Abrente

Ediçons digitais da publicaçom trimestral do nosso partido

Documentaçom

Textos e outros documentos políticos e informativos de interesse

Ligaçons

Sites recomendados de ámbito nacional e internacional

Opiniom

Artigos assinados sobre temas de actualidade galega e internacional

Video

Documentos audiovisuais disponíveis no nosso portal

Home » Opiniom

Porque nom chamar spencerismo ao darwinismo social?

Domingo, 3 Maio 2009

Domingos Antom Garcia Fernandes

 

Em A Galiza do Século XXI. Ensaios para a Revoluçom Galega (2007) eu escrevia:

… Para combater esse spencerismo ideológicoque nos invade e que conduz à trituraçom do minorizado (língua, naçom, classe…) considerado como inepto nas gadoupas do forte que seria o apto. Porquê chamar-lhe spencerismo, quando o usual é denominá-lo como darwinismo social? Porque Darwin, para dizer verdade, em A origem do homem (1871) defende que a selecçom natural, princípio director da evoluçom que implica a eliminaçom dos menos aptos, selecciona na humanidade umha forma de vida social que tende a excluir cada vez mais os comportamentos eliminatórios – nom sei se, vivendo hoje, continuaria com tal dose de optimismo – . E era Spencer quem refugava toda medida de ajuda aos desfavorecidos e toda lei de assistência (…)

Estas palavras, e as que vam seguir, som a propósito para rememorar o 150 aniversário de A Origem das Espécies e o bicentenário do nascimento de Darwin e estám inspiradas principalmente em diversos escritos de Patrick Tort, que leva mais de duas décadas em luita contra a deturpaçom do darwinismo mudado em elitismo, racismo, classismo, sexismo, escravismo, exclusom do flebe… E mesmo há quem o leia em chave de eugenismo e de nazismo…

A direita cristá quere-o desapossar dos manuais escolares em benefício dum criacionismo rebaptizado como “desenho inteligente”. E certa esquerda humanista nom lhe perdoa que os“darwinistas sociais” retomem os conceitos de “selecçom natural” e de “sobrevivência do mais apto” de cara a justificar o liberalismo económico mais selvagem. E para asseverar isto nom se cai na conta de que A Origem do Homem (1871), mais de umha década posterior aA Origem das Espécies, é o avultado e denso livro em que Darwin escreve a respeito da espécie humana e desenvolve o que nomeia como “efeito reversivo” da evoluçom, um mecanismo de selecçom natural que selecciona os “instintos sociais” e considera proveitosas as condutas morais, o altruísmo, a cooperaçom…, contrariamente à máxima hobbesiana de “guerra de todos em contra de todos”.

Posiçom crucial para o materialismo de Marx, pois a evoluçom biológica antecedeu à evoluçom histórica. O homem que é para Marx “um conjunto de relaçons sociais” governou o meio – também o desgovernou – com certeza melhor do que qualquer outra espécie e empreendeu umha luita histórica de classes para a sua emancipaçom. Contodo, a dialéctica é à vez vinculaçom da história com esse passado nom humano e rompimento com o mecanismo da simples evolucom biológica. A promoçom das elites segurada pola luita biológica há de ser substituída por a igualdade a ganhar por meio da luita de classes histórica.

Mas tanto Marx como Engels desconhecem A Origem do Homem e fam asserçons que de o saber podemos ter por seguro que nom fariam. Assim di Marx: “É de remarcar ver como Darwin reconhece nos animais e nas plantas a sua própria sociedade inglesa, com a sua divisom do trabalho, a sua competitividade, as aberturas de novos mercados, as suas invençons e a sua malthusiana luita pola vida. É o bellum omnium contra omnes de Hobbes, e lembra a Hegel na Fenomenologia, onde a sociedade civil intervém em tanto que “reino animal do Espíritu”, enquanto que em Darwim é o reino animal que intervém em tanto que sociedade civil.” E Engels é ainda mais concludente: “Toda a teoria darwiniana da luita pola existência é simplesmente a transferência, da sociedade à natureza viva, (…) da teoria de Hobbes (…) e da teoria burguesa da concorrência, assim como da teoria da povoaçom de Malthus. Umha vez realizada esta façanha (…) é muito doado transferir de novo estas teorias da história da natureza à da sociedade (…).”

O caso é que esta visom reducionista –por mais que venha de lhe corresponder o merecimento de denunciar a ideologia capitalista que lateja em A Origem das Espécies – alastrou o discurso marxista posterior, que continuou a atribuir a Darwin umha Antropologia adulterada.

E agora volta-se ao que se pretendia: nom confundir o darwinismo com o spencerismo. Pois era Spencer quem em Social statics (1850) dizia:

Obviamente, o homem aborígene há de ter umha constituiçom adaptada ao trabalho a realizar, unida a umha capacidade latente de se converter num homem completo quando as condiçons de existência lho permitam. A fim de que poda preparar a terra para os futuros habitantes, os seus descendentes, tem de posuir um carácter que o capacite para a limpar de raças que podam pôr em em perigo a sua vida e de raças que ocupem o espaço que a humanidade precisa. E por isso que deve sentir o desejo de matar (…). Deve, além disso, estar desprovido de simpatia ou nom ter mais que rudimentos dela, porque doutra maneira estaria incapacitado para o seu ofício destruidor. Noutras palavras, deve ser o que chamamos um selvagem (…)

Social statics, como escreve Marvin Harris em O desenvolvimento da teoria antropológica (1968), está “consagrada abertamente à defesa da propriedade privada e da livre empresa, com advertimentos dos desastres bioculturais que cairám sobre a humanidade se se permitir que o governo intervenha em favor dos pobres (…), opunha-se a que as escolas, as bibliotecas e os hospitais fossem públicos e gratuitos, rejeitava as medidas de saúde pública, a licença estatal dos títulos de médicos e enfermeiras, a vacina antivariólica obrigatória, as “leis dos pobres” e qualquer classe de sistemas de beneficência pública. Reprovava todas essas manifestaçons de intervençom estatal por estar em contra das leis da natureza e prognosticava que serviriam para acrescentar o padecimento dos fracos e dos indigentes.”

Com certeza há toda umha tradiçom anterior a Spencer defensora da propriedade privada, da lei de ferro dos salários, et cetera. E toda umha naturalizaçom – mudar umha etapa histórica em eterna, como se sempre fosse assim e sempre tivesse de ser assim – do sistema capitalista …

Mas, na época de Darwim, a acair a alguém ser o missionário do apelidado “darwinismo social” tem todas as cartas na mao Herbert Spencer. Porque, já que logo, nom substituir o nome por spencerismo?