, “a história de todas as sociedades que existírom até os nossos dias tem sido a história da luita de classes”, luita entre interesses irreconciliáveis, interesses opostos que nom som mais do que necessidades totalmente diferentes e que umha classe e outra luitam permanentemente por satisfazer.

Com a particular conceçom do mundo que nos oferece o marxismo, descobrimos que o principal motor da história da humanidade desenvolve-se na dialética entre a necessidade e a liberdade, contradiçom fundamental do desenvolvimento histórico onde o trabalho se erige em elemento mediador.

Entendemos a necessidade como aquela realidade material que procura satisfazer o ser humano para a sua subsistência e bem-estar. Há umha necessidade cega e inconsciente criada pola classe dominante e exploradora que satisfai @ explorado porque nom questiona as condiçons de exploraçom e dominaçom em que foi criada essa necessidade. Na sociedade capitalista, essa necessidade cega ou inconsciente é a realizaçom do lucro capitalista sem a qual o capitalismo nom poderia reproduzir-se constantemente e, portanto, persistir como modo de produçom hegemónico. Porém, também existe umha necessidade consciente no momento em que se conhecem as causas da necessidade objetiva, as suas caraterísticas e as formas de a alcançar. Esta necessidade consciente, a partir de princípios humanistas, nom se pode negar, pois é inalienável ao ser humano e portanto, está assistida polo legítimo direito a poder satisfazê-la. A liberdade é, entom, a satisfaçom da necessidade consciente, posto que o contrário da liberdade é exploraçom, dependência, em definitivo, a satisfaçom inconsciente da necessidade.

O trabalho é a prática imprescindível que permite satisfazer as necessidades. Numha sociedade onde reina a exploraçom, o trabalho é um sofrimento socialmente imposto, porque se trabalha para satisfazer as necessidades de umha minoria social dominante. Ali onde nom existe a exploraçom, o trabalho é a atividade humana em essência que produz qualidade de vida, felicidade, e conhecimentos.

Para podermos intervir de maneira consciente na contradiçom fundamental necessidade-liberdade, o marxismo oferece-nos umha ferramenta de trabalho muito poderosa, como é o materialismo histórico e dialético.

Utilizando esta ferramenta de trabalho, tomaremos consciência de quais som as nossas necessidades reais, as plenamente conscientes, as que umha vez satisfeitas nos conduzirám à liberdade. Por isso luitamos conscientemente por dotar a Galiza dum Estado próprio, porque do contrário continuaremos a sofrer a dependência de centros de decisom alheios, que nada tenhem a ver com a nossa realidade nacional; luitamos por alcançar a propriedade coletiva dos meios de produçom, por umha sociedade socialista, porque do contrário a burguesia continuará a ficar com o produto do nosso trabalho; luitamos pola emancipaçom da mulher e contra o patriarcado porque as mulheres devem ser donas do seu próprios corpos e nom estar subjugadas a simples instrumentos de reproduçom ao serviço do homem; luitamos polo monolingüísmo social e o reintegracionismo lingüístico, porque há a imperiosa necessidade de sobrevivermos como povo com umha língua própria; trabalhamos pola solidariedade e irmandade entre os povos que luitam contra o nosso principal inimigo para fazer abalar este sistema opressor; luitamos pola defesa do território, porque do contrário a predaçom insaciável do modo de produçom capitalista ameaçará a sobrevivência da nossa espécie. Em definitivo, luitamos conscientemente por princípios que estám guiados pola diáfana visom da realidade que nos forneceu Marx e seguírom melhorando outr@s muit@s teóric@s revolucionári@s, como Lenine.

A violência na história da luita de classes

Se há algum tema que preocupou Lenine no seu estudo incansável sobre o desenvolvimento histórico das sociedades humanas, esse foi a questom da centralidade da violência na dialética entre a necessidade (consciente ou inconsciente) e a liberdade (a verdadeira ou a falsa e opressiva) que  se descreveu anteriormente como o verdadeiro motor da história.

Lenine foi, antes de mais, um teórico a respeito da questom violência, considerado-a como um meio em interaçom com uns fins, justos ou injustos, revolucionários ou reacionários. Sintetizou na sua época com grande estilo a consideraçom já estabelecida por Marx a respeito da violência como meio para facilitar o tránsito para um estádio novo: “A violência é a parteira de toda sociedade velha grávida de umha nova”.

Na sua visom, Lenine estabelece que todas as classes exploradoras dos modos de produçom hegemónicos em cada parte da história se guiárom pola pretensom de quererem satisfazer insaciavelmente a sua necessidade cega ou inconsciente; isto é, ficarem com o produto de trabalho de outrem, para subsistir na sua posiçom social dominante. Para o conseguirem, utilizárom como meio umha violência injusta e reacionária. O que nom pode ser subtraído pola via do consenso, é arrincado pola força, mediante a utilizaçom da violência. Esta violência injusta e reacionária é guiada por umha moral eticamente injusta com os seus congéneres (exploraçom do homem polo homem e da mulher polo homem) e segue o critério do mal maior desnecessário (prolonga a utilizaçom da violência durante um período de tempo muito prolongado, sustentando de maneira indefinida a dor e o sofrimento do ser humano).

Noutro sentido, contrapom a violência ao serviço das classes exploradas como legítimo meio para se defender e luitar pola sua própria libertaçom quando se acha sob condiçons de dominaçom e opressom muito oprobiosas, contrárias ao decoro humano. De um ponto de vista revolucionário e de umha moral claramente oposta à da classe exploradora, quando as massas exploradas reparam em quais som as suas necessidades reais, as suas necessidades conscientes, e luitam para que se tornem realidade, para conseguirem a sua liberdade, o fim que  procuram é um fim justo, revolucionário, bom, aquele que sim justifica os meios a utilizar para o alcançar. O direito à rebeliom é, portanto, umha condiçom inalienável, intrínseca, à própria condiçom humana.

Segundo Lenine, a violência d@s explorad@s sempre foi umha violência justa e revolucionária aplicada segundo o critério do mal menor necessário, isto é, que do ponto de vista humanista, esta violência nom vai dirigida contra os indivíduos em particular, mas sim contra a classe exploradora e as instituiçons em que fundamentam a sua posiçom dominante. Além do mais, o critério do mal menor necessário indica que o meio violento se aplica o tempo estritamente imprescindível, com o objetivo de nom prolongar durante muito tempo o sofrimento do ser humano, assegurando a legitimidade e grandeza moral da nova ordem emanada dessa transiçom violenta.

Recolhemos as palavras de Lenine expressadas no vozeiro do POSDR –Proletari-, uns meses antes da Revoluçom russa de 1905 a respeito da legitimidade da violência revolucionária, de um ponto de vista marcadamente humanista, como meio para a autodefesa das classes exploradas e a luita pola sua própria emancipaçom: “A social-democracia nunca considerou a guerra, e tampouco a considera agora, de um ponto de vista sentimental. Condena sem reserva todas as guerras como meio bestial para resolver os conflitos da humanidade, sabe que as guerras serám inevitáveis enquanto a sociedade se encontrar dividida em classes, enquanto existir a exploraçom do homem polo homem. Mas, para acabar com esta exploraçom, nom é possível prescindir da guerra que desencadeiam sempre e em todas as partes as classes exploradoras, dominantes e opressoras. Há guerra e guerras. Está a guerra aventureira, que serve aos interesses de umha dinastia e à fame de um bando de assaltantes, que satisfám as ambiçons dos heróis do lucro capitalista. E está a guerra -a única legítima na sociedade capitalista- contra os opressores e escravagistas do povo. Só os utopistas e filisteus podem condenar por princípio semelhante guerra”.

 

Métodos de luita revolucionários

O marxismo e o leninismo sempre reconhecêrom as mais variadas formas de luita, as já inventadas e as que vam surgindo no fragor da luita de classes. Aprendem dos métodos atuais e ensinam dos exemplos passados. Porém, exigem adequar os métodos de luita ao momento histórico e às condiçons objetivas (grau de opressom e de exploraçom) e subjetivas da luita de classes (o ánimo de mudança das massas exploradas ao tomarem consciência da sua situaçom, isto é, o grau de apoio popular a umha transformaçom da realidade).

O estudo pormenorizado das causas, desenvolvimento e conseqüências da Revoluçom russa de 1905 ofereceu múltiplas aprendizagens que Lenine sintetizou com enorme brilhantez. Nom só foi o nascimento dos sovietes -ou conselhos de operári@s- o resultado mais positivo daquela experiência histórica, pois também foi a deteçom dos erros e acertos cometidos polo proletariado russo no desenvolvimento dos acontecimentos quanto à utilizaçom de meios para a luita contra o regime tsarista.

As revoltas do estudantado, as greves de reivindicaçom meramente economicista e os motins dos militares convertêrom-se em manifestaçons de caráter nitidamente político; começárom-se a multiplicar as greves e manifestaçons; as greves operárias passárom a ser greves políticas contra o tsar e o governo; as greves políticas multiplicárom-se e houvo períodos muito fortes de luita de barricadas que se elevárom, a raiz dos acontecimentos repressivos da marcha pacífica do Domingo sangrento até o Palácio de Inverno de Sam Petersburgo, que forçou o governo a oferecer concessons ao povo; durante o início da etapa pseudo-constitucionalista, praticou-se de maneira desorganizada a luita armada, até que se fôrom conformando grupos de combatentes organizados que luitavam com umha estratégia insurrecional.

Em vésperas da Revoluçom bolchevique de 1917, Lenine recordava as aprendizagens da insurreiçom fracassada de 1905 em Moscovo, onde a luita de barricadas deu lugar à insurreiçom organizada do proletariado disposto para a tomada do poder. Porém, os dirigentes políticos da insurreiçom ficárom por trás dos acontecimentos e nom se atuou com toda a determinaçom necessária para tomar conta do poder político. Lenine assim o concluiu: “mais umha vez, a prática precedeu à teoria”.

Em Conselhos dum ausente, Lenine alertou em outubro de 1917, quando as forças bolcheviques estavam dispostas para a tomada do poder, que a insurreiçom é mais um meio ao serviço das classes exploradas para atingir a sua libertaçom, mas há que saber utilizá-la com decisom para a levar a cabo, concentrar todas as forças perante o inimigo, sempre à ofensiva, sob o princípio da surpresa e destacando-se pola consecuçom de vitórias diárias. Em resumo, “audácia, audácia, sempre audácia”.

 

Da teoria à prática

Somos marxistas porque nos guiamos pola filosofia da praxe. Analisamos a realidade, extraímos as contradiçons fundamentais que atingem o seu desenvolvimento e intervimos sobre elas com a nossa prática, continuamos a refletir sobre o realizado e voltamos a intervir com a nossa açom. Este é o ciclo que repetimos umha e outra vez com a nossa atividade. “A prática como base para a teoria, a teoria como guia para a açom revolucionária”.

@s comunistas galeg@s tenhem por tarefa principal converter à prática todas estas aprendizagens teóricas, que fam parte já do vasto património do movimento revolucionário internacional. Em palavras do Che, “o dever de tod@ revolucionári@ é fazer a Revoluçom”. O que nos deve caraterizar é a incorruptível coerência da nossa prática com o discurso político que promulgamos. Decerto que o sistema tentará impedir por todos os meios que os nossos princípios se fagam realidade e para isso utilizará a repressom violenta, os seus meios de difamaçom e criminalizaçom que nom tardarám a definir-nos como “radicais” e, inclusive, cooptará algumha força das autodeclaradas de esquerdas para que contribua na legitimaçom desta ordem social injusta.

Os debates surgidos nas últimas semanas no seio da esquerda patriótica a respeito dos métodos de luita a empregarmos na nossa atividade política, contribuírom para desmascarar os verdadeiros interesses dos projetos que estám atrás dumhas determinadas siglas, os temores, os preconceitos e, mesmo, de um ponto de vista revolucionário, as soluçons erradas que se proponhem para oferecer algumha medida de resistência aos contínuos embates do projeto nacional espanhol e do capital.

@s comunistas galeg@s apostamos num projeto de emancipaçom integral, por isso queremos levar a prática leninista às nossas ruas, porque consideramos que nas condiçons atuais nom há outra alternativa viável para nos defendermos como povo trabalhador galego que quer ser dono do seu próprio destino.

Umha força proclamada revolucionária deve apreender a combater e nom a rejeitar nengum método de luita por princípio, porque entom cairia na armadilha ideológica do pensamento dominante e nom contribuiria para fazer progredir o desgaste do atual sistema. As condiçons objetivas da inviabilidade do sistema som mais que reveladoras, porém, as condiçons subjetivas dependem em boa parte da açom de forças revolucionárias que o fagam ruir definitivamente, sabendo dirigir e orientar as luitas, estando acarom dos setores do nosso povo que se erguem em pé de combate contra o inimigo opressor. Eis a tarefa fundamental que nos temos proposto @s comunistas galeg@s organizad@s em Primeira Linha, contribuindo para que o MLNG avance firme e decidido nos seus princípios e assim abrir umha nova esperança de libertaçom para o povo trabalhador galego nestes tempos de contínuos ataques contra os nossos direitos mais elementares.