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Radicalizar os protestos

Segunda-feira, 4 Maio 2009Um Comentário

 

 

Ana Barradas

Fim do neoliberalismo, dim uns. Nom parece, porque os bonzos da velha ordem continuam no comando. E no entanto, esta é a pior crise económica desde a Grande Depressom.

A resposta é simples: porque a esquerda, ou a inesquerda, como referem já alguns, está impávida e serena, nom se sente sujeito de mudança, gasta o seu tempo a preocupar-se com a maneira de consertar um sistema que qualquer marxista decente reconhece como declinante e em vias de desintegraçom, irreformável, desadequado e carecido de ser varrido da história. Conquistada e consumida até o tutano por umha longa tradiçom de colaboraçom de classes, de desprezo polos interesses únicos e próprios do proletariado – o verdadeiro, aquele que produz mais-valia –, desculpabiliza-se argumentando que, quando a situaçom se agravar e se torne insuportável para as massas, elas se porám espontaneamente em marcha e entom se verá como prosseguir.

Esquecem-se que muitos trabalhadores estám já ser duramente afectados pola crise. Só nom recorrem a formas de resistência e luita mais radicais porque estám abandonados a si próprios, impotentes, e logicamente receosos de se lançar sozinhos ao combate. E nom lhes ocorre que se impom, e com urgência, umha nova ordem social que sustenha o curso suicida para o qual a humanidade é arrastada polas vistas curtas e incompetência de classes dirigentes.

Autista e centrada nas suas supostamente salvíficas análises teóricas, a esquerda nom se apercebe da situaçom, nom é capaz de estabelecer um plano, nem mesmo de curto prazo, para aproveitar em favor das massas populares as oportunidades que se apresentam neste momento de fraqueza da burguesia e dar suporte, apoiar, incentivar acçons potencialmente insurreccionais. Porque nom quer, porque tem horror à instabilidade e à incerteza, porque desconfia das massas em revolta, porque está viciada na táctica do mal menor e definitivamente conquistada por valores que abominam a revoluçom. Valores bem intencionados, sim, mas contra-revolucionários.

Sem umha luita social e política avassaladora que, disposta a acabar com o capitalismo, se articule e organize a níveis superiores, alastre e se torne global, nada feito. Só que nom som os sindicatos, burocratizados quando nom vendidos, nem as ONGs, dependentes das boas vontades oficiais, nem mesmo os movimentos sociais, muito amplos, sim senhor, mas incapazes de manter um programa e umha estratégia, quem poderá acudir às massas em dificuldades.

A fragilidade da esquerda mundial encerra um grande risco, o crescimento da xenofobia e da extrema-direita, dixo recentemente Eric Hobsbawm. Embora isto seja verdade, nom explica contodo o problema principal, nom vai à raiz do problema: por que razom nengum partido, sindicato, movimento ou qualquer outra forma de organizaçom social ou política acorre a apoiar acçons radicais, prenunciadoras de ruptura, como foi o caso em França do seqüestro do patrom da Sony, ou outros casos de ocupaçom de instalaçons, greves locais contra os despedimentos, etc? Por que razom, entre nós, nengum sindicato se lembrou de apoiar nem que fosse umha única ocupaçom de fábrica das muitas que tenhem despedido dezenas de milhares de operários, ou véu a terreiro indignar-se com o despedimento das operárias grávidas ou em licença de parto da têxtil Confecçons Ladário, em Paredes, e exigir a sua reintegraçom imediata? Ou, no caso mais modesto mas exemplar do Mayday, apoiou a ocupaçom por precários do centro de emprego da 5 de Outubro, em Lisboa e a sua acçom de encerramento simbólico das empresas de contrataçom temporária?

Sistema cai de podre

Nem os próprios capitalistas acreditam já no sistema, que dá sinais de dificuldade em superar a crise. Os mais lúcidos reconhecem que ele já nom pode assegurar a acumulaçom infinita de mais capital e revela os seus limites ao tornar-se cada vez mais desequilibrado e caótico. As flutuaçons selvagens das bolsas, das taxas de cámbio, do preço do petróleo, os roubos dos bens públicos e privados que agora se fam à descarada, a desfaçatez com que gestores incompetentes se apropriam de grossas indemnizaçons, mesmo sabendo todos da sua inépcia, som prova disso.

Entretanto, o número de pessoas que nom tenhem o suficiente para comer aumentou em 150 milhons durante 2008, e é provável que a crise económica mundial faga com que mais 200 milhons de pessoas caiam na pobreza absoluta, di a Confederaçom Sindical Internacional. Nos países industrializados, a crise nom provoca efeitos tam devastadores. Mas nengumha crise, qualquer que seja a sua dimensom, provocará por si só umha situaçom revolucionária ou o derrube automático do capitalismo. Polo contrário, o caso emblemático da Alemanha dos anos 30, a braços com umha crise descomunal e com a massa dos trabalhadores em grande sofrimento e estado de indignaçom, mostra como a inoperáncia da esquerda, e em particular dos comunistas, atirou a maioria da classe operária para os braços do fascismo.

Hoje, como som burocráticas e oportunistas as organizaçons sindicais e políticas que influenciam o proletariado – a classe realmente e absolutamente interessada no fim da exploraçom – este tem sofrido inúmeras derrotas e tem à sua espera novos desaires, desta vez bem mais graves. Seria ilusom pensar que, por causa da fraqueza dos partidos de direita, nom será possível um deslocamento generalizado de simpatia por soluçons autoritárias.

Com este panorama, já devia ser mais que evidente para todo o espectro da esquerda que nom vale a pena perder tempo a sugerir soluçons. O que interessa é passar a umha fase ofensiva, nom apenas contra os efeitos económicos e salariais da crise, mas explorando os factores políticos e ideológicos, fazendo confluir todas as energias anticapitalistas num foco de combate concertado e dirigido para os elos mais fracos do sistema, de maneira a neutralizar a ofensiva patronal e a tendência para saídas antipopulares.

Nós em Portugal sabemos que isso é possível: temos a nosso favor a ainda recente experiência revolucionária do 25 de Abril, que, praticamente a partir do nada e da noite para o dia, ergueu um movimento popular vigoroso e actuante por ter sabido ir às massas, recolher a sua energia, apoiá-la no sentido de a fazer ir mais longe. E só nom fomos ainda mais longe porque nom existia um movimento comunista com força e capacidade suficientes. Mesmo assim, em poucas semanas gerou-se umha consciência capaz de elevar a crise a umha situaçom revolucionária, paralisar a direita golpista, influenciar as decisons do governo, pressionar as instituiçons no respeito polas reivindicaçons populares. Porque nom agora? Apontam-nos o caminho os três milhons de manifestantes em França a 19 de Março, a greve geral na Grécia e a ocupaçom de multinacionais em Abril deste ano, com 69 manifestaçons em todas as cidades gregas contra os despedimentos e a exploraçom, a greve geral no País Basco e tantos outros exemplos de que os trabalhadores estám preparados para radicalizar os seus protestos.