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Somos e queremos ser assim

Terça-feira, 26 Janeiro 2010

  • Carlos Morais

Afirmam que somos inflexíveis. Julgam que a defesa dos nossos princípios se aproxima ao comportamento de umha secta. Que a rigidez que nos caracteriza impossibilita acordos. Que mantemos umha linha discursiva hipertrófica e grandiloqüente. Consideram que nom somos dos seus. Que pertencemos a um ente estranho, alheio, infiltrado, que gera turbulências inadmisíveis que questionam a harmonia de umha “comunidade nacional” na que existem divergências mas ao fim e ao cabo som consubstanciais as que se produzem em todas as famílias. Desqualificam-nos de ideologistas, extremistas, com os mais ordinários epítetos, na maioria dos casos carentes de originalidade, mais alá de modismos enxebristas encaixáveis com os que habitualmente o reformismo definiu universalmente as forças populares mais coerentes.

Nom nos referimos ao inimigo e sim às fracçons que desputam similar espaço e corpo social.

Parte de todo isto é verdade. Nom podemos negá-lo pois forma parte do nosso património e legado, da nossa indelével contribuiçom à cultura rebelde e combativa deste País.

Algumhas destas opinions aparentemente negativas confirmam que vamos polo caminho correcto. Embora formam parte de um cenário que nom buscamos e portanto agrade, nom podemos nem devemos negar que parte destas apreciaçons som paradoxalmente reconfortáveis. A nossa trajectória constata que nunca pretendimos imitar o que consideramos superado por arcaico, o que desconsideramos por obsoleto e fundamentalmente por insuficiente. Nunca foi a nossa intençom reproduzir modelos adulterados desde a sua raíz.

Com humildade revolucionária, mas com voz firme, olhada clara e testa ergueita, reconhecemos que a causa(s) da que derivam estas percepçons, -além de um oculto e inconfesável corporativismo-, reducem-se fundamentalmente a duas: a nossa origem autónoma ao tronco comum, e basicamente um reconhecimento implícito a que somos a única corrente da esquerda independentista dotada de um projecto político-ideológico coerente e definido, além da mais coesionada e melhor organizada. Esta superioridade provoca admiraçom, mas também pánico disfarçado dos velhos tópicos anticomunistas.

Além das naturais vacilaçons da nossa génesse, levamos três lustros inenterrumpidos construindo um projecto revolucionário combinando originalidade e fusom de tradiçons emancipadoras. O resultado é umha modesta, mas vigorosa, identidade própria na esfera política, ideológica, social e cultural.

Temos cometido erros de apreciaçom, de cálculo, mas frente as habituais linhas erráticas e inestabilidade orgánica do nosso contorno, temos umha trajectória forjada na tenacidade e constância, centralizada na procura de um globalizante objectivo prioritário. Contribuir à criaçom de forças obreiras e populares imprescindíveis rumadas para o sucesso da Revoluçom Socialista Galega.

Temos experimentado diversos caminhos e vias, ensaiado novas formas de intervençom, nom sempre com os resultados previstos. Porém nom temos complexos e devemos estar francamente orgulhosos e orgulhosas do que somos e representamos. Nom devemos nada a ninguém que nos questiona e muito a quem tem acreditado em nós e no projecto que representamos. “Nom se trata de levar a revoluçom nos lábios para viver dela, trata-se de levá-la no coraçom para morrer por ela” como nos ensinou o Che.

Porém devemos reconhecer sem pudor que nom sempre temos demonstrado a suficiente habilidade para transmitir e fazer compreensível o que somos e o que queremos. Devemos pois introduzir melhoras na nossa capacidade de comunicaçom, mas nunca ceder na defesa intransigente dos princípios do marxismo-leninismo.

Umha disecçom superficial dos programas e projectos políticos das diversas correntes da esquerda independentista galega constata enormes similitudes entre as cisons e a matriz da que procedem. A inspiraçom e o aroma que despreendem nom logrou corrigir e muito menos ultrapassar a errónea orientaçom que se pretendia superar. Aqui radica a enorme vulnerabilidade que apresentam benintencionadas aspiraçons de restruturar um espaço político-ideológico. Mas isto nom é viável a base de espasmos, voluntarismo e receitas desgastadas, sem a introduçom dos componentes científicos genuinos que permitiriam afastar-se do velho e simultaneamente construir o novo. Sem umha depuraçom integral da génesse e umha crítica implacável às causas que provocárom a actual derrota da estrategia regionalista nom é possível evitar reproduzir a pequena escala a desfeita para a emancipaçom nacional e social de género à que conduziu a linha conciliadora e pactista do autonomismo.

De umha exumaçom das goradas tentativas de reorganizar o movimento de libertaçom nacional desde parámetros de classe podemos extrair que carecérom de identidade suficiente para poder resistir a enorme pressom simbólico-material de umha enraizada cultura política proclive à conciliaçom de classe, empapada do patriotismo essencialista, que no seu cerne considerou a teoria marxista como um fenómeno sedutor e exótico, mas estranho à nossa realidade, portanto passageiro e “ineficaz para aplicar” numha formaçom social tam anómala como a galega.

A metaformose que experimentárom os processos aludidos ou a actual mutaçom na que se acha parte dos restos do naufrágio dos noventa derivam de incorrectas transfusons de saiva contaminada que reproducírom a incapacidade de aplicar a dialéctica da destruçom-construçom. Superar paradigmas erróneos e/ou desactualizados substituindo-os por novas reinterpretaçons da(s) velha(s) opresom(s) que padecemos como povo, classe e género, simbiotizadas polos novos mecanismos de dominaçom e portanto com as novas rebeldias que gerárom. Sem incorporarmos na nossa mochila de combate, -sem truques nem malabarismos-, a pluralidade das insurgências anticapitalistas o projecto socialista ou bem se esgota em derivas esterelizantes ou é devorado pola história. Um pensamento que se afirma revolucionário, mas com umha acçom teórico-prática cativa de grandes princípios enferruxados, ou desprovisto da teoria marxista acaba instalado no imobilismo ou nesse difuso campo da acomplexada e contemplativa esquerda da que tanto gosta a burguesia. A indecisom e as atitudes vacilantes som companheiras de viagem nom recomendáveis.

A única garantia para podermos construir na Galiza um projecto revolucionário marxista de libertaçom nacional mais alá do simples testemunhalismo e marginalidade passa por dotar-se de umha identidade completamente autónoma da nefasta escola emanada de 1964. Sem cumprir este requisito toda tentativa está inexoravelmente condenada ao fracasso. A catástrofe das últimas três décadas assim o constata. Todo o que se inspirou nesse referente nunca logrou deixar de ser umha magmática crisálida incapaz de voar sem a inércia do impulso do parto, para de imediato estrelar-se na inaniçom ou deixar-se fagocitar pola casa matriz.

Mas sendo umha conditio sine qua non para ter algumha possibilidade de sucesso, nom é mais que o princípio para poder arrancar. Necessita acompanhar-se de um conjunto de ingredentes objectivos e subjectivos que permitam um rearme permanente da militáncia no plano ideológico que possibilite esse crecimento sostido, essa procura de introduçom social, de enraizamento popular, de referencialidade e prestígio entre a classe trabalhadora. Mas também de umha dimensom espiritual que permita superar os sensabores, os ingratos e amargos dias de ferro que acompanham a militáncia revolucionária perante as dificuldades da adversa quotidianidade, essas permanentes incompreensons que padecemos por nadar contra-corrente, essa sensaçom de “desarraigo” a que nos vemos submetid@s polas leis invisíveis da ideologia dominante, o desánimo por falta de resultados mais tangíveis e imediatos, a impotência por sacudir consciências e desvelar os mecanismos da exploraçom e dominaçom capitalista.

Necessitamos fontes de inspiraçom para afastar o fatalismo da inviabilidade da Revoluçom. Fé na elevada dimensom e sublime beleza da causa do Comunismo com maiúsculas, pola que entregárom todo o que tinham milhons de seres humanos nas mais recónditas latitudes e nos mais adversos contextos.

Para que podam fertilizar os nossos anseios e sonhos de “tomar o céu por assalto” temos que acreditar na excepcional missom à que temos consagradas as nossas vidas; devemos ter disposiçom a realizar sacrifícios por umha causa superior, um imenso amor à humanidade explorada, polo único que realmente vale a pena viver e morrer. Sem essa “emoçom revolucionária” da que falava Carlos Mariátegui, sem essa paixom por transformar, sem a mística que envolve as páginas mais brilhantes das biografias de Lenine e o Che, sem estemecer-se de emoçom com o brilho das estrelas rutilantes que iluminam os povos nos combates de noites oscuras, sem vibrarmos contra a mais insignificante injustiça padecida polos mais fracos e desvalidas, sem comover-se frente a opressom, nom se pode ser um verdadeir@ revolucionári@ comunista. Poderemos ser militantes de esquerda, honestos activistas, mas nunca poderemos aproximar-nos ao degrau mais elevado da espécie humana à que aludia o comandante heroico dous meses antes da sua morte nas selvas bolivianas.

Devemos ter presentes e nunca esquecer as risas e as lágrimas, a juventude e a madurez, as dúvidas e as certezas, o valor e o medo, superados pola tenacidade e decisom de milhares de ánónimos compatriotas que em situaçons limites nom se arrugárom e sim engradecérom desafiando a lógica do exigível. O limpo olhar de Antolim Faraldo, de Miguel Solis e dos companheiros sublevados, fusilados 26 de Abril de 1846 polas tropas realistas espanholas por pegar nas armas para que Galiza abandonasse umha “existência oprobiosa, convertida numha verdadeira colónia da corte”; a coragem de Benigno Álvares no derradeiro combate contra o frio inverno de 1937 na serra de Sam Mamede; o sereno e transcendental gesto de um orondo José Castro Veiga “O Piloto” possando clandestinamente para a eternidade com a sua pistola-ametralhadora; o proletariado ferrolano nas ruas de Março de 1972 a peito aberto contra as forças de ocupaçom que tingiram as ruas com o sangue dos abatidos Amador e Daniel; a contundente resposta dos seus camaradas de Vigo paralisando a cidade em Setembro, também do 72, defendendo os seus direitos e denunciando a ditadura assassina; o último latido do imenso coraçom de Moncho Reboiras antes de parar polas balas espanholas no Agosto ferrolano de 1975; a contagiosa alegria de viver que projecta o feixe de luz do infinito sorriso de Lola Castro na única fotografia publicada, nom som fugaces episódios das melhores páginas da nossa recente história nacional, som fontes de energia para o combate diário, para nom desfalecer, para levantar-se cada vez que caimos, para prosseguir após repor forças à beira do caminho. Som os nossos heróis, as nossas heroinas. Traçárom as linhas dos caminhos do futuro.Sem elas, sem eles Galiza já nom existiria. Sem as achegas de generosidade e impronta rebelde o MLNG careceria de amanhá.

A nossa identidade comunista bebe do fluir destas experiências, que nunca pedírom autorizaçom a ninguém, que nunca se perdérom polo caminho, que jamais procurárom o aplauso dos de cima, nem o reconhecimento dos colaboracionistas. Avançar contra vento e maré, superando as adversidades, os mais elevados obstáculos, combatendo sem descanso é como se forja um partido comunista sem os complexos da pequena-burguesia, orgulhoso do seu rol emancipador.

Sem umha épica e umha mística nom é possível argamassar um movimento subversivo nem avançar fazendo retroceder o inimigo.

Sem realmente acreditar em que todo é possível, que nada é imodificável, que nom existem inimigos invencíveis, nem cimeiros insuperáveis, nom há probabilidade de atingir a vitória.

Galiza, 26 de Janeiro de 2010