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As Atochas, como símbolo da Corunha a que nom renunciamos

Terça-feira, 5 Maio 2009

Ramiro Vidal Alvarinho

As Atochas hoje som um símbolo. Quiçá nunca nengum dos seus vizinhos e vizinhas suspeitou que chegaria a sê-lo, quiçá outr@s secretamente vivêrom até hoje com a esperança de que este momento chegasse, ainda que provavelmente nom tenha chegado da maneira realmente desejável. As Atochas, nestes dias que correm, som um símbolo da Corunha que nom queremos perder, e até pode que esse simbolismo trascenda o ámbito puramente local…. e é que durante décadas, sem que a maioria d@s corunheses e corunhesas de hoje em dia o imaginassem, dormiu entre as suas paredes a memória da resistência antifascista.

Aquele bairro operário hoje integrado em Monte Alto, serviu de acobilho para resistentes durante a guerra e os tempos duros da repressom. Umha causa judiciária aberta polo tribunal da regiom militar originou a operaçom que pujo final sanguento a aquele honroso capítulo da nossa história social. Lembro com particular emoçom as palavras lidas pola minha camarada Íria Leis em lembrança da Corales, aquela brava luitadora libertária, naquela tarde de 2006 em que se realizou o Roteiro da Memória (saudável iniciativa da Comissom pola Recuperaçom da Memória Histórica da Corunha) que percorrera os recunchos daquele capítulo esquecido da história ou, nesse mesmo acto, a intervençom numha pequena praça do bairro do Eliseo Fernández a recordar os membros das Juventudes Libertárias mortos naquele lance, mesmo diante de onde se reuniam, ou o testemunho de velhos rebeldes ou de descendentes d@s protagonistas directos diante doutros cenários; a Rua Sam José, a Rua da Liberdade, a Rua Marconi… cada momento daquele roteiro foi um pequeno grande traço que ajudava a desvendar o mapa de umha memória perdida, negada.

Hoje som os planos da Cámara Municipal a respeito daquela zona os que vam aniquilar os restos físicos daquele silenciado episódio. No 22 de Abril, com surpresa de muita vizinhança, com a reprovaçom de alguns mas também com a aprovaçom de outr@s, figemos umha homenagem popular a este grupo de casas operárias, que vam derrubar para construir umha rotunda e um pequeno parque, com o intuito, segundo versom oficial, de dotar a área de umha zona verde e de descontrair o tráfico rodado. De soluçons num aspecto e noutro, haveria muito que falar, e nom som poucas as críticas que das organizaçons nas quais milito se tenhem feito ao modelo de cidade que defende o governo local (e a pretensa oposiçom também) A questom é que as pretensons do governo autárquico pulverizam um vestígio físico dessa Corunha que nom nos contam, dessa Corunha que nos silenciam, que nos ocultam… da Corunha que é de verdade a nossa Corunha. E, como eu tenho defendido muitas vezes, a História tem datas, nomes e lugares. Varrer um cenário em falso, com argumentos de um praticismo duvidoso, alegando soluçons a problemas reais mas que poderiam ter melhores soluçons e bem menos traumáticas, é pouco inteligente como mínimo,  fazendo umha leitura benevolente do que está a acontecer. Pensando em chaves muito mais retortas ainda que é possível que mais realistas, é miserável, traidor e de umha carga reaccionária de dimensons verdadeiramente  escandalosas. 

A abjecçom pontofinalista, obscurantista até limites insultantemente záfios, torpes, mesquinhos, desta actuaçom do governo municipal pom-se de manifesto na surpreendente rapidez da sua execuçom e no confesso pacto de silêncio feito com a Associaçom de Vizinh@s  de Monte Alto e outras entidades como a própria Comissom para a Recuperaçom da Memória Histórica. Umha cousa é defender umha actuaçom que é discutível, como qualquer actuaçom municipal (ou é que nom existe o direito a discrepar publicamente do que fam os poderes públicos?) e outra cousa é impor o silenciamento e a condena preventiva a actos de homenagem como o do dia 22 de Abril. Onde, já agora, nom se pretendia sequer criticar a iminente actuaçom municipal. Também nom fazia falta; a reacçom da Cámara Municipal e das entidades “tocadas” para fazer boicote de entrada e explícito ao acto popular convocado conjuntamente pola Casa das Atochas e o Centro Social Gomes Gaioso delata intençons inconfessas, ainda que perfeitamente suspeitáveis.

O acto tinha como única finalidade lembrar que ali um grupo de mulheres mantivo, durante anos, toda umha rede social de ajuda aos fugidos, mas o que amola do facto de termos lembrado isto exactamente agora é a aplicaçom ao presente da memória do passado. Lembrar o passado rebelde das Atochas é sugerir um exemplo para o presente e o futuro. O perigo de que cunda o exemplo, esse é o problema. Umha cousa é que um grupo de artistas e intelectuais fagam umha espécie de sançom oficial de que à partir de agora está permitido recordar o que durante muitos anos permaneceu oculto… outra cousa é que dous centros sociais surgidos da iniciativa popular remexam nessa memória recentemente rhabilitada para assinalar ainda que seja implicitamente umha traiçom a essa memória. Precisamente a presença da Casa das Atochas ali vem sendo o inoportuno recordatório em voz alta de que umhas outras Atochas som possíveis e de que umha outra Corunha é possível. E nom é nengum acaso que muit@s d@s vizinh@s que apoiam a obra da Cámara Municipal, sejam os mesmos que se referem à Casa das Atochas como um “foco infeccioso”.

De maneira que, após a morte das nervaçons da memória colectiva, à parte do covarde propósito de passar página em falso na história (umha intencionalidade muito acorde com a  filosofia da Lei da Memória Histórica) e da servidom a interesses anti-sociais, está também umha finalidade contra-insurgente… evitar um reviver das Atochas, à partir de um resgatamento de experiências passadas?