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Três perguntas singelas de complexas respostas

Sexta-feira, 5 Fevereiro 2010

  • Carlos Morais

“O abc do comunismo -o ódio e o desprezo polos poderosos.

A necessidade de os combater. Sempre. É essa a nossa arma secreta”.

Francisco Martins Rodrigues

Agradecemos o convite das companheiras e companheiros do Encontro Irmandinho para participarmos e, portanto, realizar os nossos contributos, nas reflexons e debates desta Rolda de Rebeldia. Tal como me solicitárom, manifestarei a minha posiçom como comunista galego sobre três paradigmas consubstanciais à luita de classes, e portanto à luita de libertaçom nacional da Galiza:

1- Que modelo organizativo necessita a esquerda patriótica.

2- Qual é o sujeito sobre o qual construir o movimento de libertaçom nacional.

3- Que métodos de intervençom e luita devemos empregar.

Porém, antes de opinarmos sobres estas três questons consideramos imprescindível refletir sobre as causas que provocam que um coletivo militante integrado no BNG impulsione umha iniciativa destas caraterísticas, permitindo e facilitando que correntes como aquela de que estou enquadrado considere acaído participar; também dar umhas pinceladas sobre o passado, presente e futuro da esquerda independentista.

Consideraçons prévias

As principais causas da atual situaçom de crise estrutural em que se acha inserido o nacionalismo galego nom emanam basicamente da hemorragia eleitoral que desangra o BNG desde 2001. Há que procurar muito mais atrás. Som as caraterísticas das bases fundacionais sobre as quais se foi construindo o movimento nacional contemporáneo que provocárom a posterior claudicaçom e atual derrota estratégica frente ao projecto assimilacionista espanhol.

A combinaçom de incapacidade com carência de vontade política para superar boa parte dos principais límites congénitos da doutrina dos “Dez pontos fundacionais da UPG” impossibilitárom realizar as imprescindíveis adataçons para fazer frente com sucesso aos desafios das novas realidades sociopolíticas que se fôrom produzindo na sociedade galega.

Em 1964, o núcleo que realiza o passo histórico de quebrar com o derrotismo inoculado pola inoperante linha culturalista pinheirista é incapaz de superar o pactismo federalista do Partido Galeguista, o morno ideário do Sempre em Galiza e, portanto, o mais negativo da herdança da III Internacional a respeito da posiçom do marxismo frente as reivindicaçons das naçons oprimidas.

A procedência hegemonicamente pequeno-burguesa de boa parte das pessoas que assistem à reuniom da Ponte da Rocha em Compostela naquele 25 de julho gora umha UPG independentista, sentando assim as bases para que o movimento nacional galego renunciasse implicitamente ao único horizonte viável para construir a naçom a partir da esquerda: dotar a Galiza de um Estado próprio, optar pola plena soberania e a independência nacional frente a Espanha.

Embora se optasse com valentia por descartar e ultrapassar os paradigmas do pinheirismo, nom se superou a linha histórica hegemónica no nacionalismo galego anterior ao holocausto de 1936, nem ao que mantivo posteriormente aceso o facho da reivindicaçom nacional além-mar. A inequívoca definiçom nacional da Galiza plasmada no primeiro ponto nom avançou nos naturais e lógicos passos necessários que dela se despreendem, optando por assumir o limitado ideário nacional da Hespaña com h e ñ de Castelao. O anti-independentismo explícito fica assim patente no ponto dez quando se afirma que a “liberación nacional galega non desbota o vencellamento federativo de Galicia ós demáis povos da Penínsoa”.

A recomposiçom da esquerda nacionalista realizada em 1964 introduz a recuperaçom da Naçom Galega como sujeito político identificando-a com as camadas populares, apostando sem ambigüidades no exercício do direito de autodeterminaçom, mas foi incapaz de abandonar esse ideário nacional tímido e conciliador arrastado pola inércia da longa sombra teórica da década de trinta e quarenta.

O filo-hispanismo deu lugar a umha “sólida escola teórico-prática baseada numha complexada e acovardada doutrina nacional a meio caminho entre um autonomismo radical defensor do direito de autodeterminaçom e umha irracional patologia anti-independentista”. Escola que ao longo destas quatro décadas e meio de trajetória tivo umha errática evoluçom que oscilou entre o frentismo anti-imperialista dos primeiros anos, passando polo maoismo epidérmico dos setenta com ensaio armado incluído, até o atual BNG, umha organizaçom interclassista dirigida pola pequena-burguesia que, conservando umha ampla base popular, mutou numha força sistémica e esterilizou o legado de décadas de luita.

Mas também no plano social a UPG nasce enquadrada numha falta de concreçom incompreensível -formulada nos pontos três, quatro, cinco e seis-, cativa de um excessivo pragmatismo e possibilismo para a segunda metade do século XX, em pleno abrolhar das forças revolucionárias marxistas de novo cunho inspiradas no triunfo da Revoluçom cubana, nos postulados do marxismo rebelde do Che Guevara, da recuperaçom do genuíno projeto leninista, das vitórias atingidas polos povos colonizados de África e Ásia, numha etapa em que o capitalismo keynesiano de rosto mais amável ainda nom tinha sido substituído pola brutalidade da sua perversa fase neoliberal.

A génese do movimento nacional galego nom é alheia a todo esse movimento em escala mundial de rutura com as posiçons conciliadoras soviéticas, com o conservadorismo dos partidos comunistas tradicionais, de legitimaçom e utilizaçom da violência revolucionária como instrumento imprescindível para atingir o poder e destruir o modo de produçom capitalista, com a incorporaçom à luita de umha nova geraçom militante com outros referentes imediatos diferentes aos dos seus pais. Nom podemos desconsiderar que a acidentada fundaçom da UPG tem lugar tam só semanas depois da constituiçom das FARC nas montanhas da Colômbia, quando o Che estava a difundir por todo o planeta a necessidade de se confrontar por todos os meios com o imperialismo. Mais alá da mera casualidade, o movimento patriótico galego de inspiraçom marxista, é também fruto, ou polo menos está influído polas tendências internacionais em voga naquela conjuntura. Tanto o que se passava em Paris, Havana, Moscovo e Pequim, a cisom sino-soviética como os debates e novas orientaçons da esquerda latino-americana e caribenha nom eram alheios para Luís Soto no México, como para Celso Emílio Ferreiro em Caracas. Hoje tampouco devem sê-lo, embora a cultura hegemónica em boa parte do movimento patriótico incompreensivelmente despreze o que acontece para lá das nossas fronteiras.

Devemos lamentar a carência de coragem e maior visom longo-prazista na hora de definir o projeto estratégico da esquerda nacional que, se bem nasce à margem da política espanholista de conciliaçom com o franquismo que começa a teorizar o PC de Carrillo como também contra a manobra política anticomunista promovida por Ramom Pinheiro sob a batuta das potências ocidentais, nom se deu libertado do estreito espartilho do minimalismo pequeno-burguês da Geraçom Nós.

Posteriormente vinhérom fases de maior radicalismo nacional e social concretizadas na vácua e efémera fraseologia independentista de 1977-78, imediatamente condenada a ex-comunhom polos guardians das essências do templo após a morte de Reboiras, e a depuraçom da linha obreira polo lobby de professores e profissons liberais que se apropriárom do cerne do projeto.

A adataçom à formaçom social galega das teses de Robert Lafont que Xosé Manuel Beiras plasmou no Atraso económico de Galiza contribuírom para rearmar o projeto, para nom pactuar a maquilhagem do franquismo, mas também reforçárom as teses interclassistas de um movimento nacional incapaz de se despreender das concepçons dimitrovianas e dos modelos terceiromundistas que promovia o campo soviético, e cujas conseqüências fôrom funestas para a plena emancipaçom e libertaçom dos seus povos. Boa parte dos movimentos revolucionários de libertaçom nacional dos sessenta e setenta som hoje corrutas estruturas de dominaçom das camarilhas que sobrevivêrom às cainitas batalhas polo controlo e usufruto de siglas de passado heróico, como o MPLA angolano, a FLN argelina ou a FSLN nicaraguana.

As teses do interclassismo e o federalismo fôrom adatando-se às mudanças operadas na Galiza fruto das dinámicas impostas por Espanha. Abandonárom a timidez argumental, as maquilhagens de intrincadas fórmulas, para eclodirem sem complexos, para se exprimirem sem rodeios.

Da Lei de Bases de 1987 até a Declaraçom de Barcelona, passando polo “diálogo institucional” de 2001 até o mesquinho discurso de ter “peso” em Madrid hegemónico entre 2005-2009, ou a reivindicaçom atual de atingir maiores quotas de autogoverno, compartilha idêntico fio condutor: um proceso paulatino e irreversível de integraçom plena no quadro jurídico-político espanhol.

Esta “falha inicial” permite entendermos porque as elites do BNG conduzírom de forma gradual um dinámico e vigoroso movimento popular de enormes potencialidades para liderar a construçom nacional com parámetros de esquerda ao que atualmente é: um burocrático aparelho eleitoral-institucional inofensivo para Espanha e o Capital, carente de um projecto estratégico coerente mais alá de pretender representar e defender os interesses de determinadas fraçons da burguesia nacional, para terem influência sem intermediários em Madrid.

Todo isto, em troca de umhas migalhas para as suas medíocres e timoratas elites, que ocupam espaços de representaçom política e simbólica e cuja obsessom por se perpetuar facilita a renúncia permanente ao que faga falta para manter satisfeitos Madrid e os donos do País.

A obscena fotografia de Quintana com Jacinto Rei no seu iate em 2005 nom difere qualitativamente da de Guilherme Vasques com Santiago Rey Fernández-Latorre há umhas semanas. O neoliberal sem complexos e o progressista de inócuas causas sempre politicamente corretas nom passam de ser as “diversas e necessárias caras” de similar projeto que no fim de contas só procura contar com o aval dos poderosos e dos inimigos da Naçom Galega e do seu povo trabalhador. Para esta viagem, nom faziam falta essas alforjes!

Na Galiza a Segunda Restauraçom Bourbónica demorou quase duas décadas a domesticar a esquerda nacionalista tal como tinha feito antes em Espanha com o PSOE e o PCE nos primeiros capítulos da denominada Transiçom.

Este processo é irreversível. O BNG está tam corrompido, tam desnaturalizado, que já nom é possível reconduzi-lo. Nom se pode regenerar. Qualquer iniciativa tendente a dotar a classe trabalhadora galega de umha ferramenta defensiva que contribua para construir o projeto nacional das maiorias sociais deve partir da premissa de se afastar e quebrar com o que hoje representa o BNG: umha força complexada polo seu passado, mas de inequívoca prática regionalista e neoliberal.

Igualmente, estám condenadas ao fracasso qualquer das diversas ilusons que teimam em reconstruir por fora algo similar ao que emanou de Riazor em 1982. Com esses vimes já nom se pode construir nengum cesto.

A recomposiçom de umha esquerda genuína na Galiza passa inevitavelmente por asssumir sem complexos três parámetros: a defesa da soberania e a independência nacional, incardinada num projeto anticapitalista que aposte no Socialismo, com maiúsculas e sem aditivos fraudulentos, incorporando de maneira transversal no seu discurso e prática a emancipaçom da metade da força de trabalho social. A plena e real libertaçom da  mulher, ou seja, a superaçom do patriarcado, é um dos alicerces imprescindíveis para construir a nova força sociopolítica da esquerda transformadora do século XXI.

A incapacidade de fraguar um projeto independentista de massas

Ao longo destas quatro últimas décadas e com umha cadência cíclica de aproximadamente dez anos a evoluçom do movimento nacional foi provocando ruturas a partir posiçons explicitamente independentistas de caráter socialista.

UPG liña proletária/PGP/Galiza Ceive em 1977-79, PCLN/FPG em 1986-1988, Primeira Linha em 1996-1999, até o indefinido MpB, com as suas peculiaridades e caraterísticas específicas, tenhem sido tentativas de articular um projeto de esquerda independentista alheio ao conglomerado da UPG/BN-PG/BNG.

Porém, até o momento, todas as tentativas tendentes a vertebrar o campo da esquerda independentista tenhem fracassado estrepitosamente ou bem se acham numha fase de estagnamento com enormes dificuldades para acumular forças e avançar aproveitando a favorável conjuntura de profunda crise socioeconómica.

Som diversas as causas que podem explicar esta situaçom, mas a sua configuraçom e dependência do nacionalismo maioritário respeito a doutrinas, programas, cultura política, focagem tática e estratégica, referentes e imaginário coletivo, permitem entendermos as motivaçons que tenhem impossibilitado consolidar um espaço sociopolítico objetivo e subjetivo diferenciado e autónomo, cada vez mais amplo e melhor definido.

A maioria destas experiências som fruto de umha cisom da UPG, portanto arrastam no seu ADN boa parte das deficiências congénitas anteriormente aludidas. Como ramas esgaçadas do tronco comum estám contaminadas, infetadas, esterilizadas para poder cumprir as tarefas que com mais entusiasmo que reflexom fôrom traçadas. Embora semelhassem querer superar essas limitaçons, a história constatou que nom conseguírom exorcizar esse vírus. Nom fôrom capazes de extirpar o cancro da conciliaçom de classes, do paradigma hispanista, do pánico que a pequena-burguesia manifesta nas encruzilhadas históricas, do pacto assimétrico com Espanha e o Capital.

A incapacidade para fraguar um projeto político e social completamente diferenciado e autónomo da matriz, por despreender-se do cordom umbilical, impossibilitou consolidar a maioria destas iniciativas, as quais, em vez de se alargarem, com o tempo, fôrom enfraquecendo até se esgotarem e, em boa parte, reincorporar-se individualmente e de forma desordenada ao lugar de onde emanárom.

Assim, parcialmente, setores desse independentismo tentárom ao longo da década de noventa voltar como corrente organizada ao BNG e ainda umha boa parte das correntes que superárom o naufrágio dessa etapa teima em renunciar a dotar-se de um espaço sociopolítico diferenciado, procurando imaginárias e inviáveis convergências.

Este complexo e errático processo impossibilitou umha acumulaçom de forças e experiências. A discontinuidade orgánica foi companheira permanente da hemorragia militante que fragmentou e atomizou um movimento reduzidíssimo. Deste jeito, nom pudo socializar o conflito, construir um movimento estruturado, com referentes ideológicos e políticos próprios, com alternativas diferenciadas do autonomismo.

Porém, a partir da segunda metade da década de noventa, emerge um novo agente que nom provém do binómio UPG/BNG e que questiona os paradigmas sobre os que a esquerda independentista de forma seguidista e acrítica tentou infrutuosamente articular o seu projeto.

Para podermos construir umha esquerda soberanista eficaz e útil para promover luitas e atingir vitórias, um movimento de libertaçom nacional e social de género com projeçom e apoio de massas, há que ser capaz de abandonar o essencialismo patriótico interclassista. Também um obsoleto discurso cuja centralidade radica no simplismo de reduzir e interpretar a complexa realidade com base na dialética da contradiçom principal Galiza-Espanha, negando por ativa ou por passiva que numha naçom que padece umha opressom nacional a luita de classes adota a forma de luita de libertaçom nacional.

O eixo de qualquer luita que sinceramente procure umha sociedade sem classes e sem negum tipo de opressons deve partir da contradiçom entre Capital-Trabalho. A ela deverá incorporar-se, simbiotizando-a, a amálgama multicolor das rebeldias múltiplas das complexas estruturas sociais do século XXI (emancipaçom da mulher, defesa do meio ambiente e questionamento do progresso decimonónico, combate ao poder adulto, libertaçom sexual, respeito polas sociedades multiétnicas e multiculturais, etc) e no caso específico galego a carência de soberania.

Na Galiza há burguesia nacional, a opressom nacional que hoje padecemos nom é estritamente de caráter colonial, devemos ser um movimento de esquerda anticapitalista.

Nom podemos seguir reivindicando umha idílica, harmónica e feliz sociedade rural, pois nom passa de umha simples fantasia que nunca existiu. Devemos despreender-nos de umha vez dos anacronismos e enxebrismos, dos postulados milenaristas que a pequena-burguesia incorporou ao movimento de libertaçom nacional. Mas também do economicismo e o legalismo da esquerda que afirma querer umha Revoluçom mas mantém um respeito supersticioso pola legalidade vigorante, sem se atrever a questionar com umha prática coerente os fetichismos do sistema.

Devemos igualmente abandonar as conceçons lineares e mecanicistas do progresso baseado no desenvolvimento ilimitado das forças produtivas que tanto dano tenhem provocado ao marxismo através dos manuais soviéticos e do estruturalismo althusseriano.

Coincidimos plenamente com o Che em que “O socialismo económico sem a moral comunista nom me interessa. Luitamos contra a miséria, mas ao mesmo tempo contra a alienaçom. (…) Se o comunismo passa por alto os factos da consciência, poderá ser um método de repartiçom, mas já nom é umha moral revolucionária”.

Cumpre umha esquerda rebelde, combativa, unida, que repeite o pluralismo ideológico e tenha como objetivo estratégico a tomada do poder, que fomente a democracia direta e a  participaçom horizontal, que combine a utilizaçom de todas as formas de luita em funçom das condiçons, em que o parlamentarismo nom seja mais que um simples instrumento para enfraquecer a atual ditadura da democracia burguesa espanhola, que evite dotar-se de aparelhos burocráticos de políticos profissionais bem remunerados polo regime que acabem gerando interesses de seu, substituindo a militáncia na hora de decidir.

Hoje a esquerda independentista conta com um capital político, ideológico, organizativo, com umha experiência militante, com uns recursos e ferramentas nada desprezíveis. Porém a sua influência social é claramente inferior aos esforços investidos e à referencialidade que atinge de forma esporádica e intermitente, claramente superior a que possuía a inícios da década de noventa. Sem lugar a dúvidas é imprescindível para qualquer recomposiçom de um projeto revolucionário na Galiza do século XXI.

Que modelo organizativo necessita a esquerda patriótica?

Para respondermos pois à primeira pergunta que nos convoca esta Rolda de rebeldia é necessário esclarecer que nom existem modelos estabelecidos, que estám condicionados fundamentalmente por dous factores:

1º- As condiçons políticas sobre as quais se intervém.

2º- Os objetivos táticos e estratégicos que se persegue.

Obviamente, nom é o mesmo agir numha conjuntura caraterizada por umha ditadura militar, um regime autoritário que provoca sermos um movimento ilegal e portanto clandestino, que sob umha democracia representativa ou numha etapa de transiçom socialista. Nom será nem decalque nem cópia, mas criaçom heróica. Cada caso necessita umha estrutura ou estruturas diferentes nas quais a originalidade deve combinar-se com as caraterísticas da formaçom social em que atua.

Tampouco se pode universalizar o modelo entre quem por exemplo unicamente pretende ocupar espaços institucionais renunciando a transformar as estruturas económicas, sociais, ideológicas, militares da sociedade capitalista, frente a quem tem como objetivo estratégico umha Galiza soberana, independente e socialista.

Devemos pois falar de modelos organizativos sem dogmatismos nem rigidezes. Os modelos de organizaçom nom som eternos, imutáveis e indiscutíveis, devem estar em constante mudança e adataçom às necessidades e reptos para que sejam eficazes e cumpram a funçom que perseguem.

Pola situaçom organizativa da esquerda soberanista -termo no qual incluo todas as organizaçons, partidos, correntes de opiniom, núcleos militantes, coletivos populares, ativistas sociais, individualidades sem adcriçom definida que perseguem umha Galiza libertada da opressom espanhola e umha sociedade superadora do capitalismo- é imprescindível partirmos inicialmente de um espaço amplo e integrador com um programa avançado de mínimos que respeite o pluralismo ideológico existente. Esta convergência pode adotar diversos modelos: frente, unidade popular, plataforma de mobilizaçom e luita social, que permita somar para multiplicar, nom somar para restar. Serám pois as peças e agentes políticos e sociais que participem na sua configuraçom que definam com maior exatidom até onde se pode chegar na fase embrionária de um processo dessas caraterísticas.

Mas deve em todo o momento conviver com a existência de identidades específicas emanadas de maiores afinidades políticas e ideológicas que existirám até o momento em que por vontade própria decidam dissolver-se na estrutura unitária em que estám integrad@s os seus/suas militantes.

A partir da perceçom e experiência da organizaçom e corrente na qual milito, a unidade orgánica da esquerda soberanista e independentista tem sido um dos principais objetivos e preocupaçons da nossa curta trajetória. Levamos mais de dez anos tentando chegar a ela, participando em diversos experimentos e iniciativas, mesmo promovendo estruturas sociopolíticas unitárias. Por este motivo, somos conscientes dos problemas, das dificuldades e obstáculos situados em grande medida na esfera do subjetivo, que provocam interferências na hora de darmos passos firmes nesta direçom à qual todo o mundo apela, da qual ninguém nega a sua necessidade, mas que vem sendo um dos principais nós górdios do movimento popular nos últimos 150 anos a escala nacional e internacional. “E se todos fôssemos capazes de unir-nos, para que os nossos golpes fossem mais sólidos e certos, para que a ajuda de todo o tipo aos povos em luita fosse ainda mais efetiva, que grande seria o futuro e que próximo!”.

Nom devemos pois fazer da unidade um fetiche, umha arma para lançar contra o adversário. A esquerda independentista e socialista galega tem dedicado excessivas energias a esta questom. Tenhem corrido rios de tinta sobre os modelos, passos, formas e calendários do processo, mas até agora, polas razons expostas, consideramos que na maioria das ocasions nom tem passado de ser um baile de máscaras no qual estas dificultam conhecer as verdadeiras intençons dos rostos que ocultam a identidade de quem semelha querer bailar mas tenta evitá-lo.

Umha das premissas elementares para avançarmos é agirmos com sinceridade e honestidade. Um processo desta manitude e importáncia nom pode ficar em maos dos que singelamente nom querem unir ou dos que exercem vetos maquilhados empregando absurdas desqualificaçons e apelando a mitologias passadas. Qualquer processo tem que emanar obviamente da vontade por participar, do esforço por superar divergências e conflitos pretéritos, em base a um debate que permita atingir o maior grau de consenso possível na aprovaçom de um programa político, de um projeto ideológico e um modelo organizativo que permita a cómoda integraçom de quem o desejar. É imprescindível o reconhecimento e respeito mútuo, a vontade de dialogar sem limitaçons nem exclusons, de tender pontes, de procurar a mestizagem de culturas, estilos e métodos. Mas para atingir estas condiçons é necessário abandonar atitudes irresponsáveis, erradicar os brindes ao sol que com diversos embrulhos e retóricas nom som mais que expressons do setarismo patológico que tanto dano tem provocado na esquerda independentista galega.

Estamos divididos basicamente porque nom todo o mundo tem vontade de unir-se, porque há enormes oposiçons a aceitar a riqueza e o pluralismo ideológico que conforma o nosso movimento. Nom é um problema geracional nem de brigas entre indivíduos como incorretamente se pretende transmitir empregando a típica manobra de confusionismo e intoxicaçom para evitar assim abordar o cerne do debate.

Pola nossa parte, seguimos defendendo a mesma posiçom unitária que levamos mantendo desde a definiçom realizada em junho de 1999 no II Congresso de Primeira Linha, e cuja última reformulaçom foi difundida por NÓS-Unidade Popular como manifesto 1º de maio de 2009 afirmando que “Com total honestidade, estamos plenamente convencidas de que é possível com generosidade e olhar de futuro iniciar a imprescindível transfusom de ideias, de projetos, de modelos que permitam elaborar sínteses de mínimos coletivamente aceitáveis que possibilitem a convergência para, com iniciativa, impulso, inconformismo, e intransigência, dotar o País e a nossa classe do baluarte organizado que demandam amplos setores populares”.

Porém, lamentavelmente, hoje nom se dam as mínimas condiçons subjetivas imprescindíveis para avançar nesta direçom. Mas nom por isso devemos cessar em seguir tentando-o!

Porém isto pode mudar da “noite para a manhá” em base aos desafios que o povo trabalhador vai ter que encarar a medida que se aprofunde no cataclismo social ao qual nos conduz um capitalismo em crise sistémica. Pois contrariamente aos diagnósticos dos “especialistas” e dos “analistas” que sempre negárom a possibilidade de unha crise de sobreproduçom, que pudesse rebentar a bolha financeira, o marxismo mais lúcido leva anos a prognosticar os acontecimentos em curso.

O capitalismo senil ainda nom atingiu fundo. O seu crepúsculo emana das crises-controladas nas quais leva inserido nas quatro últimas décadas. E embora a partir da queda do muro de Berlim em 1989 e a posterior implosom da Uniom Soviética em agosto de 1991 os aparelhos de propaganda da burguesia tenham tentado convencer as massas empobrecidas e os povos oprimidos que já nom há esperança coletiva pois vivíamos no “melhor dos mundos possíveis”, o neoliberalismo triunfante da década de noventa foi umha miragem incapaz de derrotar o renovado espetro do comunismo que em 1848 Marx e Engels deixárom gravados no Manifesto do Partido Comunista.

Assim, nom nos deve surpreender que o atual inquilino do Vaticano, Bento XVI, acabe de reafirmar as teses mais conservadoras e reacionárias da Igreja católica definindo o comunismo como imoral e desumano. Ladram, logo cavalgamos!

O anticapitalismo é umha realidade em crescimento. A rebeliom dos povos, a insurgência popular contra o criminosa ditadura mundial das potências imperialistas nom é um sonho nem umha imagem nostálgica do passado, é tangível em áreas cada vez mais amplas do planeta. Após o fim da “guerra fria” tivérom que construir um novo inimigo para assim justificar a sua guerra global contra os povos e a classe trabalhadora. Levárom até o paroxismo inimaginável o fantasma do “terrorismo”, mas hoje os Estados Unidos e os seus aliados européus -como Espanha- estám empantanados nos campos de batalha do Iraque, do Afeganistám-Paquistám, e o seu descrédito e desprestígio nunca foi tam elevado.

Pretendem evitar a irruçom de novas forças populares, controlar o tsunami libertador que se divisa no horizonte como resposta à extensom maciça da guerra, o terror e a destruiçom, mas nom o conseguirám. Umha nova Primavera Socialista está a emergir. A mudança é umha necessidade ineludível.

Agora, pola primeira vez na história da humanidade, jogamos contra-relógio. A grave crise ecológica planetária provocada basicamente polo capitalismo está a conduzir-nos face a hecatombe. A vida da espécie humana está em grave risco. Mas os donos do mundo negam-se a adotar as mínimas medidas necessárias para paliar a situaçom. A posiçom dos Estados Unidos, o Japom e a Uniom Europeia na recente Cimeira de Copenhaga exprime a ilimitada voracidade de umha oligarquia mundial disposta a arriscar ao máximo a vida de milhares de milhons de pessoas para poder seguir mantendo os seus obscenos privilégios e as suas luxuriosas taxas de lucro. “Obama proferiu um discurso enganoso e demagógico, cheio de ambigüidades, que nom implicava compromisso vinculatório algum e ignorava o Convénio Marco de Quioto. Saiu da sala pouco depois de escuitar mais alguns oradores. Entre os convidados a fazer uso da palavra estavam os países mais industrializados, vários das economias emergentes e alguns dos mais pobres do planeta. Os líderes e representantes de mais de 170, só tinham direito a escuitar”.

Semanas antes o último nóbel da paz ao recolher o desacreditado prémio afirmou “às vezes a guerra é necessária e em certa medida umha expressom dos sentimentos humanos”. Coincido parcialmente com Obama mas sempre como último recurso para chegar à paz e à justiça social.

A sua guerra é injusta e injustificada. A que se vem forçados a exercer os povos insurgentes iraquianos, afgaos, paquistaneses, a que utiliza a resistência palestiniana, curda, colombiana ou basca é qualitativamente diferente. Nom podemos pois coincidir com as declaraçons de Zapatero na sua mensagem natalícia às tropas de ocupaçom espanholas no Afeganistám quando afirmou que “estamos orgulhosos da tarefa que levades adiante”, pois somos contrários a matar crianças, a violar a soberania nacional, a exercitar a pilhagem e o saqueio dos recursos alheios.

Como o objetivo que perseguimos vai mais alá de construir umha Galiza soberana no quadro da Uniom Europeia, somos conscientes que a estratégia para atingirmos essa sociedade sem classes nem opressons nom será resultado de termos atingindo umha maioria aritmética nos parlamentinho do Hórreo, pois embora tivessemos possibilidades reais de consegui-la a lógica intrínseca da democracia burguesa nom permitiria essa possibilidade empregando todos os meios plaussíveis para o evitar, como constatam dúzias de exemplos da história do século XX. “A representaçom parlamentar de umha classe oprimida está consideravelmente abaixo da sua força real”.

O modelo, os modelos organizativos estám indisoluvelmente vinculados aos objetivos que perseguimos.

O comunismo galego do século XXI compartilha semelhantes objetivos àqueles que perseguia Benigno Álvares na década de trinta ou Moncho Reboiras quarenta anos depois. Por isso, ambos padecêrom perseguiçom e morte polo mesmo projeto nacional que hoje pretende destruir-nos como povo. Para avançar face umha Pátria soberana e independente, para construir um Socialismo genuíno de homens e mulheres livres e emancipadas, há que percorrer um longo e duro caminho.

Portanto, o modelo organizativo dependerá dos objetivos que se marquem. Para evitar umha desfeita ambiental como Reganosa, pode ser eficaz umha plataforma conjuntural ampla, para impedir a destruiçom de um bairro polo traçado do AVE pode servir umha coordenadora de afectad@s, para forçar o patrom a aceitar as reivindicaçons da assembleia de trabalhadores/as pode ser útil o sindicato, mas para dinamizar, coordenar e dirigir a luita, as luitas populares face a independência nacional som precisas diversas estruturas organizativas, desde um partido de quadros bem disciplinado, unificado, coeso, até umha ampla organizaçom política de filiaçom individual que vertebre e globalize as reivindicaçons parciais e atomizadas dos movimentos sociais.

Nom podemos deixar-nos arrastar pola ingenuidade de pensar que a atual democracia burguesa espanhola nom se verá forçada a adotar novamente fórmulas autoritárias para manter a unidade do seu mercado e impossibilitar a vitória das forças populares sobre a sua oligarquia a medida que se desenvolvam e alarguem as luitas nacionais, de classe e género nas naçons oprimidas, mas também entre a sua classe obreira. Vejamos só a posiçom e atitude do Estado espanhol contra a esquerda abertzale ilegalizando as suas forças políticas e sociais, fechando os seus meios de comunicaçom; contra os consultivos referendos autodeterministas na Catalunha; a respeito das expressons mais coerentes do nosso movimento em defesa da língua nacional da Galiza.

Se descartarmos este cenário, estamos simplesmente a praticar autismo político, fechando os olhos, negando-nos a avaliar a sua evoluçom, a entender a sua natureza antidemocrática como simples apanho, mera reforma maquilhada dos quarenta anos de pedra. Estamos a preparar as condiçons subjetivas para o suicídio do movimento de libertaçom nacional.

Por estes motivos, som necessários diversos espaços organizativos que se complementem interatuando numha mesma direçom, embora qualitativamente diferentes, adatados às tarefas que se perseguem e conscientes das contradiçons que se produzem ao longo do processo até a tomada do poder.

Como círculos concêntricos, seguem vigentes amplas alianças populares de caráter assemblear em que convivam entregados militantes revolucionári@s seguindo boa parte dos paradigmas do modelo de partido revolucionário de vanguarda desenhado por Lenine em 1902 com milhares de ativistas dos mais diversos movimentos sociais, inteletuais progressistas, sindicalistas e todas aquelas expressons da auto-organizaçom popular possíveis, diferenciadas mas unidas pola diversidade ideológica do anticapitalismo e polos diversos graus de implicaçom e compromisso adquiridos.

Porque, como lucidamente vaticinou o camarada Francisco Martins Rodrigues, o nosso Chico, no último ato público em que participou meses antes do seu falecimento “o partido que dim que já passou de moda -nom o partido-empresa, nom o partido-administraçom, nom o partido-negócio, mas o partido das revolucionárias e os revolucionários, esse há de voltar. Porque é preciso acabar com o pesadelo e começarmos a viver como seres humanos”.

A relaçom, as relaçons entre a força, as forças políticas da esquerda soberanista e os movimentos sociais deve ser ante todo de respeito e reconhecimento mútuo. Qualquer tentaçom de instrumentalizar as luitas populares e as estruturas organizativas conjunturais tenhem-se demonstrado que som um fracasso.

A posiçom do BNG a respeito o movimento semi-espontáneo contra a catástrofe do Prestige que abrolhou nos últimos dous meses de 2002 permite extrair liçons sobre os erros táticos e estratégicos de instrumentalizar um movimento social dessa envergadura em base a um míope imediatismo eleitoral que só procurava derrotar o PP nas urnas, mas cujos resultados ficárom reduzidos a conseguir frear temporariamente o desgaste eleitoral iniciado em 2001.

Nunca Mais foi manipulado de múltiplas formas: vetando a presença da esquerda independentista mais coerente, esvaziando-o de um programa anticapitalista e nacional, facilitando a presença do PSOE, burocratizando-o, atando-o e desmobilizando-o para que nom saltasse as margens de lealdade ao regime, as regras de jogo burguesas, substituindo a greve geral pola inofensiva moçom de censura que como água de maio necessitava o fraguismo, suspendendo as mobilizaçons na campanha eleitoral, renunciando a paralisar e suspender as obras da Cidade da Cultura destinando esse esbanjamento de recursos públicos em regenerar o litoral e apoiar à classe trabalhadora diretamente atingida pola catástrofe. Mas quem realmente saiu ganhando foi o Estado espanhol, pois após o desconcerto inicial conseguiu resistir a força dos protestos nas municipais de 25 de maio de 2003. Que fica hoje de aquele impressionante movimento popular que sacudiu durante meses alguns dos alicerces do sistema?

“O BNG foi mesmamente um dique de contençom da enxurrada de indignaçom popular que, sem el, com o muito que choveu ao longo deste vinte anos teria asolagado os vales e veigas nos que passa o verao todo o ano a preguiceira e alienada classe política deste país” escreveu lucidamente Beiras um ano depois da catástrofe do Prestige.

Outros episódios eloqüentes e mais recentes destas práticas podemos observá-las no movimento popular em defesa da nossa língua ou na reivindicaçom de seleçons nacionais desportivas. Durante quatro anos de governo bipartido o BNG nom se atreveu a dar passos decisivos e valentes na construçom nacional, e agora reclama o que nom se atreveu a fazer ou a aprofundar, pois se hoje Feijó ocupa Rajói é porque Tourinho e Quintana renunciárom a abrir umha auditoria “sobre os 16 anos de franquismo para delimitar responsabilidades individuais e coletivas, no ámbito penal e administrativo, no saque dos recursos públicos que caraterizárom quatro legislaturas consecutivas de corrupçom, nepotismo e apropriaçom do património público”.

Há que optar por manter dialéticas harmónicas entre o ámbito político e o social. Nom podemos idealizar e sim combater na necessária batalha de ideias, as carentes de originalidade e miméticas conceçons e receitas movimentistas do espontaneismo e os modelos organizativos apartidários em voga entre determinados setores da esquerda e o movimento nacional sociológico, promovidas desde os gabinetes universitários polo posmodernismo de Toni Negri, Michael Hardt ou John Holloway. Devemos evitar, em palavras de Néstor Kohan, que “novos profetas tentem monopolizar a palavra e ditar cátedra” à juventude revolucionária com atrativos jogos malabares de enganoso palavrório inofensivo para luitar contra a exploraçom e a dominaçom. Os modelos de organizaçom em rede sem um centro sintetizador de experiências e carentes de umha direçom definida e conhecida, apoiados nas novas tecnologias da comunicaçom, nom passam de ser na maioria dos casos um trivial passa-tempo para manter consciências tranquilas, mas som completamente intrascendente para combater o inimigo.

Os denominados movimentos sociais apresentam enormes limitaçons “pola parcialidade das suas respetivas luitas e polo imediatismo e temporariedade dos objetivos concretos” polo que é necessária umha relaçom “fluida, permanente entre luita social e representaçom política. Um projeto político revolucionário nom fai sentido se carecer de força social; mas tampouco fai sentido umha ampla rede social se renunciar à tomada do poder e, portanto, carecer de representaçom política”.

As organizaçons revolucionárias devem fazer parte ativa dos movimentos sociais respeitando os seus ritmos, necessidades e prioridades, mas os movimentos sociais de orientaçom transformadora devem tender pontes com as organizaçons políticas que assomem as suas reivindicaçons procurando convergências e espaços comuns de luita. O modelo mais acaído para promover a transformaçom social e avançar na libertaçom nacional da Galiza é a fórmula “força-movimento”. Umha organizaçom assemblear, horizontal, plural, em sintonia com as luitas socialmente compartilhadas pola classe trabalhadora, as mulheres e a juventude, mas nom só. Umha força-movimento irrespeitosa com a lógica do regime, apoiada na mobilizaçom social, que empregue as instituiçons como caixa de ressonância, que evite ser fagocitada polo institucionalismo, que fuja dos eufemismos chamando as cousas polo seu nome, que tenha a rua como espaço prioritário de intervençom.

Porém, as relaçons entre o ámbito do político e do social, sem estarem claramente definidas, nom podem estar isentas das tensons inerentes a umha amálgama tam ampla e representativa das diversas fraçons e interesses concretos do campo popular.

Qual é o sujeito sobre que deverá construir o movimento de libertaçom nacional?

Sem lugar a dúvidas a classe trabalhadora no sentido mais amplo. As profundas mudanças experimentadas na formaçom social galega nas dus últimas décadas convertem a Galiza numha sociedade bastante semelhante a do capitalismo avançado, embora sigamos a ser periferia. Da nossa atual morfologia de classes, despreende-se que já nom somos um país estritamente rural, desindustrializado e incomunicado. Somos umha sociedade com elevadas taxas de urbanizaçom conformada por umha hegemónica massa de assalariados e assalariadas com um destacado proletariado industrial.

É o povo trabalhador quem sofre nas suas carnes a dependência nacional que padecemos por Espanha: trabalha mais horas por menos salário, tem taxas de desemprego, precariedade e eventualidade laboral mais elevadas, pensons mais baixas, percentagem de pobreza e exclusom social superiores à média, os mais altos índices de sinistralidade laboral de Europa Ocidental, umha emigraçom maioritariamente juvenil que desangra a Naçom de boa parte dos seus futuros quadros técnicos e inteletuais no que nom deixa de ser um autêntico êxodo que esvazia a Pátria de boa parte dos construtores e construtoras do amanhá. A nossa renda é 25% inferior à espanhola.

Assim é como a opressom nacional se materializa na exploraçom da classe trabalhadora que conforma o setor social, claramente hegemónico, diretamente afectado pola carência de soberania. E ele em conseqüência quem deve dirigir a luita de libertaçom nacional.

Devemos pois, tal como nos ensinou Francisco Martins, priorizar a concentraçom preferencial dos esforços “nas camadas proletárias onde é maior a carga de antagonismo com a sociedade estabelecida” e nom emprestar tanta atençom aos “setores semiproletários e pequeno-burgueses, mais instruídos, com maiores hábitos de organizaçom, onde é mais fácil conseguir resultados, mas onde, em contrapartida, todo vai no sentido do reformismo”.

A autonomia de classe é essencial para evitar converter-se em simples massa de manobra da burguesia progressista. As organizaçons interclassistas nom som tal. Som forças que empregam as classes populares para os seus fins, quase nunca coincidentes com os do proletariado. A pequena-burguesia nom é de fiar, nas encruzilhadas históricas nas que a confrontaçom de classe atinge o grau de máxima efervescência, e portanto há que posicionar-se, sempre acaba oscilando com a classe da qual procede atraiçoando o seu discurso popular.

A Galiza necessita umha organizaçom ampla onde a classe trabalhadora seja hegemónica na sua direçom, entre a sua militáncia, na sua base social, na sua cultura, nos seus referentes históricos nacionais e internacionais, armada com um discurso claramente ao serviço das camadas populares.

É dever da esquerda real estirpar a terminologia burguesa hoje cada vez mais enraizada no movimento popular. O nosso sujeito é a classe trabalhadora nom a cidadania. Esse é um concepto espúrio para a esquerda, filho do aggiornamento e a adulteraçom, que pretende ocultar a luita de classes reforçando a hegemonia burguesa. No período de tránsito de um BNG que nom aceitava a lógica da Transiçom espanhola mas que progressivamente ia renunciando ao questionamento constitucional e autonómico, também tivo que mudar o seu imaginário coletivo substituindo as camadas populares que divulgou Beiras entre o escárnio e a mofa da ignoráncia espanholista por esse aparentemente neutral termo de cidadania.

Ou se está com as operárias e operários de Inditex ou com Amáncio Ortega, ou se está com o proletariado metalúrgico do sul da Naçom ou com os empresários da construçom naval. Ou defendemos as trabalhadoras de Gadisa ou o empório de Tojeiro.

Nós nom queremos voar com a gente que simpatiza com Díaz Ferrán nem com os associados ao sindicato do crime dirigido por António Fontenla. Ou se pom umha vela a deus ou ao demo. Tentar satisfazer a ambas partes nom é politicamente viável e sim eticamente rejeitável.

A nova esquerda patriótica que este foro de debate e reflexom avalia como hipótese, mas que as necessidades do País e da sua classe obreira demandam como umha urgência, nom pode ser o projeto dos bem remunerados funcionários das ONGs subsidiadas polo regime e as instituiçons imperialistas, nom pode ser o espaço de intervençom e promoçom social para os profissionais liberais incómodos com a direitizaçom do BNG e o PSOE, nem de vitalícios sindicalistas alheios à realidade de fábricas e centros de trabalho, incapazes de despreender-se dos seus privilégios.

Deve ser umha força com umha composiçom genuinamente popular, conformada por trabalhadoras e trabalhadores em ativo, por desempregadas e desempregados, pola cada vez maior massa de juventude precarizada, polos líderes vicinais, sindicais, dos movimentos sociais, incorporando esse crisol de culturas e tonalidades cromáticas de pel que cada dia som mais significativas entre o povo trabalhador galego, independentemente de terem nascido no Senegal, Equador, Marrocos ou na Colômbia.

Obviamente bem intencionados militantes de extraçom social pequeno-burguesa devem fazer parte da nova esquerda transformadora a construir, mas nom para mudar os objetivos estratégicos por umha mais assumível e amável reivindicaçom de umha “democracia avançada”, “maior autogoverno e bem-estar para a Galiza”, por umha reforma estatutária que permita um melhor encaixe da Galiza na Espanha contribuindo para desativar o conflito por mais “vinte anos mais de paz”.

A inócua e calculada indefiniçom promovida polos foros sociais e o desaparecido movimento antiglobalizaçom de um outro mundo é possível deve dar passagem à atualizada máxima luxemburguiana de Socialismo ou barbárie.

Comunismo ou caos! é umha disjuntiva de máxima atualidade. Eis a única equaçom possível sobre a que construir o novo sujeito transformador, evitando cair no determinismo catastrofista quando o capitalismo avança face a destruiçom das classes sociais ao conduzir ao conjunto do planeta face a sua devastaçom. Conscientes de que nom pode ser assumida por centos de companheiras e companheiros @s comunistas galeg@s consideramos que sintetiza o eixo dialético sobre as que progressivamente vam girar as primeiras décadas deste século XXI.

Nos dias de hoje, a reclamaçom do exercício do direito de autoderminaçom deve tem como objetivo prioritário construir a suficiente massa crítica para avançar face a soberania, a independência nacional e o Socialismo. Deve elaborar com habilidade e inteligência as políticas táticas, os necessários passos graduais para incorporar o maior número de povo ao projeto, para seduzir a maior quantidade de ativistas e militantes desencantados com as fracassadas estratégias eleitoralistas e institucionais do reformismo nacional e espanhol presente na Galiza.

Pois após três décadas de autonomia as bases medulares sobre as que assenta o projeto nacional galego acham-se no estado de maior enfraquecimento da sua história. É pois evidente que há que mudar o rumo, dotar-se de um novo barco e renovar a tripulaçom. Há que opor-se radicalmente ao modelo autonómico optando pola independência, há que negar-se a aceitar as receitas do neoliberalismo defendendo com clareza a alternativa socialista.

Que métodos de intervençom e luita devemos empregar?

Nom se pode mudar a realidade, transformar a Galiza e o mundo sem tomar o poder. Aqui radica a pedra angular da construçom de um projeto genuinamente de esquerda, nom as versons tuneadas das velhas e obsoletas forças políticas reformistas.

Embora o projeto nacional que nos oprime, explora e domina seja incapaz de superar a crise permanente desde que se configurou num Estado-naçom moderno confrontamos um inimigo poderoso e com enorme experiência: o capitalismo espanhol. Após mais de quinhentos anos tentando exterminar-nos, procurando a nossa plena assimilaçom, Espanha nom cede na incessante procura da destruiçom do projeto nacional galego. A sua maior vitória tem sido a desativaçom do movimento nacional herdeiro das múltiplas reformulaçons e operaçons de cirugia plástica realizadas sobre o melhor do legado e tradiçom do projecto desenvolvido a partir do núcleo de 1964. A integraçom do BNG à logica institucional, renunciando à auto-organizaçom e mobilizaçom popular, permite compreendermos melhor que métodos de intervençom aceita o nosso inimigo e quais som os que nom suporta, extraindo de ai as liçons para o presente e futuro do movimento de libertaçom nacional galego.

Levam décadas a tentar convencer-nos de que o parlamentarismo e a concorrência eleitoral é a única via para agir politicamente numha democracia burguesa.

A esquerda nom deve renunciar a utilizar este método de luita sempre que for útil para avançar, para difundir o nosso projeto emancipador, para questionar as enormes carências e défices democráticos da corruta partitocracia ao serviço dos grandes poderes económicos e financeiros, dos bancos, monopólios e multinacionais que finaciam as suas campanhas de mercadotecnia, condicionando e hipotecando assim as posteriores decisons e orientaçons políticas.

Mas o fundamental é centrar a maioria das energias na organizaçom social e popular, investindo os melhores quadros e militáncia em construir contrapoder popular autónomo, em avançar na construçom nacional sem aguardar a termos um Estado próprio. A recuperaçom da figura do apalpador frente aos “reis magos” é um magnífico e atual exemplo de como podemos avançar nessa direçom no quadro da dependência nacional.

É imprescindível e prioritário dotarmo-nos de umha ampla rede de entidades e organizaçons populares de caráter setorial no ámbito local e nacional sobre as quais tecer o projeto independentista e socialista, pois é mais democrático ao permitir o enquadramento popular, e porque é o melhor antídoto para evitarmos a cooptaçom a que se vem submetidas as bancadas parlamentares, os quadros institucionais, pola perversa lógica do parlamentarismo burguês.

A consciência política, os valores, hábitos e princípios éticos socialistas, a formaçom ideológica permanente som fundamentais para evitar a seduçom do vil metal que corrompe sem trégua. Daí a importáncia do igualitarismo salarial entre @s camaradas que desenvolvem as tarefas profissionalizadas que as necessidades do movimento exige. Deve cobrar igual umha deputada que um administrativo de umha sede, deve ter igual remuneraçom económica quem desenvolve as ingratas tarefas de organizaçom que quem representa a cara pública do movimento perante os meios de comunicaçom.

A corruçom, o suborno e o transfuguismo som fenómenos promovidos pola lógica das sociedades classistas baseadas na propriedade privada, e um movimento como o que Galiza e o seu povo trabalhador necessita nom vai estar blindado aos cantos de sereia dos cheques em branco que emita a democracia burguesa espanhola.

Os nossos desafios coletivos som imensos, embora caibam num grau de milho, nom podem confiar-se na utilizaçom de um só método. O marxismo em geral e o leninismo em particular sempre monstrárom umha imensa flexibilidade tática na hora de empregar todos os métodos e formas de luita possíveis para acumular forças e criar consciência para avançar face o objetivo estratégico da tomada do poder.

A combinaçom dialética de todas as formas de luita para combater a opressom e a dominaçom devem ser utilizadas em funçom das condiçons objetivas e subjetivas, do nível de consciência popular socialmente compartilhado, nunca em base a rígidas interpretaçons doutrinais. “O que pode ser eficaz e útil num determinado lugar nom serve noutra latitude”.

Mas a cultura maioritária na nossa esquerda nacional deve libertar-se das vacinas que lhe fôrom aplicando consciente e inconscientemente para conseguir fazer parte dessa falsa respeitabilidade com que Espanha anestesia os oprimidos. As reflexons de Maquiavel e Clausewitz sobre a guerra como prolongaçom da política por outros meios fôrom perfeitamente assumidas por Lenine e Gramsci sobre a inevitabilidade do confronto violento entre as classes.

Hoje, recolher as clássicas e vigentes conceçons do marxismo nesta questom pode ser constitutivo de delito de apologia de terrorismo pola “Audiência Nacional”, essa versom renovada do Tribunal de Ordem Público (TOP) franquista. “A arma da crítica e a crítica das armas” à qual aludia em 1843 Karl Marx, irremediavelmente cada vez adota máxima atualidade perante a agudizaçom da luitas que a evoluçom da crise capitalista provocará.

Nom pretendemos que se nos apliquem atenuantes na interpretaçom das nossas palavras. Como comunista, sou consciente que os objetivos que persigo “só podem ser alcançados pola queda violenta de toda ordem social existente”; porém, sei que o processo até atingirmos esses objetivos deverá utilizar todas as formas possíveis.

“A Revoluçom Galega como parte intrínseca da mundial deve impulsionar a construçom de forças sociais tendentes a atingir a hegemonia popular para a tomada do poder empregando de forma complementar e criativa todos, sem exceçom, os métodos de luita: legais, alegais e ilegais. A via reformista fracassou há décadas. A alternativa insurrecional nom só continua vigente, é a única via factível para transitar com sucesso da cada vez mais próxima descomposiçom do regime de partidos burgueses para umha democracia socialista que solucione as três grandes tarefas do nosso particular processo: independência nacional, superaçom da exploraçom da força de trabalho, e plena igualdade de género quebrando as bases do patriarcado”.

Sei que é um debate polémico e incómodo, mas nom por isso desnecessário e pouco atual. Todo o contrário. Nom podemos pensar em construir algo novo comentendo idênticos erros de experiências anteriores.

Hoje na Galiza o movimento popular transformador deve apostar primordialmente na autorganizaçom e movimentaçom social, por promover convergências amplas e alianças sólidas, por penetrar nas instituiçons para as utilizar ao nosso serviço, evitando sermos utilizados por elas, mas também por ensaiar a açom direta, os métodos de desobediência civil de vanguarda e de massas.

Nom podemos renunciar a “tensionar a sociedade com imaginaçom e contundência, evitando a indiferença, provocando adesons e solidariedades, estimulando a participaçom popular, nom reproduzindo hábitos políticos tradicionais, mantendo umha prática coerente com o discurso político”.

Tese apresentada na Rolda de Rebeldia organizada polo Encontro Irmandinho. Compostela, 5 de fevereiro de 2010


– Carlos Morais. “Crise ou crises no nacionalismo galego”. Abrente 39. Janeiro-Março 2005.

3- Os meios de produción, distribución e creto perteñecen ó povo.

4- A coleitivización do agro comenzará cunha etapa cooperativa, como fase previa a formas máis desenroladas de    socialización.

5- A pequena empresa e a industria artesá serán concentradas en unidás produtivas superiores.

6- A grande empresa capitalista será socializada dun xeito imediato.

–  Entrevista do jornalista Jean Daniel ao Che Guevara realizada em julho de 1963.

– Formulaçom empregada polo marxista peruano José Carlos Mariátegui num artigo de 1928, para descartar a aplicaçom mimética dos paradigmas soviéticos transmitidos polas diretrices da III Internacional no seu país.

“Mensagem aos povos do mundo através da Tricontinental” elaborada polo Che Guevara antes da sua partida para Bolívia em novembro de 1966, embora difundida em abril de 1967.

– Manifesto à Pátria e ao Povo Trabalhador Galego. Chegou a hora da unidade para resistir e luitar. www.nosgaliza.org/principal.php?pag=lerdoc&id=76

– Concepto empregado polo economista marxista argentino Jorge Beinstein e polo marxista egípcio Samir Amin em 2001 e 2002 seguindo as formulaçons utilizadas por Roger Dangeville em 1978.

–  “A verdade que aconteceu na Cimeira”, artigo de Fidel Castro. http://primeiralinha.org/home/?p=5932

– Leon Dadidovich Bronstein “Trostski”. “E agora?. Problemas vitais do proletariado alemám”, artigo publicado 25 de janeiro de 1932.

– Vladimir Ilich Ulianov. Que fazer? Problemas candentes do nosso movimento.

– Intervençom na Festa da Política Operária, Clube Oriental de Lisboa, 19 de Janeiro de 2008. Política Operária 113, Janeiro-Fevereiro de 2008.

– Carlos Morais. “Quinze teses sobre Nunca Mais. Manipulaçom do movimento de massas e fracasso da estratégia reformista”. Abrente nº 29. Julho-Setembro 2003.

– “A estratexia da dinamita”. Faro de Vigo, 1 de novembro de 2003.

– Consultar a “Tabela reivindicativa de mínimos para o novo governo autonómico. 444 medidas concretas para umha nova política nacional e de esquerda”, elaborada por NÓS-Unidade Popular, setembro de 2005. www.nosgaliza.org/web444/Tabelareivindicativa.pdf

“Marx en su (Tercer) Mundo. Hacia un socialismo no colonizado”. Ediciones Pensamiento Crítico, Bogotá 2007.

– Carlos Morais. “A precária e velha proposta do neo-progressismo pequeno-burguês”. Abrente 44, abril-junho 2007.

– “Açom comunista em tempo de maré baixa”. Abrente 30, outubro-dezembro de 2003.

– “Folheto de Junius (A crise da social-democracia)”, 1915.

– Iñaki Gil de San Vicente. http://www.kaosenlared.net/noticia/comunismo-o-caos

– Carlos Morais. “Sobre caminhos e modelos de Revoluçom”. Junho 2008. www.primeiralinha.org

– “Introduçom à “Critica da Filosofia do Direito” de Hegel”.

– Karl Marx e Friedrich Engels. “Manifesto do Partido Comunista”.

– Carlos Morais. “Parlamentarismo e via insurrecional”. Abrente 50, outubro-dezembro 2008.  http://primeiralinha.org/home/?p=520

– Tese Política das Resoluçons do III Congresso de Primeira Linha. Março 2002.