Abrente

Ediçons digitais da publicaçom trimestral do nosso partido

Documentaçom

Textos e outros documentos políticos e informativos de interesse

Ligaçons

Sites recomendados de ámbito nacional e internacional

Opiniom

Artigos assinados sobre temas de actualidade galega e internacional

Video

Documentos audiovisuais disponíveis no nosso portal

Home » 130aniversariomarx

Feminismo marxista. Notas com respeito a um processo em construçom

Quarta-feira, 7 Agosto 2013

Publicamos a comunicaçom apresentada pola militante feminista e dirigente de Red Roja Nines Maestro nas XVII ediçom das Jornadas Independentistas Galegas organizadas por Primeira Linha 20 de abril de 2013 e Compostela.

Texto escrito para as XVII Jornadas Independentistas Galegas “Atualizaçom e vigência do marxismo. Tomar o céu por assalto”. Santiago de Compostela 20 de maio de 2013.

As primeiras análises rigorosas sobre a ligaçom do patriarcado com a propriedade privada e a sociedade dividida em classes som feitas pola análise marxista.

Teria de ser assim.

Foi necessária a acumulaçom histórica da experiência de luita e de conhecimentos por parte da classe operária explorada, alcançada com o capitalismo, para produzir a teoria capaz de explicar as raízes da dominaçom de classe e especificamente da opressom das mulheres.

A teoria política que identificou os que mais sofrem a exploraçom e a despossessom como sujeito revolucionário capaz de dirigir a emancipaçom do conjunto da humanidade tivo necessariamente que enfrentar as condiçons específicas da libertaçom dos que suportam a opressom mais intensa e oculta do proletariado.

Os trabalhos de Engels e Marx nom fôrom estudos académicos. Ambos eram militantes ativos do movimento operário. Os seus debates e conclusons mostravam umha vida pujante de luitas operárias e tivérom umha influência decisiva na I Internacional.

As obras dos e das marxistas tenhem, como toda a produçom humana, um carácter histórico concreto e, portanto, as limitaçons correspondentes ao nível de desenvolvimento do conhecimento científico e da luita de classes da sua época.

Neste texto pretende-se fazer umha aproximaçom à vigência da metodologia do materialismo dialético e dos princípios básicos do feminismo marxista, como processo contraditório e em construçom. Para esta aproximaçom parte-se quase exclusivamente de dados europeus ou de marxistas estado-unidenses.

1. O feminismo marxista, da I Internacional à Comuna de Paris

A história do movimento operário está atravessada, polo menos desde os tempos da I Internacional, por duros debates sobre as questons relacionadas com as mulheres: o seu papel na luita, se a emancipaçom das mulheres se esgota ou nom nos estritos termos da luita de classes e se -por consequência- esta se resolve automaticamente com a tomada do poder pola classe operária. (Nom sei se se entenderia melhor de outra maneira).

O feminismo erigido como praxe dirigida a conseguir a libertaçom das mulheres de toda a forma de opressom -e nom só destinado a produzir teorias abstratas de duvidoso interesse prático- tivo  a necessidade de dialogar com o marxismo, se bem que a fluidez do debate e a conexom variárom, em funçom das épocas e das diversas correntes de pensamento.

Apesar das críticas feitas a partir do feminismo aos partidos comunistas por terem adiado durante décadas a luita pola libertaçom das mulheres -a maior parte das vezes cheias de razom- é inegável que tanto Marx como Engels realizárom a mais radical dissecçom da sua opressom e exploraçom. A especificidade da opressom das mulheres nas formaçons socioeconómicas de classe aparece com força desde os seus primeiros trabalhos. Ambos os autores identificam com clareza que se é verdade

que a dita opressom está ligada em cada estrutura social às correspondentes relaçons de produçom, as relaçons de dominaçom definidas polo patriarcado atravessam formaçons ideológicas mais profundas -que a ideologia dominante expressa- mas tendem a perpetuar-se com força e som difíceis de erradicar.

A ligaçom entre o aparecimento do patriarcado com o surgimento da sociedade de classes e a propriedade privada que Friedrich Engels fijo em A origem da família, da propriedade privada e do

Estado, ainda que matizada depois, é estrutural.

Engels baseou-se, logicamente, nos estudos etnográficos disponíveis entom, que fôrom posteriormente reexaminados quando se acrescentárom dados sobre a existência de opressom das mulheres antes que se pudesse falar propriamente de sociedade de classes, como se verá mais à frente. Este facto em nada atenua a força da sua conclusom: «o surgimento da família nuclear é a derrota do sexo feminino a nível mundial», que é antológica. Apesar disso, a ligaçom da monogamia com a propriedade privada e o Estado -e portanto com a dominaçom- é inovadora: «a monogamia nom aparece de maneira algumha na história como um acordo entre o homem e a mulher e ainda menos como a forma mais elevada do matrimónio. Polo contrário, entra em cena sob a forma de escravizaçom de um sexo polo outro, como a proclamaçom de um conflito entre os sexos, desconhecido até entom na pré-história (…) o primeiro antagonismo de classes que apareceu coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre o homem e a mulher na monogamia; e a primeira opressom de classes, com a do sexo feminino polo masculino» [1].

Nom é casual que, da mesma maneira que o surgimento do materialismo histórico necessitou dum determinado nível desenvolvimento das relaçons de produçom e da luita de classes, havia que esperar polo capitalismo para encontrar formulaçons teóricas mais acabadas do feminismo. Apesar disso, o feminismo do século XIX nom inaugura a luita histórica das mulheres pola sua emancipaçom que, nom só é muito anterior como conheceu etapas em que o poder e a independência das mulheres eram mui superiores, negando, umha vez mais, qualquer concepçom evolucionista -e portanto reformista- do processo emancipatório, também no feminismo.

Apesar de todas as tentativas da ofensiva ideológica dos Estados burgueses por negar aos povos o legado da resistência, podemos encontrar exemplos de que a luita pola libertaçom das mulheres é umha constante e nom umha excepçom na história da humanidade. Na segunda metade do século XIII encontramos o exemplo da seita dulcinita, um movimento armado de carácter religioso (considerado herético e esmagado pola Igreja) que tinha entre as suas reivindicaçons «umha sociedade igualitária baseada na propriedade comunal e na igualdade dos sexos». A luita infatigável do povo irlandês contra a opressom nacional também está pejada de exemplos deste tipo, um dos quais é a participaçom de mulheres armadas (muitas como oficiais) na primeira proclamaçom da República da Irlanda na Insurreiçom da Páscoa em 1916. Estas guerrilheiras constituíam aproximadamente metade dos efetivos da milícia operária conhecida como Exército Cidadao, o único grupo marxista participante neste levantamento.

Como veremos e sem que este trabalho tenha como objetivo polemizar com sectores do movimento feminista, teses como a de Zillah Eisenstein que afirma taxativamente que «tanto as feministas radicais como as feministas socialistas estám de acordo em que o patriarcado precede o capitalismo, enquanto os marxistas acreditam que o patriarcado nasceu com o capitalismo» [2] expressam um mal-entendido largamente difundido entre o feminismo, que pom frente a frente de forma pouco rigorosa a análise de classe e a luita pola libertaçom das mulheres. O mal-entendido terá a sua origem num erro grosseiro: a confusom entre capitalismo e sociedade dividida em classes e poderá contar-se como a enésima tentativa de desvalorizar o rigor metodológico do marxismo.

Nom obstante, a confrontaçom de posiçons -e sobretudo de práticas- no seio do movimento operário sobre a luita pola libertaçom das mulheres foi mui dura, quer porque se refere a um processo em desenvolvimento, quer porque incide sobre aspetos essenciais da identidade das mulheres e dos homens, em boa medida inconscientes.

Marx e Engels afirmavam com contundência n’ A Sagrada Família [3]: «Os progressos sociais e as mudanças de períodos operam-se em funçom do decréscimo da liberdade das mulheres… porque aqui, na relaçom histórica entre os homens e as mulheres, do débil e do forte, a vitória da natureza humana sobre a brutalidade é mais evidente. O grau de emancipaçom da mulher é a medida natural da emancipaçom em geral», «A mudança dumha época histórica pode ser sempre determinado em funçom do progresso das mulheres para a liberdade», «Ninguém é mais profundamente condenado que o próprio homem polo facto de a mulher permanecer na escravidom».

Em meados do século XIX a incorporaçom das mulheres e crianças no trabalho era já massiva nos países industrializados. Engels, n’ A situaçom da classe operária em Inglaterra [4], escrita em 1845,

refere que quase metade da classe operária industrial tinha menos de 18 anos e pouco mais de metade eram mulheres. Relata as graves repercussons para a saúde das mulheres das longas jornadas de trabalho e da ausência de qualquer tipo de proteçom da maternidade: «quando estám grávidas continuam a trabalhar na fábrica até ao momento do parto, pois de outra forma perderiam os seus salários e temem ser substituídas se deixarem de trabalhar demasiado cedo. Acontece frequentemente estarem as mulheres a trabalhar umha noite e na manhá seguinte dam à luz na fábrica, entre a maquinaria… Se nom forem obrigadas a regressar ao trabalho antes das duas semanas, ficam agradecidas e sentem-se com sorte. Muitas regressam à fábrica depois de oito e mesmo de três ou quatro dias… Naturalmente, o temor de serem despedidas e o medo da fame leva-nas à fábrica, apesar da sua debilidade e desafiando a dor [5].

No Manifesto do Partido Comunista (1848) [6], Marx e Engels desmascárom a hipocrisia dos lamentos pola destruiçom do matrimónio burguês e situam as posiçons a partir da construçom das linhas de trabalho e da análise do movimento operário: «A burguesia atacou nos laços emotivos e sentimentais que envolvem a família e pujo ao descoberto a realidade económica das relaçons familiares (…) Aboliçom da Família! Ao falar destas intençons satánicas dos comunistas, até os mais radicais gritam: escándalo! Mas vejamos: em que é que se funda a família atual, a família burguesa? No capital, no lucro privado. Só a burguesia tem umha família, no pleno sentido da palavra; e esta família encontra o seu fundamento na carência forçada de relaçons familiares dos proletários e na prostituiçom pública. (…) Mas é que vós, os comunistas, grita-nos em coro a burguesia inteira, pretendeis coletivizar as mulheres! O burguês, que nom vê na mulher mais que um simples instrumento de produçom, ao ouvir-nos proclamar a necessidade de os instrumentos de produçom serem explorados coletivamente, o mínimo que pode pensar é que o regime coletivo será igualmente extensivo à mulher. Nom adverte que do que se trata é precisamente de acabar com a situaçom da mulher como mero instrumento de produçom».

A I Internacional deparou-se com a necessidade de estabelecer com clareza a linha política do movimento operário em relaçom ao trabalho das mulheres. O confronto de posiçons, como conta Clara Zetkin [7], foi duríssimo e inconciliável. No seu trabalho A questom feminina e a luita contra o reformismo relata como o tema do trabalho das mulheres foi objeto de duros confrontos dentro da I Internacional, que tratou disso em duas ocasions, em 1866 e 1875.

Perante a brutal exploraçom das mulheres, meninas e meninos defrontam-se duas posiçons antagónicas: «Os radicais anarquistas do Jura suíço, aliados com os proudhonianos franceses declarárom-se contrários ao trabalho da mulher na indústria. Com o mesmo estilo com que o cidadao francês Chaumette, durante a revoluçom francesa, se tinha dirigido bondosamente às mulheres parisienses, que desejavam ardentemente defender com armas a república ameaçada pola Europa monárquica, tentando persuadi-las a que voltassem para as suas casas para o abnegado cuidado do seu lar e o cuidado dos filhos, a fim de que os nossos olhos poidam ver tranquilamente o doce espetáculo dos nossos filhos tratados polos vossos amorosos cuidados, Coullery, presidente da

seçom de Chaux de Fonds -na Suíça francesa- onde mais tarde os bakuninistas tomárom o leme, fundamentava da mesma maneira a sua antipatia para com o trabalho industrial das mulheres, com declaraçons tanto ou mais patéticas, afirmando entre outras cousas que a mulher, a sacerdotisa da chama sagrada do lar, deveria ter ficado na casa. Um delegado parisiense declarou que a família é o fundamento da sociedade. O posto da mulher está no lar. Nós nom só queremos que nom abandone esse posto como nom participe em assembleia política algumha e nom vaia às assembleias nos clubes; também queremos que, se isto nom for possível, nom se comprometa com qualquer trabalho industrial.

Parte dos delegados parisienses propunha umha resoluçom onde o Congresso condenava o trabalho das mulheres como umha degeneraçom física e atribuía à mulher o seu posto no seio da família, como educadora dos filhos. Finalmente, o Congresso da AIT apoiou maioritariamente o relatório británico redigido por Marx onde se estabelecia a rotunda negativa de proibir o trabalho das mulheres na indústria. A luita do movimento operário devia ser dirigida à proteçom das operárias, excluindo-as do trabalho noturno e perigoso e à elevaçom da idade mínima para o trabalho na adolescência. Nesse relatório estabelece-se pola primeira vez a reivindicaçom da jornada de 8 horas para todas as trabalhadoras e trabalhadores adultos.

A história da Associaçom Internacional dos Trabalhadores (AIT) é também a da organizaçom e participaçom das mulheres, do papel das suas greves e das caixas de resistência sustentadas pola Internacional. A primeira a aderir foi a liga das costureiras de Inglaterra em 1867.

Destacam-se neste período o das fiadeiras de Lyon, cujo tema era «viver a trabalhar ou morrer a combater». Estas trabalhadoras conseguírom em 1869, depois de umha dura greve de mais de quatro semanas, a diminuiçom do tempo de trabalho de 12 para 10 horas diárias sem reduçom salarial. O importante apoio da Internacional e da sua caixa de apoio foi decisivo. Estas trabalhadoras assinárom o «Manifesto das mulheres lionesas membros da Internacional» em 1870, perante a guerra francoprussiana. Aí [8], incentivavam os jovens a nom fazer serviço militar. Inauguravam assim a história da resistência operária às guerras imperialistas. Um correspondente inglês de entom escrevia: «Se os franceses fossem só mulheres, que povo tam terrível seria»!

A influência da AIT entre a classe operária era crescente. Aproximava-se a Comuna de Paris, a primeira grande revoluçom da história em que a classe operária conquista o poder do Estado. Umha revoluçom apoiada ferverosamente por Karl Marx, apesar de anteriormente ter analisado que a situaçom nom estava suficientemente madura, no seu relatório à Associaçom Internacional dos Trabalhadores. As suas palavras nom deixam lugar a dúvidas: «A História nom tem outro exemplo de tal grandeza. Com a luita em Paris, a luita da classe operária contra a classe capitalista e o seu Estado entrou numha nova fase [9].

As mulheres operárias e as da pequena burguesia parisiense tivérom um destacado papel na defesa armada do Paris revolucionário. Umha mulher, Louise Michel, é o seu maior símbolo. Fôrom muitas as mulheres que impedírom, cobrindo com os seus corpos os canhons de Montmartre (que o povo tinha financiado), que fôrom trasladados para Versalhes. Defendêrom junto aos seus companheiros com as armas na mao as barricadas. O ódio da burguesia expressa-se no feminino para insultarem as que utilizavam todas as bombas incendiárias ao seu alcance para deter o avanço da reaçom. Chamavam-lhes «petroleiras» e integrárom o heróico destacamento de 10.000 operárias e operários assassinados junto aos muros do cemitério Pére Lachaise. A recordaçom destas e destes primeiros comunistas [10], como dixo Marx, ficará no enorme coraçom da classe operária [11].

Da Comuna, o movimento operário colheu liçons inesquecíveis A mais importante foi a de que «A classe operária nom pode limitar-se simplesmente a tomar posse da maquinaria do Estado e servir-se dela para os seus próprios fins». Numha nova ediçom do Manifesto Comunista de 1872, Marx colocou já que a «revoluçom operária deve necessariamente estraçalhar o aparelho de Estado burguês». Este facto crucial foi desenvolvido por Lenine n’ O Estado e a revoluçom onde estabelece que a obra criadora da revoluçom proletária nom se circunscreve a ocupar o Estado burguês. Implica algo muito mais complexo: a destruiçom da ordem material e simbólica burguesa desde as suas raízes, incluindo aqueles que se aninham nos nossos cérebros. Esta tese básica do marxismo aponta para aquilo a que Che chamará «a construçom do ser humano novo». Mas também remete para a complexidade que abarca a emancipaçom das mulheres e a necessidade de demolir as estruturas seculares mentais de dominaçom/submissom, consubstanciais nom só na dominaçom de classe, mas também o patriarcado, que ligam a liberdade de mulheres e homens e que estám enraizadas no simbólico e no inconsciente com especial força.

As duras luitas da segunda metade do século XIX fôrom configurando um movimento operário cada vez mais poderoso na organizaçom e consciência. Fôrom-se conquistando alteraçons nas leis, na situaçom da classe operária e com ela, das tradiçons laborais das mulheres e das crianças, ainda que muito lentamente. No Estado espanhol, depois de grandes greves e manifestaçons operárias proibiu-se em 1901 o trabalho de crianças menores de 10 anos, ainda que a realidade anterior se mantivesse acampada na vida, de tal forma que Miguel Hernández pode escrever com total propriedade em 1936 «El niño yuntero» [12].

Umha criança a trabalhar numha fábrica têxtil [13].

O gráfico que se reproduz mais abaixo vê-se a queda da mortalidade por tuberculose em homens de 0 a 64 anos, desde 1930 a 1960, na Inglaterra. Vê-se como a descida mais rápida se verifica significativamente antes do aparecimento das sulfamidas e dos antibióticos. Isto é, som as melhoras

nas condiçons de trabalho (reduçom da jornada de trabalho, medicina do trabalho, proibiçom do trabalho infantil, etc.) e de vida (alimentaçom, habitaçom, roupas, higiene pública), arrancadas depois da luita operária, que determinam a diminuiçom da mortalidade numha proporçom muito mais alta do que seria atribuível aos serviços sanitários.

Destaca-se o clamoroso facto de apesar da proporçom de mulheres na indústria em Inglaterra ser um pouco maior que a de homens e de -no caso das mulheres- ao desgaste produzido polo trabalho ter que acrescentar o derivado do parto, do aleitamento e da menstruaçom, este estudo [14] – por um lado paradigmático no ámbito da saúde pública – refere-se exclusivamente aos homens.

2. Reformismo e revoluçom. Avanços e recuos na luita pola libertaçom da mulher

Como assinala Andrea D’Atri «debaixo da denominaçom de marxismo nom há umha corrente homogénea e monolítica. Para começar, havia que diferenciar entre correntes reformistas e revolucionárias, algo que nom é de somenos importáncia quando tratamos da questom da opressom das mulheres» [15].

A mesma autora destaca a coincidência dentro dos partidos que se identificam como marxistas, constatável em vários países e épocas históricas, entre as posiçons mais contra-revolucionárias e as menos favoráveis à emancipaçom das mulheres. Além disso, os debates no seu interior estám atravessados por conteúdos patriarcais e, inclusive, por umha linguagem raiada de misoginia quando a adversária era umha mulher. Epítetos e frases que jamais se utilizárom quando o oponente era masculino fôrom esgrimidos para desqualificar posiçons políticas defendidas por mulheres de ámbito geral, nom necessariamente estritamente feministas [16].

2.1 Rosa Luxemburgo

A social-democracia alemá é o exemplo mais claro; especialmente o duro e longo confronto de Rosa Luxemburgo com a sua todo-poderosa direçom. A capacidade de Rosa Luxemburgo, a mulher mais importante da história do movimento operário, para demonstrar de forma demolidora a inconsistência da estratégia reformista da direçom do PSD fijo, no princípio, que os seus dirigentes tentassem circunscrever a atividade política de Rosa ao ámbito da organizaçom das mulheres. Sem sucesso, como é sabido. Mas quando a incidência das suas posiçons contrárias à guerra e a sua defesa da revoluçom soviética se tornou mais perigosa para a social-democracia e para a ordem imperialista no seu conjunto, os métodos fôrom outros.

Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht tornárom-se os inimigos a abater desde que dirigiram o levantamento da classe operária alemá que ameaçava seguir as passadas da revoluçom soviética, no país que constituía a chave da abóbada do imperialismo europeu. O seu assassinato às maos dos Freikorps -«corpos francos» paramilitares- mobilizados polo governo social-democrata, sob a batuta do ministro Gustav Noske, demonstrou da forma mais dramática, cortante e irreversível, como as posiçons reformistas da social-democracia nom eram mais do que umha vergonhosa máscara do seu alinhamento com a estrutura de dominaçom do capital. O facto de os Freikorps terem sido o principal gérmen do posterior movimento nacional-socialista mostra de forma exemplar como a socialdemocracia, por muitos disfarces que ponha, acaba sempre no outro lado da barricada: no lado do capital.

A Rosa Luxemburgo, antes de lhe darem um tiro na fonte, esmagaram-lhe a cabeça à coronhada. Foi a materializaçom brutal da tentativa de aniquilar o pensamento de quem na véspera do seu assassinato, escrevia orgulhosa no cárcere: «A ordem reina em Berlim! Ah! Estúpidos e insensatos verdugos! Nom vos dades conta de que a vossa ordem está assente na areia. A revoluçom erguerá-se amanhá com a sua vitória e o terror assomará nos vossos rostos ao ouvi-la anunciar com todas as suas trombetas: Eu fum, eu sou, eu serei»! [17].

2.2 A Revoluçom de Outubro

A Revoluçom Soviética, a revoluçom por excelência, foi também a que forjou os avanços mais extraordinários na situaçom real das mulheres e aquela em que se gerárom linhas de pensamento mais audazes em relaçom à independência das mulheres, à livre opçom sexual e à luita consciente para «substituir a família por outras opçons mais razoáveis, mais racionais, baseadas nos indivíduos separados» [18].

Nos anos que precedêrom a Revoluçom Russa desenvolveu-se um poderoso movimento feminista dirigido por Inessa Armand e Alexandra Kollontai. Ambas tinham participado com Rosa Luxemburgo e Clara Zetkin na agitaçom revolucionária e internacionalista contra a I Guerra Mundial. Kollontai foi a única mulher membro do Comité Central do Partido Comunista Bolchevique durante a clandestinidade e nos diferentes debates internos mantivo o seu alinhamento com Lenine.

Alexandra Kollontai num folheto de 1909 [19] dizia, a propósito das questons feministas liberais, umha cousa tam atual como a seguinte: «Apesar da aparente radicalidade das questons feministas, nom se pode deixar de ter em conta que as feministas nom podem, por causa da sua posiçom de classe, luitar pola transformaçom fundamental da sociedade, sem o que a libertaçom da mulher nom pode ser completa».

Inessa Armand foi a principal impulsionadora da I Conferência Internacional de Mulheres Comunistas. No seu relatório, a sua última obra porque morreu com cólera a poucos dias do confronto de posiçons com a II Internacional sobre este tema, dixo: «Além da incapacidade geral da II Internacional para a luita revolucionária polo socialismo, os seus elementos dirigentes estavam eles próprios atolados até à medula em preconceitos filisteus sobre a questom da mulher, e por isso, além da sua traiçom geral ao proletariado na sua luita polo poder, a II Internacional é responsável por várias traiçons descaradas às mulheres trabalhadoras nas questons democráticas gerais mais elementares: Por exemplo, quanto à questom do sufrágio feminino universal: os representantes da II Internacional, ou nom figérom absolutamente nada (França e Bélgica) ou sabotárom (Áustria) ou distorcêrom (Inglaterra) [20].

A vitória de Outubro de 1917 mudou radicalmente os direitos das mulheres. Nunca antes na história se tinha dado um tal avanço; em poucos países europeus estám agora reconhecidos alguns desses direitos e os avanços parciais estám agora em processo de desaparecimento.

A lista é enorme, mas refiro apenas alguns dados. Nom só se estabeleceu o divórcio, mas que umha mulher podia reclamar umha pensom infantil de um homem com o qual nom estivera casada. Em 1920, os Comissários do Povo para a Saúde e o Bem-Estar Social (Alexandra Kollontai) e para a Justiça estabelecêrom: «O aborto, interrupçom da gravidez por meios artificiais, será feito gratuitamente nos hospitais do Estado, para que as mulheres gozem da máxima segurança na intervençom». As mulheres tinham o mesmo salário que os homens polo mesmo trabalho. Havia refeitórios públicos mui baratos nos bairros, locais de trabalho e estudo, que para as crianças eram gratuitos. Instalárom-se lavandarias, creches e casas comunais com o fim de tornar realidade o objetivo formulado polo Partido Bolchevique em 1919: «Sem limitar-se apenas às desigualdades formais das mulheres, o Partido tem que libertá-las das cargas materiais do obsoleto trabalho familiar e substituí-lo por casas comunais, refeitórios públicos, lavandarias, creches, etc.» Aqui é preciso dizer que se bem que os avanços na colecivizaçom do trabalho doméstico tivessem sido muito importantes, nom existem dados que reflitam o trabalho ideológico na co-responsabilizaçom dos homens nas tarefas e cuidados domésticos.

Abolírom-se todas as leis contra a homossexualidade e contra todo o tipo de atividade sexual consentida sob este princípio: «A legislaçom soviética baseia-se no seguinte princípio: declara a absoluta nom interferência do Estado e da sociedade nos assuntos sexuais, enquanto ninguém for molestado e ninguém se imiscuir nos interesses de outros».

Quando no Estado espanhol o patronato aproveita a atual crise capitalista e a precariedade laboral instalada há décadas para despedir sem contemplaçons trabalhadoras grávidas [21], destaca-se pola positiva os altos níveis de proteçom da maternidade alcançados na URSS há quase um século. A Lei proibia o turno da noite e as horas extra às grávidas, estabelecia oito semanas de licença de parto totalmente remuneradas, descanso de meia hora em cada três para aleitamento e instalaçons de descanso nas fábricas, serviços médicos gratuitos antes e depois do parto e um abono em dinheiro. Mas nom se tratava apenas de alteraçons nas condiçons materiais. A necessária revoluçom nas ideias estava presente nos grandes debates. Trotsky escrevia em 1920: «Para mudar as nossas condiçons de vida devemos aprender a ver através dos olhos das mulheres».

Lenine resume as condiçons que a consciência revolucionária exige e em que medida só pode sê-lo se defender os interesses das e dos oprimidos: «A consciência de classe dos trabalhadores nom pode ser verdadeira consciência política se os operários nom estiverem capacitados para responder a todo o tipo de tirania, opressom, violência ou abuso, sem importar a classe que vir afetada. (…) Devemos

erradicar o velho ponto de vista do dono de escravo, tanto do partido como das massas. É umha das

nossas tarefas políticas, umha tarefa tam urgente e necessária como a formaçom dum núcleo de camaradas, homens e mulheres, com umha sólida preparaçom teórica e prática, para o trabalho do Partido entre as mulheres trabalhadoras» [22].

As conquistas soviéticas quanto à emancipaçom das mulheres nom fôrom definitivas. O impulso revolucionário chocou-se com os terríveis avatares que tivo que enfrentar. A guerra civil, o comunismo de guerra, o gigantesco esforço que implicou a esmagadora vitória soviética sobre o nazismo e a guerra-fria, condicionárom drasticamente as condiçons de emancipaçom das mulheres.

Verificou-se umha regressom em relaçom àquilo que o Partido Bolchevique dos primeiros anos da Revoluçom pretendia superar. Entom, quando a igualdade no plano laboral e de forma mui destacada a proteçom da maternidade bem como dos serviços sociais públicos avançavam anos-luz do capitalismo, isto é as condiçons materiais, as condiçons ideológicas da emancipaçom sofrêrom umha regressom. A insistência da propaganda oficial sobre o papel da mulher enquanto mai, e a sua funçom na família, e até mesmo de forma temporária a proibiçom do aborto implicárom um grande retrocesso ideológico que marcou a maioria dos partidos comunistas.

Ainda assim, a situaçom das mulheres nos países de «socialismo real» quanto à igualdade real e às conquistas sociais nom tinha comparaçom com a dos países capitalistas, incluindo os países europeus na fase de pleno apogeu do que a ideologia dominante deu em chamar «Estado de Bem-Estar».

Quanto à participaçom social das mulheres, em tarefas entom tam caracteristicamente masculinas como a funçom militar, remeto para o interessante artigo sobre as aviadoras soviéticas na II Guerra Mundial, «As bruxas da noite» [23]

3. O novo feminismo marxista

A obra de Simone Beauvoir O segundo sexo (1949) introduz, em pleno período de euforia dum capitalismo de guerra-fria que proclamava o fim da História, a questom de que a incorporaçom das mulheres no trabalho abrira um caminho de progresso continuado que culminará com a sua libertaçom.

A sua obra tem o mérito de reintroduzir no debate político a denúncia do patriarcado, num modelo capitalista ocidental que mantinha intacta a dominaçom de classe, o espólio das matérias-primas dos

povos da periferia e as guerras imperialistas [24]. A obra de Simone de Beauvoir, do ponto de vista da libertaçom das mulheres, repele a autocomplacência dum capitalismo imperialista que proporciona níveis de vida relativamente altos à classe operária do centro do sistema, mas nom vai ao ponto de ligar a emancipaçom das mulheres com a revoluçom social.

A estagnaçom política e o atraso ideológico da maioria dos partidos comunistas europeus no período seguinte à II Guerra Mundial, marcado pola Guerra-fria no Leste e polo Pacto Social de «Bem-Estar», tivo nefastas repercussons no feminismo ligado à III Internacional.

Em contraste, com o calor do período revolucionário dos anos 60 e 70, marcado polo auge da luita de classes, a vitória da Revoluçom Cubana, as derrotas das potências coloniais perante os Movimentos de Libertaçom Nacional em diferentes partes do mundo, a vitória do Vietname e o fim das ditaduras no sul da Europa surgírom poderosas análises feministas, que tinham o marxismo como referência. Estes estudos aparecêrom fora das anquilosadas estruturas estatais, que cada vez tinham menos nom só  de feministas mas também de comunistas.

O mais fecundo do pensamento feminista radical dessa época soubo utilizar eficazmente as ferramentas teóricas do marxismo, da psicanálise, da luita contra o racismo e o anticolonialismo dos

condenados da terra. Neste ámbito, som chave a obra de duas mulheres: Kate Millet com Política Sexual e Sulamit Firestone com a sua Dialética da Sexualidade. Nestas obras analisam as relaçons de poder que estruturam a família, a sexualidade e a opressom racial. O seu lema «o pessoal é político» trai à luz os pilares ideológicos da dominaçom e a sua relaçom com estruturas que perpetuam simultaneamente a opressom de classe, de género e a dominaçom sobre os povos.

Mais tarde, outras duas mulheres que utilizam o materialismo dialético como método, e portanto a luita de classes como elemento explicativo fundamental dos processos sociais, marcam o feminismo

marxista dos finais do século XX e começos do XXI: Silvia Federici e Gerda Lerner.

Ambas constroem poderosas análises históricas e antropológicas situadas em etapas mui diferentes, Federici na transiçom do feudalismo ao capitalismo e Lerner na construçom do patriarcado entre o ano 3500 e o 600 antes da nossa era nos povos que habitárom o Médio Oriente e a Ásia Central.

3.1 – Silvia Federici. Calibán e a Bruxa

Sem menosprezo por outras contribuiçons do feminismo marxista destaco a obra de Silvia Federici, que constitui a mais importante contribuiçom teórica dos últimos anos e trai novidades substanciais na análise de um período chave: a transiçom do feudalismo ao capitalismo. Como ela própria sublinha, «cada vez que se revisitou a etapa histórica encontrárom-se novas perspetivas dos sujeitos sociais e descobrírom-se novos cenários de exploraçom e resistência».

Federici definiu um objetivo pouco comum dentro do pensamento feminista: «repensar o desenvolvimento do capitalismo a partir de umha perspetiva feminista, evitando as limitaçons dumha história das mulheres separadas do sector masculino da classe trabalhadora». Para concluir com umha argumentaçom crítica difícil de igualar que «a reconstruçom da história das mulheres ou o olhar a História do ponto de vista feminino implica umha redefiniçom das categorias históricas aceites, que visibilize as estruturas ocultas de dominaçom e exploraçom».

Marx, no Capital, destrói o mito criado pola burguesia dumha história do capitalismo ligada à liberdade e à realizaçom de direitos, e liga a acumulaçom originária com a exploraçom massiva do campesinato europeu e dos povos originários, com o extermínio massivo destes últimos, tal como com a escravatura [25].

Federici situa-se nesse quadro conceptual, mas coloca no centro do foco da sua análise um fenómeno transcendental, oculto, mistificado e dissociado: a caça às bruxas. Através dumha documentaçom exaustiva e dumha lúcida análise destaca um facto incontestável: o assassinato de centenas de milhares de pessoas, 80% mulheres, deu-se num período histórico, os séculos XVI e XVII, quando as relaçons feudais estavam amplamente dissolvidas: de facto, Marx situa o começo da era capitalista no século XVI e acrescenta: «Aí, onde surge o capitalismo, há muito tempo que se aboliu a servidom e quanto ao esplendor da Idade Média, a existência de cidades soberanas declinou e empalideceu» [26].

A autora demonstra que a amplitude geográfica da caça às bruxas -toda a Europa e a América- evidencia que a feroz repressom nom estive ligada à igreja católica, mas que era levada a cabo por todas as variantes do cristianismo hegemónicas nos diferentes países e contou com a decisiva colaboraçom do poder político e com todos os seus corifeus: filósofos, juristas, médicos, juízes, etc.. O mito de que foi o vestígio de umha superstiçom medieval, arcaica e afastada no tempo -e por isso desligado do capitalismo- desmorona-se como um baralho de cartas.

A acumulaçom originária de capital tem na caça às bruxas um elemento necessário e estrutural diretamente relacionada, por sua vez, com a colonizaçom e a escravatura. A violência e o terror massivos sobre os povos, e especialmente sobre as mulheres fôrom os seus principais instrumentos.

Federici cita a importáncia que para o seu trabalho tivo a obra de Maria Mies Patriarchy and Accumulation on a Wold Scale e a ligaçom que nela se subscreve entre o destino das mulheres na Europa e o dos súbditos das classes dominantes europeias nas colónias. Com isso abrírom-se novas perspetivas de compreensom do papel das mulheres no capitalismo.

O sugestivo título da obra de Federici Calibán y la Bruja liga os dous personagens chave que estruturam o seu percurso histórico à volta dos elementos «Mulher, corpo e acumulaçom originária de capital». Calibán, o corpo proletário convertido numha grande máquina de trabalho, nom representa apenas a resistência anticolonial, mas simboliza o proletariado mundial na luita, os condenados da terra que defrontam o capitalismo. A Bruxa encarna o tipo de mulheres que a feroz repressom nom chegou a destruir: a parteira, a curandeira, a herege, a independente, a mulher obeah que envenena a comida do amo e inspirava a revoluçom dos escravos.

O texto da cançom «Mulher obeah» de Nina Simone [27] trai esses ecos, gravados a ferro e fogo na memória coletiva do povo negro africano:

«Sou a mulher da bruxaria africana sob o mar

Para chegar a satanás tés que passar por mim

Porque conheço os anjos polo nome

Podo comer o trono e beber a chuva

Podo beijar a lua e abraçar o sol

Mas por vezes o peso é demasiado grande».

A tese central de Calibán y la Bruja, minuciosamente construída através dumha documentaçom exaustiva, é a caça às bruxas -planificada e executada por férrea aliança entre as estruturas religiosas e políticas- ter sido a resposta do poder à luita popular que pretendeu emancipar-se das relaçons feudais -já em franca decadência- e opor-se às expropriaçons massivas de terras e ao cerco dos terrenos coletivos. Contrariamente ao mito da Europa dos direitos e das liberdades tam utilizado polas classes dominantes, Silvia Federici afirma: «a caça às bruxas foi o primeiro terreno de unidade das novas Naçons-Estado europeias».

O objetivo do poder nom era só arrancar a propriedade da gente comum, mas destruir as relaçons sociais e o poder popular que se estruturavam à volta da posse partilhada.

Nessas relaçons sociais que tivérom como centro a assembleia camponesa e que implicam a coletivizaçom dum saber nom controlado polas classes dominantes, o papel das mulheres era fundamental. Desse saber faziam parte, além dos conhecimentos relativos à saúde e à doença, todo o relacionado com a sexualidade, a fertilidade, o parto e a reproduçom, facto que só por si era fonte de independência e de poder para as mulheres.

A perseguiçom da curandeira, depositária do saber empírico transmitido de geraçom em geraçom, foi o precedente necessário à institucionalizaçom da «ciência» e ao desenvolvimento das universidades estritamente ligadas à igreja onde com dificuldade se desbrava o caminho ao conhecimento científico -e nas quais era absolutamente proibida a entrada de mulheres-. Estabeleceu-se assim a expulsom das mulheres do saber social, a negaçom do saber popular e o aparecimento de um saber «científico» profundamente misógino e classista.

A depressom demográfica dos séculos XV e XVI converteu as políticas de estímulo da natalidade na política prioritária de Estado e o controlo do corpo e da capacidade reprodutiva das mulheres no objetivo a alcançar a qualquer preço: «Os seus úteros transformárom-se em território político controlado por homens e polo Estado: a procriaçom foi diretamente posta ao serviço da acumulaçom capitalista».

A acumulaçom originária de capital instaurou-se também sobre o saque massivo e genocídio fora da

Europa. O extermínio de 95% dos povos originários da América colonial resolveu-se através do recurso massivo à escravatura, que tinha conotaçons diferentes da das grandes sociedades escravagistas precedentes e que, como Marx demonstra, foi decisiva para o desenvolvimento capitalista.

Patriarcado e racismo fundem-se pois no gigantesco magma de violência onde é engendrado o capitalismo e onde se formou a ideologia, as leis, as bulas papais, corpus científico, cárceres, salas de tortura e fogueiras. O destino das mulheres rebeldes das classes dominantes era o convento e o manicómio. Mas o terror massivo sobre todo o povo e muito especialmente sobre as mulheres, durante mais de dois séculos, foi necessário para produzir um proletariado absolutamente despossuído e condenado a aceitar sem condiçons a bárbara disciplina fabril. A caça às bruxas, com o seu sinistro cortejo de tortura e morte, de pánico arreigado nos cérebros, contribuiu decisivamente para facilitar o cerco às terras coletivas, a expropriaçom da terra do pequeno campesinato e, sobretudo, para produzir umha classe trabalhadora submissa com umha chave de abóbada oculta e engendrada através do terror: as mulheres.

As mulheres operárias, pior pagas que os homens, obrigadas a assumir a produçom e a reproduçom da força de trabalho, expropriadas de qualquer reconhecimento, poder ou independência, degradadas, submetidas á Igreja, fôrom violentamente reprogramadas para transmitir a ideologia dominante. Se a acumulaçom originária, com essa violência acrescida sobre as mulheres e os povos das colónias, dá lugar à instauraçom do capitalismo, a caça às bruxas nom remete exclusivamente para o passado mas, como sublinha Federici, «revela aspetos constantes das relaçons capitalistas». A autora refere como a acusaçom de bruxaria reaparece em África, Índia, Nepal, Timor, etc., exactamente com os mesmos objetivos de privatizar massivamente as terras e expulsar as pessoas que as exploravam e que eram principalmente as mulheres. As companhias mineiras, as multinacionais de agrocombustíveis, dos transgénicos, levam a cabo de acordo com os governos expropriaçons massivas que, mais umha vez, utilizam a acusaçom de bruxaria como pretexto para a repressom.

3.2 Gerda Lerner

A ligaçom entre o patriarcado e o escravagismo também foi estudada por Gerda Lerner, historiadora

comunista e feminista [28], que analisa a origem do primeiro no Médio Oriente e na Ásia Central há

cinco milénios. A sua obra corrige e desenvolve as contribuiçons anteriores de Engels formulando a transcendental tese de que «a apropriaçom por parte dos homens da capacidade reprodutiva e sexual

das mulheres ocorreu antes da formaçom da propriedade privada e da sociedade de classes. O seu uso como mercadoria está, de facto, na base da propriedade privada». Os seus estudos concluem que a institucionalizaçom da escravatura iniciou-se com a escravizaçom das mulheres dos povos conquistados; em qualquer sociedade conhecida os primeiros escravos fôrom as mulheres. A subordinaçom sexual das mulheres aos homens ficou estabelecida nos primeiros compêndios jurídicos aparecidos na história. O poder e a força do Estado impujo-a e a dependência económica do cabeça de família perpetuou-na. A sua conclusom fundamental abre novas vias teóricas e práticas à luita de libertaçom das mulheres: «a escravidom das mulheres, que combina racismo e sexismo ao mesmo tempo, precedeu a formaçom e a opressom das classes. As diferenças de classe no seu início estavam expressas e constituídas em funçom das relaçons patriarcais».

Muito depois de a subordinaçom económico-sexual ter sido estabelecida nestas sociedades arcaicas ainda as mulheres conservavam um poder relativo em funçom do seu papel de depositárias do saber sobre a doença e a reproduçom. Eram, por excelência, as mediadoras com a divindade que também estavam representadas por poderosas deusas.

Este poder também sucumbiu. Lerner destaca a relaçom directa entre a plena instauraçom do patriarcado e o aparecimento das grandes religions patriarcais monoteístas na Europa e na Ásia. «A derrocada dessas deusas poderosas e a sua substituiçom por um deus dominante ocorre na maioria das sociedades do Próximo Oriente, depois da consolidaçom de umha monarquia forte e imperialista».

Nas grandes religions patriarcais, cujo processo de criaçom culmina com o aparecimento do cristianismo e do islamismo, as deusas fôrom derrotadas. Assim, as bases ideológicas do patriarcado, intimamente ligadas à religiom e ao Estado, constituem a cultura ocidental dominante e atravessam os seus dous pilares fundamentais: os princípios judaico-cristaos e a filosofia aristotélica. Ambos se criárom e se mantivérom sobre a negaçom consciente do saber da deusa [29], e da desvalorizaçom simbólica do valor das mulheres.

A relaçom direta entre patriarcado e escravagismo nos alvores da humanidade cimenta a constataçom de que nas sociedades de classes -particularmente no capitalismo- a opressom de género redimensiona e amplifica as condiçons de dominaçom. O facto de o patriarcado enquanto estrutura de dominaçom se ter perpetuado e reproduzido através das diferentes formaçons socioeconómicas fai-no impregnar profundamente as estruturas simbólicas e as esferas do inconsciente que configuram as identidades pessoais e coletivas, além de atravessar toda a superestrutura ideológica e material de cada estrutura social.

As contribuiçons da historiadora comunista austríaca, que trabalhou lado a lado com Angela Davis e os Panteras Negras, ainda que por outros caminhos, partilha as conclusons fundamentais de Silvia Federici. A relaçom entre género, raça e classe entrelaça-se com a ligaçom entre a caça às bruxas, o escravagismo e a acumulaçom originária, permitindo aprofundar a coerência interna entre a luita feminista, a luita contra a discriminaçom racial e o combate comunista pola emancipaçom de classe.

Reforça-se assim o princípio comunista básico de que a luita revolucionária da classe operária pola sua emancipaçom é impossível se nom implicar a libertaçom de todos os oprimidos em funçom do género, nacionalidade, raça, etc..

Alguns apontamentos sobre a crise do feminismo

Nom pretendo analisar aqui as razons do debilitamento do feminismo radical mas nom há dúvida que tivo um contributo fundamental o predomínio progressivo que fôrom adquirindo as posiçons individualistas e intimistas que relegavam, ou nom contemplavam de todo, a teoria e a prática da luita de classes. Tal como modelo burocrático de socialismo implicou o reducionismo económico ao ponto de ignorar a segunda parte da frase de Lenine. «O socialismo é a electrificaçom, mais o poder dos sovietes» e toda a funçom emancipadora geral da revoluçom socialista, também o feminismo que renega as posiçons de classe é facilmente assimilado pola ideologia capitalista dominante. E nom se trata apenas do cinismo de exibir como umha conquista da igualdade o facto de haver muitas mulheres ministras, quando mais de 70% das trabalhadoras desempregadas no Estado espanhol nom receberem algum tipo de subsídio.

O confronto entre os sexos dentro do movimento operário é utilizado polo poder para dividir as organizaçons. James Petras denuncia num relatório o papel das ONGs nas tentativas de destruiçom das organizaçons do povo [30]. Concretamente, é o caso da pressom desencadeada por umha ONG no Comité das Mulheres do Movimento dos Sem Terra (MST) do Brasil, que além de oferecer um generoso apoio financeiro para que as mulheres abandonassem a sua importante participaçom na luita de classes e na ocupaçom de terras -onde inscreviam as suas reivindicaçons de igualdade de género- e se cingissem a questons minimalistas exclusivamente femininas.

A integraçom na ideologia dominante deste feminismo desvalorizado, mutilado da sua imprescindível dimensom de classe está a render bem pagos serviços a um imperialismo mais criminoso que nunca.

As ONGs de «cooperaçom», boa parte das quais centram as suas atividades na «linha do género», utilizam os fundos que recebem dos governos para mascarar ideologicamente as guerras imperiais com o discurso da guerra humanitária e dos direitos, sobretudo das mulheres. Muitas delas contribuírom para a difusom da mentira construída de que a invasom do Afeganistám tinha algumha cousa a ver com a burka ou que a guerra declarada polo imperialismos estado-unidense e sionista contra os povos de África e do Médio Oriente tinha como objetivo acabar com a opressom das mulheres nos respetivos países.

A historiadora basca Alicia Stürtze [31] di que o feminismo ocidental dominado polas privilegiadas mulheres brancas ponhem em primeiro plano a denúncia do sistema patriarcal dominante em grande

parte do Terceiro Mundo, de forma que relega para um segundo plano os interesses fundamentais das suas irmás negras, latinas ou asiáticas. Ela coloca que mesmo o feminismo de classe nom levantou com suficiente força «a condenaçom sistemática do ajuste estrutural imposto polo Banco Mundial e polo Fundo Monetário Internacional, causa de umha crescente pobreza e da reduçom dos serviços públicos e, como consequência, a acentuaçom de umha tragédia que, segundo parece nom prende a atençom mínima do movimento feminista ocidental da atualidade a quem, aparentemente, nom interessa a mulher na sua funçom reprodutora».

A autora basca junta a sua voz à da comunista afro-americana Angela Davis [32], criadora entre outros do antológico livro Mulheres, raça e classe onde se pergunta: Como foi possível que tendo o feminismo americano nascido, como movimento e teoria política, dentro das luitas abolicionistas e operárias dos finais do século XIX, a voz das reivindicaçons das mulheres negras tenha sido sistematicamente invisibilizadas polo feminismo branco liberal?

Stürtze destaca o facto esmagador de 99,5% das mulheres mortas no mundo (1.600 por dia) devido a complicaçons com a gravidez, parto e puerpério nascêrom em países empobrecidos. A Taxa de Mortalidade Materna considera-se em Saúde Pública como um dos indicadores mais sensíveis para medir as desigualdades sociais. Isto equivale a dizer que estas mortes dependem exclusivamente de fatores socioeconómicos -isto é, do capitalismo monopolista- e som perfeitamente evitáveis.

Perante factos como estes Alicia Stürtze fijo um levantamento de intervençons de porta-vozes de associaçons progressistas de mulheres árabes e africanas que denunciam o facto de nos fóruns internacionais destinados a tratar da situaçom das mulheres do «Terceiro Mundo» se dê prioridade a

«temas tam ao gosto ocidental como a circuncisom feminina ou o uso do véu». As suas palavras som tam contundentes como as seguintes: «Essas salvadoras brancas, de classe média… que só defendem os seus interesses… e nom os das mulheres pobres, defendem o direito ao aborto mas nom a esterilizaçom involuntária a mulheres do Terceiro Mundo… (…) A campanha ocidental contra a circuncisom feminina cria a impressom que esta constitui o eixo da opressom da mulher muçulmana e de facto retira a atençom dos verdadeiros problemas da desigualdade das mulheres que nom param de aumentar desde que o Egito estabeleceu ligaçons estreitas com os EUA e Israel».

Campanhas como a levada a cabo em 2000 pola Amnistia Internacional para «salvar a Amina de lapidaçom [33], que correu a Europa e os EUA pedindo mensagens de apoio na web amnistiapornigeria.org, curiosamente, coincidiu com umha importante ofensiva dos EUA contra a Nigéria [34]. A «tranquila ofensiva» estava destinada a conseguir que aquele país africano abandonasse a OPEP e aumentasse a produçom de petróleo em funçom dos interesses das grandes potências nas vésperas da invasom do Iraque [35].

A autora basca conclui a sua lúcida análise com estas recomendaçons ao movimento feminista: «Na

minha perspetiva, a melhor ajuda que podemos prestar às mulheres do Terceiro Mundo é condenar por princípio de sob umha posiçom abertamente anti-imperialista, todas as intervençons humanitárias internacionais que mais nom servem do que os interesses das grandes potências e que, ainda por cima, “maquilham” a crescente pressom do BM e do FMI … (…) Tampouco nos ficaria mal, na passada, temperar um pouco o nosso etnocentrismo (a crença que a nossa representaçom do mundo é a mais justa) e esse superior espírito missionário com que a civilizaçom judaico-cristá parece ter marcado os homens e as mulheres ocidentais [36].

A denúncia de Alicia Stürtze das condiçons de vida da populaçom em geral e das mulheres em particular entronca com o novo «cerco dos terrenos colecivos» que há em muitos países de África, Ásia e América feita por conta dos ajustes estruturais, da massiva privatizaçom de terras e da expulsom das mesmas dos seus habitantes. As pressons coordenadas das grandes multinacionais (mineiras, petrolíferas, têxteis e da indústria alimentar) e do BM e do FMI através da cumplicidade e/ou da extorsom dos governos para acabar com a pequena propriedade e as terras comunitárias que permitiam a subsistência de milhons de pessoas e que eram, fundamentalmente, trabalhadas por mulheres. Para facilitar a expropriaçom massiva, levada a cabo com a cumplicidade direta dos governos locais, utiliza-se novamente a acusaçom de bruxaria.

De facto, o Banco Mundial di que essa agricultura de subsistência é a causa da pobreza, mas ao contrário, como afirma Federici, «a agricultura e o comércio de subsistência som a diferença entre a

vida e a morte para milhons de pessoas».

Também Marx quando analisa na acumulaçom originária de capital as expropriaçons massivas -sempre violentas- convertem a terra em capital e lançam na miséria milhons de pessoas trabalhadoras «livres», muitas delas meninas e meninos que serám, agora, presas fáceis de condiçons de trabalho das fábricas deslocalizadas de empresas multinacionais, fechando assim o círculo.

Silvia Federici denuncia a profunda hipocrisia e os interesses estritamente capitalistas que se ocultam por trás dessa mentalidade «missionária» criticada por Stürtze, agora membro de umha ONG ligada aos microcréditos e vendidos como «empobrecimento» das mulheres. «Na realidade -di Federici- em vez de aliviar a pobreza, o que o microcrédito fijo foi levar toda essa esfera de atividades que tinham lugar à margem do mercado, para dentro deste e sob o controlo dos bancos. Na verdade, depois de anos de microcrédito temos um registo muito negativo, em que muitas mulheres se vêem carregadas de dívidas que nom podem pagar». É neste cenário que se recria a caça às bruxas com o mesmo objetivo de eliminar umha figura chave das relaçons sociais comunitárias, identificadas polo capital como um obstáculo ao mercado. «Vejo a caça às bruxas -di Federici- como parte deste processo mais amplo de novos cercos. Supom a privatizaçom de terras e relaçons sociais e afeta principalmente as mulheres porque se dirige diretamente contra as formas de reproduçom de subsistência que se orientam para o mercado [37].

Conclusões:

Depois desta aproximaçom a alguns dos pontos fundamentais da teoria e da prática do feminismo marxista podem apontar-se algumhas ideias à laia de conclusons:

● Ao longo da história houvo posiçons em confronto dentro do marxismo em relaçom à libertaçom das mulheres. Os períodos quentes da luita de classes e anti-imperialista som também momentos de avanço do feminismo marxista. O contrário também é verdadeiro. A hegemonia do reformismo nos partidos comunistas implica o esquecimento da luita feminista. As posiçons reformistas, nas quais subjazem importantes doses de reducionismo economicista, som expressons conservadoras da ordem de dominaçom -de classe e de género- estabelecida.

● A acumulaçom originária de capital implicou nom só a expropriaçom de terras, o cerco aos terrenos coletivos e a escravatura da mao-de-obra do colonialismo. Para que fosse possível tivo que destruir relaçons sociais comunitárias e o relativo poder das mulheres. A caça às bruxas foi a resposta à resistência popular perante a violência com que se implantava a nova ordem capitalista e patriarcal.

● Se a expropriaçom do povo e a degradaçom das mulheres fôrom a mao que criou as relaçons sociais capitalistas, e com elas o proletariado, a luita polo socialismo e polo direito à autodeterminaçom dos povos exigem também, umha grande batalha ideológica para arrancar as raízes da alienaçom e recuperar o poder simbólico do povo [38]. Nesse processo de construçom das vias de libertaçom e identidade popular tem um papel chave a reconstruçom e adaptaçom dos sinais de identidade e do poder simbólico das mulheres, amputadas polo patriarcado e polo capitalismo.

● O facto de a caça às bruxas, a colonizaçom e o escravagismo pertencerem a um mesmo contexto histórico e político, o nascimento do capitalismo, marca a necessidade de unidade na luita entre os e as condenados da terra e a evidência de que nengumha classe ou sector social pode ser livre sem libertar os e as oprimidos.

● A crise estrutural do capitalismo e a sua desesperada busca de nichos de lucro pom novamente na ordem do dia novas e velhas formas de acumulaçom de capital em que as relaçons de opressom e exploraçom se entrecruzam: escravagismo, patriarcado, racismo, dominaçom cultural e luita de classes.

● A luita internacionalista de vida e de morte que inevitavelmente se defronta com a necessidade de destruir o capitalismo e construir o socialismo deve ser operária, mulher, de todas as raças e de todos os povos polos seus direitos nacionais.

Notas:

[1] Federico Engels, El origen de la familia, la propiedad privada y el Estado. http://www.marxists.org/espanol/m-e/1880s/origen/

[2] Texto citado por Andrea D´Atri na sua interesante contribuiçom “Feminismo y marxismo: más de 30 años de controversias” www.rebelion.org/noticia.php?id=7972

[3] www.marxists.org/espanol/m-e/1840s/sagfamilia/

[4] www.facmed.unam.mx/deptos/salud/censenanza/spivst/spiv/situacion.pdf

[5] Op. Cit., p. 236

[6] www.marxists.org/espanol/m-e/1840s/48-manif.htm

[7] Clara Zetkin “La cuestión femenina y la lucha contra el reformismo” www.icesecurity.org/feministas/LA%20CUESTION%20FEMENINA%20Y%20LA%20LUCHA%20CONTRA%20EL%20REFORMISMO.pdf. p. 31

[8] Op. Cit., p.34

[9] Karl Marx “La guerra civil en Francia” (1871)

http://investigacion.politicas.unam.mx/teoriasociologicaparatodos/pdf/Teor%EDa%201/Marx%20-%20La20guerra%20civil%20en%20Francia.pdf

[10] No VIII Congresso Extraordinário realizado de 6 a 8 de Março de 1918, Lenine presentou umha resoluçom sobre a proposta de mudança do nome do Partido e de alteraçom do seu programa. A relaçom com a Comuna de Paris é, em ambos os casos, destacável: «O congresso decide que no futuro o nosso Partido (o Partido Operário Social-democrata Bolchevique da Rússia) se chamará Partido Comunista da Rússia, com a palavra “Bolchevique” entre parêntesis agregada. A modificaçom da parte política do nosso programa […] deve consistir na definiçom, o mais precisa e completa possível, do Estado de novo tipo, a República dos Sovietes, como forma de ditadura do proletariado e continuaçom das conquistas da revoluçom operária internacional, inaugurada pola Comuna de Paris.» (II:630). http://redroja.net/index.php/pensando-criticamente/957-marx-la-comuna-de-paris-y-el-proyectocomunista

[11] http://www.marxists.org/espanol/m-e/1870s/gcfran/

[12] http://www.poemas-del-alma.com/miguel-hernandez-el-nino-yuntero.htm

[13] http://pedrogarciamartin.blogspot.com.es/2011/04/explotacion-infantil-durante-la.html

[14] San Martin, H (1984) La Crisis Mundial de la Salud, p.146

[15] http://www.rebelion.org/noticia.php?id=7972

[16] Op. Cit.

[17] http://www.marxists.org/espanol/luxem/01_19.htm

[18] Palavras de A. G. Goijbarg, responsável do comité redactor do Código de Familia

(1918) http://ateaysublevada.over-blog.es/article-la-union-sovietica-el-primer-pais-en-que-el-aborto-fuelegal-y-gratuito-100701696.html

[19] Tomado de Sharon Smith “Marxismo, feminismo y liberación de la mujer”

http://www.sinpermiso.info/textos/index.php?id=5761

[20] http://www.icl-fi.org/print/espanol/spe/37/tesis.html. Nesta ligaçom podem consultar-se as “tesis de la

Internacional Comunista sobre el trabajo entre las mujeres”

[21] Nos primeiros três meses de 2013 num hospital público de Madrid a 14 trabalhadoras eventuais que foram mais ou estavam a ponto de sê-lo no lhes foi renovado o seu contrato de trabalho

http://rsocial.elmundo.orbyt.es/epaper/xml_epaper/El%20Mundo/14_04_2013/pla_11014_Madrid/xml_ar

ts/art_14319803.xml?

[22] Clara Zetkin “Sobre la liberación de la mujer” (Recuerdos sobre Lenin)

http://www.revolucionobrera.com/documentos/rmujer.pdf

[23] http://redroja.net/index.php/noticias-red-roja/opinion/1423-brujas-en-la-noche

[24] Umha recente análise do mito do Estado de Bem-estar pode consultar-se em

http://redroja.net/index.php/comunicados/831-el-mito-de-la-vuelta-al-estado-del-bienestar-otrocapitalismo-es-imposible

[25] “Se o dinheiro, como di Augier, vem ao mundo com manchas de sangue na face, o capital fai-no escorrendo sangue e lama por todos os poros, da cabeça até aos pés».

http://www.marxists.org/espanol/m-e/1860s/eccx86s.htm

[26] Op cit. Pág. 106

[27]http://letras-de-cancion.com/canciones/show/221809/nina-simone/letras-y-traducciones-de-cancionobeah-woman/

[28] Gerda Lener, nascida na Áustria, viveu nos EUA, país onde chegou fugindo da perseguiçom nazi. Ali desenvolveu as suas obras à volta da libertaçom da mulher e da opressom racial. http://www.herramienta.com.ar/cuerpos-y-sexualidades/gerda-lerner-feminista-e-historiadorainjustamente-olvidada

[29] Iñaki Gil de San Vicente cita a obra de Gerda Lerner para ilustrar o aparecimento do patriarcado como primeira grande rutura na unidade social do conhecimento humano, e a partir dela, o rebentar da luita de força e poder nas coletividades humanas e entre elas próprias. Ver «Emancipación nacional y praxis científico-crítica» http://www.rebelion.org/noticia.php?id=22123

[30] «Duro alegato de James Petras contra el accionar de las ONG’s. Acusación de emprender una campaña cloroformante y despolitizadora”.

http://www.servicioskoinonia.org/relat/207.htm

[31] Alicia Stürtze “Feminismo de clase”. http://generoconclase.blogspot.com.es/2011/01/feminismo-con-clase.html

[32] A sua biografia e o libro «Mujeres, raza y clase» podem encontrar-se em: http://es.groups.yahoo.com/group/foro_centenario/message/50243

[33] http://www.cesarsalgado.net/200205/020524.htm

[34] Le Monde Diplomatique «Tranquila ofensiva estadounidense sobre el oro negro africano» http://monde-diplomatique.es/2003/01/servant.html

[35] Para umha análise da emigraçom, as riquezas naturais, a luita contra o neocolonialismo e o AFRICOM na Nigéria pode ver-se: «Nigeria: lucha de classes en el corazón de las tinieblas». Maestro, A. (2007). http://www.rebelion.org/noticia.php?id=56890

[36] Alicia Stürtze. Op. Cit.

[37] Entrevista a Silvia Federici com nodo 50: http://info.nodo50.org/La-caza-de-brujas-revelaaspectos.html

[38] Toda a obra de Iñaki Gil de San Vicente está atravessada pola análise inseparável dos três elementos: opressom de classe, patriarcado e opressom nacional e pola defesa da praxe política que as inclua. Destaco fundamentalmente o artigo: «La dialéctica como arma, método, concepción y arte» http://www.rebelion.org/docs/55787.pdf