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Baile de máscaras em Johanesburgo

Quinta-feira, 26 Dezembro 2013

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Ramiro Vidal Alvarinho

Como independentista galego e como comunista lamentei a morte do Nelson Mandela. Mais lamentei o entruido que se fixo da sua despedida. O funeral celebrado em Johanesburgo foi um desfile de líderes mundiais dos quais muitos se poderia dizer que representavam justo aquilo contra o que luitou o Mandela. Nom se pode dizer que Mandela seja completamente inocente da instrumentalizaçom que agora se fai por parte da sua figura e a sua mensagem; a sua última etapa deixando-se alouminhar e premiar polos mesmos que no seu dia colaborarom com o regime que o mantivo umha boa parte da sua vida em prisom, dá pé a que agora furtem a sua memória e possibilitou que la crême de la crême do neoliberalismo e o fascismo internacional fosse fotografar-se à Soccer City de Johanesburgo como se aquilo se tratasse de um cóctel de sociedade.

Com efeito, a atitude do Mandela conciliador cujo “exemplo” tanto convinha em regimes políticos e latidons onde nem houvo um Nelson Mandela, nem houvo umha evoluiçom histórica a nível sócio-político sequer similar à da África do Sul, permitiu inclusso que a mídia pró-regime espanhola (por exemplo) chegasse a insinuar analogias de trajetória entre o líder revolucionário africano e o Juan Carlos I. E isto, passando por alto que em 1962 Nelson Mandela foi detento por subversivo e já nom voltaria conhecer a liberdade até o ano 1990. Todos sabemos onde estava Juan Carlos I de Bourbon no dia em que Nelson Mandela foi capturado. Que se saiba, durante os anos em que Juan Carlos I foi Príncipe, nunca puxo em causa as estruturas do regime franquista e nom existem provas de que nem no momento em que jurou os princípios fundamentais do Movimento ou quando posteriormente jurou a atual Constituiçom Espanhola, tivesse um só pensamento para o ainda preso Nelson Mandela, e desde logo que verbalmente nom houvo nengumha palavra de mençom a ele por parte de ninguém em nengum desses dous momentos.

As manifestaçons de simpatia por parte do Mandela cara a monarquia espanhola ajudarom muito a tecer essa revirada e impossível analogia, ainda que só supondo um desconhecimento total da história do estado espanhol, ou se calhar desde desorientaçom prórpia de alguém que ainda nom bem se recuperou dos barrotes, ou desde simplesmente a necessidade por parte da nova África do Sul de conseguir apoios internacionais e reconhecimento diplomático se podem entender tais louvanças.

A realidade é que a Espanha de Franco, o antecessor e pai político do Juan Carlos I, também participou na colonizaçom da África, ainda que a sua presença nesse continente fosse mínima em comparaçom com a de outras potências europeias. O seu enclave na África negra era a Guiné Equatorial, e alí nom havia igualdade racial, toda vez que nom assistiam os mesmos direitos a indivíduos de umha cor e de outra, que uns tinham direito a ter propriedades e outros nom, que nom estavam permitidos os matrimónios interraciais e que havia umha série de prohibiçons e reestriçons que nom permitiam a mobilidade social. O modelo de sociedade era similar em muitas cousas a apartheid sulafricano, igual no fundamental. Havia espaços e roles reservados para uns e para outros.

Assim era o apartheid espanhol, e que se saiba o democrata de toda a vida que é Juan Carlos I jamais o puxo em causa. E o mesmo se pode dizer de outras monarquias europeias de países que tiverom presença na África em forma de metrópole colonizadora. Na África colonial, por norma geral, nom havia igualdade racial.

Que as casas reais da Espanha, da Inglaterra ou da Bélgica tenham ido a Johanesburgo a apresentar os seus “respeitos” perante o cadáver de Mandela é umha cousa que apenas se pode assimilar dando por sentado que aquela cerimónia de estado nada tinha a ver com a homenagem que os revolucionários e revolucionárias do mundo lhe fazemos ao histórico líder do Congresso Nacional Africano desde o nosso interior guardando-lhe memória e estudando a sua trajetória e teoria revolucionária.

As analogias que a confussionista propaganda pró-capitalista fai com Mandela e outros personagens históricos, ou entre a luita contra o apartheid e outros episódios que se derom coincidindo no tempo noutras latidons som absoluto lixo que deve ser denunciado como tal polas pessoas que temos o dever de conhecer e defender a história dos movimentos revolucionários e a trajetória destes. Nada tem a ver a luita contra o apartheid sulafricano com a queda do muro de Berlim, nem tem a ver com as greves políticas lideradas polo sindicato pró-capitalista e católico polaco “Solidariedade”, fora de que coincidiram no tempo e fora de que sim que há conexions nom confessas que ao melhor, se somos nós quem se encarrega de aireá-las, podem causar incomodidade e mesmo provocar o rubor de mais de um “democrata”. Tem a ver que muita escoura anti-comunista e contra-revolucionária procedente da Europa do Leste tinha o seu porto de refúgio naquela África do Sul do apartheid. Vergonhento para os apologetas do capitalismo e da democracia burguesa deveria ser rememorar o assassinato do histórico Secretário Geral do Partido Comunista da África do Sul, Chris Hani, a maos de um refugiado político polaco. Parece que entre os filhos ideológicos de Lech Walessa, o vitoreado “líder operário” que luitava contra a “ditadura” que daquelas havia na Polónia, nom havia só partidários da democracia ocidental, também havia algum pistoleiro fascista disposto a defender a morte o supremacismo branco na África do Sul.

A luita contra o apartheid na África do Sul, sim que tem a ver com as luitas democráticas na América Latina, contra as ditaduras do Brasil ou Chile, também fascistas e também racistas, também hauspiciadas polo imperialismo e também tendentes a recorrer ao extermínio físico dos seus opositores sob o pretexto da “luita contra o terrorismo”. A luita contra o apartheid na África do Sul, sim que tem a ver com a luita do movimento negro, latino e indígena nos Estados Unidos da América, com os Panteiras Negras, o Movimento de Libertaçom Índio, Malcolm X e outros nomes e siglas com os que se trivializa muito e se aprofunda pouco sobre o que faziam e diziam. A luita contra o apartheid na África do Sul tem a ver com revoluçons africanas tam surpreendentemente próximas a nós, além de tam desconhecidas como as encabeçadas por Machel em Moçambique, por Amílcar Cabral em Cabo Verde e a Guiné Bissau ou Agostinho Neto na Angola. E a luita contra o apartheid na África do Sul tem a ver sem matizes com a luita do povo palestiniano contra o regime fascista e racista de Israel e com a Revoluçom Cubana. As mençons de Mandela à causa palestiniana nom deixam lugar a dúvida no que di respeito à sua simpatia com ella; também Mandela nom calou a boca nunca a respeito das boas relaçons de Israel com o regime do apartheid, ao que por certo fornecia de armamento. Da simpatia cara a Revoluçom Cubana do líder do ANC há profussa constáncia literária na que cumpre investigar, e que Mandela sempre reconheceu o papel do exército cubano na heróica vitória do povo angolano frente ao intento de invasom dos nazis sulafricanos é umha verdade que devemos fazer porque nunca se silencie.

A ópera bufa dos líderes mundiais em Johanesburgo, nom deve desalentar-nos ainda que nos indigne todo esse circo aduviado com historietas infames como a foto de telemóvel de Obama com a Primeira Ministra danesa ou o caso do intérprete de lingua de sinais falso. O verdadeiro Nelson Mandela, o luitador, o resistente, o revolucionário, é dos revolucionários e revolucionárias do mundo.

Agora, toca resgatá-lo, estudá-lo e reivindicá-lo.