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A força de umha imagem e a dupla moral

Quarta-feira, 3 Abril 2013Um Comentário

Ramiro Vidal Alvarinho

Umha foto. Ambiente distendido, dia soleado e cálido de um verao remoto. Aqueles felizes anos noventa. O cenário, o iate de um bem sucedido empresário da Ria de Arousa; responde ao nome de Marcial Dorado. Já daquelas era um homem a quem lhe sorria a fortuna. O seu companheiro de travesia era um brilhante jovem de futuro político prometedor: algum dia havia ser o Presidente da Junta da Galiza. Desde muito jovem foi escalando postos na administraçom autonómica, primeiro como funcionário de carreira e depois em cárregos políticos.

Este é ponto de partida do percurso em paralelo de duas trajetórias. Um ponto de partida escolhido de maneira relativamente arbitrária, já que a instantánea fai parte de umha grossa coleçom de material gráfico que evidencia umha relaçom (estreita, imaginamos que até pontos que nunca conheceremos por completo) entre um vulto e outro, mas já se converteu, num assunto que nom deixa de gerar informaçom e opiniom, no símbolo de um idílio perverso, que a estas horas poderia virar-se contra o atual chefe do executivo galego.

E é que as horas nas que Alberto Nunes Feijó é máximo mandatário da CAG coincidem com as horas nas que Marcial Dorado cumpre condena de prisom por narcotráfico. Fatalidades da vida; ainda que várias vezes sentou no escano dos acusados pola sua pretensa relaçom com este tipo de atividades, sempe acabou saindo airoso…até o ano 2003,  que cai durante o percurso de umha operaçom policial contra as redes de distribuiçom e venda, umha das que se fam ciclicamente para limpar o mercado de elementos excessivamente queimados, suponho.

As trajetórias em paralelo de Dorado e Feijó, tenhem outro ponto de encontro que muitos assinalam: sendo o segundo Secretário Geral de Sanidade na Junta da Galiza, umha empresa de Marcial Dorado foi fornecedora de combustível para o SERGAS. Isto coincide mais ou menos no tempo com aquela foto do iate, que está datada no ano 94. E, à partir daí, podemos imaginar…umha relaçom pretensamente cingida ao ámbito do ócio entre um empresário favorecido polo suculento teto do contrato público e um quadro político que começa a encaramar-se às altas copas do entramado institucional. Simbiose que dá para pensar se as plácidas tardes de travesia no iate de Dorado, ou as férias de turismo alpino em comum som umha finalidade em si própria ou se há relaçom necessária entre isso e o facto de que um lhe venda gasóleo ao bochinche público onde casualmente manda o outro.

Em definitivo, a pregunta é se as fotos som apenas fotos, como dizia o Feijó, ou som um certificado de que a carreira política de Feijó é devedora nalgumha medida dos favores de certos empresários cuja trajetória tem umha “face B” nada honorável. Porque a guinda fatal, é que o iate de Dorado voltou navegar desta volta polos oceanos da internet e do papel, como um fantasma que vinhesse cobrar umha dívida.

Feijó foi absolutamente rotundo a dizer que ele “nom sabia nada das atividades

Ilícitas de Dorado” e que apenas o conhecia das atividades lúdicas em comum. Um argumento pouco acreditável quando és adulto: quando és cativo os rapazes que atopas no parque som apenas isso, companheiros de jogo; com mais de trinta anos as cousas som diferentes. Além disso, há testemunhos de pessoas que tenhem umha trajetória de investigaçom sobre o fenómeno narco da Galiza ou de luita social contra ele bem dilatada e acreditada que refutam esse extremo. Desde a ironia da Presidenta de Érguete, Carme Avendanho, que di que “se ele di que nom o conhecia, será certo; ainda que na Galiza todos sabemos quem é Marcial Dorado” até a entrevista que o jornal espanhol Público lhe fai ao jornalista Henrique Marinho na que se afirma que é absolutamente impossível que Feijó nom souvesse nada das andanças de Dorado, a nom ser que nom lesse a imprensa, cousa inconcevível nalguém com as suas responsabilidades. Um par de dados interesantíssimos dessa entrevista, som que Marinho afirma que o pai biológico de Marcial Dorado (o legendário narcotraficante Terito) era amigo pessoal de Manuel Fraga, o fundador do PP, e que “os narcos se reunirom em Cambados para discutir quanto aportariam a Alianza Popular” (a organizaçom matriz do atual Partido Popular) Também Novas da Galiza demostra num artigo os vínculos de AP com o narcotráfico galego nos tempos em que Mariano Rajói era vice da Junta.

Isto leva-nos a que nem este episódio se reduz a umha questom pessoal de Feijó, nem as relaçons de vultos do PP com destacados narcos som anedóticas. Que os narcos financiam ao PP, pagam-lhes as campanhas eleitorais para garantir que acederám ao poder…e que a cámbio, recebem dinheiro público, em forma de contratos de fornecemento, obras e outras regalias. E isto tudo, tem o seu ritual, os seus cenários de negociaçom e fechamento de tratos; cenários alonjados dos escritórios desde os que teoricamente se exerce o poder político, como por exemplo iates, coutos de caça, estaçons de esquí ou hotéis de luxo. O valor da foto de Feijó no iate de Marcial Dorado é o de que ilustra sintéticamente um modelo de relaçom, mas o relato está incompleto. Eu nom creio que os narcos ponham dinheiro e o PP se deixe simplesmente querer, mas que o narcotráfico fai parte fundamental do financiamento do PP, e a rede de relaçons tem os seus gestores, entre os que polo menos durante algum tempo se encontrou Feijó.

Isto tudo sim que daria para um esquema que representasse a vasta e escura rede de financiamento do PP, e, além, o enorme negócio da política institucional, onde muita gente engorda “misteriosamente” o seu património, ponhendo o caço de maneira infame e intercambiando favores com personagens da condiçom mais sinistra.

Mas alguns prefirem fazer esquemas de outras cousas ou desmascarar relaçons de “necessária inspiraçom” ou “inconfessa comunhom”. Assim, a delegada do governo espanhol em Madrí tira da manga algumha relaçom orgánica ou ideológica do movimento contra os despejos com a esquerda abertzale porque algum membro dessas plataformas que se manifestam contra os despejos foi a algumha manifestaçom em solidariedade com os presos bascos. Nom paga a pena nem fazer comentários a respeito dessa “reflexiom”. Também di que os “escraches” (concentraçons ao pé dos lugares de residência de certos deputados e membros do governo espanhol) som atos “cercanos à kale borroka”. Como kale borroka significa “luita nas ruas”, respeitando o estricto sentido do termo, nom é que o escrache seja umha prática cercana à kale borroka, é que é kale borroka. Isto de criminalizar um idioma, também che tem os seus “bemoles”.

Bieito Rubido, jornalista ligado ao ABC, por seu turno, publicava um extenso artigo de investigaçom apoiado por um esquema no que se assinalava a associaçons desportivas, coletivos ambientalistas e centros sociais como parte do entramado de captaçom e financiamento da Resistência Galega. Segundo esse esquema, quem fora parar por qualquer circunstáncia a umha série de entidades e lugares, acabaria sendo fortemente adoutrinado para finalmente passar a fazer parte da Resistência Galega e “cometer” o que eles qualificam de “atos terroristas”.

Ultimamente repito muito que eu sou mau, porque os bons metem medo. Quem tem a capazidade de julgar aos movimentos sociais para determinar a sua legitimidade e o seu direito a se manifestar? Umha delegada do governo espanhol cujo marido está em domicílio desconhecido, fugado do estado espanhol porque está acusado de evadir capitais? Quem é umha ameaça real para o povo galego? Aqueles conjuntos de indivíduos que se organizam para recuperar jogos populares, música tradicional, literatura oral e pôr tudo isso ao serviço da normalizaçom e dignificaçom da nossa língua e a nossa cultura? Ou os que pigmentam o seu torso no iate de um mafioso? E quem assinala quem pensa que é? Um ser celestial de dedo infalível?

Nom podemos deixar-nos enganar pola hipocrisia moral, cheia de ideologia classista e xenofoba, que encerra o discurso do poder. Eles som os ciminosos e os amigos dos criminosos, e nós, oprimidos, fazemos o que temos o dever de fazer, que é luitar contra a opressom. Nem podemos esperar que imprensa burguesa tenha um gesto de simpatia cara a nós (e se o tem, será um gesto envelenado) nem podemos naturalmente esperar que se nos presuma nem “inocência” nem “honradez”. Em boa lógica, nom podemos ter cara aqueles que nos oprimem nem compaixom, nem respeito formal cara direitos que teoricamente nos assistem a tod@s mas que na prática à maioria se nos nega.

Esse iate navega na procura do seu tripulante renegado, esse que agora estaria encantado de nom reconhecer-se na famosa foto. Por algum motivo há de ser.