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Carta a Maria Araújo, desde 2013

Sábado, 12 Outubro 2013

Ramiro Vidal Alvarinho

Companheira Maria, saudaçons desde outro tempo e outro lugar. Em realidade de algumha maneira somos vizinhos. Habitamos naquelas coordenadas da consciência revolucionária, claro que salvando as diferenças.

Escrevia-te estas linhas , para dizer-che que vas ser homenageada na tua pátria, ou melhor dito numha delas. Sim, vas ser homenageada na Galiza. Suponho que pola primeira vez. Vai ser em Redondela, perto desses montes que che servirom de agocho, nos que resistiches e resistirom os teus companheiros e companheiras na luita contra o fascismo.

Sei, Maria, que em Cuba recebeches muitas homenagens e galardons. Que és um referente de luita, de compromisso, de valor. Já gostava de poder dizer que também o és na tua Galiza natal.

A realidade é que os teus e as tuas camaradas na Galiza, no Estado espanhol, isso bem o sabes, tiverom depois da mal-chamada transiçom espanhola umha relaçom conflitiva com essa realidade que foi a guerrilha. 1939 nom foi o final. O reagrupamento dos fogidos, a criaçom das agrupaçons guerrilheiras, isso foi umha realidade que durante muitos anos no PCE se negou. De facto proibirom reivindicar a guerrilha.

Sim, recordará-lo. Vilipendiou-se a memória das guerrilheiras e os guerrilheiros. Foucelhas, O Piloto, O Curujás, Langulho, Ponte Pedreira, Henriqueta Outeiro, eram pessoas malucas, loucas, indisciplinadas, suicidas, aventureiras e nom sei mais quantas cousas.

Até que no 2006 se quixo, desde o estado bourbónico, e da mao do PSOE, fechar em falso umha etapa. E entom, alguns começárom a reclamar direitos sobre a memória dos outrora condenados ao esquecimento. Sim, falo da Lei da Memória Histórica, do Ano da Memória, de todos os atos públicos de homenagem, sempre num tom funerário, vitimista…nom se vos devoltou a dignidade de luitadores e luitadoras. Havia que reparar-vos enquanto que vítimas, mas nom rehabilitar-vos enquanto que luitadores pola liberdade. Verdadeiramente vergonhoso. À parte das luitas entre organizaçons por dar prioridade “aos seus” à parte da teima por empecer que outras comunidades políticas se apropriassem da vossa experiência.

Porque antes desse revival fraudulento que vivemos em 2006, a organizaçom na que milito já vos reivindicava. Para desgosto de alguns que dim que vos estamos a manipular.

Acho que gostarias de saber que nós aprezamos a tua heroicidade, a tua devoçom pola terra natal, o amor apaixonado pola tua classe, a tua condiçom revolucionária, sempre singela, sempre natural, mas sempre firme. E já sei que nom eras independentista galega. Mas pertencias ao melhor que deu o nosso povo naquela altura. Fas parte da Galiza rebelde, avançada.

Nós admiramos-te no teu labor de organizadora política na Havana primeiro e em Vigo depois, de sindicalista, de defensora dos direitos das mulheres, de guerrilheira. Aquelas luitas na fábrica de conservas de anchova, criando consciência entre as trabalhadoras viguesas; aqueles ires e vires de Vigo aos montes de Redondela e à inversa; no monte com a arma na mao; na angústia da cadeia…sempre heróica, sempre exemplar.

Seriam tantas as estampas da tua semblança, que me resulta impossível ser sintético. Simplesmente queria dizer-che que che queremos fazer a homenagem que provavelmente outros nunca che fariam no teu próprio país.

Este país cuja classe operária necessita mais do que nunca recuperar o teu exemplo. Porque nos aniquilam como povo, e porque nos negam o direito a trabalhar na própria terra. E porque os e as que tenhem o privilégio de trabalhar, fam-no cada vez em piores condiçons, e porque a discriminaçom às mulheres no trabalho continua a ser umha realidade que cresce, e porque cadavez mais compatriotas teus moram na miséria e há umha clara feminizaçom da pobreza. Porque nos empecem cultivar, trabalhar no mar, porque param as máquinas das nossas fábricas, porque queimam o nosso monte e envenenam os nossos rios e rias.

Quando a gente jovem do nosso país, esses estudantes condenados a deixar de estudar por falta de recursos económicos, ou essa juventude trabalhadora condenada à precariedade, ao desempego, à emigraçom; quando os trabalhadores e as trabalhadoras do naval de Ferrol e Vigo; quando a gente expulsa do agro e o mar; quando as ingentes bolsas de desempregad@s nas nossas cidades e vilas, conheçam das tuas açons na guerrilha, ou como enlaze, da tua audácia confrontando o inimigo, compreenderám que existe um caminho para inverter esta situaçom.

Os guerrilheiros, as guerrilheiras, sodes do povo, Maria. Tu sabe-lo. A vossa memória deve ser útil. O vosso exemplo deve ser a certificaçom de que o nosso povo tivo umha história que deve ser contada.

Bom, Maria, recebe os meus respeitos. Continua a descansar, nom queria que esta missiva fosse molesta. Estas letras apenas tinham a intençom de informar-te de que a tua imagem voltará a internar-se nos montes de Redondela levando armas e projetis para os teus companheiros e companheiras, voltará recorrer a praça do Berbés a vender peixe, voltará entrar na conserveira onde puxeches em pé às trabalhadoras ganhando a inimizade do patrom, voltará às barricadas do Calvário. Será como devolver-che umha cousa que che correspondia e que durante muito tempo che negarom.